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A produção acadêmica sobre a história agrária brasileira e rio-grandense, em sua expressão no campo fundiário, tradicionalmente com predominância da visão historiográfica social, cultural e econômica de vertente marxista, tem direcionado suas interpretações sob o tripé imigração-colonização, propriedade da terra-fronteira agrícola, estrutura de poder- relações socioeconômicas sob o aspecto legal. Também alguns trabalhos vêm analisando as relações de poder do Estado, incluindo o Judiciário. Esses elementos que unem essas interpretações vêm possibilitando a discussão referente à mercantilização da terra, à metamorfose de sua renda em capital, às várias formas de transferência de renda da terra, aos sujeitos proprietários e aos submetidos a estes e às expropriações, que podem ser traduzidos e traduzem correlações de força, produtores de relações sociais conflituosas, perpassam, de uma forma ou de outra, na produção historiográfica.51

Uma referência dessa perspectiva historiográfica é a obra Propriedade da terra e

transição, na qual Roberto Smith52 estuda a formação da propriedade mercantil da terra, centrando-se na análise da transição para o capitalismo no Brasil, tendo como contexto histórico o Segundo Império, cuja política de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre iria materializar-se na Lei de Terras de 1850.

O trabalho é um exame do processo de formação do capitalismo no Brasil, no qual o estabelecimento da propriedade fundiária foi regido por uma intenção estatal que procurava impedir o surgimento do “campesinato”, mas não concebia, ainda, a generalização de relações de assalariamento diante da perspectiva da imigração; em outras palavras, “dominar o trabalhador e não comprar sua força de trabalho: esse era, ainda, um requisito do capital mercantil.”53 Assim, buscando explicar as relações entre Estado e sociedade e a transição para

51 Cf. MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas fronteiras do poder. Conflito e direito à terra no Brasil do século

XIX. Rio de janeiro: Vício de Leitura/Arquivo público do Estado do Rio de Janeiro, 1998; SMITH, 1990; ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto gaúcho 1850-1930. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1997.

52 SMITH, op. cit. 53 Ibid., p. 18.

o capitalismo, o autor retoma o pensamento de Wakefield54, buscando inserir a trajetória específica da transformação da propriedade fundiária no país e suas implicações para a compreensão do quadro complexo em que se encontra amalgamado. Para tal intenção, Smith propõe uma periodização, dentro de um âmbito mais abrangente e estrutural, por considerar que a “propriedade fundiária situa-se na confluência de determinações econômicas e políticas das formações sociais”.55

Um primeiro período cobre grande parte das formações sociais do Brasil colônia até o último quartel do século XVIII, indo desde o desenvolvimento adaptativo do regime de sesmarias até a sua desagregação. O segundo período, correspondendo a um interregno, que vai até 1822, ano em que o regime das sesmarias foi extinto, representou um vazio de regulamentação, pois nada veio para substituí-lo, significando uma ruptura com a tradição portuguesa desde o século XIV. A ausência do Estado na ação regulamentadora da propriedade, que se estende até 1850, quando foi promulgada a Lei de Terras, caracteriza o terceiro período.

No final desse terceiro período em diante, de acordo com o autor, com a promulgação da Lei de Terras, que se constituiu no estatuto fundamental do disciplinamento da propriedade da terra no Brasil, estruturaram-se as bases através das quais o Estado conferiria legitimidade à propriedade da terra e tentaria objetivar a separação entre as esferas do público e do privado. Desse aspecto da obra surge, provavelmente, sua contribuição mais significativa às pesquisas que se ocupam do tema na República Velha, e no caso do Rio Grande do Sul, contrapondo as teses que defendem uma ruptura das estruturas político-jurídicas e socioeconômicas. A esse respeito, defendemos a ideia de que é este o ponto de germinação, a partir da metade do século XIX, de novos traços da “moderna propriedade fundiária”, e todo o seu implicante social, político e econômico. Portanto, o que ocorre é a coexistência de elementos do antigo regime com novas necessidades conjunturais; assim, um quadro político e econômico conduzido por uma nova relação Estado e sociedade.

