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A dicotomia alma/corpo fundada por Platão também encontraria ecos, nos séculos XVII e XVIII, no pensamento filosófico do Cartesianismo e seria perpetuada longamente, contribuindo para reforçar o preconceito científico e popular que já cercava as emoções. O dualismo radical entre mente/corpo é retomado por René Descartes de forma central em sua teoria quando o filósofo prioriza o uso da razão para desenvolver as ciências naturais. Para ele, a mente estaria praticamente alijada do corpo físico47, e a sensação e a percepção da realidade eram entendidas como fontes de mentiras e ilusões, o que se aproxima claramente do pensamento platônico. Segundo Lima (2006, p. 127), nessa perspectiva, se as paixões seriam signo de doença, somente se elas fossem apartadas, e por meio da vontade racional do sujeito, a mente estaria apta e em perfeita saúde.

Não é difícil perceber, a partir dessas colocações, como o pensamento científico, especialmente o médico, retomou por muitos séculos (e ainda retoma, por vezes) tal dimensão das emoções como fonte de perturbação dos processos intelectuais e comportamentais, chegando ao extremo de filiá-la a uma perturbação da expressão das condutas, como no caso dos transtornos psicológicos e psiquiátricos. Sob a perspectiva médica herdada de Galeno – médico grego nascido por volta do ano 129 – e vigente até o século XVIII, segundo Le Breton (2009), as paixões eram percebidas como defeitos da alma e, sobretudo, como sérias fontes patológicas, tendo em vista os abalos corporais por elas causados. No mesmo sentido, La Rochefoucauld (1613-1680) construiu um sinistro quadro dos males físicos provocados, segundo ele, pelas paixões em sua época. Na hipotética “idade do ouro”, que estava isenta das paixões, não se conhecia qualquer doença; já na “idade do ferro”, em que ele vivia, após a degradação moral ocorrida no decurso da história, foi dado livre curso à “malignidade das paixões”:

A ambição produziu as febres agudas e frenéticas; a cobiça produziu a icterícia e a insônia; as letargias advêm da preguiça, assim como as paralisias e a languidez; [...]

a vaidade deu origem às loucuras, à avareza, à teimosia e à malvadeza; a tristeza fez o escorbuto [...]. (LA ROCHEFOUCAULD apud LE BRETON, 2009, p. 116). Também Kant, em sua Antropologia do ponto de vista pragmático (1798), compara as emoções a doenças da alma, dando privilégio ao homem racional e mestre de si, que jamais permite que suas paixões prevaleçam sobre suas atitudes. Cabe-nos lembrar também, a partir de Kant, que o pensamento iluminista, de forma geral, resgatou a cisão cartesiana em seus princípios48. Em suma, a lista de teóricos do pensamento ocidental que foram diretamente influenciados por essa herança clássica é, de fato, aparentemente interminável, o que nos torna cientes da impossibilidade de fornecer um resgate completo de tais influências.

Já contemporaneamente, Damasio (2009) retoma Descartes, afirmando que a cisão corpo/mente firmada por este foi seu grande erro, o que contribuiu, segundo o autor, com séculos de atraso em termos da abordagem das emoções, em especial no tocante à sua área, a neurobiologia, em que, até pouco tempo, todas as considerações teóricas se baseavam, de forma restritiva, no dualismo corpo/mente (ou, de forma ampliada, emoção/razão). Nesse sentido, a neurociência, até poucas décadas, não trabalhava com a possibilidade de as emoções terem vinculações cognitivas, postura que já tem mudado notoriamente. Em sua defesa, Damasio começa por resgatar criticamente os preceitos do psicólogo e fisólofo sensacionalista William James (1842-1910), retomando a citação deste acerca das emoções sobretudo como pulsões físicas, verificáveis nas mudanças corporais:

É-me muito difícil, se não mesmo impossível, pensar que espécie de emoção de medo restaria se não se verificasse a sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremura nos lábios e de pernas enfraquecidas, de pele arrepiada e de aperto no estômago. Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver o peito em ebulição, o rosto congestinado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados e o impulso para a ação vigorosa, mas, ao contrário, músculos flácidos, respiração calma e um rosto plácido? (JAMES, William apud DAMASIO, 2009, p. 158).

