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Quando alguém pergunta o que você disse, isso significa que não entendeu alguma palavra (sinal significante) ou uma combinação dos signos linguísticos. Quando se está diante de um texto, na maioria das vezes não se tem contato direto com o receptor, logo não tem como ou a quem perguntar. Daí a necessidade da análise semântica, cujo objetivo é gerar sentido no texto:

A Semântica é a ciência que estuda o significado dos signos e da combinação de signos linguísticos, ou seja, da relação entre forma e conteúdo, entre significante e significado, e isso nas palavras, nas frases e nos textos. A análise semântica de um texto procura responder à pergunta de que um determinado texto quer dizer e que coisa se quer dar a entender com determinadas expressões e frases utilizadas num texto.26

Em nosso primeiro capítulo, a palavra (unidade significante) foi tomada como suporte de sentido em que a metáfora clássica atua como um sinal para uma ideia que necessita gerar produção de sentido. Uma narrativa se desenvolve sintaticamente ao longo de sucessões de elementos significantes (palavras, sinais, termos). Queremos dizer que “palavra-puxa-palavra”27 porque possuem a mesma base semântica. Por

exemplo, pastor e ovelha possuem uma relação semântica que não existe entre pastor e minhoca. Com base nessa compreensão, percebemos que pastor e ovelha possuem algo em comum, algo que não é compartilhado entre pastor e minhoca. Assim, chamamos de análise semântica àquilo que as palavras, as unidades significantes possuem em comum. Exemplo: Caminho...Verdade...Vida Crer...Permanecer...Amar 26 WEGNER, 2009, p. 250.

No primeiro conjunto de palavras temos três substantivos em que o caminho leva até a vida e o espaço percorrido entre o caminho e a vida é uma verdade. No segundo conjunto temos três verbos em que o crer leva ao ato de amar e o espaço percorrido entre crer e amar é um permanecer.

As palavras se agrupam em campos semânticos. Esses campos se assemelham a um quebra-cabeça no qual as peças se ajustam, encaixam-se sem deixar espaços. Cada campo semântico se coerentiza internamente. Eles são estruturas construídas a partir de associações mnemônicas: dada uma palavra qualquer, imediatamente a associamos mentalmente com outras.

Exemplo:

Luz do mundo

Pão da vida

JESUS O caminho, e a verdade, e a vida VIDA

Bom pastor

Ressurreição

No exemplo acima, as palavras pertencem a uma mesma classe de sentidos mnemônicos, portanto formam um paradigma semântico.

A partir dessa breve introdução, segue o inventário de algumas unidades significantes (palavras), a fim de que possamos encontrar o campo semântico, a classe de sentidos a que pertence e as associações mnemônicas que irão se coerentizar.

Amar = avgapa,w,: raro no grego, comum na Bíblia para traduzir

bh;a' (ahèb

) = amar, que se pode definir como preferir, aderir a, ser solidário com, optar por. É o amor da aliança (Dt 6.5; 7.7-8) e da solidariedade cristã, o amor de Jesus pelo discípulo amado (13.23). A identificação com Jesus se expressa em termos de amor (14.15), comer sua carne, beber seu sangue (6.54), lavar os pés (13.4-8). O amor é a condição para ser discípulo (13.35) — evmoi. maqhtai, evste. A identidade se dá pela ação de amar, que é o fio condutor da adesão à fé, sendo esta a condição que permite o discípulo amar

como Jesus amou. João usa algumas vezes o termo file,w = amar, querer bem (15.19), possivelmente para especificar o sentido do verbo na frase.

Conhecer = ginw,skw: conhecer, reconhecer (14.5) e ouvk oi;damen pou/ u`pa,geij\; oi=da = saber, ter consciência de algo. Ginw,skw aparece 57 vezes no QE e 25 vezes em 1 João. No QE o sentido de ginw,skw possui um vasto campo de significados que independe do lexema, mas também de seu aspecto verbal28 (pres. aor. pf.). Conota

conhecimento por experiência de união e intimidade (14.7). Conhecer a Deus significa ter experiência (da presença), implica um laço moral, respeitar, reconhecer. Além disso, João pode insistir no conhecer helenista, muito amigo do conhecimento elitista, quer do intelectual, quer do esotérico. O verdadeiro conhecimento é conhecer o amor de Deus (13.35-36) e obedecer ao seu novo mandamento. Oi=da, por sua vez, abre mão do processo de conhecimento e pode significar conhecer a identidade de alguém o diferenciando do outro, distinguindo-o (6.42), ter convicção (14.5). Não se pode conhecer o Pai a não ser por intermédio de Jesus. O desenvolvimento no conhecimento de Jesus é desenvolvimento no conhecimento do Pai (14.7).

