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O instrumento básico de proteção aos direitos humanos são os tratados. De caráter vinculante, pelo próprio formato do texto que o faz ser obrigatório, exigindo, geralmente, a sua ratificação pelos países partes, os tratados internacionais geram novos direitos e fortalecem o valor dos já existentes. “Diversamente dos tratados internacionais tradicionais, os tratados de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados, mas sim garantir o exercício de direitos e liberdade fundamentais aos indivíduos”.121

O ideal é que o próprio tratado crie mecanismos de defesa para a violação aos direitos expostos em seu texto, podendo ser através do direito de petição individual, ou pela formação de uma Corte ou comissão, ou aceitação da jurisdição de Tribunal determinado, enfim, qualquer meio plausível de se verificar a manutenção do objeto do tratado e aplicação de penalidade, caso haja a sua não observância. Flávia Piovesan adiciona:122

Os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos envolvem quatro dimensões:

1) a celebração de um consenso internacional sobre a necessidade de adotar parâmetros mínimos de proteção dos direitos humanos (os tratados não são o “teto máximo” de proteção, mas o “piso mínimo” para garantir a dignidade humana, constituindo o mínimo ético irredutível”);

2) a relação entre a gramática de direitos e a gramática de deveres; ou seja, os direitos internacionais impõem deveres jurídicos aos Estados (prestações positivas e/ou negativas), no sentido de respeitar, proteger e implementar os direitos humanos123;

3) a criação de órgãos de proteção (ex.: Comitês, Comissões, Cortes internacionais); e,

4) a criação de mecanismos de monitoramente voltados à implementação dos direitos internacionalmente assegurados.

Além dos tratados internacionais de direitos humanos, as convenções, declarações, cartas, resoluções, pactos ou quaisquer outros textos que alcance o sentimento universal e

120 André de Carvalho Ramos. Responsabilidade internacional por violação de direitos humanos: seus elementos, a reparação devida e sanções possíveis: teoria e prática do direito internacional. Rio de Janeiro:

Renovar, 2004.

121 Flávia Piovesan. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 11. ed. São Paulo: Saraiva,

2010, p. 163.

122 Flávia Piovesan. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 74.

123 A obrigação de respeitar os direitos humanos demanda dos Estados que se abstenham de violar direitos; a

obrigação de proteger demanda dos Estados que evitem que terceiros (atores não estatais) afrontem direitos; por fim, a obrigação de implementar demanda dos Estados que adotem todas as medidas necessárias para a realização dos direitos humanos. (Flávia Piovesan. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 74).

revigore o tratamento humano será considerado como protetor dos fundamentos humanos, e, caso não preencha o requisito formal de vinculação pela ratificação, sua aplicação se dará pelo costume internacional, por isso a necessidade do reconhecimento amplo pelos Estados.

Ainda sobre os métodos possíveis de defesa dos direitos humanos, tem-se os relatórios, as comunicações interestatais e o direito de petição a organismos internacionais. Acionado um dos três, a apreciação caberá a um Comitê, composto por experts, eleitos pelos Estados membros, mas que não funcionam como representantes de determinados Estados, pelo contrário, são pessoas de conhecimento incontestável na matéria de direitos humanos e que atuarão autônoma e imparcialmente.124

A maioria dos tratados internacionais se faz valer da formação desse comitê para instaurar a fiscalização e aceitação de denúncias contra supostas quebras do acordado; é assim no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, no dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, na Convenção sobre os Direitos da Criança, na Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Descriminação Racial e muitos outros. Há de ressaltar-se, entretanto, que não se fala em natureza jurídica sancionatória, sendo verdade que as penalidades têm caráter político e moral, apenas.

Os relatórios visam documentar a satisfação ou não do que foi tramitado e aceitado nos tratados de direitos humanos. Hoje, todos os tratados contam com esse instrumento de fiscalização, devendo ser elaborados pelos próprios Estados assinantes e submetidos ao comitê. As medidas legislativas, administrativas e judiciárias em prol do tratado devem ser relatadas, assim como os empecilhos e objetivos não alcançados. Henry Steiner relembra o seguinte:125

Os relatórios elaborados pelos Estados sobre os direitos humanos internacionais tornaram-se hoje um lugar-comum no plano dos tratados internacionais de direitos humanos. Mas considere quão revolucionária uma idéia como essa pode ter parecido, para grande parte dos Estados do mundo, quase inconcebível, na medida em que deveriam periodicamente submeter um relatório a órgãos internacionais, sobre seus problemas internos de direitos humanos, envolvendo governo e cidadãos, e posteriormente participar de discussões a respeito do relatório com membros daquele órgão, perante o mundo como um todo.

