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A melancolia ao ser estudada pela psicanálise relaciona seu conceito com o de outros sentimentos no intuito de limitar sua abrangência e melhor defini-la. Freud (1980) apresentou o tema contrapondo-o ao sentimento de luto por ambos revelarem características bastante próximas, pois, segundo o autor, estes levam o homem a um estado de espírito penoso, a um sentimento de perda de interesse pelo mundo externo e incapacidade de prosseguir com a vida

O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo – na medida em que este não evoca esse alguém -, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica. (FREUD, 1980, p. 276)

Para Freud (1980), o luto é uma reação à perda de um ente querido, ou de alguma abstração que se coloca em seu lugar, como a cidade natal, o país

de origem, um ideal, e mais comumente de um amor, que tem sua morte decretada com o fim do relacionamento. Não é preciso ocorrer a perda física de alguém para o indivíduo entre em estado de luto, seu conceito está associado à perda de um objeto amado que não precisa, necessariamente, se materializar com o evento da morte, mas pode apenas simbolizar uma perda de algo irreparável.

Com o trauma da perda o indivíduo não se sente capaz de encontrar um novo objeto de amor ou substituir o ente amado por qualquer outro, torna-se impassível diante de qualquer nova possibilidade de suprimir esta dor. Seus pensamentos permanecem concentrados naquilo que perdeu e quaisquer de suas ações são pautadas pelo estado de luto.

O que ocorre, segundo Freud (1980), com o indivíduo após a perda do objeto amado é uma espécie de devoção ao luto, ele se entrega ao sentimento penoso do desânimo e não apresenta qualquer interesse nas atividades do mundo externo, mostra-se introspectivo e absorvido pela sua dor.

Esse sentimento, segundo a análise clínica de Freud (1980), não deve ser entendido como um problema patológico, nem mesmo deve o indivíduo de luto ser submetido a um tratamento médico, sua reação consiste num estado normal de angústia da alma que com o tempo deve ser superada.

Entretanto, a melancolia, para Freud (1980), constitui-se numa patogênese que afeta o indivíduo em razão de uma perda sem que haja uma definição clara do objeto que foi perdido. O melancólico, assim como aquele que sofre do luto, padece de uma perda significativa, mas caracteriza-se por não saber ao certo, com exatidão, o que foi perdido.

A melancolia está ―de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda.‖ (FREUD, 1980, p. 278). A perda, portanto, do melancólico parece enigmática, pois não é possível vê-la completamente, não se sabe exatamente o que está absorvendo o indivíduo, apenas apresenta o sentimento do vazio.

O desânimo, a cessação de interesse, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade são, para Freud (1980), características da melancolia e do luto, entretanto o primeiro sentimento apresenta o traço distintivo na diminuição da autoestima

... uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. (FREUD, 1980, p. 276)

A melancolia torna-se diferente do luto no sentido em que o primeiro provoca uma perda da autoestima, um empobrecimento do ego, já o segundo não há perda do ego. Com o luto o homem sente que o mundo se tornou mais vazio em razão da perda do objeto amado, sua relação de desânimo é com o exterior, já na melancolia o sujeito sente que seu ego foi diminuído, existe uma mudança em seu estado interior.

O paciente, segundo Freud (1980), evoca o sentimento de inferioridade em relação ao mundo, e ao objeto de amor, apresentando uma incapacidade de realizar qualquer ação, sente comiseração pelos seus parentes que são obrigados a conviver com uma pessoa tão desprezível. Esse quadro é completado pela insônia e recusa de se alimentar.

Considerada, portanto, por Freud (1980) como uma patologia, aquele que sofre da melancolia sente-se desinteressado por tudo relacionado ao mundo externo, incapacitado para o amor e de qualquer outra realização, entretanto isto é apenas ―um efeito do trabalho interno que lhe consome o ego – trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável ao luto‖ (p. 278).

Nesse sentido, o melancólico dispõe de uma visão mais penetrante da verdade que as pessoas que não sofrem desse mal. Sua autocrítica é mais severa, já que perdeu o amor-próprio. No quadro clínico analisado por Freud a insatisfação com o ego constitui-se na característica mais marcante da melancolia.

Kristeva (1989) ao analisar o conceito de melancolia imprime algumas características comuns a Freud (1980) no sentido em que trata o sentimento como um estado de tristeza, dor incomunicável, que faz o indivíduo perder o gosto pela vida. Um abatimento interno, uma existência desvitalizada que se constitui num golpe, numa derrota sentimental que dificulta e afeta as relações com o próximo.