48 O Iluminismo foi um amplo movimento cultural originado na elite intelectual europeia (sobretudo a partir da

França) do século XVIII, o chamado “século das luzes”. Tal movimento procurou mobilizar o poder da razão a fim de propor uma ampla reforma social, o que faz com que seu nome seja usado para se referir a diversas posturas filosóficas, políticas e religiosas da época. Kant, em seu ensaio O que é o Iluminismo? (1784), esclarece: "O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude (ouse saber)! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do Iluminismo.” (Disponível em: http://ensinarfilosofia.com.br/__pdfs/e_livors/47.pdf. Acesso em: 26 jan. 2014.). É interessante perceber como, nessa citação de Kant, os seres que se distanciam da razão são associados à ideia de tutoria, ideia essa que, na tradição grega, é vinculada também a mulheres e crianças, seres que necessitariam de tutoria por sua postura dita distante do intelecto.

Para Damasio, o principal problema que algumas pessoas tiveram em relação à perspectiva de James não é tanto o fato de ele ter reduzido a emoção a um processo que envolve, entre tantos aspectos possíveis, o corpo, mas antes o fato de “ele ter atribuído pouca ou nenhuma importância ao processo de avaliação mental da situação que provoca a emoção” (ibidem). As pesquisas de Damasio, na contramão dos sensacionalistas, pretendem mostrar, nas palavras do próprio neurocientista, que não parece sensato “excluir as emoções e os sentimentos de qualquer concepção geral da mente, muito embora seja exatamente o que vários estudos científicos e respeitáveis fazem quando separam as emoções e os sentimentos dos tratamentos dos sistemas cognitivos.” (op. cit., p. 189).

As conclusões de Damasio acerca da ligação entre emoção e mente/cognição têm como ponto de partida a análise de alguns casos clínicos, como o clássico exemplo de Phineas Gage, o operário americano que, em um acidente de trabalho em 1848, teve seu cérebro perfurado por uma barra de metal, mas sobreviveu ao episódio. Após o acidente, Phineas, que aparentemente não tinha sequelas, apresentou uma mudança acentuada em seu comportamento emocional (tornou-se grosseiro, desrespeitoso e mal-humorado) e passou a agir sem pensar em consequências futuras. Assim, ele se tornou objeto de estudo para muitos neurocientistas49. Uma análise neuropsicológica de pacientes como Phineas aponta, para Damasio, que certa impassividade, certo “déficit” no comportamento emocional causaria dificuldades em se tomar decisões racionais, o que endossa a crítica do neurocientista a Descartes e aproxima fortemente as emoções de um componente mental, racional.

Damasio (2009), em suas pesquisas, também analisa o caso de pacientes amputados que relatam ainda terem a sensação física de seus membros naquele local. O autor os retoma para defender o fato de que há uma ligação forte entre as estruturas cerebrais envolvidas na gênese e na produção de emoções e aquelas ligadas à memória, à produção de imagens mentais a partir das vivências experimentadas pelo indivíduo. A esse respeito, o neurocientista pontua: “Existimos (e naturalmente sentimos) e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos [...]50” (op. cit., p. 279). Damasio, nesse sentido, propõe a existência de emoções

49 Para maiores informações, cf. http://www.uakron.edu/gage/. Acesso em: 23 jan. 2014.

50 Note-se a similaridade desta fala de Damasio frente à popular citação do filósofo e político brasileiro Mariano

da Fonseca, o Marquês de Maricá (1773-1848): “Não poderíamos pensar, se previamente não sentíssemos: é a faculdade de sentir que ministra os materiais para o exercício do pensar; o pensamento é subsequente ao

primárias – relacionadas a instintos básicos inatos, universais, como o choro de fome do bebê –, mas também, sobretudo, de emoções secundárias, que seriam mais complexas, adquiridas a partir das experiências de cada indivíduo em sua relação com o ambiente, como a saudade de alguém ou o medo diante do futuro.

Em síntese, sentir os estados emocionais, o que equivale a afirmar que se tem consciência das emoções, oferece-nos flexibilidade de resposta com base na história específica de nossas interações com o meio ambiente. (DAMASIO, 2009, p. 162). Pensar na existência das emoções secundárias parece já nos sinalizar um aspecto contextual/cultural das emoções, fato que muito interessa à Análise do Discurso e a este trabalho. Finalmente, podemos pensar que as pesquisas de Damasio e de seus colaboradores contribuem fortemente com outras perspectivas que apresentaremos adiante, pois evidenciam que é contraprodutivo separar razão e emoção, já que os afetos são responsáveis por permitirem o equilíbrio de nossas decisões e interagem com nosso corpo e mente a partir de nossas vivências no meio.

Benzer Belgeler