Coração = kardi,a (14.1, 27), no hebraico

ble

(Ec 2.1): lugar de tomadas de decisões, o coração representa as faculdades mentais e sensitivas do ser humano: intelecto, vontade, sensibilidade etc. — mais ou menos o que queremos dizer com mente. Possivelmente o medo do coração (14.1) se refere não tanto ao sentimento, mas ao pensamento, ou seja, à visão de mundo dos discípulos e sua percepção da realidade e da comunidade na ausência de Jesus (14.27).

Senhor = Ku,rioj: é um título de respeito usado pelos discípulos ao falarem com Jesus (13.36;14.5). Em 1.23 (= Isaías 40.3), observamos que as citações que incluem o termo “Senhor” como “Deus” provavelmente apresentam uma ambiguidade proposital

28 “O verbo, segundo Dionísio, se divide em sete categorias, a saber: três segundo o tempo e quatro segundo o aspecto. Para esse autor existem três categorias principais que denotam tempo: ἐ ώ (presente), πα η υѳώ (passado) e έ ω (futuro) e quatro tipos de aspectos dentro do passado: πα α α ό , πα α ί ο , ὑπ υ έ ο e ἀό ο μ imperfeito (literalmente, “tempo que marca uma duração na ação”), perfeito, mais-que-perfeito (literalmente, “tempo mais que realizado”) e aoristo (“indefinido”). Dionísio conclui: existem três relações entre os tempos verbais e os valores aspectuais do verbo: o presente com o imperfeito, o perfeito com o mais-que-perfeito e o aoristo com o futuro”. MUÑOZ GALLARTE, Israel. Los sustantivos-hecho en el Nuevo Testamento: clasificación semântica. 2008. 585 f. Tesis (Doctorado en Letras) — Universidad de Córdoba, Córdoba; Universidad Complutense de Madrid, Madrid, 2008, p. 5-6.

do narrador em justapor esses textos, ora aplicando o termo claramente a Deus, ora a Jesus, indicando que a glória de Jesus se identifica com a de Deus.

Discípulo = maqhth,j, (13.36-37): o termo é correlativo de “mestre”. Na época de Jesus o aprendizado não era apenas intelectual, mas o discípulo aprendia a assimilar o estilo de vida do seu mestre, seguindo o seu ensino e exemplo — no nosso caso em particular, amando o próximo.

Seguir = avkolouqe,w, (13.35-37): esse verbo descreve metaforicamente a fidelidade do discípulo à prática da mensagem de Jesus — “se amor haverdes em uns pelos outros” (eva.n avga,phn e;chte evn avllh,loij),), levando, assim, a sua marca identitária. Sendo reconhecido pelo amor que tem a qualidade de Jesus, neste funda a sua comunidade e lhe dá a sua identidade no meio do mundo.

Caminho = o`do.j: esse termo aparece 101 vezes no NT, no QE em 1.23;14.4-5, personificado em 14.6. A palavra apresenta uma variedade de significados que transitam entre o literal (Mc 10.32) e o metafórico (Jo 14.6). Seu uso é, em boa parte, patrimônio cultural, principalmente com a imagética dos dois caminhos (Mt 7.13), por conta da recepção do QE. No NT, a palavra caminho está metaforicamente ligada a um projeto: o caminho da vida, a maneira de viver. No entanto, em Atos 9.2 se refere ao que admitimos como a identidade de um grupo conhecido como “os do caminho”, como os participantes do verdadeiro ensinamento que conduz à vida (Jo 14.6). Em nossa perícope, na maneira como Jesus se autodenomina diante da fórmula de revelação “Eu sou” (evgw, eivmi), a conexão metafórica que surge entre as expressões caminho, verdade e vida oferece informações das ideias gnósticas que circulavam na época, bem como características identitárias marcadas pelas crenças do rito religioso.

Sopro, Espírito, vento = pneu/ma (14.17): segundo o QE, o pneu/ma

essencialmente é o dom do Senhor exaltado, porque ainda não havia sido glorificado (7.39), assinalando uma particularidade divina. Ainda em 13.31, temos a afirmação do texto, após a traição, de que “agora o filho foi glorificado” e, segundo 20.22, Jesus soprou sobre os discípulos o Espírito Santo. Diante das diversidades simbólicas, o pneu/ma tem poder vivificador sobre a autoridade de perdoar pecados, nascer de novo, nascer para uma vida espiritual.

Crer = pisteu,w (14.1): aparece 99 vezes no QE, 9 delas em 1 João, sendo que fé (pi,stij) aparece unicamente em 1 João 5.4. Parece que o verbo crer no QE ocorre ligado

aos sinais de Jesus. A oratória de Jesus conduz à fé, a uma credibilidade e a uma condição de pertença ao GJ.

Benzer Belgeler