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Este estudo compreende que as significações se expressam por meio de uma trama e que nela não se deve priorizar somente o desenvolvimento do sujeito (aluno), mas também o desenvolvimento do outro (professor/família), presente no processo educacional e familiar, além de compreender a pessoa num contexto integrado mais amplo de uma sociedade e considerar o sistema linguístico, as relações da pessoa e, portanto, as significações.

Por isso Bronfenbrenner (2011, p.26-27) esclarece que

Nessa expansão da definição de microssistema é a inclusão das interações da pessoa não somente com outras pessoas neste nível do sistema ecológico, mas também com mundo dos símbolos e da linguagem (o sistema semiótico)

É através das relações sociais que a subjetividade da pessoa é constituída. A dinâmica que a pessoa mantém com o meio favorece a construção de significados e de conhecimentos.

A partir de Barlach (2005), situa-se o fenômeno da resiliência que prevê a existência de uma subjetividade que pressupõe um indivíduo capaz de valorizar suas experiências.

A este respeito Barlach (2005, p. 67) esclarece que:

O indivíduo ou grupo capaz de encontrar qualidade de vida em meio ao que é considerado socialmente ruim ou prejudicial é aquele capaz de atribuição de significado, de valoração, de criação de soluções onde aparentemente não existem (BARLACH, 2005, p. 67).

Com isso não se pretende afirmar que o modo como o sujeito pensa a realidade é ou não resiliente, ou que o sujeito é ou não uma pessoa resiliente. Justamente por reconhecer uma trama de significados que se entrelaçam, a

resiliência pode ser alterada continuamente, o que impede a avaliação da pessoa quanto a ser ou não resiliente.

É importante reconhecer que os mecanismos de risco e proteção interatuam simultaneamente no conjunto de significados produzidos pelo sujeito. Assim, ainda que o “desejável” social, moralmente ou do ponto de vista do sujeito não seja o que se revela, é possível reconhecer o processo de resiliência desencadeado ora prevalecendo risco, ora prevalecendo fatores protetivos, em correlação de forças e é este processo que constitui as possibilidades da subjetivação do sujeito.

Considerando-se a capacidade do sujeito de criar sentido ao que é vivido num determinado contexto, sugere-se uma atuação recíproca entre contexto e pessoa, com respaldo na teoria bioecológica de Bronfenbrenner (1996, 2011). Este referencial teórico dá suporte à premissa de que as experiências vivenciadas no meio não incluem apenas suas condições objetivas, mas também o modo como essas experiências são subjetivadas pelas pessoas que vivem nesse ambiente. Portanto o que importa para o comportamento e o desenvolvimento da pessoa é o modo como o ambiente é percebido e não apenas conforme ele poderia existir na realidade objetiva.

Convém destacar que nessa relação, pessoa e meio se constroem e se transformam mutuamente, pois se de um lado as características do meio restringem ou abrem possibilidades aos comportamentos das pessoas, por outro as próprias pessoas, sendo partes constitutivas do meio, ora submetem-se, ou contrapõem-se aos limites e possibilidade que este lhes coloca (ÁSPERA, 2007).

Nesse sentido, o significado atribuído pelo indivíduo às adversidades assume importância nas pesquisas, tornando-se a reflexão e a interpretação dos fatos características fundamentais para a compreensão dos mecanismos de risco e proteção e, por conseguinte, dos processos resilientes (PINHEIRO, 2004).

Por meio dessa linha de raciocínio o ser humano deve ser compreendido “tanto nas dimensões sociais e culturais, quanto naquelas relativas ao seu processo de significação e representação de sua realidade, sendo estas dimensões integradas e interrelacionadas” (ALVES, 2004, p.121).

A construção de significados e sentidos sobre o que se vê, se sente e se deseja, implica em vivenciar uma rede de relações. É nessa rede que são construídas as significações e é com esse entendimento que a resiliência é relacionada à rede de significações.

É possível estabelecer aproximações da resiliência e da teoria bioecológica com a perspectiva metodológica da rede de significações cujos princípios embasam a concepção de significados, na medida em que esta, segundo Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva (2004) compreendem o desenvolvimento humano como processo concebido ao longo do ciclo vital por meio das múltiplas interações estabelecidas pelas pessoas em seu contexto social e cultural.