Essa proposição pauta-se nas análises dos processos judiciais que deixam entrever – como demonstraremos nos próximos capítulos – que a Lei de Terras e o Código Comercial brasileiro, ambos datados de 1850, chegam à República com profundas raízes e, em alguns

54 Edward Gibbon Wakefield, economista inglês do início do século XIX forneceu o embasamento teórico do

Conselho de Estado do início do Segundo Império no Brasil, cuja política de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre iria materializar-se na Lei de Terras de 1850. O teórico Wakefield, sob pressupostos do liberalismo econômico, apresenta teses da colonização sistemática, dentre as quais as noções de ocupação, de mercantilização da terra, de incorporação de colônias, do capital mercantil, das rendas diferenciais e da capitalização da natureza. WAKEFIELD, Edward Gibbon. Verbete. Encyclopedia Britannica, v. 23, 1957.

casos, prevalência, assim, convivendo com as novas leis de terra e os novos códigos, que, por sua vez, mantêm muitas de suas prerrogativas; da mesma forma a questão da imigração e colonização, tornando-se alternativas frente aos choques de interesses dominantes prejudicados pelas mudanças em processo.

Na mesma perspectiva temática, mas com distintas diferenças metodológicas, pois com base em um sólido estudo de caso dos conflitos de terras na região de Paraíba do Sul, na província fluminense, no período de 1820 a 1860, Márcia Motta56, por meio de análise histórica acurada, resgata a trajetória de luta pela terra dos homens livres pobres que, por meio do trabalho na cultura dos solos e da posse prolongada de pequenas frações de terra, enfrentaram o poder dos grandes latifundiários, “Senhores e possuidores de terra”, despendiam de todo esforço para garantir seu poder sobre terras e homens, apelavam ao uso da força ou ao espaço privilegiado junto às várias dimensões da sociedade política.

Neste estudo, ancorando-se na análise de inventários, processos57 de embargo e de despejo, relatórios e correspondências oficiais, atas do Legislativo local, cronistas e imprensa da região local e da Corte, evidencia-se a dinâmica dos conflitos pela demarcação das terras dos grandes proprietários ou com as terras cultivadas por homens pobres, mas dispostos a lutar pelo que reconheciam ser o seu direito à terra, conflitos entre grandes fazendeiros, entre estes e pequenos posseiros nas disputas entre grandes latifundiários.

Márcia Mota contribui decisivamente para a superação da visão simplista de que a Lei de Terras de 1850 significou apenas os interesses dos grandes latifundiários. Embasada na noção thompsoniana58 sobre o domínio da lei, procurou interpretar diferentes percepções a respeito das leis e do direito à terra. Dessa forma, resgata o recurso que muitos posseiros fizeram à própria lei, respeitando a complexidade dessas percepções e a densa rede social que elas forjaram. Analisando o procedimento do Poder Judiciário, constata que este proporcionava grandes vantagens à classe dominante no meio rural, como, por exemplo, as

terras devolutas, que poderiam vir a ser ocupadas por pequenos lavradores, as quais eram

frequentemente declaradas parte de domínios já definidos que faziam parte de terrenos pertencentes aos fazendeiros ricos.

Entretanto, através dos processos judiciais, a autora demonstra que o universo rural não se reduzia à certeza do poder dos grandes fazendeiros, pois, ao examinar os conflitos que

56 MOTTA, 1998.

57 A autora identificou 920 pessoas envolvidas em processos cíveis de embargo da Paraíba do Sul/RJ, entre os

anos de 1834 e 1858.

58 As interpretações amparam-se nas análises de E. P. Thompson sobre o Judiciário e os significados da lei na

se expressam em tais litígios, identifica que não faltou resistência, por exemplo, de agregados e arrendatários nas tentativas que empreenderam no sentido de ocupar terras legalmente devolutas. Assim, no conflito de interpretação sobre a lei, a autora elucida a natureza do conflito social em torno do acesso à terra.

