O desenvolvimento da escatologia deu-se em virtude do crescimento da capacidade intelectual do humano e de suas percepções morais. Esse crescimento se dá num ambiente no qual há uma interação com outros povos num contexto de fronteiras fluidas. Como resultado dessa interação sócio-cultural, encontramos elementos externos sendo apropriados e sendo utilizados na dinâmica interna do mundo israelita.
Para tratarmos da escatologia judaica devemos ter em mente essas considerações, pois não há dúvidas por parte dos estudiosos, que exista um crescente desenvolvimento na teologia do Antigo Testamento, através do qual percebemos idéias diferentes acerca da condição do humano após a morte, do destino de Israel e do futuro do mundo. Temos, por exemplo, os grandes profetas do período assírio levantando-se em contraste notável com os seus antecessores e sucessores.
Um aspecto interessante de apropriação do mito nessa dinâmica pode ser percebido nos grandes profetas que o aplicaram na elaboração escatológica da religião javista com a conotação da catástrofe cósmica, mas por causa da visão de mundo e intenção da profecia uma nova realidade a partir do cumprimento dos preceitos de Yahweh pelo povo, na qual a seriedade moral e ética era de extrema importância, suprimem o mito adicional da restauração cósmica, a não ser em algumas concessões para a escatologia popular heterogênea (reajustes posteriores talvez).
É em outro período, no greco–romano, que este material mítico antigo da restauração cósmica é apropriado pelos visionários apocalípticos com maior evidência e significado.
Diante disso, faz-se necessário considerar que a escatologia como um sistema de pensamento não pode ser analisada exclusivamente pelos elementos que a constitui. É preciso perceber como esses elementos se
articulam na estruturação do pensamento e quais são os resultados dessa articulação. Essa articulação e resultados são movidos por um objetivo e intenção.
Os elementos constituintes da escatologia estão sempre a serviço da sua intenção. Por isso a captação dos elementos não são suficientes quando se objetiva entender sua intenção.
Considerando a heterogeneidade teológica, conforme já mencionamos na análise do período histórico, o universo teológico judaico conta com diferentes tradições que transitam na mentalidade das pessoas com o objetivo de orientar uma visão de mundo específica. Essas tradições com suas expectações teológicas são o que chamamos de elementos internos de Israel que se juntam aos elementos externos, como os mitos cósmicos com uma estrutura dualista, etc.
Essas tradições são fontes originárias de expressões escatológicas que se relacionam entre si de maneira intercambiável na formulação da teologia israelita. Apresentaremos algumas tradições conforme a elaboração de David L. Petersen76.
• Tradição da promessa da terra e progênie – intimamente ligada às promessas aos patriarcas. A noção de progênie está definida em termos de "uma grande nação". Essa concepção sugere expectativas nacionais que se instauraram como limites para a identidade nacionalista, cf Gênesis 15,18-20;
Naquele dia Yahweh estabeleceu uma aliança com Abrão nestes termos: “À tua posteridade darei esta terra, do Rio do Egito até o Grande Rio, o rio Eufrates, os quenitas, os cenezeus, os cadmoneus, os heteus, os ferezeus, os rafaim, os amorreus...”.77
76 The Anchor Bible Dictionary, volum e 2, p. 579. 77 Bíblia de Jerusalém .
• Tradição davídica e de Sião - tradição importante para o desenvolvimento da perspectiva escatológica que possui o modelo davídico como estrutura. Composta pela figura do davidida, isto é, da linhagem de Davi, com destaque à cidade de Davi e morada da divindade (Jerusalém e Sião). Essa tradição consistiu em: 1º na expectativa da promessa da linhagem de Davi reinando, cf. 2º Samuel 7;
...a palavra de Yahweh veio a Natã nestes termos... eis o que dirás ao meu servo Davi: ... é Yahweh que te fará uma casa. E quando os teus dias estiverem completos e vieres a dormir com teus pais, farei permanecer a tua linhagem após ti, aquele que terá saído das tuas entranhas...
