As corretoras de valores disputam clientes entre si oferecendo preços ou pacotes de corretagens, atendimento personalizado, softwares e plataformas de análise, relatórios de análise e
acompanhamento do mercado e, igualmente, diversos cursos e/ou palestras aos clientes.
Uma das estratégias para a atração de novos clientes é a promoção de palestras gratuitas de introdução ao mercado de ações no espaço físico da própria corretora ou de algum hotel70. Assisti a três dessas palestras, promovidas por duas corretoras distintas. Tais palestras assumem um tom repetitivo para quem já frequentou, como era meu caso, o curso de educação financeira da BMFBOVESPA. Na verdade, elas percorrem o mesmo trajeto, acima descrito, deste curso – estímulo ao planejamento financeiro, incitação a poupar, explanação sobre opções de investimento e apresentação de um estilo operacional 'conservador' - certamente os profissionais que as
prepararam tomam os cursos BOVESPA como inspiração o que, comprova o papel de liderança da instituição como agente de popularização dos mercados de ações.
Assim sendo, estas palestras de introdução também apresentam e defendem a preferência pelas grandes empresas e a crença no longo-prazo e na regularidade cíclica do mercado.
Em uma destas palestras, o palestrante, com intuito de motivar a audiência à adoção deste padrão de comportamento no mercado, conta o caso de uma senhora que ele conhecia. Esta senhora procurou “desde sempre” comprar o que lhe sobrasse de dinheiro em ações de um grande banco: hoje em dia, ela e sua família seriam os maiores acionistas pessoa física do Banco Bradesco. Seguindo o argumento, o palestrante explicava à audiência que comprar qualquer quantia de ações de uma grande empresa equivale a se tornar sócio desta empresa, apresentando então a seguinte pergunta retórica ao público: “ Quem não gostaria de se tornar sócio de uma grande empresa? De uma Vale, Petrobras, de uma Gerdau”?
O palestrante explica que o pequeno investidor deveria focar o longo-prazo e não se preocupar tanto com flutuações diárias, pois se no curto ou médio-prazo as bolsas passam por um 'sobe-e- desce' constante, o longo-prazo revelaria que o sentido das bolsas é sempre ascendente, na medida em que elas acompanham o crescimento da economia real, que também passa por ciclos de alta e baixa, mas cujo sentido geral é sempre a alta, como comprovariam o crescimento dos PIBs dos países ao longo das décadas. Neste sentido, bastaria aos investidores, segundo o palestrante, resgatar lucros quando identificassem os topos de mercado, esperando uma nova baixa para que reinvestissem seu capital nas grandes empresas que escolhessem: tarefa para a qual os operadores
da corretora poderiam ajudar os investidores.
Portanto, estas palestras desenvolvem argumentações e conteúdos muito semelhantes aos cursos
da BMFBOVESPA. Seus públicos também pareciam ser bem amplos: como as palestras são igualmente gratuitas, a impressão é de que poderia 'aparecer de tudo', ou seja, desde indivíduos que já investem e, descontentes por alguma razão com suas corretoras, buscam conhecer outras a curiosos que ainda desconhecem por completo a bolsa. O estilo operacional divulgado nestas palestras é o estilo que, no capítulo seguinte, os entrevistados identificam como 'conservador'. Novamente à exemplo do que vimos no curso BMFBOVESPA, este estilo é apresentado como o mais adequado a maioria dos pequenos investidores, já que ele não exige conhecimentos mais sofisticados sobre o mercado e nem maior tempo disponível para acompanhamento das bolsas.
Cadastrando meu e-mail nestas corretoras, por ocasião destas palestras de introdução, fui então convidado a outras modalidades de palestra e nessas, de fato, pude observar algo bem distinto do estilo 'conservador'.
Como esclarecido no primeiro capítulo, assisti outras três palestras, duas delas sobre plataformas ( softwares) de análise do mercado e outra sobre softwares que apontavam automaticamente pontos de compra e venda das ações.
As plataformas de análise são desenvolvidas e comercializadas( no sistema de assinatura mensal, como um portal de Internet por exemplo) por agências de mídia – este é o caso da AE BROADCAST da Agência de Informações Estado de São PAULO - ou empresas de
desenvolvimento de softwares, caso da CMA 4 SERIES da empresa de softwares CMA.