Diante de sua visão sobre o sentimento de melancolia a compara com a dor da depressão que da mesma forma afeta o equilíbrio da vida, ou seja, os infortúnios diários que afligem o indivíduo o excluem da categoria de pessoas normais e lhe dá outra vida que, para a autora torna-se impossível de ser vivida

(...) Uma vida impossível de ser vivida, carregada de aflições cotidianas, de lágrimas contidas ou derramadas, de desespero sem partilha, às vezes abrasador, Às vezes incolor e vazio. Em suma, uma existência desvitalizada que, embora às vezes exaltada pelo esforço que faço para continuá-la, a cada instante está prestes a oscilar para a morte. Morte vingança ou morte liberação, doravante ela é o limite interno do meu abatimento, o sentido impossível dessa vida, cujo fardo, a cada instante, me parece insustentável, salvo nos momentos em que me mobilizo para enfrentar o desastre. (KRISTEVA, 1989, p. 11)

Kristeva (1989) acentua a distinção do conceito de melancolia apresentada por Freud (1980) que se traduz na insatisfação com o ego, afetando a auto-estima e o desejo de viver. Entretanto, a autora analisa o conceito de melancolia conjuntamente com o da depressão, de forma a não revelar distinções agudas. Os dois termos juntos designam para ela o melancólico-depressivo que não possui uma definição precisa na psiquiatria, sendo seu limite abrangente e difuso, mas que dependente de uma experiência em comum, a perda do objeto, como descreveu Freud (1980).

A tristeza, assim como o luto, para ela, são passageiros a melancolia é uma sintomatologia psiquiátrica recorrente que ataca o homem na medida em que percebe ter sofrido uma perda irreparável. A depressão ou melancolia, entendida segundo Kristeva assinala uma dificuldade de aceitação da perda, de não saber encontrar uma contrapartida válida para esse incômodo, especialmente no que tange à perda amorosa ―conscientes de estarmos destinados a perder nossos amores, ficamos talvez ainda mais enlutados ao perceber no amante a sombra de um objeto amado, outrora perdido‖ (KRISTEVA, 1989, p. 12). O que indica que o sujeito não sabe perder, torna-se intolerante a qualquer perda que entende como irreparável.

Mas a proposta da autora em relação à melancolia se diferencia fundamentalmente por entender esse sentimento como um elemento gerador de um potencial artístico. Nesse sentido ela apresenta a melancolia como um sentimento que provoca a necessidade de se comunicar gerando a atividade

da expressão artística. O texto literário, portanto, é resultado de tristezas e dores sofridas pelo indivíduo que encontra na comunicação uma forma de expressar seus dramas internos. Os escritos são criações melancólicas em que o sujeito-poético expressa a turbulência de sentimentos presente no homem moderno.

De acordo com a perspectiva psicanalítica adotada por Kristeva (1989), o melancólico possui uma enorme propensão à criação e, nos tempos de crise em que vive o homem moderno, esse sentimento se impõe, é expresso mais fortemente levando-o a ser esse artista o mais obstinado a combater esse estado da alma

(...) se a perda, o luto, a ausência desencadeiam o ato imaginário e o nutrem permanentemente, tanto quanto o ameaçam e o danificam, é também notável que ao renegar-se essa mágoa mobilizadora erija-se o fetiche da obra. O artista que se consome com a melancolia é, ao mesmo tempo, o mais obstinado em combater a demissão simbólica que o envolve... (KRISTEVA, 1989, p. 15)

Para Kristeva (1989) a melancolia é resultado de uma desestruturação social que ao atingir o homem acarreta uma mudança na forma de comunicação, conduzindo a uma representação literária diferenciada.

Esse sujeito-poético possui uma intensa sensibilidade, oprimido pelo peso melancolia, sublima as dores através da escrita. Os signos de sua comunicação passam a dar a ele um sentido para a vida, criam uma realidade afetiva que havia sido perdida com a dor. Embora sua criação seja, de certa forma, confortadora, sua comunicação, como a do sujeito deprimido, conduz a um discurso fragmentário em razão da fragmentação de seu ego (o que chama de pulsão de morte).

A comunicação, portanto, do melancólico, conforme Kristeva (1989), é resultado de sua dor e ao mesmo tempo de uma tentativa de sua superação, pois para ele a vida é mais intensa, seus sentimentos mais aguçados tornam a vida impossível de ser vivida em razão de carregar inúmeras aflições cotidianas, que tornou um fardo insuportável. O indivíduo depara-se com a morte em vida

Vivo uma morte viva, carne cortada, sangrante, tornada cadáver, ritmo diminuído ou suspenso, tempo apagado ou dilatado, incorporado na aflição...ausente do sentido dos outros, estrangeira,

acidental à felicidade eu tenho de minha depressão uma lucidez suprema, metafísica. Nas fronteiras da vida e da morte, às vezes tenho o sentimento orgulhoso de ser a testemunha da insensatez do Ser, de revelar o absurdo dos laços e dos seres. (KRISTEVA, 1989, p. 12)

A partir das formulações conceituais de Freud (1980) e Kristeva (1989) podemos verificar que nas crônicas de Maria Judite de Carvalho estão fortemente presentes as características da melancolia moderna que se dá, principalmente, pela perda de um objeto amado, que não se pode precisar, mas que se manifesta através do ambiente de transformação sofrido pela sociedade portuguesa que através da ruptura sente que algo está sendo perdido.

O conflito vivido pelo povo português com as mudanças de conceitos e valores tradicionais em razão da inserção de elementos da modernidade é o que caracteriza o sentimento mais forte expresso nas crônicas de Maria Judite de Carvalho, a melancolia. Esse sentimento que advém da percepção das mudanças ocorridas no cotidiano português se alastra pela sociedade e ao mesmo tempo por todas as crônicas juditianas publicadas nos ―Rectângulos da Vida‖.

Benzer Belgeler