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O conceito de exotopia remete a um dos primeiros textos hoje conhecidos de Bakhtin: Para uma filosofia do ato, datado de entre 1920 e 1924. Com esse conceito, Bakhtin problematiza a questão da produção estética com base na questão do olhar e do lugar de posicionamento desse olhar e do sujeito. Estas questões também são retomadas no texto “O autor e o herói”, contemporâneo do anterior, que é o primeiro capítulo da terceira edição brasileira de Estética da criação verbal (BAKHTIN, 2000), coletânea publicada, originalmente, em 1952, reunindo textos de diferentes épocas.

O texto Para uma filosofia do ato, segundo Michael Holquist41,

(...) ilumina o perfil da obra inteira de Bakhtin (...). Mais precisamente, ele revela novas filiações entre os temas que pela primeira vez aparecem aqui e que guiarão o pensamento de Bakhtin através do curso de sua longa vida. Os tópicos de “autoria”, “responsabilidade”, eu e o outro, o significado moral da “exotopia”, o “estar do lado de fora” (...), a relação entre o mundo experimentado pela ação e o mundo representado no discurso – todos eles são discutidos aqui no puro calor da descoberta (BAKHTIN, s/d, p. 5).

Do texto em questão, propõe-se reter dois aspectos para estabelecer o diálogo com o conceito de paratopia. Por um lado, interessa destacar a noção de ato/atividade que Bakhtin elabora desde o começo de sua obra e, por outro lado, observar que o conceito de exotopia carrega um funcionamento que também é proposto por paratopia, criando um laço referencial indubitável. No texto Para uma filosofia do ato, Bakhtin problematiza o ato estético da seguinte forma:

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Editor e autor de um dos dois prefácios da primeira edição deste texto em inglês, intitulado Toward

a philosophy of de act. Trad. Vadim Liapunov. Austin: University Press, 1993. Esta edição é a

tradução da primeira edição russa, de 1986. A versão em português que citamos não foi publicada como livro, mas está disponível na Internet e toma como base o texto em inglês.

O lugar único, no Ser, do sujeito estético (do autor, do contemplador), o ponto do qual surge ou flui sua atividade estética (seu amor objetivo de um ser humano concreto) tem apenas uma determinação: estar situado do lado de fora [vne-nakhodimost] de todos os momentos da unidade arquitetônica [ilegível] da visão estética. E é isso que, pela primeira vez, cria a possibilidade de o sujeito estético abranger a arquitetônica espacial e temporal inteira através da ação de uma autoatividade afirmadora e fundadora e valorativamente unitária. A empatia estética (a visão de um herói ou de um objeto de dentro deles) realiza-se ativamente deste lugar único exotópico e é nesse mesmo lugar que a recepção estética se realiza, isto é, a afirmação e a formação do material absorvido através da empatia – dentro dos limites da arquitetônica unitária da visão. A exotopia do sujeito (exotopia espacial, temporal, valorativa) – o fato de que o objeto de empatia e visão não sou eu – torna possível pela primeira vez a atividade estética da formação (BAKHTIN, s/d, p. 84, grifo do autor).

Bakhtin dialoga e discute pressupostos que remetem, por um lado, a Immanuel Kant e, por outro, aos formalistas russos, contemporâneos seus. Segundo Todorov: “(...) na época em que estreia na vida intelectual da literatura, o primeiro plano, em matéria de pesquisa literária, está ocupado por um grupo de críticos, de linguistas e de escritores, chamados os ‘formalistas’” (IN BAKHTIN, 2000, p. 3). Por outro lado, tal como revela Michael Holquist (IN BAKHTIN, s/d, p. 5): “Nós sabemos que durante o tempo em que trabalhava com Para uma filosofia do ato, Bakhtin incessantemente lia, debatia e dava conferências sobre Kant.” A relação de diálogo e crítica do pensamento de Bakhtin com o romantismo alemão também tinha sido apontada por Todorov: “(...) embora Bakhtin nunca rompa seus vínculos com a estética romântica (em especial em sua teoria do romance), seu pensamento não se limita a isso, pelo contrário.” (BAKHTIN, 2000, p. 6).

Na sua interlocução com Kant e, ao mesmo tempo, se opondo a princípios estéticos defendidos pelos formalistas, Bakhtin propõe uma forma nova de conceber a realização do ato estético. Segundo Holquist:

Em sua tentativa de criar uma ponte no abismo entre o ato vivido e a representação do “mesmo” ato (que, é claro, não é nunca o mesmo), Bakhtin opõe-se ao princípio kantiano do “como se” colocando no lugar um outro princípio: aquele do “não-álibi” na existência (BAKHTIN, s/d, p. 8).

