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Como já dito ainda na introdução deste trabalho, Kant fazia distinção entre uso público e uso privado da razão, sendo aquele destinado ao espaço da liberdade e esse ao espaço do decoro e da obediência. Como modo de explicitar melhor como se dá o

funcionamento desse uso público e uso privado da razão, utilizarei uma passagem de Foucault (1984), de seu texto O que são as luzes, em que discute de modo claro essa distinção do uso da razão tematizada por Kant:

O homem, diz Kant, faz um uso privado de sua razão quando ele é ‘uma peça de

uma máquina’: ou seja, quando ele tem um papel a desempenhar na sociedade e

funções a exercer: ser soldados, ter impostos a pagar, dirigir uma paróquia, ser funcionário de um governo, tudo isso faz do ser humano um segmento particular na sociedade: por aí ele se encontra em uma posição definida, em que ele deve aplicar as regras e perseguir fins particulares. Kant não pede que se pratique uma obediência cega e toda: mas que se faça uso da razão adaptada a essas circunstâncias determinadas; e a razão deve submeter-se então a esses fins particulares. Não pode haver, portanto, uso livre da razão. Em compensação, quando se raciocina apenas para fazer uso de sua razão, quando se raciocina como ser racional (e não como peça de uma máquina), quando se raciocina como membro de uma humanidade racional, então o uso da razão deve ser livre e público (FOUCAULT, 1984, p.339).

Feita essa distinção, quero explicitar porque a diferenciação entre uso público e uso privado da razão apontada por Kant e também discutida por Foucault pode ser interessante para pensar a relação da parceria entre família e escola. Nesse aspecto, ainda dialogarei com Biesta (2013), mas também trarei os apontamentos levantados por Masschelein e Simons (2013;2014) no modo como positivam a escola como uma questão pública eminentemente pública, independente de se atrelar seu financiamento por uma via municipal, estadual, federal ou pelos responsáveis pelos alunos, através das conhecidas

“mensalidades”.

Volto ainda à discussão kantiana sobre os dois possíveis usos da razão. Sua importância é colocada em ênfase aqui por sua concepção de uso público da razão destoar em alguns aspectos de uma concepção política liberal acerca de qual vem a ser o espaço da liberdade.

É interessante ver que Kant coloca o uso público da razão como o uso destinado à liberdade. Há uma estreita relação entre liberdade e uma dimensão pública, entre o uso público da razão relacionado com essa dimensão pública. É nessa relação também que há espaço para a diversidade e para os tensionamentos, embates, divergências e discordâncias de um componente homogêneo do tecido social; e, logo, da pluralidade.

Destarte, não quero correr o risco de dizer “o que Kant realmente queria dizer”, o

que no “fundo isso significa”, até mesmo porque Kant faz uma distinção quanto ao uso da

razão e não quanto ao que seria espaço público ou privado. A distinção desses usos é estabelecida em sua finalidade, ou sua falta de finalidade (como no uso público da razão), e não quanto ao espaço em que a razão é exercida. A finalidade transcende o espaço e ela será o

Para Kant, talvez, por mais que através do uso público da razão possa-se discordar de uma instituição, de uma norma ou ordem estabelecida, é à norma, à instituição e à ordem que o sujeito deve se submeter no uso privado da razão, pois diz respeito ao papel do sujeito na sociedade, como uma “peça de uma máquina”. A manutenção da ordem social através do consenso, como garantia da vida política e em comunidade, parecer ser uma posição política defendida por Kant. A tradição filosófica liberal, por sua vez, também assume traços parecidos. A tentativa de barrar os dissensos da vida pública, como possibilidade mesma de uma vida social, parece ser algo positivado também por Kant.