São muitos os méritos da obra de Márcia Motta, mas há de se destacar dois deles. O primeiro com relação às novas possibilidades de pesquisa e de fontes no campo do jurídico. Segundo a autora, “a lei tem uma história”59, ao tomar os conflitos de terra entendidos como “disputas sobre o sentido da história”, ou dito de outra forma, disputas sobre determinado sentido da lei. Dessa forma, a interpretação no campo do jurídico, como um campo de forças

em conflito, possibilita ver a lei, em suas lacunas e ambiguidades, como o estudo demonstra

ao trazer a análise do ingresso de pequenos posseiros na justiça reclamando por um direito que acreditavam ter sobre a terra60. Destaca-se, em segundo lugar, a contribuição desse trabalho para a superação das visões reducionistas do homem livre pobre para a sociedade escravista, demonstrando como esses homens pensavam e agiam naquele tempo e, simultaneamente, evidenciando o temor dos grandes proprietários frente à incorporação progressiva de terras não ocupadas. Assim, não se podem encobrir as relações sociais específicas de uma temporalidade por explicações globais acerca da sociedade, da economia e do Estado.

A esse respeito, na produção historiográfica abordando o caso do Rio Grande do Sul, existem alguns poucos trabalhos significativos, entre os quais, destacamos a pesquisa da historiadora Luiza Kliemann61, que verifica não só a dominação exercida pelo Estado através da lei, para fazer avançar o capitalismo no campo, mas também analisa “as várias estratégias de dominação.”62 A autora resgata as singularidades que permitem uma melhor compreensão dos projetos agrários implantados no decorrer da história brasileira.

A investigação63 centra-se na República Velha, entendida como o “berço” dos conflitos e dos problemas sociais pela posse e uso da terra. Para tal análise recua ao século XIX, a partir das contradições surgidas com a aplicação da Lei de Terras de 1850, que não leva em conta as especificidades e os interesses regionais, bem como as formas de sua

59 MOTTA, 1998, p. 22.

60 Discussão presente, especialmente, no capítulo IV, da obra Nas fronteiras do Poder de Márcia Maria

Menendes Motta.

61 KLIEMANN, 1986. 62 Ibid., p. 12.

63 A pesquisa foi desenvolvida sob um sólido corpus documental, como, por exemplo, almanaques, anais,

censos, correspondências, discursos, memoriais, mensagens, memorandos, autos de medição, relatórios, jornais, entre outros, que retratam os conflitos, as ideias e as práticas de época, na perspectiva institucional- oficial. Entretanto, no rol da documentação estão ausentes fontes que tragam evidências relativas às relações de poder tecidas nas esteiras do social.

concretização. Dessa forma, demonstra o descompasso entre a política de terras nacional e provincial, problematiza a mudança trazida pelas reformas que transformaram a “terra em mercadoria”, permitindo que a imigração e a colonização se tornassem para muitos especulação e lucro, ainda esclarece como a sociedade política pensou e resolveu as questões agrárias64.

A autora, recorrendo aos pressupostos gramiscianos, discute as relações de poder ligadas à terra em nível governamental e em outras esferas, como, por exemplo, “no âmbito das relações entre sociedade política e sociedade civil, e no interior das mesmas, tentando com isso refletir mais profundamente o exercício da dominação, a hegemonia e as resistências no interior do estado.”65

No caso do estado do Rio Grande do Sul66, o que fora previsto no programa do PRR foi colocado em prática logo que o partido assumiu o poder, e, por sua vez, entra “no concerto nacional”. As reformas contribuíram para o desenvolvimento econômico do Estado, mas as teses “financeiras e econômicas” colocadas em prática propuseram o controle total da economia pelo Estado e a diversificação fez surgir problemas de ordem política que criaram entrave a aplicação imediata de tal programa. A autora destaca, por exemplo, a Revolução Federalista, expressão de contradições internas da classe dominante gaúcha, que representa a luta intraoligárquica pela manutenção da posição socioeconômica, ou seja, a crise econômica da oligarquia da campanha significou a crise política que o PRR teve de enfrentar.