Isto conduz diretamente à relação básica que gostaríamos de levantar entre exotopia e paratopia. Como afirma Holquist: “Para Bakhtin, a unidade de um ato e seu relato, uma ação e seu significado, se preferir, é algo que nunca é um a priori, mas que deve sempre e em toda parte ser conquistado.” (BAKHTIN, s/d, p. 8, grifo do autor). Isso se torna evidente no texto citado acima quando Bakhtin se refere ao ato estético como “uma autoatividade afirmadora e

fundadora”, ou seja, fundadora da subjetividade e daquilo que cria como representação de mundo num único ato, que, para Bakhtin, é um ato ético.

Embora a noção de exotopia especifique um “colocar-se fora”, alcança o problema, levantado mais recentemente por heterotopia e paratopia, do entre-lugar, da fronteira e da fratura, já que esse “colocar-se fora” não aceita as categorias do a priori e do depois para entender o ato estético. Desde o início, Bakhtin rejeita o “como se” kantiano porque a fórmula supõe a espontaneidade do sujeito no ato de conhecimento, ou seja, supõe a sua anterioridade; não como uma transcendência, crítica que Kant faz a Descartes, mas mesmo assim como um a priori. A tendência de Kant a fechar a fenda que ele mesmo abre distancia Bakhtin da noção de sujeito e de representação do alemão.

O diálogo de Bakhtin com Kant é audacioso e explora as brechas que o pensamento do alemão deixa ao teorizar um sujeito menos homogêneo do que geralmente se atribui ao pensamento kantiano. Luiz Costa Lima, ao estudar a noção de sujeito em Descartes e em Kant, conclui que tanto em um como em outro filósofo a ideia de sujeito fraturado estava insinuada (em Descartes de forma muito mais tênue do que em Kant), embora só hoje, em função das nossas necessidades, sejamos capazes de percebê-lo:

Parece pois impróprio manter-se a dicotomia entre a afirmação unitária da concepção tradicional do sujeito, que teria Descartes e Kant como seus agentes, e sua decomposição a posteriori. Aquela afirmação antes estava na interpretação dos clássicos modernos do que, univocamente, neles mesmos. Seria ingênuo supor que estes clássicos estejam sendo agora mais bem lidos. Simplesmente, a situação atual nos motiva a deles desentranhar matizes que até há pouco não eram tematizados (COSTA LIMA, 2000, p. 109).

Segundo Costa Lima, o sujeito transcendental de Descartes – comum a qualquer sujeito – supunha, contrariamente ao geralmente aceito, dois tipos de representação. Na primeira acepção, ela tem um caráter de aspecto, e na segunda, de efeito. Como afirma o pensador brasileiro, ao longo dos dois últimos séculos, a primeira satisfaz às ciências duras, a segunda às humanas. A primeira está ligada a um conhecimento mais objetivo e a segunda aos afetos. Esta segunda acepção de representação foi banida por Descartes no seu pensamento, mas não do pensamento moderno (COSTA LIMA, 2000, p. 98-99). Kant, por sua vez, rejeita o sujeito transcendental dando um passo em direção ao que Costa Lima chama de sujeito fraturado. O indispensável “como se” kantiano não é ainda uma fratura em si, mas sim uma crítica a um eu

dado como unidade transcendente (imaterial), que avança em direção à cisão. Em Kant a espontaneidade do sujeito o torna material e o coloca num lugar exterior que o situa no limiar do entendimento e da razão (Ibidem, p. 105). No entanto, o lugar exterior de Kant não é o mesmo de Bakhtin, já que o alemão rejeita a fenda que abre, em prol de uma unidade do sujeito achada no “como se”, cuja “imediatidade assegura a ligação entre o interior e o exterior.” (CHÉDIN, apud COSTA LIMA, 2000, p. 108). Com seu “artifício” filosófico, Kant procurava minimizar a fratura que se abria entre o ser e o conhecer ao rejeitar o sujeito transcendente de Descartes e propor a exterioridade dessa categoria filosófica.

As advertências feitas por Costa Lima sobre a sobrevivência de uma representação ligada aos afetos e de um sujeito heterogêneo ao longo dos dois últimos séculos (que hoje estariam sendo “descobertos” como consequência de necessidades – ou efeitos – específicos do nosso tempo) interessam porque possibilitam imaginar que Bakhtin esteja nessa situação de leitor que, no início dos anos 1920, despertava para a questão da fratura do sujeito, o que o levaria a propor, posteriormente, a noção de dialogismo como algo essencial para entender o ato estético. Não é de menor importância para esta tese afirmar que Bakhtin elabora essa noção a partir de uma obra literária, no caso a obra de Fiódor Dostoiévski; isto cobra uma relevância destacada quando se lembra que tanto Foucault quanto Maingueneau propõem conceitos e reflexões que declaram seu ponto de partida na literatura (Blanchot e Borges, no caso de Foucault), um corpus bem mais amplo no caso de Mainguenau, que abarca do século XVI ao XX.42 Essas coincidências tornam possível formular a hipótese de que a forma literária de dizer abre uma discussão do sujeito e do conhecimento que é diversa (e não alienada do mundo) daquela que outras formas discursivas possibilitam, tal como Foucault propõe no texto “O pensamento do exterior.”

