• Sonuç bulunamadı

Vários estudos já demonstraram que os corresidentes ajudam o idoso em AVD e AIVD (Garrido e Menezes, 2004; Ricci, Kubota e Cordeiro, 2005). Outros estudos evidenciaram a importância da ajuda oferecida pelos cônjuges e pelos filhos corresidentes e não corresidentes com o idoso, demonstrando que a rede de apoio transpassa os domínios domiciliares (DaVanzo e Chan, 1994; McGarry e Schoeni, 1995; Saad, 1997; McGarry, 1998; Saad, 2004). Bittman et al (2004) compara o tempo dedicado ao cuidado do idoso por cuidadores corresidentes e

não corresidentes, e verifica que o tempo dedicado pelos não corresidentes é menor, embora de grande importância para a sociedade, de forma que não é possível conceber que o cuidado informal seja restrito ao âmbito domiciliar.

Em geral, os trabalhos brasileiros que investigam aspectos relacionados à família adotam para esse termo a definição do IBGE (Camarano e Pasinato, 2007; Camarano, 2003; Medeiros, Osorio e Varella, 2002; Ferreira, 2007), em que família é “o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, que residissem na mesma unidade domiciliar e, também, a pessoa que morasse só em uma unidade domiciliar” (IBGE, 2005, p. 21).

Consideramos, entretanto, que o universo de relacionamentos possíveis ao idoso não está restrito ao limite familiar domiciliar, pois os indivíduos se relacionam entre si em redes sociais. Redes sociais são formadas por conjuntos de indivíduos, grupos ou organizações (nós) ligados entre si por relações (laços) de amizade, parentesco, fluxos de recursos, ou qualquer outra relação (Wellman, 1981)14. Essas relações podem acontecer em diferentes intensidades e envolver algum tipo de apoio ou não (Wellman, 1981), sendo a rede de apoio um subconjunto da rede social (Lubben, 1988). Em uma rede de apoio, cada laço da rede pode implicar o fluxo de um conjunto diferente de recursos, como apoio emocional, comunicação, serviços pessoais e/ou assistência material (Wellman, 1981). Entendemos como fluxo os componentes da atenção destinada ao idoso, que envolve todo apoio destinado a ele, como a comunicação com o idoso e a ajuda que envolva tempo, como apoio emocional e ajuda com serviços.

Há vários trabalhos na literatura sobre o papel positivo das redes sociais, principalmente na vida dos idosos (Lubben, 1988; Sicotte et al, 2008; Resta e Budó, 2004). Sicotte et al (2008), a partir de dados da SABE 2000 para Havana, mostra que as redes sociais estão associadas a uma menor prevalência de sintomas depressivos em mulheres e homens idosos, independentemente da presença de fatores estressantes. Segundo o trabalho, idosos que não viviam

14 A discussão sobre redes sociais deste trabalho foi baseada no trabalho de Wellman (1981),

sozinhos e interagiam mais com as pessoas tinham baixa prevalência de sintomas depressivos. Indivíduos alguma vez casados também apresentaram menor prevalência de sintomas depressivos, independente do sexo. O efeito do casamento provavelmente se dá porque indivíduos que são ou foram casados têm suas redes familiares ampliadas pela rede familiar do parceiro.

Há também evidências de que os laços sociais têm efeito amenizador do stress, reduzindo a morbidade por essa causa (Lubben, 1988). Além disso, uma rede social pode prover informações e conselhos sobre alternativas de saúde (Lubben, 1988) e apoio essencial em caso de doença, facilitando, assim, a adaptação à enfermidade e acelerando a recuperação (Lubben, 1988).

Em geral, fazem parte da rede de apoio os indivíduos com relações mais próximas dentro da rede social, como os parentes e amigos. Uma rede social pode ser vista como um conjunto de vários círculos concêntricos, em que os círculos mais internos englobam os indivíduos com laços mais fortes (Tilburg, 1992). O conteúdo das redes muda com o tempo, com a mobilidade física e social dos indivíduos, ao passo que o centro da rede (o circulo interno), o qual contém as relações mais íntimas, é estável (Tilburg, 1992). Já a periferia da rede (os demais círculos) contém as demais relações, as quais, quanto mais distantes do centro, mais instáveis são, e que implicam em uma menor relação de apoio (Tilburg, 1992). Nesse sentido, Wellman (1981) concluiu que há maior propensão em perceber os membros das redes sociais como possíveis fontes de apoio se as relações existentes são de pais e filhos quando os envolvidos viviam na mesma região ou se mantinham frequentes contatos pessoais ou por telefone, ou seja, quando as relações existentes são mais fortes.