2º em apropriação de elementos do Antigo Oriente em relação à monarquia como sistema governamental com a idéia de que o rei justo (representante da divindade) é aquele que trará fertilidade, paz, retidão e justiça, cf Isaías 11,1-9;
Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele pousará o espírito de Yahweh...ele não julgará segundo a aparência, ele não dará sentença apenas por ouvir dizer. Antes julgará os fracos com justiça, com equidade pronunciará sentença em favor dos pobres da terra... a justiça será o cinto dos seus lombos e a fidelidade, o cinto dos seus rins.
3º a expectativa em torno da cidade de Davi e Sião, a qual consiste da idéia da morada da divindade na montanha cósmica, da qual rege o herdeiro davídico, cf Salmo 132.
...Porque Yahweh escolheu Sião, desejou-a como residência própria: “Ela é meu repouso para sempre, aí habitarei, pois eu a desejei. Abençoarei suas provisões com largueza e saciarei de pão seus indigentes, de
salvação vestirei seus sacerdotes, e seus fiéis gritarão de alegria. Ali farei brotar uma linhagem a Davi...”.
Há nessa perspectiva a idéia teológica da inviolabilidade da morada divina e da cidade do rei (Sião e Jerusalém). Nessa perspectiva temos o tema do “dia de Deus” como pertencente ao complexo de tradição monarca do Antigo Oriente com suas manifestações míticas que representa os motivos dualistas do combate, o qual é estruturado com características de guerra que resulta na vitória com a entronização de Yahweh como rei, resultando no “Dia de Yahweh”. Em Israel o “Dia de Yahweh” se torna em dia da agressão de Yahweh contra seus inimigos, dentro e fora de Israel, cf a Amós 5,18-20 e Joel 2,1-2;
Ai daqueles que desejam o dia de Yahweh! Para que vos servirá esse dia? Ele será trevas e não luz...Sim, ele é escuridão sem claridade!
Tocai a trombeta em Sião. Daí alarme em minha montanha santa! Tremam todos os habitantes da terra, porque está chegando o dia de Yahweh! Sim, está próximo! Um dia de trevas e de escuridão, um dia de nuvens e de obscuridade!
Essa perspectiva acerca do Dia de Yahweh no pós-exílio implica em conseqüências positivas em relação aos justos (aqueles que mantém a aliança com Yahweh em obediência aos seus preceitos); e negativas em relação aos ímpios (aqueles que se tornaram inimigos de Yahweh por quebrarem a aliança eterna). • Tradição do Sinai – também de grande importância na
formulação da perspectiva escatológica do Antigo Testamento. Implica na aliança que Israel faz com Yahweh, a qual se constitui numa série de estipulações (leis) a serem cumpridas e
obedecidas. A partir dessa dinâmica temos a idéia das bênçãos e maldições. As bênçãos são conseqüência do cumprimento da aliança; as maldições, conseqüência da quebra da aliança, conforme Deuteronômio 28,1-45;
Portanto, se obedeceres de fato à voz de Yahweh teu Deus, cuidando de pôr em prática todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, Yahweh teu Deus te fará superior a todas as nações da terra. Estas são as bênçãos que virão sobre ti e te atingirão, se obedeceres à voz de Yahweh...
Todavia, se não obedeceres à voz de Yahweh teu Deus, cuidando de pôr em prática todos os seus mandamentos e estatutos que hoje te ordeno, todas estas maldições virão sobre ti e te atingirão...
Essas tradições israelitas, formadas e desenvolvidas ao longo do tempo, consistem no resultado da interação social numa dinâmica interna e externa do povo israelita no processo de desenvolvimento histórico. É dessa dinâmica complexa que podemos entendê-las como elementos originários das mais diversas expectativas escatológicas.
Esses elementos originários não se apresentam separadamente numa escatologia por serem exatamente apenas elementos. Uma escatologia pode utilizar partes de todas essas tradições para formalizar sua expectação específica.
Diante dessa realidade complexa trataremos da dinâmica da escatologia no profetismo e na apocalíptica no decorrer do tempo.