C. Kefilin İleri Süremeyeceği Asıl Borçluya Ait Def’iler
V. SONUÇ
O Terceiro Setor se configura em uma diversidade de formas, desde estruturas muito bem definidas e estabelecidas, até ações informais de
grupos ou mesmo de iniciativas individuais na busca de soluções para problemas sociais.
Dufloth, 2004, p. 4
As políticas de informação e comunicação, bem como o uso das TICs, devem estar em consonância com as necessidades do Estado e da sociedade e ao mesmo tempo às relações socioculturais dessa mesma sociedade. A multiplicação de centros de ID, seja em áreas urbanas ou rurais nas mais remotas localidades geográficas, esboça tentativas de distribuição igualitária da tecnologia com o intuito de criar oportunidades semelhantes no acesso a informação a públicos diferentes. Em muitos casos, a parceria entre governo, setor privado, sociedade civil e Terceiro Setor é que irá possibilitar a implantação dessas propostas e sua continuidade, inclusive em termos de sustentabilidade dos projetos.
De modo bem específico, o Terceiro Setor se dispõe a promover a inclusão digital aos que vivem à margem da revolução tecnológica para que possam reivindicar, a partir do acesso à informação capturada com o uso das TICs, uma postura autônoma de cidadania e participação. Para Tachizawa (2004, p. 18) esse setor demonstra “[...] competência para elaborar e implementar projetos que possibilitem ações sociais transformadoras” e, devido a esse comprometimento, seus atos tendem a ser mais consistentes que outros desenvolvidos pelos setores público ou privado.
Em comparação a atuação pública, a liberdade de ação do Terceiro Setor pode vir a favorecer o alcance dos objetivos propostos pelas iniciativas de ID por ele fomentadas, visto que nesse aspecto o setor público é carente de política coesa que enxergue além da distribuição do aparato tecnológico. É o que Aun; Moura (2007, p. 24), verificam sobre as políticas públicas de ID quando afirmam que “a noção de inclusão que tais projetos abrigam refere-se ao acesso aos dispositivos digitais, não incluindo [...] uma visão mais ampla que considere o uso crítico da informação para a cidadania”.
Como análise ao exposto, Martins e Lucas (2009), relatam o estudo que realizaram sobre a política federal de ID, buscando aferir se os programas se preocupavam com o alcance da competência informacional dos usuários e se tal era proporcionada de algum modo por eles. Os projetos por elas analisados no estudo foram os mesmos listados anteriormente nesta pesquisa no QUADRO 5 – Mapeamento dos programas governamentais de ID fruto das políticas públicas nacionais, localizado na página 71.
As autoras se basearam em informações teóricas sobre os programas em consonância com a definição determinada por ambas sobre o que vem a ser competência informacional, ou
seja, o intuito foi examinar se os participantes das ações públicas de ID se tornam aptos a “determinar suas necessidades informacionais, localizar e acessar informações relevantes, como também avaliá-las e utilizá-las eticamente para os diferentes fins” (MARTINS; LUCAS, 2009, p. 87). As concepções da competência informacional, inclusão digital, inclusão informacional e inclusão social relatadas por Sorj (2005, p. 103) e apresentadas nesta tese na página 60, também serviram de orientação para as colocações finais do estudo.
O resultado divulgado mostra que as ações públicas federais de ID estão pautadas no primeiro aspecto da competência informacional, a inclusão digital, com o acesso às TICs sendo proporcionado pela criação de telecentros comunitários e pela facilitação da aquisição de microcomputadores pessoais por meio da redução do valor de venda dos equipamentos, permitindo sua compra por camadas economicamente menos favorecidas.
Não existem dados que forneçam a atuação do Terceiro Setor nesse sentido, mesmo porque suas ações são de difícil quantificação devido às inúmeras organizações existentes. Sabe-se, contudo, que em torno das fissuras da política governamental, incluindo-se as relacionadas à ID, pode-se detectar a atuação desse setor enquanto provedor social por meio da solidariedade das organizações que o compõe com base na cidadania, na participação e na sustentabilidade.