Uma das palestras de apresentação de softwares que assisti ocorreu justamente no escritório da própria empresa que desenvolveu o software na cidade de São Paulo. O palestrante apresentava noções e ferramentas de análise grafista e demonstrava como a plataforma operacionalizava essas ferramentas de análise. A plataforma tinha dados e preços de cotações atualizados em tempo real, não somente de ativos do mercado brasileiro, mas também de bolsas, moedas e títulos estrangeiros, era possível ligá-la ao home-broker da corretora do cliente e passar ordens de compra e venda diretamente por ela. Também era possível salvar gráficos com as análises feitas pelo investidor, exportar dados de movimentação financeira para o Excel, traçar parâmetros de acompanhamento de um ativo que geram 'alarmes' para avisar o investidor sobre momentos de compra ou venda etc.
Em outra palestra, os programas em questão eram os chamados 'robô-traders', ou seja, os softwares que incorporam um 'trading system', isto é, uma estratégia operacional, analisando
automaticamente ações escolhidas pelo usuário a partir destas estratégias, evidenciando aquelas que se encontram em um bom momento de compra ou venda segundo esta estratégia. Estes softwares são propagandeados como ferramentas que resolvem definitivamente a questão mais sensível
apontada pelos 'professores de bolsa': a blindagem emocional do ato de investir, ou seja, o controle sobre a eventual influência abrupta e perniciosa da subjetividade do investidor na tomada
de decisões, sobre o enviesamento das decisões pela ação dos sentimentos e impressões.
Estes softwares são produtos de um tema que, já há alguns anos, deixou a ficção científica para integrar o universo dos mercados financeiros: as formas de inteligência artificial. Eles são a
realização mais óbvia e radical da perspectiva analítica, apresentada no capítulo 1, da 'performatividade', ou seja, a capacidade de teorias e artefatos técnicos modelarem a ação econômica concretas de agentes e instituições. Os robô traders utilizados por grandes fundos de investimento e de 'hedge' trabalham com o conceito de 'high frequency trading', ou seja, são capazes de disparar, a partir de cálculos algorítmicos, múltiplas ordens de compra e venda por segundo, produzindo um grande volume de pequenos lucros diários no mercado.
A difusão de robô traders no universo dos pequenos investidores ainda é um fenômeno extremamente novo71, em nossas entrevistas, nenhum investidor o mencionou. A única menção ao robô trader foi realizada, rapidamente, por Márcio Noronha, um dos 'professores de bolsa' que entrevistei. Noronha afirmou que poderia programar um robô trader a partir da estratégia operacional que ele utiliza como investidor e ensina em seus cursos e colocá-lo para operar
automaticamente, contudo ele dizia que ainda assim preferia fazer isto por si próprio: ao que parece mesmo os 'professores de bolsa' defendem alguma subjetividade no processo decisório.
O público destas palestras era radicalmente distinto do público que notei nas outras ocasiões, ele era majoritariamente composto por pessoas que já eram clientes das corretoras que promoviam tais palestras e alguns deles revelavam experiência até mesmo com o complexo mercado de opções.
O leque de cursos e palestras de corretoras não contempla apenas demonstrações de softwares de análise, elas também encampam palestras e cursos de análise técnica e fundamentalista, muitas vezes concedidos por 'professores de bolsa', conhecidos entre os pequenos investidores.
Aliás, as associações entre corretoras e estes professores demonstram-se como mais uma das estratégias de concorrência das corretoras, que buscam fidelizar seus clientes através do
oferecimento de palestras com estes professores ou de descontos, a seus clientes, nos cursos que eles oferecem, buscando, de certa maneira, capitalizar o carisma acumulado por estes professores. Do ponto vista dos professores, esta associação também é interessante – revelando-se, portanto, como uma verdadeira simbiose de interesses - já que estes ampliam, através do contato mais próximo com os clientes da corretora, o público que suas mensagens acessam. Partiremos agora justamente para a análise de quatro destes professores.
3. Os 'professores' de bolsa e suas iniciativas educacionais: Márcio Noronha, Marcelo