No texto “O autor e o herói”, contemporâneo de Para uma filosofia do ato43, interessa destacar o que Bakhtin propõe sobre a forma como autor e herói se coconstituem, ou como se

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Maingueneau começa seus estudos discursivos centrando-se no jansenismo de Port-Royal: “Port- Royal constitui um lugar além das divisões sociais, inclusive da própria igreja, onde se encontram o profano (os leigos ‘solitários’) e o sagrado (as religiosas), onde o mundo se comunica com aqueles que dele se retiraram.” (MAINGUENEAU, 2001, p. 37). Essa experiência de pesquisa parece ter contribuído de forma decisiva para a formação do conceito de paratopia.

43 No texto “Cronotopo e exotopia”, Marília Amorim escreve que: “A ideia de um lugar exterior,

fundamental ao trabalho de criação e de objetivação, já aparece no primeiro grande texto de Bakhtin, o ‘Para uma filosofia do ato’. Mas seu texto base é ‘O autor e o herói’, publicado na coletânea Estética

da criação verbal. Esses dois textos indicam que a ideia de exotopia começou a ser concebida a partir

dá “a relação entre o criador e os seres criados por este” (como parafraseia Todorov, 2000, p. 6). Para levar adiante seu raciocínio, uma das imagens que Bakhtin utiliza é a do espelho, analisando de que maneira se constrói o sentido de si e do outro:

A visão que temos de nosso aspecto físico quando nos olhamos no espelho é de natureza totalmente particular. Visivelmente, vemo-nos sem mediação. Ora, não é nada disso; (...) Nunca é nossa alma, singular e única, que se encontra expressa no acontecimento-contemplação: sempre se introduz um segundo participante – o outro fictício, o autor não fundamentado e não autorizado (BAKHTIN, 2000, p. 53).

O paradoxo evocado por Bakhtin ecoa também no Foucault de “Outros espaços”:

O espelho, afinal, é uma utopia, pois é um lugar sem lugar. No espelho, eu me vejo lá onde não estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície, eu estou lá longe, lá onde não estou (...). Mas é igualmente uma heterotopia, na medida em que o espelho existe realmente, e que tem, no lugar que ocupo, uma espécie de efeito retroativo: é a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou porque eu me vejo lá longe (FOUCAULT, 2006a, v. III, p. 415).

Esta discussão é relevante para a leitura do corpus de Liscano. Nos quase treze anos em que esteve preso, não teve contato com espelhos (como nenhum outro preso), já que só eram permitidos para se barbear, e, pendurados longe, neles apenas era possível ver um fragmento do rosto. Numa situação de falta radical de espelho, a literatura pode se transformar numa possibilidade de imagem de si que, como no espelho, é mediada e se transforma em um desdobramento do eu, por exemplo em M. A visão de fora, fraturada, possibilita o nascimento de um personagem e, através dele, de um autor. Como diz Bakhtin (2000, p. 53, grifo do autor): “A primeira tarefa do artista que trabalha no autorretrato consiste precisamente em eliminar a expressão do rosto refletido, o que só é possível porque o artista se situa fora de si mesmo [exotopicamente], encontra um autor autorizado (...).” Ou como acrescenta: “A forma concreta da vivência do real do homem emana de uma correlação entre as categorias representativas do eu e do outro;” (BAKHTIN, 2000, p. 57, grifo do autor).

O lugar exterior proposto com o termo exotopia deve ser entendido, então, como uma proposta de se trabalhar da perspectiva teórica de um paradoxo espacial.44

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Nosso objetivo não é tratar das nuanças do pensamento de Bakhtin, mas daquilo que filtrado pela tradição pode ser vinculado ao conceito de paratopia. No entanto, é necessário precisar que nesta etapa do seu pensamento, no início dos anos 1920, o autor concebe uma clara separação entre a percepção

No conceito de paratopia, o paradoxo ligado à fratura do sujeito e a um processo de conhecimento heterogêneo está dado pela impossibilidade de atribuir um lugar verdadeiro ao olhar, independentemente de se se trata do mundo ou de si, posto que o meu olhar só existe mediado por um outro (eu ou outro) que tenta decifrar o mundo e a si próprio. A metáfora do espelho, tal como a expressa Foucault no texto mencionado e em “L´herméneutique du sujet. Le courage de la vérité”, de 1982, junto com o texto de Bakhtin, torna-se bastante esclarecedora. Nos anos seguintes, Bakhtin forjaria a noção de dialogismo, que desenvolve a relação dentro/fora e eu/outro como uma epistemologia do discurso e da literatura em particular.

Benzer Belgeler