Compulsando a Constituição da República e o Código Tributário Nacional – CTN a respeito da matéria de sujeição passiva tributária, percebe- se que a primeira é um tanto quanto omissa, em enunciados expressos, no tocante ao tema, ao passo que o CTN aborda o assunto a partir do artigo 121 e seguintes.
Observando o assunto analiticamente, ser sujeito passivo é ocupar um local sintático existente no consequente da norma jurídica, que obriga, permite ou proíbe determinada conduta.
No caso das normas jurídicas de matéria tributária aqui estudadas, tem- se o estudo de uma obrigação, tendo em vista que o objeto da relação tributária é o comportamento em levar dinheiro aos cofres públicos, ou seja, juridicamente, o tributo consiste nisso.
Em suma: o sujeito passivo está obrigado a levar dinheiro aos cofres públicos, pagar o tributo.
A Constituição da República fala em contribuinte em várias passagens do capítulo “Do Sistema Tributário Nacional” e responsável (art. 150, § 7º), sendo possível concluir que sejam as pessoas obrigadas ao pagamento do tributo.
No Código Tributário Nacional, a matéria vem fatiada em dois capítulos: i) capítulo IV, intitulado de “Sujeito Passivo”, cujo assunto é tratado nos artigos 121 a 127; ii) capítulo V, denominado de “Responsabilidade Tributária”, no qual a matéria está disposta nos artigos 128 a 138.
O que se deve deixar claro é que tanto as pessoas descritas nos capítulos “Sujeito passivo” e “Responsabilidade tributária” do CTN são passíveis, em algum momento, de serem obrigadas a pagar o tributo, seja por simples imputação legal, seja como forma de punição. Em outras palavras,
todos podem estar num estado de sujeição passiva tributária, situação na qual sacrificarão interesses próprios em favor dos interesses prescritos pela lei (sentido lato).
O primeiro autor a dedicar monografia exclusiva ao tema da sujeição passiva tributária foi Arnaldo Borges, ensinando que:
Instaurada a obrigação principal, pode o Estado exigir de alguém o pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. Esta pessoa de quem o Estado exige qualquer destas prestações chama-se sujeito passivo da obrigação principal.158
Afirma-se que o contribuinte é aquela pessoa que “realiza” o fato gerador do tributo, ou que se “beneficia” do fato gerador, ou que tenha com ele relação pessoal e direta. É essa relação da pessoa com o fato hipoteticamente previsto em lei o critério para se conceituar o contribuinte.159
Todavia, em que pese a não exclusividade dos textos ao tema, não se pode olvidar de outras doutrinas, importantes e de influência cenário jurídico nacional.
A respeito do assunto tratou Paulo de Barros Carvalho, da seguinte forma:
Sujeito passivo da obrigação tributária é, por sua vez, a pessoa física ou jurídica, privada ou pública, de que se exige o cumprimento da prestação pecuniária. Esse é, em termos jurídicos, o contribuinte, ou seja, aquele deve realizar o pagamento dos tributos eventualmente devidos.160
Na lição de Geraldo Ataliba:
Sujeito passivo da obrigação tributária é o devedor, convencionalmente chamado contribuinte. É a pessoa que fica na contingência legal de ter o comportamento objeto da obrigação, em detrimento do próprio patrimônio e em favor do sujeito ativo. É a pessoa que terá diminuição patrimonial, com a arrecadação do tributo.161
158 BORGES, Arnaldo. O Sujeito Passivo da Obrigação Tributária Principal. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 1981, p. 57.
159 Ibid., p. 58-59.
160 CARVALHO, Paulo de Barro. Direito Tributário: Linguagem e Método. São Paulo: Noeses,
2011, p. 630.
161 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária. 6. ed. São Paulo: Malheiros, 2010, p.
Renato Lopes Becho:
Extraímos do critério pessoal os sujeitos passivos da obrigação tributária que, nos tributos discriminados na Constituição, serão necessariamente aquelas pessoas que realizarem, inquestionavelmente, a materialidade prevista na norma constitucional tributária. Nos tributos não-discriminados, serão aquelas pessoas que realizarem as condutas descritas em dita materialidade. Os sujeitos passivos tributários estão, portanto, umbilicalmente relacionados com a materialidade descrita na norma.162
Luís Cesar de Souza de Queiroz163 ensina que “sujeito passivo
tributário ou contribuinte é o sujeito de direito titular do pólo passivo de uma relação jurídica tributária (determinada e individualizada)”. Afirma ainda que “se o sujeito passivo for outro (responsável ou substituto, p. ex.), a norma terá necessariamente natureza diversa da tributária”.
Maria Rita Ferragut, a partir das lições de Paulo de Barros Carvalho, define sujeito passivo tributário como:
A pessoa física ou jurídica, privada ou pública, detentora de personalidade, e de quem juridicamente exige-se o cumprimento da prestação. Consta, obrigatoriamente, do polo passivo de uma relação jurídica, única forma que o direito reconhece para obrigar alguém a cumprir determinada conduta.
Não percamos de vista esse ponto fundamental: sujeito passivo é aquele que figura no polo passivo da relação jurídica tributária, e não aquele que tem aptidão para suportar o ônus fiscal.
[…]
Contribuinte é a pessoa que realizou o fato jurídico tributário e que cumulativamente encontra-se no polo passivo da relação obrigacional. Se uma das duas condições estiver ausente, ou o sujeito será o responsável, ou será o realizador do fato jurídico, mas não o contribuinte. Praticar o evento, portanto, é condição necessária para essa qualificação, mas insuficiente.164
162 BECHO, Renato Lopes. Sujeição Passiva e Responsabilidade Tributária. São Paulo:
Dialética, 2000, p. 190.
163 QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição Passiva Tributária. Rio de Janeiro: Forense,
1998, p 180.
164 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002. 3. ed. São
Nesse passo, percebe-se que a doutrina não é uníssona em relação ao sujeito passivo da obrigação tributária: uns individualizam este na figura do contribuinte; outros entendem haver uma pluralidade de pessoas possíveis de ocupar o polo passivo da relação tributária, ou seja, submeter-se ao estado de sujeição passiva tributária.
Nessa linha, importante destacar os ensinamentos de Marçal Justen Filho, que dizem:
A expressão sujeição passiva tributária, como é usual, pode indicar uma pluralidade de conceitos. Para os fins da presente tese, utilizamo-la para indicar a situação de submissão, direta ou indiretamente vinculada à figura do tributo. Ou seja, submetida ao regime jurídico tributário.
Identifica-se o regime jurídico tributário como um conjunto de normas e princípios jurídicos cuja unidade decorre de três aspectos.
O primeiro é a destinação e adequação ao suprimento de recurso financeiros ao Estado. O segundo é a relevância econômica (patrimonialidade) das situações eleitas como pressuposto normativo para o dever de entregar ao Estado. O terceiro é a estrita legalidade-tipicidade que caracteriza as normas tributárias.165
O autor paranaense enxerga a sujeição passiva tributária como uma categoria não unitária, ou seja, vislumbra a possibilidade de estabelecer classificações e distinções dentro dela, desde que utilizados critérios jurídicos.166
Da análise da legislação e doutrina pátria, percebe-se que é possível identificar três figuras capazes de submeter-se a um estado de sujeição passiva tributária: i) contribuinte; ii) responsável; iii) substituto.
165 JUSTEN FILHO, Marçal. Sujeição Passiva Tributária. Belém: CEJUP, 1986, p. 345. 166 Ibid., loc. cit.
6.2 Destinatário constitucional tributário