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construção da personagem é um processo que pressupõe a seleção de caracteres a fim de se estabele

de verossimilhança em face da coerência interna exigida do do com os pressupostos de Aristóteles328, isto é, a criação da

a entre os mesmos, conforme o projeto da obra.

O leitor, por sua vez, toma conhecimento ou se apropria dessas características através das diversas vozes, que atravessam a narrativa, seja a do narrador, a da própria personagem e as de outras personagens. No

-se, por exemplo, no cruzamento das vozes presentes na história.

No caso específico das adaptações em análise, observa-se que a voz do narrador é a grande responsável pela montagem dos perfis das personagens, dado o grau de onisciência narrativa apresentado no desenrolar dos eventos na história. Entretanto, não se devem desconsiderar as outras vozes, pois é no jogo discursivo que

328 ARISTÓTELES. Poética.Tradução Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poetica, 1992.

329 ISER, Wolfgang. A indeterminação e a resposta do leitor na prosa de ficção. Tradução Maria

Ângela Aguiar. Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS. Série Traduções. Porto Alegre, Volume 3, Número 2, Março de 1999.

Robinson Crusoe, nas três adaptações, é o centro da narrativa, fato concretizado desde o título de cada livro. Assim, tem-se o protagonista ou herói em torno do qual giram as ações. Na adaptação de Jansen, ele é introduzido na trama a partir do seu contexto familiar, sendo “o mais moço” de três filhos, e a quem os pais dedicam todo seu amor, pois os dois prim

passeios e brinquedos, e os poucos e raros momentos consagrados ao trabalho

O protagonista, por conseguinte, não demonstra interesse por nenhuma atividade a não ser por viagens. Os pais são contrários a esse anseio do herói. O narrador reforça a oposição paterna: “De que proveito, porém, podiam ser estas (viagens) a um jovem ignorante como Crusoe?” . O embate entre o herói e seus pais serve para aguçar mais o desejo daquele de partir para o mar.

“espírito fraco do moço”334, conforme o narrador. O embarque significa a realização de um “sonho dourado que há tanto tempo havia subjugado: viajava!” . No entanto, o sonho torna-se um

eiros haviam falecido. Contudo, para o narrador, o excesso de atenção e carinho é “funesto”, porque alimenta “a indolência que predominava no espírito do menino”330. O excesso de liberdade leva o protagonista a manter o comportamento descrito pelo narrador:

Crusoe empregou a maior parte do seu tempo em

apenas podiam dar ao menino alguns conhecimentos truncados e desalinhados, sem utilidade prática331.

332

Na primeira oportunidade que surge para viajar, a convite de um amigo que encontra no porto, Robinson sente-se tentado, e recua, momentaneamente, ao pensar na desobediência aos pais, enquadrando essa atitude, de acordo com o narrador, como “procedimento horrendo” 333. Depois de hesitar, resolve aceitar a proposta. Tal atitude decorre do

335

330 DEFOE (1885), op. cit., p. 02. 331 Id. Ibid., p. 02.

332 Id. Ibid., p. 02. 333 Id. Ibid., p. 03. 334 Id. Ibid., p. 03. 335 Id. Ibid., p. 04.

pesadelo com a tempestade e, diante dessa situação, “prostrado e physica e moralmente no seu beliche, torturado por ancias indizíveis, lembrou-se de seus pais, e lágrimas amargas lhe sulcaram as lívidas faces” 336.

O remorso, entretanto, aos poucos desaparece ao voltar à terra firme e o propósito de continuar a viajar permanece. Além disso, algumas questões que envolvem a sua “honra” contribuem para que persista com seu objetivo marítimo: “Como me hão receber os meus pais? De certo me hão de castigar desapiedosamente. E os meus comp

pouco tempo e “voltava à pátria opulento e poderoso, prodigalizando a seus pais as maiores delícias, para fazer-lhes esquecer a mágoa que lhes

destroçado por uma tempestade. No naufrágio somente Robinson se salva. Ciente dessa situação, “arrojou-se então de joelhos, alçou as vistas ao ceo, já azul e sereno, e

anheiros o que dirão, quando me virem de volta! Agora que o mal está feito, não seria melhor aproveitá-lo para ver mais alguma coisa?” 337.

Após receber ajuda em dinheiro do Comandante e pai do amigo que o convidara para a viagem já referida, o protagonista recebe novo convite e embarca para mais uma excursão pelo mar com destino à Guinéia. Dessa vez, com a perspectiva de fazer fortuna com os negros da Costa, trocando coisas de pouco valor por ouro e marfim. No meio dessa viagem, o herói é seduzido por uma nova oportunidade, as riquezas do Brasil, e parte no navio português Gaivota, cujo responsável oferecera passagem gratuita. Para Robinson, a ida para o Brasil representa a possibilidade de ficar rico em

havia causado” 338. Para o narrador, “estes bellos projectos, porém, que mostravam que Robinson apenas era inconsiderado, mas não tinha mao coração, deviam desfazer-se com uma frágil bolha de balão” 339.

A sorte do protagonista não se confirma, pois o Gaivota encalha e é

336 Id. Ibid., p. 04. 337 Id. Ibid., p. 07. 338 Id. Ibid., p. 08. 339 Id. Ibid., p. 08.

agradeceu do fundo d’alma ao Creador, que tão milagrosamente o salvara”340. Em seguida, percebe que se encontra só e num lugar hostil e inabitável. O medo de não encontrar alimentos e de ser atacado pelas feras domina os seus pensamentos. Sai em busca de água e de um

em que se encontra é difícil, mas se trata de uma ilha. Ele está soterrado. A sua reação é de completo desespero: “— Desgraçado de mim! – exclamou Robinson, qu

castigo por sua conduta má e irregular, prostrou-o em

A sua

quadro, e, segundo o na o,

“visto que agora

lugar para dormir. Não conta mais com a ajuda dos pais, do amigo ou dos marinheiros, tem que resolver tudo sozinho. Segundo o narrador, “muito trato deu ao espírito para achar a solução; por fim resolveu imitar os pássaros e procurar um agasalho em alguma árvore”341.