Quanto ao procedimento das comunicações interestatais, tem de haver o mútuo acordo, isto é, para que um Estado parte denuncie o outro, deverá ter ocorrido a prévia anuência com o sistema da denunciação. A cláusula é facultativa, por isso a necessidade da declaração

124 Flávia Piovesan. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

específica dos Estados, que a ela desejam aderir. É através dessas comunicações que um país membro poderá denunciar a provável violação dos direitos humanos por outro Estado, desde que, conforme já antecipado, ambos participem do mecanismo.

O sistema da petição individual, na maioria das vezes, também vem em forma de cláusula facultativa, exigindo, portanto, o reconhecimento anterior do Estado que a isto pretende se ater. Considerado o mais eficaz, o direito de petição possibilita ao indivíduo o acionamento das instâncias internacionais, desde que não incorra em litispendência internacional e que já tenha havido o esgotamento prévio dos recursos internos de reparação. É através desse instrumento que a pessoa humana afirma sua capacidade processual internacional, se fazendo valer das medidas dos Tribunais internacionais para reparar seu direito. Acerca das jurisdições internacionais, seguem os comentários de Flávia Piovesan:126

Como ressalta Richard Bilder, “as Cortes simbolizam e fortalecem a idéia de que o sistema internacional de direitos humanos é, de fato, um sistema de direitos legais, que envolve direitos e obrigações juridicamente vinculantes. Associa-se a idéia de Estado de Direito com a existência de Cortes independentes, capazes de proferir decisões obrigatórias e vinculantes”.

As cortes detêm especial legitimidade e constituem um dos instrumentos mais poderosos no sentido de persuadir os Estados a cumprir obrigações concernentes aos direitos humanos.

É necessário, pois, avançar no processo de justicialização dos direitos humanos internacionalmente enunciados. A justiça internacional em matéria de direitos humanos constitui medida imperativa para o fortalecimento do Estado de Direito e para a construção da paz nas esferas global, regional e local.

Além dos mecanismos convencionais, conforme aduzido alhures, menciona-se os não convencionais, se tratando de procedimentos advindos de resoluções elaboradas por órgãos criados pela Carta das Nações Unidas, como a Assembléia Geral, o Conselho Econômico e Social e a Comissão de Direitos Humanos, tendo, esta última, passado a se chamar, desde 2006, Conselho de Direitos Humanos.127

O Conselho de Direitos Humanos tem por função assumir, revisar e, quando necessário, aprimorar e racionalizar os mandatos, os mecanismos, as funções e responsabilidades da antiga Comissão de Direitos Humanos, com o intuito de manter um sistema de procedimentos especiais, relatorias especializadas e procedimentos de denúncias. Ainda, essas ações não convencionais podem conceder medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos, especialmente

126 Flávia Piovesan. Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 32.

127 Flávia Piovesa. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 11. ed. São Paulo: Saraiva,

naqueles referentes a execuções arbitrárias ou sumárias, à tortura, a desaparecimentos forçados ou involuntários e à detenção arbitrária, as medidas urgentes, são, por vezes, requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. Quanto a execuções arbitrárias, o relator especial transmite a apelação aos governos mesmo nos casos em que não tenham se exauridos os remédios internos para que seja efetiva a tutela buscada.128

Diante de todo esse aparato de fortalecimento aos direitos humanos, bem como agravamento dos métodos de observância a eles, há de se pensar na correspondência da força estatal a tudo isso. O Estado, como ente autônomo, independente, e, teoricamente, auto suficiente, ou seja, o Estado soberano, sobreviverá ao universo paralelo dos direitos humanos? E a democracia, então, como se posicionaria nessa disputa, pois que sequer tem seu lugar tão sobressaído na luta pelos direitos? Como proteger a soberania da invasão exterior universal e vice versa, diz-se, como proteger o universo da invasão soberana?

Benzer Belgeler