Enquanto há algumas evidencias de que laços fortes provêm mais apoio, laços fracos sempre provêm mais diversidade de apoio (Wellman, 1981). Mesmo os laços que não oferecem apoio são sempre importantes no que diz respeito aos recursos cujos fluxos passam por eles, e por levarem a outros membros da rede (Wellman, 1981). Vale ressaltar ainda que as relações entre dois indivíduos podem ter importâncias diferentes para cada um deles (Wellman, 1981), sendo mais forte na visão de um que do outro.

Neste estudo consideramos todas as relações mais fortes, que envolvem cônjuge e filhos, assim como as relações com os irmãos e outros parentes e não parentes que moram no mesmo domicílio do idoso. Já dentre as relações com outros parentes e amigos que não moram no mesmo domicílio que o idoso, são abrangidas apenas as que envolvem algum tipo de assistência na visão do idoso. Sendo toda a rede de apoio ao idoso contemplada pela SABE, podemos mapear todas as transferências existentes entre os membros da rede social do idoso. Contudo, nem toda a rede de parentesco do idoso é abrangida pela SABE. Da rede de parentesco a SABE envolve:

• todos os parentes corresidentes com o idoso; • seus filhos e irmãos não corresidentes;

• os demais parentes do idoso não corresidentes com os quais haja alguma relação de apoio.

Dentre esses indivíduos, nem todos pertencem à rede de apoio ao idoso, como mostra a FIG. 1, pois nem todos eles oferecem apoio aos idosos. Em contrapartida, a rede de apoio ao idoso se completa com seus amigos ou demais não parentes, com os quais mantenha alguma relação de apoio. A SABE não abrange os demais parentes (à exceção de irmãos e filhos) que não ajudam ou não são ajudados pelo idoso. Logo, tanto a rede de apoio quanto grande parte da rede de parentesco do idoso é abrangida pela SABE, como mostra a FIG. 1. Nesse trabalho, o leque de indivíduos envolvidos pelo questionário da SABE, que corresponde a um nível intermediário entre toda a rede social do idoso e apenas sua rede de apoio, é definido como “Rede SABE de Apoio ao Idoso”, ou “Rede SABE”, conforme a FIG. 1.

FIGURA 1 – Visão esquemática das relações entre a rede social, a rede de parentesco, a rede de apoio ao idoso e a rede de abrangência da SABE

Parentes Rede SABE Rede de Apoio Rede Social Fonte: Elaboração própria.

Um ponto positivo dessa abordagem mais ampla da rede de apoio que o conceito de família do IBGE, como adotamos, é que ela permite englobar uma maior parcela da rede de apoio ao idoso, que não está restrita ao domínio do domicílio, identificando as relações de transferências que envolvam o idoso e outros indivíduos. Ao identificar toda a estrutura de apoio existente, as características da rede que oferece apoio ao idoso, é possível ‘testar’ se há associação entre a referida estrutura e a atenção dedicada por cada membro da rede, como objetivamos neste trabalho.

Sabemos que o ideal seria que os dados contemplassem toda a rede social do idoso, pois seu mapeamento permitiria identificar com maior exatidão as características da rede social e dos indivíduos envolvidos que estão associadas à dedicação ou não de atenção ao idoso, assim como a qualidade e a frequência da atenção dedicada. Por outro lado, a definição adotada possibilita que os resultados sejam mais abrangentes do que os de outros trabalhos voltados para o apoio ao idoso no Brasil. Saad (2004) e Saad (1997), por exemplo, envolvem apenas os filhos e os cônjuges. De modo semelhante, os resultados apresentados por Camarano et al (2004) se restringem ao nível domiciliar.

Mesmo possuindo cobertura de amostra limitada, consideramos todos os indivíduos mais próximos do idoso, seus cônjuges, filhos e amigos, os quais, como apontado por Tilburg (1992), são os mais prováveis de oferecerem ao idoso algum tipo de suporte. Assim, os nossos resultados se referem a toda potencial rede de apoio aos idosos entrevistados.

Benzer Belgeler