É fato que o Terceiro Setor moldou o surgimento da iniciativa privada com fins públicos, mas de caráter privado, no intuito de amenizar problemas generalizados como a pobreza, a violência, a poluição, o analfabetismo, o racismo, enfim, todo tipo de desigualdade. Empenha-se, ainda, na promoção e no desenvolvimento de atividades voltadas às áreas de saúde, esporte, meio ambiente, cultura, ciência e tecnologia. Possui representatividade e, muitas vezes, é considerado representante legítimo dos anseios da sociedade civil. Embora esses interesses não estejam especificamente direcionados ao mercado, o Terceiro Setor participa de modo ativo do espaço público não estatal. É composto por fundações, ONGs, OSCIPs, cooperativas, associações, entidades de assistência social e educacional e demais instituições da sociedade civil, sendo que essas organizações geram bens, serviços públicos e privados visando desenvolver também o âmbito político, econômico e social no meio onde estão inseridas.
Uma forma de organização do Terceiro Setor é a participação em redes para facilitar a articulação entre pessoas e entidades ampliando contatos e decisões, além de unificar ações com focos semelhantes. O enfoque dessas redes é compreender a sociedade ou um grupo social por sua estrutura, seus nós e suas ramificações, representando um conjunto de
participantes autônomos, unindo ideias e recursos em torno de valores e interesses que possam ser compartilhados. Segundo Nascimento (2008, p. 238-239)
Algumas dessas articulações se dão dentro do âmbito da própria sociedade civil, ora em termos de objetivos comuns, mesmo que às vezes tenham objetos de ações diferentes, ora em torno das fontes de financiamento. Outras, mais heterogêneas, se dão na relação com o Estado [... e] se materializam como mecanismos de participação na efetivação de programas especiais, seja com atuação focal ou mesmo de políticas públicas. [...] No âmbito da sociedade civil organizada [...] as articulações caracterizam-se fortemente tanto em busca da troca de experiências entre elas, como para o desenvolvimento de estratégias para o exercício de pressões organizadas sobre diferentes aparatos do Estado.
A particularidade das redes é que elas possibilitam a livre manifestação de um grande contingente favorável ou não às mudanças que afetam de algum modo a sociedade. Trata-se de um conjunto de pessoas (ou organizações ou outras entidades sociais) que, motivados tanto pela amizade quanto por relações de trabalho, conectam-se em busca de relacionamentos pautados pelo comprometimento social ou apenas para a troca de informações. Por meio dessas ligações vão construindo e reconstruindo a estrutura social e é a partir desse intercâmbio informacional que a participação conjunta é fortalecida.
Segundo Dowbor (2003) a formação de uma rede de comunicação passa a potencializar os impactos da informação, ao permitir que cada comunidade conheça o que se faz em outras regiões, em outros municípios, em outros bairros. O avanço de um gera ideias para o avanço de outro. Pela possibilidade de dispersão e pela escala normalmente pequena das iniciativas em rede, sobretudo nas fases iniciais, essas comunidades tendem a ficar isoladas e desconhecidas por outras comunidades. É necessário, então, organizar os sistemas locais de informação e também estruturar as redes que devem valorizar essa informação local gerando efeitos multiplicadores.
A união de indivíduos ou organizações neste formato depende da percepção de que existem objetivos ou interesses em comum e que possam ser compartilhados através da interação de todos no âmbito da própria rede. A maioria das redes de organizações da sociedade civil tem como objetivos favorecer “a circulação e a troca de informações, o compartilhamento de experiências, a colaboração em ações e projetos, o aprendizado coletivo e a inovação, o fortalecimento de laços entre os membros, a manutenção do espírito de comunidade e a ampliação do poder de pressão do grupo.” (DOWBOR, 2003)
As dificuldades mencionadas por Scherer-Warren (2007, p. 20), como entraves para a fruição das redes são “a complexidade de temáticas e das demandas; a dificuldade de
conciliação das temáticas prioritárias; o encontro e o desencontro de agendas e de interesses; o diálogo intercultural (ou sua falta)”. Esses impedimentos devem ser superados, porque a vantagem dessa organização em rede é unificar estoques de conhecimento que, com o tempo, farão surgir novas iniciativas a partir da troca de vivências, além de proporcionar a construção de um conhecimento coletivo e consequentemente, o amadurecimento das entidades.
