• Sonuç bulunamadı

As políticas de saúde no Brasil têm tido papel fundamental para a constituição e a estabilização da ordem sociopolítica brasileira. Elas reforçam vários traços estruturais dessa ordem, tais como a concentração do poder e a restrita participação nos circuitos de decisão econômica, política e cultural do país (52).

A construção de políticas públicas dirigidas à saúde da mulher no Brasil é parte das profundas mudanças societárias das últimas décadas, através das lutas do movimento feminista e dos profissionais da saúde do movimento sanitarista. Que tinham como foco o comprometimento com a filosofia de saúde enquanto direito e a garantia assistência à mulher, enfatizando a preocupação com seu corpo de forma integral, “e não apenas como órgãos isolados, a serem tratados por diferentes especialistas" (53, 47, 54).

Este debate tem início em 1983, cujo desdobramento resultou na implantação do PAISM. A partir de então, o Programa passa a ser gradativamente implantado, em diversos Estados do Brasil.

O PAISM, elaborado pelo Ministério da Saúde, executado desde 1983, opera políticas públicas em relação à saúde das mulheres. Nascido num momento de intensa efervescência política e social, e no bojo das transformações estruturais da sociedade brasileira ocorrida a partir do final da década de 70 (47).

O surgimento do PAISM em meio a três forças: as pressões internacionais para que os países em desenvolvimento controlassem o crescimento populacional, as pressões internas dos movimentos sociais por mudanças na política de saúde, e as pressões dos movimentos de mulheres no sentido de que elas fossem tratadas como cidadãs, na plenitude de seus direitos, o que incluía a atenção à sua saúde como um todo, e não apenas como mãe em potencial (55).

O programa determina um novo campo de visão e ação da saúde da mulher, ao romper com o modelo materno infantil retrógrado e conservador, que via a mulher

como uma mera reprodutora. Foi um marco na luta das mulheres por saúde, direito reprodutivo, cidadania e pelo seu reconhecimento enquanto sujeito de direito, significando uma conquista importante para a sociedade brasileira.

No início dos anos 80, o PAISM tinha por inspiração tanto os valores que norteavam o movimento sanitário quanto aqueles advindos da reflexão feminista. Incluía tanto a idéia de integração das distintas modalidades e níveis de assistência, quanto à perspectiva da integralidade dos sujeitos sociais (56).

Como resultado, suas diretrizes propunham a assistência à saúde nas diferentes etapas da vida das mulheres, tendo a integralidade como principal estratégia de reorganização dos serviços de saúde.

A compreensão de que a organização das práticas de saúde apóia-se em valores que produzem e reproduzem as desigualdades de gênero, as propostas originais do PAISM pretendiam difundir a construção de novos valores. No plano das relações entre usuárias e serviços de saúde privilegiou a sensibilização de profissionais na busca de melhoria da qualidade da atenção e humanização das práticas assistenciais.

Enquanto diretriz filosófica e política o PAISM, incorpora princípios norteadores da reforma sanitária, a idéia de descentralização, hierarquização, regionalização, equidade na atenção, bem como de participação social. Propõe forma de relacionamento entre os profissionais de saúde e as mulheres, apontando para a apropriação autonomia e maior controle sobre a saúde, o corpo e a vida. Garantindo, assistência em todas as fases da vida clínico ginecológica, no campo da reprodução como nos casos de doenças crônicas ou agudas (57).

Trata-se de uma organização das práticas de saúde que teve, desde o início, a intenção de trabalhar questões do cotidiano da vida social para além das patologias ou riscos ligados à vida reprodutiva. "Assim, sua noção de saúde integral já pretendia inscrever na atenção à mulher as dimensões psicossociais integradas à biológica; (...) isso ocorreu porque sua formulação se deu em um momento de abertura política e fortalecimento dos movimentos sociais, o que lhe conferiu um caráter especialmente democrático" (58).

O PAISM com foco na atenção à saúde da mulher levou os serviços e gestores a pensarem de forma mais ampla. Sua implantação foi bastante diferenciada em todo o país, refletindo os diferentes graus de compromisso político dos governantes, a heterogeneidade nas estratégias adotadas para o

desenvolvimento e a organização do sistema de saúde (59, 60).

A integralidade do PAISM compreende a intenção de integrar as várias modalidades da assistência, nos diversos níveis, bem como pela atenção integral que se refere à assistência à mulher nas diversas fases da sua vida. Abrangendo idéia de integração bio-psico-social, inspirada na idéia de sensibilização através da ação educativa (61).

O PAISM tinha como finalidade principal recolocar a questão da saúde das mulheres, saindo do campo biológico (62). Passando para o campo de saúde integral à mulher e a produção de conhecimento científico no campo da saúde pública (52).

Na nova visão da mulher, o entendimento de sua integralidade, assim como de sua vulnerabilidade a partir das questões de gênero tem que ser consideradas.

(52).

O PAISM funcionou como Programa de Atenção à Saúde da Mulher, desde sua implantação, até 2004, quando, em 28 de maio de 2004, o Ministro da Saúde, Humberto Costa, lançou a - Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) - Princípios e Diretrizes, construídos a partir da proposição do SUS, respeitando as características da nova política de saúde (49).

Esses parâmetros de saúde integral, dentro de uma concepção de garantia de direitos, remetem-nos a compreender alguns pontos na constituição de tais diretrizes para execução de uma Política Nacional, Estadual e Municipal de Atenção Integral à Saúde da Mulher.

O Ministério da Saúde em 2000 iniciou a implantação do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN), com objetivos de promover ações direcionadas à redução da morbimortalidade materna, melhorar os resultados perinatais, tendo como pano de fundo a humanização do atendimento (63).

Com a preocupação de prevenir as gestações de risco, o Ministério da Saúde criou o Programa da Gravidez de Alto Risco (PGAR). O propósito de sua elaboração foi regulamentar e operacionalizar as ações de assistência especial e especializada aos riscos reprodutivos e obstétricos, à prevenção de gestações futuras, quando indicadas, e ao diagnóstico e tratamento da esterilidade ou da infertilidade (47).

Benzer Belgeler