Ao descreverem o conceito de rede de significações, as autoras indicam interlocução teórica com Bronfenbrenner. “Em função de diversas questões conceituais que têm emergido durante a construção da perspectiva, a interlocução teórica vem se ampliando, passando a abranger autores de orientações mais variadas, tanto da Psicologia do Desenvolvimento como Social” (ROSSETTI- FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004, p.23).

Portanto, busca-se fazer um recorte de discussão sobre a rede de significações, a partir de suas aproximações com o campo teórico adotado na presente pesquisa.

A orientação dessa perspectiva por uma visão ecológica e sistêmica se põe em evidência quando Rossetti-Ferreira (2006, p.39) explicam os “processos de transformação das pessoas em interação e dos contextos, ao longo do tempo e das situações”.

Assim ilustra Rossetti-Ferreira (2006, p. 39):

Concebemos tais processos como se dando nas e por meio das múltiplas interações estabelecidas, em uma teia de relações significativas, em contextos social e culturalmente organizados, em que pessoas e contextos se constituem reciprocamente, imersos em uma malha de elementos de natureza semiótica.

Nessa perspectiva também há a preocupação em compreender o desenvolvimento humano a partir de quatro elementos que podemos associar ao modelo PPCT, são eles: campos interativos dialógicos, a pessoa, os contextos, as múltiplas dimensões temporais.

Os campos interativos dialógicos referem-se às relações com o outro, construídas dialogicamente, sendo a díade bebê-outro a primeira delas. Dessa forma, as relações sociais são consideradas “motores” do desenvolvimento. Desde os primeiros anos de vida, elas são construídas a partir das interações que são entendidas como ações partilhadas e interdependentes, que se estabelecem através

da coordenação de papéis dentro de contextos específicos. Ao agirem, as pessoas transformam seus parceiros de interação e são por eles transformados (ROSSETTI- FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004). Esse primeiro elemento pode ser associado ao conceito de Processo Proximal que envolve as interações entre a pessoa e o ambiente imediato, ao longo do ciclo da vida, através do qual o desenvolvimento humano toma lugar mediante os processos de interação recíproca. O princípio fundamental dessa interação também é a díade, sendo a díade mãe-bebê a primeira do desenvolvimento humano (BRONFENBRENNER, 1996, 2011).

A pessoa é entendida a partir de uma perspectiva interacional e no paradigma de interdependência, portanto, refere-se ao indissociável processo de construção pessoa-meio. Nesse sentido, “as características pessoais são construídas na história interacional de cada um e tomam sentido em relações situadas e contextualizadas”; isso significa o processo de construção das identidades pessoais e se dá no interjogo de relações com o outro, sendo que “o outro se constitui e se define por mim e pelo outro, ao mesmo tempo em que eu me constituo e me defino com e pelo outro” (ROSSETTI-FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004, p. 25). Alertam as autoras que as características e os atributos de uma pessoa são resultados de um processo de construção cultural.

Entre os autores que discutem o desenvolvimento a partir da teoria bioecológica Yunes (2001), Copettti e Krebs (2004), Habigzang et al. (2004), Santana e Koller (2004), Poletto e Koller (2006), Polonia, Dessen e Silva (2005), Morais (2009), Bronfenbrenner (2011) as características da pessoa também não são vistas de forma isolada, elas se referem tanto às características biopsicológicas quanto as que são construídas na interação com o ambiente, portanto as características da pessoa funcionam como um produtor indireto e como produto do desenvolvimento.

Os contextos, na perspectiva da rede de significações, são constituídos pelo ambiente físico e social, levando em conta sua estrutura organizacional, além se serem guiados por regras e funções. Definem e são definidos pelas características das pessoas que o frequentam, pelos papéis sociais e formas de coordenação de papéis, contribuindo para a construção das relações pessoais, afetivas e de poder entre os seus participantes. Isso significa que pessoa e meio se constroem e se transformam dialeticamente, portanto, não se pode pensar o contexto sem considerar as pessoas que dele participam e as interações que nele se estabelecem,

pois contexto e pessoa se constituem reciprocamente (ROSSETTI-FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004).

