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O objetivo deste item é analisar as realidades pesquisadas quanto à permanência da campesinidade. Mais especificamente, pretende-se refletir sobre as condições de existência da campesinidade em sistemas de produção modernizados e organizações familiares que vivenciam a modernização de forma geral. Para tanto, retoma-se a discussão sobre a economia e a cultura camponesa à luz das observações empíricas.

As características principais de diferenciação entre a economia capitalista e a economia camponesa foram verificadas na pesquisa de campo. A ausência do assalariamento como forma principal de trabalho, a circulação simples de mercadoria, o estímulo produtivo condizente com as necessidades familiares, e a não contabilização da força de trabalho no processo produtivo são características da organização econômica camponesa que foram observadas nas duas realidades estudadas.

A forma principal de trabalho nos sítios é a mão-de-obra familiar, eventualmente com a contratação de mão-de-obra assalariada ou sob a forma de troca de trabalho. As dificuldades de produção vividas pelas famílias em questão obrigam a venda da mão-de-obra por parte dos sitiantes à ‘chacreiros’ ou empregadores da cidade. Essa situação é geralmente apresentada como ‘situação de precisão’. Ou seja, na ‘precisão’ vende-se a força de trabalho.

Sobre a força de trabalho familiar, retomando Chayanov, observou-se a diminuição do tamanho das famílias no decorrer das gerações que, junto à realidade de êxodo rural, causou um desequilíbrio entre o número de trabalhadores e o número de consumidores nas famílias. A escassez de mão-de-obra e a transferência dos jovens para a cidade estão construindo uma realidade de agricultura familiar envelhecida. Em muitos dos sítios visitados a força de trabalho principal é a do pai e da mãe, em idades relativamente avançadas (entre 40 e 50 anos). Além disso, como um dos motivos do próprio êxodo, há de se considerar a redução do tamanho das terras. As terras brasileiras são controladas pelo regime de propriedade privada. A pesar de muitos sitiantes (principalmente no Vale do Ribeira) serem posseiros da terra, a obtenção de novas terras acontece apenas por regime de compra. Ou seja, não há expansividade ou acumulação de capital por parte das famílias pesquisadas.

Como já foi discutida nesta dissertação, a economia tipicamente camponesa compreende a produção para o mercado. A troca de mercadorias camponesa é, contudo, predominantemente baseada no valor de uso dos produtos (M-D-M). Isto significa que a produção agrícola camponesa fundamenta-se nas necessidades socialmente construídas pelas famílias. Quanto às necessidades socialmente construídas, podemos refletir a partir da discussão sobre a transição do tempo de fartura para o tempo de dinheiro. Nota-se que o tempo de fartura foi um tempo possível, talvez, porque tenha sido um tempo em que as necessidades construídas pelas comunidades camponesas eram afastadas das necessidades construídas pela sociedade urbano-industrial. Um tempo em que as crianças não tinham necessidade de vestirem-se como as crianças da cidade. Um tempo em que as mulheres não necessitavam de fogão e liquidificador; e os homens não dependiam do trator.

A relação de simples troca (M-D-M) ainda é, de forma geral, praticada pelas famílias em questão. Nos tempos de hoje, a relação com o mercado, por parte desses produtores familiares, tem se tornado cada vez mais difícil. Como disse D. Adelina [Joanópolis, 2009]: “o produtor tem todo esse trabalho, compra caro, fica ali com a continha feita, se o dinheiro da lavoura der pra

pagar aquele gasto, bem, se num der ele vai ter que vender alguma coisa e pagar...”. Ou seja, algumas vezes a mercadoria vendida (produto da lavoura) não atinge preço suficiente para cobrir o custo de produção (aquele gasto). A mercadoria é vendida abaixo do preço de custo (mesmo não contabilizando a mão-de-obra do produtor), a relação de simples troca praticamente se inviabiliza, as famílias acabam por endividar-se (M-d-?) e por tornarem-se devedoras no mercado financeiro.