Nesse sentido, as TICs são vistas como de grande utilidade para o estabelecimento da dinâmica das redes. A internet, por exemplo, encurta distâncias e facilita enormemente os processos de comunicação em todas as direções, favorece o intercâmbio dessas informações e o compartilhamento de práticas e saberes, além de criar espaços virtuais propícios ao debate de ideias. Outro aspecto é que os cidadãos que normalmente são mais relutantes em engajar-se em debates públicos poderiam acabar envolvendo-se mais diretamente em processos de deliberação e tomada de decisão política, visto que a comunicação pelo correio eletrônico reduz os riscos da exposição pessoal que caracteriza tanto a comunicação face a face quanto às grandes discussões públicas.
As redes mais representativas do Terceiro Setor são a Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS) e a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG). A primeira foi fundada há 13 anos com “a missão de ser uma rede virtual de informações, voltada para o fortalecimento das organizações da sociedade civil e dos movimentos sociais”34
, buscando fomentar o compartilhamento de informações entre tais entidades. A RITS possui, inclusive, uma revista digital voltada para a integração dessas organizações, a Revista Eletrônica do Terceiro Setor (RETS)35 que apresenta entrevistas, destaques em áreas sociais, cursos, campanhas, oportunidades de emprego no terceiro setor, reportagens de temáticas especiais, entre outras.
Já a ABONG surgiu em 1991 para promover “o intercâmbio entre entidades que buscam a ampliação da cidadania, a constituição e expansão de direitos, a justiça social e a consolidação de uma democracia participativa”36
. Possui inúmeras publicações de interesse social, além de ser a representante legítima do Terceiro Setor em fóruns e conselhos de mobilização pública, como o Fórum Social Mundial.
Ambas são organizações privadas sem finalidade de lucro que se apoiam nas TICs para a divulgação de suas ideias e ideais, processo visto por Nascimento (2008, p. 228), como capaz de fazer surgir “novas utopias [que] vão construindo novos horizontes e, dessa forma,
34A REDE de informações para o Terceiro Setor. Disponível em: <http://www.rits.org.br/?q=quem-somos>. Acesso em: 20 nov. 2009.
35Disponível em: <http://www.rets.org.br>. Acesso em: 20 nov. 2009. 36Disponível em: <http://www.abong.org.br>. Acesso em: 20 nov. 2009.
emergem novos sujeitos que passam a utilizar os meios tecnológicos de comunicação a serviço da construção da autonomia”. Tanto a RITS quanto a ABONG são consideradas por muitos, como Dowbor (2003), representantes aptas a fornecer essas noções de cidadania e sustentabilidade a entidades que apresentam certa carência nesse sentido. Embora haja dificuldade na organização e distribuição tecnológica dessas informações, elas podem de algum modo facilitar desde pequenas necessidades informacionais diárias a esses grupos até contribuir para obtenção de informações mais complexas, como afirma o autor ao dizer que
Até agora este universo trabalha no Brasil de maneira extremamente desconexa, gerando um grande volume de informação que é de difícil acesso. Trata-se de documentos, dados e estudos de grande valor, mas frequentemente distribuídos em papel nos mais diversos congressos e reuniões, ou disponíveis em inúmeros sites. Instrumentos integrados de navegação começaram a ser produzidos, como o site da RITS (Rede de Informações do Terceiro Setor), mas o que precisamos é de uma Web com pesquisa temática, de forma a que se possa saber com facilidade, por exemplo, que experiências de parceria de escolas com empresas existem e com que resultados. Como o Terceiro Setor trabalha, pela sua própria natureza, com um grande número de experiências pequenas, enraizadas na comunidade, articular estas experiências em rede tornou-se essencial, como forma de dinamizar o conjunto, gerar sinergias e evitar que se busque reinventar a roda em cada lugar. As novas tecnologias permitem isto, e associações como a ABONG (Associação Brasileira de ONGs) tem o papel de articular o sistema e dinamizar as redes de produção e intercâmbio de informações.
Parcerias com o setor privado através de ações de responsabilidade sócio empresarial desenvolvidas pelas organizações contribuem com o aumento dos recursos investidos nas comunidades, inclusive em relação ao acesso à informação eletrônica. O Terceiro Setor, desse modo, está presente em todas as frentes de atuação social, mesmo sem possuir um instrumento preciso para a avaliação das ações empregadas, tanto em termos de quantidade como de qualidade. A aplicação de estudos de competência informacional pode ajudar na apuração de resultados e aprimoramento das propostas, principalmente nos casos de projetos focados na ID.