Durante a noite, o peso na consciência, por causa do abandono do lar, vem à tona mais uma vez, tendo em vista que “sonhou igualmente com seus pais, que lhe apareceram prostrados pela dor, soluçando, estorcendo as mãos emagrecidas. Grande mágoa apoderou-se dele. Quis arrojar-se aos pés de seus pais, e, fazendo um movimento violento, caiu da árvore”342. No dia seguinte, Robinson não só percebe que o espaço

ando por fim conheceu sua verdadeira situação. Estou em uma ilha, longe de todo o socorro, só, abandonado e nunca mais tornarei a ver os meus queridos pais!”. Conclui que “havia merecido este

doloroso torpor”343.

nova condição exige a tomada de atitudes que revertam o rrador, o protagonista transforma a sua desgraça em confort tudo dependia de suas próprias forças, não havia tempo a perder no emprego dos meios ao seu alcance para melhorar sua sorte”344. Esse é o momento da grande mudança da personagem, pois da posição de mocinho inexperiente e

341 Id. Ibid., p. 12. 342 Id. Ibid., p. 13. 343 Id. Ibid., p. 13. 344 Id. Ibid., p. 13. 340 Id. Ibid., p. 10.

irresponsável passa a encarar os obstáculos que aparecem à sua frente. É preciso amadurecer.

O primeiro entrave é o da moradia, cuja solução inicial é uma caverna encontr

rrador, Robinson “pela primeira vez em sua vida sentiu a íntima satisfação de ter desempenhado conscienciosamente um entação em que, inicialmente, não obtém

fome. No dia seguinte

frutos com muito praze ncia do herói é resultado, conforme o narrador, de não ter “empreg

casa aos moldes ingleses. Esse objetivo faz com que Robinson passe a ter uma rotina:

quais são fundamentais para a concretização dos seus

ada numa rocha, que se mostra alvo fácil das feras, e a solução para tal fato é a construção de uma cerca de salgueiros. O trabalho para fabricação dessa proteção cerca é exaustivo e ao seu final, consoante o na

a tarefa pesada”345. O segundo é o da alim

sucesso com a busca de crustáceos, dormindo, por fim, com , localiza coqueiros e não os reconhecendo, experimenta os

r. A ignorâ

ado melhor o seu tempo na escola, desde logo teria reconhecido o coqueiro”346.

O protagonista não se satisfaz com sua caverna e passa a realizar reformas com o intuito de torná-la parecida com uma

De manhã cedo uma ablução na fonte, ou um banho no mar; uma colheita de ostras e de cocos; um almoço frugal; depois trabalho alternativo na plantação das arvores ou no preparo de fios e cordas; finalmente, um jantar tão simples como o almoço, antes de recolher-se à sua arvore, tão hospitaleira, quão inconveniente347. O trecho mostra a primeira experiência em que a disciplina começa a fazer parte do cotidiano do herói na realização dos seus projetos. Um novo modo de vida começa a se constituir como norma para que Robinson possa superar todos os empecilhos. Além da disciplina, o protagonista tem que usar a engenhosidade na montagem de utensílios, os

345 Id. Ibid., p. 15. 346 Id. Ibid., p. 16. 347 Id. Ibid., p. 18.

planos, como, po

Aliado sustentáculo do herói n de disciplina que o prot

O primeiro domingo que o jovem naufrago passou na sua ilha Em palavras singelas Robinson agradeceu a Deus os benefícios que

o pacífica, pois durante o primeiro temporal enfrentado pela personagem principal, a reação dessa é negativa, por conceber tal evento da

momento em que Deus arrojando de joelhos, pe

ão alcança sucesso à maneira dos indígenas brasileiros. Lembra-se do modo como os tártaros o fazem e assim consegu

natureza ou divina, poi fogo.

r exemplo: aproveitamento das cascas de concha para beber, criação de ferramentas, da vasilha de cocos e de uma provisão de fios, a utilização do feno em substituição à cama.

ao trabalho, a fé na Providência Divina é um segundo a ilha. O excerto seguinte evidencia uma segunda modalidade agonista desenvolve, a religiosidade:

solitária, foi destinado ao descanso e à oração.

lhe proporcionara; implorou o perdão de todos os seus pecados, e suplicou ao céu que consolasse e abençoasse os seus pais queridos348.

Tal relação, no entanto, não é tã

natureza como um castigo, haja vista que “julgou chegado o o castigaria cruelmente pelos maus passos que havia dado, e,

diu perdão e misericórdia”349.

O espírito inquieto de Crusoe permanece e o leva a explorar outros lugares da ilha; para tanto, se prepara fabricando um guarda-sol e bolsas para mantimentos. Nesse passeio, consegue caçar lhamas para alimentar-se, e, posteriormente, trata de domesticá-las, com o intuito de montar um rebanho para fornecer leite e carne. O desafio é obter fogo para assar a lhama, mas n

e comer o assado de lhama. O fogo é obtido por força da s com a tempestade uma árvore é atingida por um raio e pega

348 Id. Ibid., p. 20. 349 Id. Ibid., p. 29.

Benzer Belgeler