A modernização, portanto, atinge a economia camponesa e, em diferentes intensidades, transfere as famílias da situação de fartura para a situação de pobreza. No entanto, pode-se notar que a economia camponesa, mesmo quando encontra-se sob situação de dependência e subordinação à economia capitalista, ainda se estrutura a partir das peculiaridades de uma economia camponesa. É evidente que não são apenas as condições econômicas que sofrem transformações com a modernização. “Depois que o moderno chegou” [S. Igor, Joanópolis, 2009, diversos aspectos da vida rural camponesa se modificaram. D. Glória [Cajati, 2006] acredita que não são as pessoas que mudaram, mas “é a vida que está muito diferente... não tem absolutamente nada que eu faço hoje que seja igual ao que eu fazia antigamente (...). Hoje dou milho comprado para as galinhas, cozinho no gás, fumo papel...”.

‘O moderno’ chega tão rapidamente que as transformações da vida acontecem de maneira bastante radical, em poucas gerações. Contudo, os elementos sócio-culturais, a superestrutura da organização social, não é possível que se transformem na mesma velocidade. As modificações culturais levam mais tempo para se consolidarem. Portanto, o que tem acontecido nas regiões estudadas é a convivência de muitos aspectos da modernidade com vários outros aspectos da ‘tradicionalidade’. Num ritmo bastante lento o ‘antigo’ vai se modificando e incorporando elementos do ‘moderno’. Esta articulação entre ‘antigo’ e ‘moderno’ foi observada em muitas situações durante a pesquisa. Refletiremos sobre o exemplo mais característico, sobre a realidade que melhor simboliza essa discussão: a convivência da crença no Lobisomem com o acesso ao mundo urbano e a tecnologias modernas, em Joanópolis.

O Lobisomem é uma construção cultural que representa muito bem a não disjunção entre o humano e a natureza. Um homem comum – ou alma de um homem –, com alguns traços físicos e comportamentais característicos, que se transforma em lobo nas noites de lua cheia. Um adulto

de barba preta, mãos grossas e calejadas, que se recusa a sentar no ‘meia-alqueira’62, pode ser um

lobisomem. Curioso é que todo homem, apesar de existirem algumas características que colaboram com a identificação do ‘bicho’, é inicialmente suspeito. Qualquer homem está, a princípio, sob suspeita. Pode ser um estranho ou um amigo. Pode ser branco ou negro. Durante o dia homens e lobisomens são todos iguais.

No entanto, apesar de acreditar-se na possibilidade dessa mistura de humano (homem) e natureza (lobo), o lobisomem é um ser temido pelas pessoas comuns. Ele come as galinhas do terreiro, come os leitões novos, pega as crianças e as mulheres e anda durante a noite fazendo ‘estripulias’ na casa das pessoas. “Os mais antigo, meus avôs, meus pais, o pai dela [D. Rosália] conta, que naquele tempo tinha mesmo, existia mesmo. Era... chegava a pegar e fechar no quarto... no outro dia a pessoa tava lá, pelado. Que era pessoa que vinha, de outro... de outro estado, lá de longe, que ninguém conhecia... como é que pode ser?” [S. Pedro, Joanópolis, 2009].

Existe o lobisomem vivo e o lobisomem morto: “O morto é aquele que tinha aquela... como se diz... aquela sina, que os mais velhos falam, aquele dom, que num cumpriu os sete anos... aí, por um motivo ou outro morreu. Então esse é o lobisomem morto. Daí já é mais o imaginário. As pessoas que vê... o vivo não, né? O vivo é aquele que faz as estripulias todas, na noite de lua cheia, e depois, no dia seguinte, tudo que ele comeu ali... a noite, vomita tudo... [D. Rosália, Joanópolis, 2009].

