Neste ponto, é interessante diferenciar o ato político da política institucional. O ato político ou ação política é característico das relações travadas entre homens e mulheres uns 50 Cf. TOURAINE, 1998. 51 LALANDE, 1999. 52 CHAUI, 2011, p. 46. 53 Cf. SANTOS, B., 2006, 2006a, 2007, 2008. 54 MORETTI, 2008.
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com os outros no e com o mundo. Toda pessoa, mesmo que não se reconheça assim, encontra-se inserida nesta dinâmica relacional perpassada por intencionalidades e escolhas no interior da coletividade.55 Todo sujeito, é sujeito político.
Entretanto, a ação política não pode ser confundida com a política institucional em si, relativa aos governos, aos pleitos eleitorais e ao estado. No caso desta, é perceptível a exclusão ou o distanciamento de grande parte dos sujeitos, por motivos diversos, da participação nas decisões. Pensa-se ser importante dizer isso porque é comum a confusão entre o ato político — que acontece deliberadamente no cotidiano dos sujeitos dos lugares — e a política institucional, que, ao contrário, não raramente parece distante e inatingível.
[Neste sentido,] ‘o político’ se relaciona com a dimensão antagonista [e conflituosa] que é inerente a toda sociedade humana — um antagonismo [e um conflito] que pode assumir diferentes formas e ser localizado em diversas relações sociais. Em contraste, ‘a política’ pode ser tomada como se referindo ao conjunto de práticas, discursos e instituições que buscam estabelecer uma certa ordem e organizar a vida social em condições que estão sempre potencialmente sujeitas ao conflito precisamente porque são afetadas pela dimensão do ‘político’. Sob esta luz, a política pode ser vista como a pacificação tentada do político, ou a instalação ou encarnação da ordem e de práticas sedimentadas numa determinada sociedade. A despolitização é a tarefa mais estabelecida da política [...].56
Assim, tanto as resistências persistentes, quanto as associadas às subjetivações e contra-hegemonias são perpassadas pelo ato político, estabelecido pelos antagonismos e conflitos sociais. Ação política que, inclusive, pode fazer-se como pressão contra a arbitrariedade da própria política dita institucional e a possível hegemonia por ela imposta.
No interior das resistências, diversas vezes as características de persistência, subjetivação ou contra-hegemonia se mesclam, confundem-se. Noutras vezes, mesmo que elas não se encontrem dentre atos políticos deliberadamente contra-hegemônicos, acabam por carregar características não hegemônicas, cumprindo, assim, uma função importante de explicitação das diferenças e de expressões políticas próprias que acabam por colocar em questão desejos de homogeneização e dominação. Nesse processo de construção de sujeitos e coletividades, encontra-se uma tensão constante — também própria das mulheres e homens do mundo — entre autonomias e dependências.
55 FREIRE, 1980, 1995, 2001, 2002. 56 SLATER, 2000, p. 512.
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Tensões
Refletir sobre a palavra autonomia requer um cuidado primeiro: a assunção de que os sujeitos do mundo são seres coletivos e, por isso, políticos. Mulheres e homens encontram-se uns com os outros no e com o mundo. Apenas são sujeitos a partir do momento em que, entre si, se colocam em relação — inclusive em interação com o mundo. A própria constituição do ser, da sua subjetivação, perpassa por esta relação. A construção do eu e do outro não é dicotômica. O eu se constitui em relação com o outro e do próprio outro. É feito da incorporação de diversos outros. Reconhece-se ou distingue-se através deles. Sem o outro não existiria o eu. Por isso, sujeitos são seres coletivos.57
Desta maneira, os sujeitos se encontram em constante dependência. Entretanto, a palavra dependência pode ter duas acepções distintas: por um lado, pode significar a subordinação do sujeito por outro; mas também pode referir-se à inevitável conexão ou relação que os sujeitos necessariamente mantêm entre si. No primeiro caso, o eu — hipertrofiado, possuidor de máxima valia — subjuga, inferioriza o outro ou outros, coloca- se em patamar de superioridade sobre eles e, de forma egoísta e individualista, sobrepõe o seu eu ao deles, negando-lhes a condição de ser: humano, sujeito, cultural. Assim, as relações entre os sujeitos se reduzem a relações autoritárias, de mando-obediência, de subserviência, de tutela, de servilismo. Relações de desumanização, de sujeição, de aculturação.
Por outro lado, a assunção da dependência como inevitável relação entre os sujeitos do mundo pode significar outras formas de relação entre eles: de superação das dominações e sua consequente desumanização. Significa a possibilidade de processos emancipatórios coletivos. Nesse sentido, a autonomia perpassa pelo reconhecimento da dependência como inevitável relação entre sujeitos. Ser autônomo é assumir esta relação de modo a possibilitar o rompimento das barreiras que impedem a condição humana de ser. É reconhecer que ninguém existe sozinho, que o outro também é um eu, que pode ser singular ou semelhante, próximo ou distante, mas que tem o direito de ser distinto.
Ser autônomo: sujeito político, de relações, capaz de decisão, mas não de maneira egoísta, pensando apenas em si mesmo, como sujeito único e hegemônico no mundo. Ser
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dependente, intersubjetivo, em condições de optar no interior de complexas relações com outros sujeitos, ouvindo, dialogando, interagindo com eles sem reduzi-los autoritariamente a seus interesses e vontades e, ao mesmo tempo, sem deixar-se reduzir e ou subjugar. Sujeito de pensamentos e ações próprias, capaz de escolhas, sem, contudo, ignorar sua condição de dependência junto aos outros e a sua própria condição de outro. Sem desconsiderar que suas decisões e escolhas envolvem tanto a si como também aos sujeitos de sua relação.
Percebida por este ângulo, a autonomia, de sujeitos e suas culturas, deve ser compreendida como exercícios de resistências: resistências às relações de dominação pessoais e coletivas. Tensão constante e inevitável entre coletivos e sujeitos. Resistências às relações de dominação e, inclusive, contra o lado autoritário que, por ventura, reside dentro de si próprio.