5. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.1. Sonuç
As nossas convicções sobre o sujeito e sobre o discurso cuidadosamente aqui postas e justificadas teoricamente levam-nos a pensar nos sujeitos de nossa pesquisa como autores do discurso por eles produzido nos textos tomados para nossa análise. É pelo conceito foucaultiano de “função-autor”, pelo qual voltamos ao de “dispersão” do sujeito e do discurso, que defendemos ser a autoria uma função do sujeito (Orlandi, 2012), um princípio que
25 salienta a articulação entre o real e o imaginário (idem, ibidem), é marcado pela incompletude e tem o silêncio como o seu constituinte segundo ainda nos propõe Orlandi (2007c).
Se o traço folcaultiano da “dispersão”impôs a reflexão sobre a descontinuidade,
apontando para uma concepção de sujeito marcada pela pluralidade significativa que o permite ocupar diferentes posições no discurso, o imaginário que comporta o ideológico que atravessa a história na qual o sujeito é inscrito insiste em seduzi-lo ao estado de origem do sentido.
Segundo Orlandi (2008, p.55), “há na gênese de todo discurso o projeto totalizante
de um sujeito, projeto este que o converte em autor” e que, pela aproximação com a realidade
social que o cerca, exige o atendimento aos apelos que pretendem controlar internamente a dispersão do discurso, atrelando-o ao real, à coerência, fazendo com que, pela autoria, chegue-se à unidade discursiva, ao texto. Por isso que, para Foucault (1996, 2008), o princípio da autoria é um procedimento de controle interno ao discurso e que tem o propósito de suster a sua dimensão de acontecimento e impregnar-lhe uma “identidade que tem a forma da individualidade e doeu” (FOUCAULT, 1996, p.29), o que inscreve a função-autor “como característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade” (ibidem, p.46).
O autor defende ainda haver discursos que dispensam essa função, podendo circular no anonimato a exemplo de um contrato ou de um texto anônimo que se lê na rua. Mas ele alega que naqueles onde a função se inscreve, consubstancia relações de propriedade e de adaptação às exigências da época, de ações específicas e complexas que variam em relação ao tipo de texto, sempre voltadas às noções de completude, regularidade e homogeneidade.
Orlandi (2007a, 2012) volta-se ao conceito de função-autor defendido por Foucault, todavia alegando que há um processo de significação quando o sujeito precisa agir sobre o discurso para conferir-lhe a unidade. Ela alega que “porque assume sua posição de autor (se representa nesse lugar), ele produz assim um evento interpretativo” (ORLANDI, 2007a, p.70).
A autora argumenta que, considerando que o sujeito é opaco e o discurso não é transparente, a exigência de que ele, o sujeito, se faça perceptível enquanto autor e o texto
garanta coerência implica na “assunção da autoria” (ORLANDI, 1988 apud ORLANDI, 2012,
p.76), pela qual “o sujeito precisa passar da multiplicidade de representações possíveis para a organização dessa dispersão num todo coerente, apresentando-se como autor, responsável pela unidade e coerência do que diz” (idem, 2012, p.76), coerência e unidade imaginárias, como frisa a autora.
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No plano do real, compreende-se o discurso como incompleto, descontínuo, disperso, onde a falta, o equívoco, a contradição se inscrevem como constituintes do sujeito e do sentido. Mas o imaginário que conduz à representação o faz prevendo a unidade, a coerência, a clareza. “É por essa articulação necessária e sempre presente entre o real e o imaginário que o discurso funciona. É também dessa natureza a distinção (relação necessária) entre o discurso e texto, sujeito e autor” (idem, ibidem, p.74).
Assim, o propósito da unidade a que os sujeitos são impulsionados pelo princípio da autoria não anula a dispersão, mas age sobre ela e provoca a movimentação dos sentidos a partir da “ilusão de que o sentido nasce ali, não tem história” (idem, 2007a, p. 72). Converte- se a palavra alheia em palavra própria, efetuando-se o apagamento da primeira por uma espécie de silenciamento essencial, necessário, inconsciente e constitutivo do novo dizer. Não há, portanto, na compreensão de Orlandi (ibidem), retorno dos sentidos, mas transformação dos mesmos em função de uma nova filiação histórica. Trata-se de um processo de
significação onde aparentemente só haveria uma “repetição empírica” 4e não um “evento
interpretativo” (idem, ibidem, p.70). Assim,
[...] o aspecto histórico da noção de sujeito – forma-sujeito, em análise de discurso – pode ser melhor compreendido, em sua função de autoria, através da consideração do que temos tratado como silenciamento. É também nesse lugar – entre tantos outros – que podemos falar da incompletude da linguagem tal como a temos considerado. O incompleto da linguagem é o lugar do possível, é condição do movimento dos sentidos e dos sujeitos. É na incompletude que inscrevemos a questão do silêncio, e, por esta via, a da interpretação como movimento (ORLANDI, 2007a, p.71, grifo da autora).
O propósito da AD no concernente ao silêncio é, pois, tomá-lo com conotação positiva, diferente do que é imposto pela necessidade ontologicamente compreendida do dizer. Tem-se acomodado que “a linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito se movem largamente” (idem, 2007c, p. 27).
O imaginário social encarregou-se de acomodar o silêncio em um lugar subalterno. As sociedades contemporâneas enaltecem, ou melhor, impõem a comunicação e apagam o silêncio instituindo a urgência do dizer pela multiplicidade das novas linguagens a que somos expostos. A produção de signos visíveis e audíveis é uma exigência contemporânea e denota
4Orlandi (2007a) distingue a repetição empírica, na qual não há historicização do dizer, da formal, pela qual há
um foco na estruturação gramatical, porém ainda sem historicizar e, por fim, da repetição histórica, esta sim influenciada pela memória, pelo interdiscurso e, por isso, constituinte de novos significados.
27 controle sobre a imagem que surge. Mas consideramos que o silêncio resiste a toda essa pressão de controle de urgência da linguagem e permite outras significações sobre os sentidos apresentados como já acabados.
Trata-se, pois, de uma condição da produção de sentido, visto que impõe a incompletude da linguagem sobre a significação, o que atesta, portanto, a multiplicidade, a heterogeneidade e a contradição que legitimam a alteridade. Rechaçar a condição de incompletude é provocar uma espécie de asfixia (ORLANDI, 2007a) do sujeito e do significado, visto não haver atravessamento do e pelo sujeito no que se refere aos discursos outros. Insiste-se, portanto, em considerar que o silêncio é princípio da significação, entremeando o movimento que atesta a autoria.