Em razão da insuficiência de práticas de LR dos REEE, boa parte desses resíduos é disposta no meio ambiente de maneira inadequada (CARVALHO; XAVIER, 2014), o que pode acarretar sérios riscos ambientais, sociais e econômicos. Os REEE são uma mistura complexa de resíduos perigosos, não perigosos e de alto valor (JIN et al., 2015), que exigem especializada segregação, coleta, transporte, tratamento e disposição (UNEP, 2012). Eles podem conter mais de mil substâncias diferentes (MUDGAL et al., 2013), muitas das quais são compostas por metais altamente nocivos (RODRIGUES, 2007; FEAM, 2009; SCHLUEP et al., 2009; FRANCO; LANGE, 2011; SANT’ANNA, 2014; MCCANN; WITTMANN, 2015) à saúde humana e ao meio ambiente (QUINTANILHA, 2009; NATUME; SANT’ANNA, 2011; MARTINS et al., 2011; ILO, 2012; KIDDEE; NAIDU; WONG, 2013). Uma lista com as substâncias presentes nos REEE e seus impactos à saúde humana e ao meio ambiente pode ser vista no Anexo D do presente trabalho.
Em geral, as substâncias tóxicas presentes nos REEE podem gerar três tipos de riscos: a) Contaminação dos consumidores que utilizam no lar equipamentos obsoletos, bem
como dos trabalhadores que se envolvem na coleta, triagem e reciclagem dos REEE; b) Contaminação do meio ambiente, pois, mesmo em aterros, o contato dos metais
tóxicos com a água contamina o chorume. Ao penetrar no solo, esse material pode contaminar lençóis subterrâneos ou acumular-se em seres vivos;
c) Contribuição para o aquecimento global, uma vez que a disposição e o tratamento anaeróbio dos resíduos e efluentes líquidos podem gerar gás metano, um poderoso retentor de calor na atmosfera que, somado ao dióxido de carbono, pode agravar o efeito estufa no planeta.
Dessa maneira, o potencial de impacto ambiental e de saúde pública dos REEE é um dos principais fatores a serem observados para a definição de ações preventivas em todas as partes do mundo (KILIC; CEBECI; AYHAN, 2015). O tema tem despertado, cada vez mais, a atenção da comunidade científica e de organizações não governamentais, como a United Nations (UN), o Greenpeace, a Basel Action Network e a Silicon Valley Toxics Coalition, como pode ser visto no Quadro 9.
Quadro 9 – Algumas iniciativas globais para o tratamento dos REEE.
Iniciativas Descrição
Convenção da Basileia e
Basel Ban
Em vigor desde 1992, constitui um acordo global para a movimentação internacional de resíduos perigosos, incluindo os REEE.
Initiative STEP (Solving The E-waste Problem), com apoio da UNEP
Iniciativas lideradas pela ONU para construir uma plataforma internacional de intercâmbio e desenvolver o conhecimento sobre os sistemas de REEE entre os países. O objetivo é melhorar e coordenar vários esforços ao redor do mundo sobre a cadeia de suprimentos reversa dos REEE.
United Nations University Institute for the Advanced Study of Sustainability
(UNU-IAS)
UNU-IAS é um instituto que compõe a Universidade das Nações Unidas (UNU). Com sede em Tóquio, sua missão é promover pesquisas para um futuro mais sustentável, com foco nas dimensões sociais, econômicas e ambientais.
Basel Action Network
(BAN) e Silicon Valley
Toxics Coalition (SVTC)
Uma rede de organizações não-governamentais trabalham juntas em questões de REEE, incluindo a advocacia internacional para a Proibição de Basileia, coleta doméstica e eventos de reciclagem, bem como pesquisas para promover soluções nacionais para a gestão de resíduos perigosos.
WEEE Forum
Fundado em 2002, o WEEE Forum é uma associação europeia de sistemas de coleta e valorização de REEE. Sua missão é proporcionar uma plataforma para a cooperação e intercâmbio de melhores práticas em gestão de REEE.
National Electronics Product Stewardship Initiative (NEPSI)
Um diálogo multilateral para desenvolver o quadro de um sistema nacional de gestão de REEE nos EUA. O NEPSI inclui representantes de fabricantes de eletrônicos, varejistas, governos, recicladores, grupos ambientais entre outros.
Electronics Product Stewardship Canada
(EPS Canada)
EPS Canada foi criado para atuar com a indústria e o governo de modo a
desenvolver uma solução canadense viável flexível. Uma organização liderada pela indústria, com membros dos principais fabricantes de EEE.
ERP (European
Recycling Platform)
Criado em 2002 pela Hewlett Packard, Sony e Electrolux Braun para permitir que os produtores cumpram a Diretiva Europeia sobre REEE. Tem como objetivo avaliar, planejar e operar uma plataforma pan-europeia para os serviços de reciclagem e gestão de REEE. Website: erp-recycling.org
Seco/Empa e-waste programme
Um projeto criado em 2003 pela Seco (Swiss State Secretariat for Economic
Affairs) e implementado pela Empa (Swiss Federal Laboratories for Materials Testing and Research) em cooperação com parceiros locais e autoridades. O
objetivo e avaliar e melhorar os sistemas de reciclagem de REEE em diferentes partes do mundo, mediante a análise dos sistemas e por meio da troca de conhecimentos sobre técnicas de reciclagem. Website: ewasteguide.info
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em Widmer et al. (2005); Ongondo; Williams; Cherrett (2011); STEP (2015); ERP (2015); UNEP (2015).
