Tanto a “seleção por parentesco” como a teoria do altruísmo recíproco causam algum desconforto, pois como admitir que os impulsos mais nobres das pessoas nasçam de determinações genéticas? De acordo com a teoria do altruísmo recíproco de Robert Trivers, ajudar alguém que não é um parente aumenta a aptidão evolutiva de alguém, já que sobre o recebedor pesa uma razoável expectativa de que retornará o favor. Seu argumento é que uma vontade inata de ajudar aqueles que poderiam retribuir um favor, no futuro, teria sido benéfico nas sociedades humanas primitivas, quando as pessoas viviam em relativamente pequenos grupos e podiam identificar quem cooperou com quem. A teoria do altruísmo recíproco foi emprestada a outros campos do conhecimento, em trabalhos como o desenvolvido por Field (2001), nos quais entram considerações relacionadas à economia e outras ciências sociais.
De acordo com Trivers (1971, pp.361-394), há cinco maneiras em que o altruísmo pode ocorrer: cuidado com doentes, compartilhamento de conhecimento, divisão de alimento,
compartilhamento de utensílios e socorro em situações de perigo ou necessidade. A observação que deve ser feita aqui é que, entre seres humanos, se o ato for realizado visando um benefício na forma de ganhos recíprocos, pode ser que a utilização que Trivers faz do termo “altruísmo” não seja propriamente adequada. A interpretação cruzada entre altruísmo e interesse próprio que as teorias de Hamilton e de Trivers, baseadas na biologia, leva ao argumento de que o comportamento altruísta em relação à sobrevivência dos genes no grupo e o altruísmo que busca uma compensação futura podem ser subentendidos como atitudes de interesse próprio: interesse dos genes em se perpetuarem ou interesse dos indivíduos por diferentes benefícios.
Porém, como explicar em termos darwinianos aquelas situações em que não se observa qualquer possibilidade de troca de favores? Devem ser mencionadas as seguintes tentativas de responder àquela pergunta. Os matemáticos Martin Nowak, da Harvard University, e Karl Sigmund, da Universidade de Viena, desenvolveram uma teoria chamada reciprocidade indireta: pessoas querem ajudar alguém que não irão retribuí-las da forma como outras pessoas vêem o ato de caridade. (VOGEL,2004,p.1128). A pessoa generosa, neste caso, constrói uma reputação de cooperadora, e outros que observam este comportamento têm maior probabilidade de cooperar com ela. Também o biólogo evolucionista Manfred Milinsky, do Instituto Max Planck, na Alemanha, e seus colegas têm demonstrado que a reputação é uma importante chave motivadora para a cooperação.
Wedekind e Milinski (2000, pp.850-852), dois pesquisadores da Universidade de Berna, na Suíça, desenvolveram um experimento para indicar o surgimento da reciprocidade indireta, acima mencionada, em situações de interação social. Setenta e nove novos estudantes universitários, que desconheciam as teorias sobre altruísmo, foram recrutados para o experimento. Foram distribuídos em oito grupos e solicitados a participar de um jogo em que poderiam doar dinheiro uns aos outros, mas não poderiam interagir com a mesma pessoa no papel recíproco. Isto é, os que recebiam não podiam devolver ao doador. Os pesquisadores garantiram anonimato aos participantes do experimento, construindo um mecanismo em que cada um tinha um plug para se conectar à caixa com um impenetrável nó de cabos. Os resultados mostraram que os jogadores mais generosos foram também os que terminaram o jogo com mais dinheiro. Os participantes tendiam a recompensar os mais altruístas e negar dinheiro aos menos generosos. O experimento permitia a divulgação do nível das doações a cada rodada, o que foi fundamental para os resultados, apontando o motivo pelo qual a
reciprocidade indireta pode funcionar: busca por boa reputação e “status”, refletindo o modo como um indivíduo é visto pelo grupo.