Entretanto, diferentemente das posições assumidas por Kant, na tradição filosófica liberal, o espaço em que o sujeito está inserido parece ser uma variável de maior importância para definir sob quais condições pode-se dar o exercício da liberdade e da pluralidade. Biesta (2013) é bem claro e conciso ao tratar do modo de funcionamento da tradição filosófica do liberalismo:

Seu objetivo é encontrar uma resposta para a questão de como organizar a coexistência entre pessoas com diferentes concepções de bem, sem dar a prevalência a nenhuma dessas concepções. O primeiro princípio acarreta que os direitos individuais não podem ser sacrificados pelo bem geral e que os princípios da justiça que especificam esses direitos não podem ser propostos com base em nenhuma visão particular de bem. O objetivo é então desenvolver uma estrutura justa dentro da qual os indivíduos possam escolher seus próprios valores e fins, coerente com a liberdade similar para os outros. A distinção entre esfera pública e privada é feita para indicar onde a proliferação de concepções de bem é permitida (na esfera privada) e onde não o é (esfera pública). Isso mostra que há pelo menos uma tendência na filosofia política liberal para ver a pluralidade como algo que apresenta uma ameaça a vida social. [...] Embora o liberalismo considere realmente as questões da pluralidade, é claro que o faz removendo o máximo de pluralidade possível do domínio público (p.107-108).

Enquanto que, para Kant, a liberdade estava em par com o uso público da razão, no liberalismo, essa liberdade é restrita ao espaço privado e não deve interferir no espaço público. Esse espaço público, no liberalismo, deve ser balizado e guiado à luz do estabelecimento das normas sociais, ou o mais próximo delas, a fim de que seja possível a vida comunitária. Posso arriscar a dizer que, nessa concepção da política liberal, o uso público da razão, mencionado por Kant, só é possível no espaço privado, demarcado pelo Liberalismo, pois é somente nele que a liberdade pode ser exercida.

As questões tanto de Kant, quanto aos possíveis usos da razão, como do liberalismo, no que diz respeito aos distintos modos de se pensar o lugar da liberdade, estão embasadas e fundamentadas na defesa de supostos direitos fundamentais dos sujeitos, direitos inalienáveis. Figueiredo (2012), atenta de modo mais detalhado sobre a suposição desses

direitos no modo de funcionamento do liberalismo econômico, no modo como esse aloca essa noção de direito em termos de direitos individuais:

Ao Estado não cabe intervir e administrar a vida particular de ninguém, seja no plano das opiniões, seja no plano da vida doméstica, seja no dos negócios, mas apenas regular as relações entre indivíduos para que nenhum tivesse seus direitos violados pelos demais. Era fundamental, portanto, preservar os espaços da privacidade contra os abusos eventuais dos próprios poderes públicos, limitar o alcance e a força desses poderes: o monopólio estatal do poder de fazer justiça e punir deveria estar completamente subordinado à função de salvaguarda dos direitos individuais, entre os quais se destacava os direitos à liberdade e à propriedade (FIGUEIREDO, 2012, p.130).

Destarte, não quero detalhar a concepção da forma de funcionamento do liberalismo econômico. Tenho somente a intenção de lançar mão dessa discussão para situar brevemente como essa diferenciação entre público e privado, de modo a encontrar conexões com alguns aspectos pelos quais a relação entre família e escola pode ser estabelecida. Nesse caso, é uma forma de analisar qual o espaço pode ser “destinado à liberdade”, à pluralidade e como uma concepção do que constitui uma comunidade política engendra modos de organização e funcionamento da escola e da família.

Ademais, entender como tais espaços são compreendidos pode nos sinalizar como, dentro de algumas concepções políticas e correntes filosóficas, parece haver a primazia de um sobre o outro, como faz parecer o liberalismo econômico ao usar as liberdades individuais como crivo para o bom funcionamento do tecido social. É o âmbito doméstico, o âmbito do íntimo e familiar que deve ser preservado. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o privado se sobrepõe ao público.

Dito isso, penso ser interessante, agora, fazer alguns apontamentos dialogando em conjunto com Jan Masschelein e Maarten Simons (2013; 2014). Tomarei os livros Em defesa da escola e Pedagogia, a democracia e a escola como referências potentes para tratar da relação entre família e escola e desnaturalizar algumas concepções que funcionam para engendrar uma parceria entre ambas.

Além disso, suas análises também serão importantes para elucidar outras perspectivas de entendimento do funcionamento social que não tomam o espaço privado como o espaço destinado à liberdade e dão outro entendimento à relação entre público e privado.

Benzer Belgeler