Ademais, o assunto vem ganhando espaço nas discussões e tem levado organizações e ecologistas a pressionarem empresas e governos para o seu equacionamento. Em razão disso, o problema dos REEE tem sido objeto de regulamentações, acordos e programas voluntários. Atualmente, há interesse mundial em tratar os REEE por meio da LR (ARAÚJO et al., 2013), principalmente nos países em desenvolvimento, o que se deve ao avanço tecnológico, ao aumento da produção de eletroeletrônicos e às exportações ilegais de REEE (PANT, 2013).
Os casos citados por Leite (2009) são prova desse interesse: em 1993, a Siemens produziu um computador com 29 partes em vez de 87, o que otimizou sua montagem e desmontagem; a Dell Computer e a Hewlett-Packard (HP) alteraram os projetos de seus computadores para facilitar a desmontagem; em 2000, em parceria com a Waste Management Inc., a Sony Eletronics elaborou um programa de coleta de seus produtos para reutilização; a IBM criou a IBM’s PC Recycling Services para permitir que os consumidores destinassem os computadores e periféricos usados ao setor empresarial. A Toshiba também realiza esse serviço, e a Nokia criou serviços de take back de celulares em todo o mundo.
De fato, países como Suíça, Noruega, Japão e os membros da UE (no total, 27 países) têm desenvolvido uma série de regulamentos relativos à LR dos REEE a fim de adequar o crescimento econômico às questões ambientais. Por exemplo, um marco das iniciativas de equacionamento dos REEE deu-se com a promulgação, pela UE, em 2002, da Diretiva 2002/96/CE (WEEE – Waste from Eletrical and Eletronic Equipament) e da Diretiva 2002/95/CE (RoHS – Restriction of Hazardous Substances). A Diretiva WEEE baseia-se nas políticas de Responsabilidade Estendida do Produtor (REP) e tem como objetivo prioritário reduzir o volume de REEE gerados, estabelecendo regras para o sistema de LR e outras formas de valorização desse tipo de resíduo. A Diretiva RoHS, por sua vez, criou restrições quanto ao uso de substâncias químicas nos EEE, visando amenizar seu impacto ambiental ao atingirem o tempo de vida útil. Essas diretivas têm influenciado a criação de regulamentos similares em diversos países ao redor do mundo.
Com o advento das normas ambientais, diversos países passaram a recolher e tratar os REEE, mas também a exportá-los para os países em desenvolvimento (KHETRIWAL; LUEPSCHEN; KÜHR, 2013). Segundo Song, Li e Zeng (2015), o comércio ilegal dos REEE é motivado, principalmente, pelo lucro, proporcionado por negócios que envolvem milhões de dólares. Por exemplo, custa dez vezes mais reciclar um monitor CRT nos EUA do que o exportar para países pobres. No entanto, essa prática viola a Convenção da Basileia (criada na década de 1990), que regula o deslocamento transfronteiriço de resíduos para países sem estrutura técnica, legal e administrativa para recepção, tratamento e utilização.
A International Labour Organization (ILO, 2012) estima que 80% dos REEE recolhidos pelos países desenvolvidos são enviados aos países em desenvolvimento, como México, Brasil, Egito, Ghana, Nigéria, Senegal, Tailândia, Vietnã, China, entre outros. A China é o país mais penalizado, pois recebe 70% de toda a exportação de REEE do mundo (ROBINSON, 2009). Dessa maneira, em virtude desse mecanismo de repasse, os REEE
tornaram-se um dos resíduos com maior fluxo no mundo (UNEP, 2012). As principais origens e destinos internacionais dos REEE podem ser vistos na Figura 29.
Figura 29 – Fluxo internacional do REEE.
Fonte: ILO (2012).
Na cidade de Lagos, Nigéria, por exemplo, cerca de quinhentos contêineres carregados de REEE são recebidos por mês sem controle ambiental (ROBINSON, 2009). Nessa cidade, os REEE são despejados em lixões e há constantes queimadas (Figura 30).
Figura 30 – Comércio ilegal de REEE em Lagos, Nigéria.
(a) Recebimento de REEE. (b) Armazenagem de REEE. (c) Venda de REEE.
(d) Venda de REEE. (e) Despejo de REEE. (f) Queima de REEE.
Fonte: Adaptado de Miguez (2012).
O Brasil também tem enfrentado crescentes problemas ambientais com o tratamento dos REEE (SCHLUEP, 2009). Por exemplo, um levantamento feito por Franco (2008) e Franco e Lange (2011) revelou que algumas cooperativas de catadores de recicláveis, inclusive de REEE, desconhecem o potencial tóxico desse tipo de resíduo, bem como sua forma adequada
de recebimento, desmontagem, manipulação e destinação. Em geral, as empresas doam os REEE a essas cooperativas, repassando um passivo ambiental e abstendo-se da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos REEE. A Figura 31 ilustra as situações vivenciadas, no Brasil, por algumas cooperativas de catadores de REEE.
Figura 31 – Situações vivenciadas pelos Sucateiros de Recicláveis de REEE no Brasil.
(a) Desmonte de motor elétrico para recuperar cobre. (b) Armazenagem de motores elétricos.
(c) Armazenagem de REEE.
(d) Placas de circuito impresso embaladas.
Fonte: Franco (2008); Franco; Lange (2011).
Apesar de o Decreto Federal n.º 7.405/2010 enfatizar a inclusão social das cooperativas de catadores de recicláveis na gestão de resíduos, ainda são muitos os desafios a serem enfrentados para valorização, capacitação, estruturação física e organização da atuação desses profissionais. Esses enfrentamentos são, porém, importantes para: melhoria das condições de trabalho; ampliação das oportunidades de inclusão social e econômica; e expansão da coleta seletiva de resíduos sólidos, da reutilização e da reciclagem.