Os avôs contavam muitos casos em que viram o lobisomem, prenderam no quarto até que voltasse à forma humana, ou até casos em que mataram o lobisomem e enterraram em algum lugar do sítio. Os pais pediam aos filhos e às mulheres que tomassem cuidados e que não saíssem de casa durante a noite. Muitos barulhos da noite escura, sem qualquer iluminação, assustavam a família. Muitos destes barulhos poderiam ser ‘estripulias’ do lobisomem. O lobisomem, ser desconhecido que transita entre o mundo humano e o mundo sobrenatural, era enfrentado somente por mais de um homem, ou homens armados.

62 ‘Meia-alqueira’ é uma unidade de medida utilizada antigamente pelos sitiantes. Na explicação de S. Pedro: “Os

mais velhos fazia... vocês num sabem o que era 'meia-alqueira'... Era uns quadrados que fazia, de madeira... Era 'meia-alqueira'... O que que é 'meia-alquera'? eles num sabe também... 'meia-alqueira' é... que é pra feijão, arroz... então 25 litros. Então eles faziam um cachãozinho de madeira, que tava com a medida. Então o pessoal plantava 'de meia', então chaga na hora de repartir, enchia aquele... aquele... quadrado, aquela... tipo de um balaio assim... então era um pra cá e um pra cá, pra repartir sabe? então era 'meia-alquera' que chamava. Que um alquera é 50 litros de... de feijão, de milho, de arroz...” [S. Pedro, Joanópolis, 2009].

Eu morava atrás aqui, num tinha energia num tinha nada aqui, na casa do (...), tem uma fazenda velha ali. Nós era tudo criançada, os cachorro ficava bravo a noite e latindo... e tinha um bicho que roncava, assim feio. Meu pai falava pra nós ficar tudo quietinho... "vamos deitar, vamos deitar que é lobisomem". Ficava esfregando a parede e os cachorro tudo bravo e coisando... [S. Pedro, Joanópolis, 2009].

No entanto, é interessante notar que a crença no sobrenatural, na materialização da articulação entre humano e natureza, não é apenas uma antiguidade abandonada pelas gerações ‘modernas’. Daiane e Diego, por exemplo, não deixam de acreditar na existência do lobisomem. Por algum motivo, desconhecido, as pessoas não vêm mais.

Então, é coisa antiga... E como não acreditar? Entendeu? Eu num abuso. Eu num gosto desse tipo que eles fazem, esse comércio... é porque... isso é ruim. Mais a realidade, a realidade é o que aconteceu, né? Comia leitão novo... todas as coisas assim de... que as pessoa viam, isso os mais velhos. Só que ultimamente isso, graças a Deus parece que acabou. Ninguém vê mais. Parece que é como se... se tivesse terminado aquele tempo, sabe? Como se tivesse ficado lá atrás [D. Rosália, Joanópolis, 2009].

A questão de que ‘ninguém vê mais’ não anula a possibilidade de o lobisomem ainda existir. D. Rosália, D Rubia e outras mulheres de Joanópolis ainda temem sair nas noites de lua cheia. A existência do lobisomem não pode ser contestada, do ponto de vista de D. Rosália, pelo fato de que as pessoas que viram ‘o bicho’ ainda estão vivas, elas podem confirmar. “Como num acreditar? quem fala isso é minha mãe, que tá bem viva, é meu pai que tá bem vivo...” [D. Rosália, Joanópolis, 2009].

A questão colocada foi: “e porque que hoje ninguém mais vê isso? Até no que mudou...” [S. Pedro, Joanópolis, 2009]. Diante da dúvida, discutiu-se com esta família sobre uma passagem da obra A partilha da vida de Carlos Rodrigues Brandão. Mais especificamente, comentou-se sobre a relação apresentada por um sitiante entrevistado pelo autor, entre a ausência atual do lobisomem e a iluminação da cidade63. Sobre a hipótese do lavrador de Catuçaba, discutida por

Brandão (1995), Diego comenta: “E pode reparar que... faz sentido. Pode reparar porque essas