O mesmo acontece na teoria biecológica, a pessoa estabelece relação não apenas com o ambiente imediato, mas também com ambientes mais distantes dos quais ela participa. Nesse modelo teórico, as relações entre o sujeito ativo ocorrem em um contexto que também é ativo no processo de desenvolvimento humano (BRONFENBRENNER, 1996, 2011; MORAIS; KOLLER, 2004; POLETTO, 2007).

É importante frisar que, de acordo com Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva (2004), os processos de interação, na perspectiva da rede de significações, se coadunam com as ideias de Bronfenbrenner (1996), pois revelam uma articulação entre os níveis micro e macro sociais, o que podemos comparar aos diferentes sistemas que formam o contexto na perspectiva bioecológica.

Neste entendimento, Rossetti-Ferreira (2006, p. 41) esclarece que:

A metáfora de rede nos possibilita: (1) pensar o desenvolvimento não de modo linear e de uma só pessoa, mas de todos os participantes e da situação recíproca e interativa que se estabelece entre eles; (2) considerar os vários níveis de ambientes interligados entre si, próximo ao que propõe Bronfenbrenner (1986); (3) apreender de forma sistematizada o processo de signficação e de produção de sentidos nas interações situadas.

Por último, as múltiplas dimensões temporais explicam que os processos de desenvolvimento devem ser analisados no lugar e momento em que ocorrem, pois todo acontecimento é situado em um contexto espaço-temporal. O tempo aqui é organizado em quatro tempos que se encontram intimamente interligados: o tempo presente, que envolve as situações do aqui-agora e constitui as relações interpessoais e práticas discursivas que se dão em um tempo e lugar presentes; o tempo vivido, que envolve os processos de socialização, sendo compartilhadas por parentes e amigos que passaram por experiências e contextos similares; o tempo histórico, que é socialmente construído durante longos períodos em uma determinada sociedade e finalmente o tempo prospectivo, que integra as expectativas individuais e coletivas, proposições e metas, mas que de certa forma delimitam e/ou impulsionam as ações e interações presentes (ROSSETTI- FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004).

No modelo bioecológico, o tempo é uma propriedade que marca as continuidades e descontinuidades que ocorrem ao longo da vida, por isso a análise

da pessoa em relação aos acontecimentos de sua vida deve focalizar tantos os eventos mais próximos quanto os mais distantes. Semelhante à organização definida anteriormente pela perspectiva da rede de significações, nessa teoria, o tempo possui três esferas: o micro, meso e macrotempo.

A compreensão dos tópicos abordados esclarece o caráter complexo do processo de desenvolvimento humano e nos leva a apreender ainda que “a articulação dos diferentes elementos é entendida como estruturando um universo semiótico, promovendo a emergência de um conjunto de significados e sentidos possíveis de serem atribuídos à situação” (ROSSETTI-FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004, p. 28). Dessa forma, as autoras entendem que os significados e sentidos adquirem maior relevância conforme o momento, o contexto e as características das pessoas em interação.

Sendo assim, afirma-se que neste estudo, resiliência é entendida como um processo ligado à capacidade do ser humano de produzir significações ao que é por ele vivido num determinado contexto. Nessa perspectiva, resiliência não se refere a juízo de valor ou julgamento do certo e do errado. Assim, ainda que para o enfrentamento das adversidades as estratégias empregadas pelo sujeito não possam ser compreendidas como corretas do ponto de vista moral e social, por exemplo, não se pode afirmar que não haja resiliência nestas estratégias eleitas pelo sujeito. Por outro lado não se pode desconsiderar a necessidade de promover correspondência entre as estratégias empregadas pelo sujeito e a necessidade de adequação aos modos tidos como eficazes no convívio social, inclusive para evitar sofrimento ou dano aos processos desenvolvimentais. Em suma, é preciso ter sempre em foco a necessidade de balanço ou equilíbrio entre mecanismos de risco e de proteção e, desse modo, promover resiliência implicará oportunizar situações em que o desequilíbrio nesses fatores seja priorizado.

Benzer Belgeler