Os entrevistados da Federação da Associação dos Moradores respondem que para ocorrer a motivação à participação dos Movimentos, deve-se realizar a
releitura dos fatos por parte das pessoas, o que leva à socialização e à luta comunitária, como explica A1:
[...] É preciso reler, socializar, fazer as pessoas perceberem como quase tudo o que existe foi através da luta comunitária, e que houve sim ajuda, colaboração, parceiros, mas que se não fosse aquele movimento inicial, nada aconteceria. Essa é uma das coisas que se tem utilizado muito, ou seja, mostrar frente, trazer outras pessoas, trazer experiências de fora, ou levar lideranças para outros lugares, para que de alguma forma essas pessoas possam contar a própria história. (S1)
Para A1, o mais importante é “quebrar o sentimento de impotência que as pessoas muitas vezes têm diante dos fatos”, principalmente quando as vitórias são escassas como vêm ocorrendo no atual contexto neoliberal, e explica porque a Federação tem um papel específico:
Atualmente, as classes trabalhadoras, as classes populares, têm perdido muito; toda uma série de direitos que conquistaram foi perdida, quer dizer, a cidadania foi recuando (...) E o nosso movimento comunitário sente muito. (...) Por exemplo, o Orçamento Participativo, nós participamos muito no Orçamento Participativo aqui em Porto Alegre. Mas não necessariamente ele é purificador, na medida que ele não entra nesse debate, não enfrenta o debate com o Estado, aquele serviço histórico; ele não só desconstrói uma condição historicamente anti- popular, como passa a idéia de que, dependendo do Governo, aquela máquina vai funcionar a favor do povo quando nós sabemos que não é bem assim (A1)
Para A2, os participantes da Federação das Associações de Moradores são motivados a participar dos Movimentos pela reflexão sobre as
(...) dificuldades que as pessoas enfrentam no seu local de moradia, no transporte, na segurança. O poder público é insuficiente ou incapaz de solucionar alguns problemas, e o movimento organizado pode sim fazer questionamentos, e ao fazer questionamentos ele motiva e mobiliza as pessoas para determinadas pautas (...). Podemos ir para a área da habitação, para os programas de crédito da Caixa Federal. Existem vários programas que são para pessoas de baixa renda, mas as pessoas que estão no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) ou na Centralização dos Serviços dos Bancos de Sociedade Anônima (SERASA) não têm acesso aos créditos. Isso mobiliza e motiva as pessoas a participarem dessas atividades, dessas “massas”, dessas passeatas, caminhadas, bloqueio de estradas, ocupações de terrenos públicos ou privados. É um conjunto de motivações que mobilizam as pessoas. (A2)
A reflexão sobre esse conjunto de fatos motiva as pessoas a se mobilizarem, refere A2, que acrescenta:
Quando as pessoas vão ao Posto de Saúde e não são atendidas, quando não conseguem uma marcação de consulta, não encontram um médico especialista, essas pessoas percebem que esse é o poder de um
Estado insuficiente. (...) Hoje no Brasil há um patamar de déficit que não pode ser ultrapassado. Nós acreditamos que essa política está errada, nós precisamos avançar. Temos que ter mais recursos para a saúde preventiva, por exemplo, e não para os hospitais (...) Nós acreditamos que se pudéssemos curar as pessoas lá no seu bairro, na sua vila, antecipar os recursos para essa área soro-preventiva, seria um grande avanço (A2)
Mas depois da reflexão e antes da mobilização algo intermediário se faz necessário, novamente a formação política. A1 confirma a importância da
formação política para resolver o problema de todos. Mas que tipo de
formação seria?
Formação, que é socializar uma construção de um conhecimento histórico; não é simplesmente socializarmos o que nós sabemos. Um senso comum, ele é socialização de percepções. Nós temos que ir mais a fundo. E a formação política não é necessariamente motivadora, mas ela ajuda a compreender os passos que devem ser dados e que irão motivar a pessoa a dar passos. A motivação não é necessariamente a coisa a priori. Provavelmente essa consciência vai me ajudar a ver o tamanho do problema que vou enfrentar, mas eu tenho consciência dos riscos, que são necessários para fundamentalmente, no conjunto, superar aquela dimensão de pensar na solução somente o meu problema, ou o problema dos meus familiares. (A1)
A1 insiste na idéia de coletividade, de povo, de classe, “que hoje é uma idéia quase abandonada”, de perceber que se faz parte de uma “classe oprimida, explorada”, ou seja, de recuperar aquilo que Mill (1963, p. 186) atribuía ao âmbito local:
Não aprendemos a ler ou a escrever, a guiar ou a andar apenas porque alguém nos diz como fazê-lo, mas porque o fazemos, de modo que será somente praticando o governo popular em pequena escala que o povo terá alguma possibilidade de aprender a exercitá-lo em maior escala.
No primeiro parágrafo do Programa da Federação, afirma-se:
O que mais aprendemos em nossa experiência do Movimento Comunitário é que só com muita mobilização e muita organização da população se conquistam melhores condições de vida para todos. E, se algo já mudou em nosso país, um longo caminho ainda resta a ser percorrido para fazer do Brasil um país soberano, socialmente justo, democrático, com paz e bem-estar para todo o seu povo. (FEDERAÇÃO, 2006, p. 1)
A Federação assume o compromisso de contribuir socialmente pela superação do neoliberalismo; por um projeto de desenvolvimento sustentável, em defesa da água como bem público universal, pela democratização dos Meios de
Comunicação, em defesa da política de segurança, entre outros. (FEDERAÇÃO, 2006)
A formação política proporciona também a possibilidade da vigilância na fiscalização dos governantes por parte dos trabalhadores. Dias Neto (2005, p. 65) acentua que “o grau de civismo se afere também pela horizontalidade das relações políticas”.