Em “The problem of altruism”, obra também mencionada no capítulo sobre Psicanálise do altruísmo, Badcock discute aqueles conceitos de altruísmo recíproco e altruísmo de parentesco, e introduz o conceito de altruísmo induzido ou obrigatório. Esta forma não se enquadra como altruísmo se considerado sob a perspectiva convencional ou sob o significado subjetivo e filosófico do termo. Entretanto, tal problema desaparece se for considerado à luz da definição objetiva de altruísmo em uso na biologia. Conforme Badcock (1986, p.121), o altruísmo induzido ocorre nos casos “whenever one organism promotes the
fitness of another at its own expense and without reciprocal benefit to itself or benefit to its
genes present in the recipient”2. O altruísmo induzido poderia, então, até mesmo ser ignorado
por estar muito próximo do que é descrito como egoísmo do outro a partir do ponto de vista da parte explorada. Como o altruísmo induzido beneficia o indivíduo que instiga o comportamento altruísta no outro, Badcock aponta que nos seres humanos se consegue um benefício adaptativo significativo para as pessoas que evitam ser conscientes de seus desejos de induzir o altruísmo nos outros em benefício próprio, enquanto se iludem julgando que eles é que de fato são altruístas. Evita-se, assim, a culpa consciente e a manipulação dos demais é mais eficiente. Ao mesmo tempo, é proveitoso ser capaz de reconhecer os esforços dissimulados, talvez inconscientes, dos demais para induzir-nos a comportarmo-nos de maneira altruísta. Normalmente, o engano se exercerá, tanto em forma de auto-engano como de engano dos outros, como meio de induzir sacrifício altruísta nos demais. A conseqüência do altruísmo induzido é que um é prejudicado, parasitado, manipulado, explorado e geralmente conduzido ao auto-sacrifício que não queria fazer. A auto-consciência é uma defesa óbvia contra tais manipulações porque se alguém pode ser consciente do que está fazendo – particularmente naquilo que é relativo ao seu próprio interesse – então esse alguém pode ser capaz de evitar, escapar ou modificar aquilo que viria a ser o pior efeito de seus atos egoístas. De qualquer modo, o cuidado com o bem-estar de todos pode aumentar o bem-estar do próprio indivíduo, considerando-se aí o interesse de preservação dos genes.
No âmbito das pesquisas brasileiras, Silva e colaboradores (2006, pp.18-24) desenvolveram um interessante estudo buscando comparar justificativas para a prática da “cola” entre estudantes universitários, no Estado de São Paulo, discutindo os resultados à luz
2
Tradução sob responsabilidade do autor: Sempre que um organismo promove a adaptação ou sucesso
reprodutivo de outro às suas próprias custas e sem um benefício recíproco para si mesmo ou benefício para seus genes presentes naquele que recebeu a boa ação.
da Teoria do Altruísmo Recíproco. A “cola” é um tipo de desonestidade, de fraude, já que o estudante mascara suas deficiências em corresponder ao que os docentes requerem dele, utilizando-se de respostas ou textos elaborados por outros, sem que suas fontes sejam identificadas. Acontece com freqüência, quando um estudante comunica ilegalmente a um colega respostas de uma ou mais questões exigidas para avaliação formal. Consiste em uma transgressão, mas os autores do estudo consideram que a prática da cola envolve também alguma forma de altruísmo, já que o estudante que concede a “cola” está reagindo a uma situação de dificuldade de um colega, procurando atenuá-la. Considerando-se tal ação como altruísta, mesmo sendo uma transgressão, ela comporta um custo, pois o que fornece a “cola” corre o risco de ser descoberto e sofrer punições, como o rebaixamento de sua própria nota, que pode chegar a “zero”, quando o docente é mais rigoroso. O estudo foi feito com estudantes de dois cursos de graduação em Engenharia de universidades públicas paulistas. Os autores chamam a um dos cursos de “Com Competição” e ao outro de “Sem Competição”. Esta diferenciação ocorre em função do processo seletivo para ingresso nos cursos. No curso “Com Competição”, os candidatos prestam o vestibular para Engenharia sem especificar a área pretendida, cursando matérias básicas nos dois primeiros anos de universidade. Ao final dos dois anos, as médias das notas obtidas são utilizadas para classificar os estudantes, que terão maior probabilidade de cursar a área de Engenharia pretendida se estiverem melhor posicionados no ranking. Médias elevadas aumentam as chances de ser aprovado para áreas mais concorridas, como o caso de Engenharia da Computação, Mecatrônica e Elétrica. No curso “Sem Competição”, o ingresso à universidade acontece com o aluno já tendo sido aprovado no vestibular para a área de Engenharia pretendida. Nos dois tipos de curso de Engenharia, os estudantes pediram e também passaram “cola” para seus amigos mais próximos. Os resultados mostraram que a “cola” foi mais freqüente na universidade em que não havia competição, quando comparada com aquela em que havia. Ou seja, o comportamento supostamente altruísta tendia a ocorrer com maior freqüência em situações de baixo custo. Em termos gerais e funcionais, os autores entenderam que os resultados estavam de acordo com a teoria do altruísmo recíproco, pois havia a expectativa de quem dava “cola” de que seria retribuído, no futuro, quando eventualmente estivesse em situação desfavorável em uma avaliação.
As discussões podem avançar um pouco mais, a partir daqui, com as idéias defendidas por Dawkins e apresentadas, a seguir.