64 A autora explicita a questão agrária que antecede e principia a República, indicando que o Estado brasileiro

através de formas de dominação legal, instituídas pelo regime republicano, por força da lei e usando o aparato coercitivo, apesar do federalismo, tenta enquadrar, de forma homogênea, a posse de terra no país. O esforço via legal de homogeneizar a posse de terra no país deu-se através das seguintes reformas: 1) Decreto 451-B de 1890 - Sistema Torrens, que promovia a legalização do título de propriedade, era emitido após exame dos documentos pelo juiz de direito e constava em cartório, incorporando os registros de arrendamento, vendas e hipotecas no mesmo título, o que teoricamente dificultava a fraude; a reorganização da estrutura administrativa estabelecendo a divisão da Repartição Geral das Terras Públicas – ligada ao Ministério da Indústria e Obras Públicas – em quatro seções: a de terras públicas, encarregada da colonização e fundação de núcleos; a de imigração, incumbida da localização e serviços dos imigrantes; a seção encarregada de trabalhos técnicos e contabilidade. As inspetorias dos estados foram substituídas pelas delegacias de Terras e Colonização agência de Imigração e Comissão de Terras. Em razão do federalismo, o Rio Grande do Sul possuía, desde 1889, uma Diretoria de Terras e Colonização ligada à superintendência de Obras Públicas. 2) Decreto de 28 de junho de 1890, que trata da questão da imigração e colonização, trazendo as soluções a serem dadas pelos estados aos problemas relativos à pequena propriedade; 3) Decreto de 1890, ato do governo federal, em 1892, entrega a companhias o trabalho técnico. KLIEMANN, 1986, p, 42-49. Diante disso, se o federalismo representou autonomia na organização administrativa e até na gerência das terras devolutas, o que foi efetivado pela Constituição de 1891, por outro lado, atrela os estados à união por meio das leis gerais. Essa política fundiária, de certa forma, significou a perda de autonomia estadual, a desarticulação dos serviços administrativos e fere interesses de particulares com os quais os governos estaduais contavam para promover o desenvolvimento.

65 Ibid., p. 12.

66 Segundo Kliemann, com o aparecimento de uma prática positivista, o castilhismo, surge diversas maneiras de

desenvolver o capitalismo, entre elas, destaca o povoamento da região; a diversificação econômica, a facilidade para a circulação de mercadoria, o equilíbrio orçamentário e a incorporação do trabalhador à sociedade. Questão discutida, especialmente, no segundo capítulo.

Analisando os diferentes percursos das políticas de terras e a implantação da legislação agrária, confirma que as frações de classe dominante, embora dividida, tiveram por objetivo comum o desenvolvimento capitalista no campo. A partir daí, identifica o peso do agrário na manutenção da hegemonia; para tal, analisa as estratégias67 da fração dirigente, entre as quais destaca: a coerção via legal; vasto aparelho administrativo que apresentam uma imagem “moralizadora” dos serviços públicos ligados aos problemas fundiários. Ainda destaca que o Estado procurava aliviar tensões e dar prosseguimento à penetração do capitalismo atendendo às reivindicações das autoridades municipais, com a fundação de colônias e, em função dessas, optou por privilegiar os setores da economia que investiam na agricultura e cede ao capital estrangeiro a implementação de infraestrutura.

A autora conclui que o estado do Rio Grande do Sul, no governo castilhista-borgista, regulou as relações produtivas a fim de fazer avançar o capitalismo, geriu a força de trabalho, o meio circulante e acionou os aparelhos privados de hegemonia. A classe dominante buscou o consenso, mas também usou repressão para enfrentar resistências a seu programa de governo, no entanto, não conseguiu fugir às contradições de tal programa, expresso no fenômeno de “intrusão”.68 Assim, a sua tese, além de representar as origens históricas do problema, analisa o processo de concentração fundiária e os aspectos sócio, político e econômicos contraditórios da relação Estado e sociedade advindos do regime autoritário.