63 O trecho do referido diálogo com um lavrador arrendatário morador de Catuçaba: “(...) Que antes o sertão era

perto, as matas chegando na beira de tudo. E não tinha luz e nem nada desses progressos da cidade. Coisa como os rádios, as televisões, o avião, carro, e tudo que a gente vê por aí. Então, por aqui era o lugar deles. Era perto. Eles apareciam mesmo por aí, nas estradas, nos povoados, perto das pessoas. Mas agora, com tudo isso de novo, os lugares claros, a luz, o muito movimento, o sertão recuando pra longe, pras beiras dos fundos, nessas serras, os campos ficando limpos, os costumes da cidade invadindo tudo. Então, não quer dizer que eles desapareceram de todos os lugares, do mundo mesmo. Eles só sumiram daqui” (BRANDÃO, 1995, p. 79).

histórias são de coisa de... vão lá, quarenta, cinqüenta anos atrás, quando não existia ainda energia elétrica. Faz sentido a relação, mas... mas qual a relação entre o lobisomem e a energia elétrica?” [Diego, Joanópolis, 2009]. Segundo Brandão:

Vinda a cidade, os seres tomam um duplo destino. Os que se podem colocar para ela, porque querem ou porque precisam – famílias inteiras dos bairros, casais jovens em busca de futuro fora, jovens formados no magistério – migram para a cidade, “tomam destino” fora “da roça”. Os seres nativos ou incorporados a territórios no intervalo entre a roça e o sertão refugiam-se, fogem. Escapam da luz, do progresso, escondem-se onde ainda é como sempre precisa ser para que eles prossigam existindo. Desaparecem, não de todos os lugares, mas daqueles onde a chegada dos recursos “de fora” impedem a existência de seres tão “de dentro” (BRANDÃO, 1995, p. 80).

Diego [Joanópolis, 2009] tomou o destino da cidade. Crescido no sítio, hoje assume um cargo de gerência num banco da cidade. No sítio em que cresceu, onde ainda moram seus pais, já possui energia elétrica, telefone, carro e diversos outros ‘confortos’ tecnológicos. Aquele espaço ‘da roça’ vive outro momento histórico. A família usufrui da disponibilidade de tecnologia. Nesse tempo o lobisomem já não se aproxima mais. No entanto, mesmo a geração mais nova da família, Diego e Daiane, provavelmente não sairiam a passear pelo sítio em uma noite de lua cheia.

A disponibilidade de tecnologia e as transformações ocorridas no nível da produção e/ou alternativas encontradas para obtenção dos meios de sobrevivência, mesmo quando assustam alguns seres representantes do ‘tempo de antigamente’, do tempo ‘da roça’, ainda não foram capaz de apagar por completo suas representações. Para usar o termo utilizado por Sevilla Guzmán, o ‘grau de campesinidade’ vivido pelas famílias camponesas varia conforme o momento histórico e a disponibilidade de tecnologias referentes a ele.

Quanto ao envolvimento dos jovens - diante da modernização atual - nas atividades do sítio, observaram-se comportamentos diferenciados. Estas diferenças se dão conforme as oportunidades econômicas e sócio-culturais disponíveis a eles. Ou seja, a migração dos jovens não está relacionada unicamente a atração da cidade e a “modernidade” que ela oferece, mas principalmente a falta de oportunidades (trabalho e terras) no campo. O envolvimento dos jovens nos projetos de cunho socioambiental – mais antigos no Vale do Ribeira e recentes em Joanópolis – podem ilustrar essa reflexão. Os sistemas agroflorestais no Vale do Ribeira e a horta orgânica em Joanópolis são exemplos de alternativas que contribuíram, em alguns casos, para a manutenção dos filhos no sítio.

Conclui-se, portanto, que as conseqüências do processo de modernização da agricultura e dos paradigmas modernos de forma geral são evidentes. No entanto, as observações de campo e as análises aqui desenvolvidas permitem sugerir que a campesinidade ainda resiste, nas regiões estudadas, às intervenções do modelo de organização social hegemônico.

Benzer Belgeler