Nessa perspectiva de pesquisa que privilegia o espaço rural em seus diversos desdobramentos, convergem os estudos de Zarth69 e Rückert70, que tratam, especificamente, do Planalto rio-grandense. O primeiro centra sua investigação na expropriação e grilagem de pequenas posses no século XIX e início do XX e ampliação das grandes fazendas; muito próximo dessa questão, o segundo71 examina o processo de “destruição” e “construção” do

67 KLIEMANN, 1986, p. 81-116.

Ao descrever as estratégias da fração de classe no poder, a autora faz uma narrativa detalhada dos vários instrumentos e meios utilizados ao desenvolvimento capitalista, entre estes, dá ênfase às práticas das companhias particulares de imigração e colonização; à comissão de terras; às questões jurídicas de demarcação e legitimação de terras, que revelam ter o governo vendido terras sem se preocupar com a situação dos posseiros; ao uso do colono como trabalhador pago com vales, que, posteriormente passam a cobrar em troca de terras e, muitas vezes, esse processo foi intermediado por companhias particulares que o fizeram por especulação; à montagem de uma força coercitiva, configurando-se na Brigada Militar, na Polícia Administrativa e Judiciária, entre muitas outras medidas.

68 Intrusão, conceito proposto pela autora: o fenômeno de intrusão, significando a contradição da política agrária,

corresponde às invasões de terra que existiram no Rio Grande do Sul, no império em menor escala, tornando- se, na República Velha, por sua extensão, o maior problema enfrentado até hoje.

69 ZARTH, 1997.

70 RÜCKERT, Aldomar A. (1997). A trajetória da terra: ocupação e colonização do centro-norte do rio Grande

do Sul 1827-1931. Passo Fundo: Ediupf, 1997.

71 Não se distanciando da problemática discutida por Zarth, mas com alguns referenciais distintos, Rückert

analisa a ocupação e a colonização, do Centro-Norte do Rio Grande do Sul, em parte do antigo município de Passo Fundo, tendo por fio condutor a “trajetória da terras”, ou seja, a trajetória foi entendida na perspectiva

território através da ocupação e colonização, no período compreendido entre 1827 e 1931. Ambos os estudos, mesmo que de forma tênue, perpassam suas interpretações pela visão da transição capitalista, numa leitura da imigração e da colonização como elementos dinamizadores da fronteira agrícola, mas refutam a ideia de avanço natural de colonização sobre terras livres e inexploradas, dão espaço privilegiado a sua problematizarão sob o viés da mercantilização da terra, à crítica da legislação agrária e à expropriação de homens livres e pobres.

A obra de Zarth é um marco significativo na historiografia rio-grandense, primeiramente, por derrubar a visão tradicional de que a Serra72 era pobre e subdesenvolvida no século XIX, elucidando com consistência e crítica ser neste período que “encontramos as origens das atuais estruturas agrária e social da região.”73

O segundo elemento de mérito da referida obra é a análise da fronteira agrícola através dos contingentes que foram efetivamente os pioneiros, no caso os caboclos extrativistas de erva e pequenos agricultores e, como forma fundamental de expropriação, a privatização da terra pelos especuladores – os grandes proprietários, as companhias e o Estado, bem como o incentivo à imigração com o objetivo de criar mercado para a terra e valorizá-la. Ainda, destaca o caso das colônias oficiais em terras devolutas, que serviram como referencial básico para a imigração generalizada de colonos, que rapidamente ocupavam os núcleos oficiais para avançar e comprar terras dos especuladores, que transformavam áreas de matas em pequenas propriedades agrícolas.

Nesse estudo, o autor comprova com êxito os mecanismos de expropriação dos lavradores pobres por parte da oligarquia agrária e do Estado; portanto, fornece referências básicas sobre a formação da grande propriedade e da expropriação. Entretanto, as análises referentes à legislação agrária, a Lei de Terras e suas regulamentações posteriores, bem como ao não-acesso do homem livre e pobre à justiça para requerer legitimidade sobre a terra, no estudo, ganham ênfase quanto a ideia de impossibilidade. Essa questão está sendo revisitada

dos processos contraditórios de destruição/construção do território desde quando o território meridional encontrava-se isolado da Colônia portuguesa até o momento em que o ‘chão’ foi apropriado por grupos e classes sociais, que excluíram da ordem social outros, como os índios, os negros e os caboclos. O ‘chão’ passa, assim, a ser de ‘alguns’ e não de ‘todos’ os homens. Afirma que concorreram para esse processo

Benzer Belgeler