O Diretor inicia seu depoimento procurando localizar a comunidade onde a escola se localiza no contexto urbano do município. Segundo ele, a escola está localizada em um setor periférico da cidade que, como esperado, apresenta todos os tipos de problemas que são considerados típicos de uma periferia pobre:
Aqui é periferia. Periferia com todas as características que uma periferia pode apresentar. Os problemas sociais em geral (Diretor).
Para o Diretor a comunidade onde a escola se localiza tem diversos problemas sociais como a presença do narcotráfico no bairro, a carência econômica e as privações materiais.
O Coordenador, em seu depoimento parece concordar com o Diretor, pois ao falar sobre a comunidade, aponta a carência do bairro como uma das características definidoras dele, dado os problemas de infra-estrutura, de desemprego e/ou empregos de caráter temporário da população e a presença do tráfico de drogas:
É uma comunidade carente de infra-estrutura, de emprego. A gente vê que o trafico está na comunidade (Coordenador).
No entanto, o Coordenador em outros momentos relativiza essa imagem de carência material dos moradores já que muitos alunos têm celulares e computadores em suas casas:
O pessoal fala que aqui é uma comunidade carente, em partes é. Mas a gente vê pelos alunos que não é tão carente assim, eles têm celular, tem computador (Coordenador).
Mesmo que às vezes a privação material dos moradores possa ser relativizada, os educadores parecem concordar entre si ao dizer que o que caracteriza a comunidade onde a escola se insere é a presença do narcotráfico e a pobreza da população, advinda do desemprego, dos empregos temporários e dos baixos salários.
Outras vezes é o trabalho árduo dos pais que se constitui em um problema. Nesse sentido o Diretor aponta que os pais trabalham demais e não têm tempo para cuidar de seus filhos, transferindo as responsabilidades para a escola:
Os problemas, eu acredito, volto até na mesma tecla, que é a família. Às vezes a mãe trabalha 24 horas por dia, não vê a filha, não vê a filha vir pra escola. No período que a filha não está na escola não sabe com quem a filha está, onde está, e vem pedir socorro pra nós, pra nós conversarmos, pra nós orientarmos. E a escola em geral hoje se torna um aparato social. Assim transpõe os limites do só educar. É um aparato social. Então aqui além das matérias em si, a gente tem como meta eles (os alunos) aprenderem a educação formal e também a aprendizagem da convivência, o aprender a conviver (Diretor).
Assim, o Diretor indica que na família dos alunos a mãe nem sempre tem tempo para cuidar ou orientar seus filhos, ensinando a eles as regras de convivência social, de modo que a escola muitas vezes acaba por assumir essa função. O Diretor aponta, no entanto, os limites da função socializadora da escola, pois segundo ele, a instituição escolar sem o apoio dos pais não é capaz de oferecer uma educação integral aos alunos.
Porém a fala do Diretor a respeito das famílias dos alunos é ambígua, pois por outro lado, ele ressalta que as famílias da comunidade conseguem educar os seus filhos de uma maneira que é considerada adequada pela sociedade e “passar muita garra” para eles. Mesmo com problemas familiares, na medida em que várias famílias podem ser consideradas desorganizadas, como as famílias monogâmicas chefiadas só pelas mães, ou aquelas em que os pais, as mães e/ou parentes estão presos, os jovens têm um comportamento que pode ser considerado adequado á sociedade e as normas da escola:
Bom eu acredito que eles tem uma garra, assim muito grande né Eles tem os problemas familiares como muitas famílias que a gente vê, `as vezes é a mãe que é a chefe da família, alguns tem os pais, o pai ou a mãe ou alguém da família preso. Muitos tem este histórico mas nos vemos que muitos deles apesar de tudo isso ainda conseguem
apresentar ainda uma postura, um comportamento, digamos adequados as normas da escola (Diretor ).
Diferentemente do Diretor que aponta as famílias e seus modos de organização como um grande problema da comunidade e que tem reflexos na escola, o Coordenador indica que para ele o maior problema existente na comunidade é o tráfico de drogas, no qual há inclusive alunos da escola envolvidos:
O principal problema aqui é o trafico. A gente tem muito aluno envolvido. O pessoal que trabalha aqui e até vizinhos comentam que determinados locais tá cheio de alunos no meio do trafico (Coordenador).
Assim os gestores, em um primeiro momento parecem discordar entre si quando apontam qual é para eles o maior problema que percebem no bairro. Porem, em um segundo momento eles tendem a se aproximar, pois se assemelhando ao Diretor, o Coordenador diz que os alunos que se envolvem com o narcotráfico são aqueles em que, geralmente as famílias não estão presentes em suas vidas e não têm preocupação com eles:
Os alunos que se envolvem com o tráfico geralmente são aqueles que a família já nem olha, eles já ficam pra rua, a família não tem aquela preocupação (Coordenador).
Para o Coordenador é difícil encontrar pontos positivos na comunidade onde os problemas parecem predominar. E isso parece contaminar a forma pela qual os educadores da Escola percebem a comunidade, a família e os próprios alunos. Mesmo ressalvando que as crianças são carinhosas e mesmo educadas, o Coordenador diz:
É complicado. De positivo, para a escola, acho que falta ainda pra ter alguma coisa positiva (Coordenador).
O Diretor neste mesmo sentido diz que ao preencher o questionário do diagnostico escolar:
Nos colocamos que o principal problema nesse ano de 2010 foi as agressões entre os alunos, principalmente nos portões e arredores da escola. Às vezes é coisa que nasceu aqui e vai desaguar lá fora. Às vezes é coisa que aconteceu lá no bairro deles que eles vêm desaguar aqui. Há um certo grau de agressividade. Por um lado eles são muito unidos e por outro eles apresentam muitas questões de bullying. Às vezes são os preconceitos de raça. Muita violência. Ontem eu acabei de preencher aquele questionário do diagnostico escolar 2010 e nos colocamos que o principal problema nesse ano de 2010 foram as
agressões entre eles, principalmente nos portões e arredores da escola (Diretor ).
Todas essas colocações evidenciam que para os gestores a escola e a comunidade se interpenetram. Uma influencia a outra todo o tempo.
Para o Diretor a prefeitura atua no bairro somente no oferecimento de serviços essenciais à comunidade, como os relativos à infra-estrutura. Isto apesar dessa área ser indicada pela própria Prefeitura Municipal de Rio Claro como área prioritária para a prevenção da violência de jovens. Tanto é que o Diretor desconhece qualquer coisa, ou seja, qualquer programa que a Prefeitura Municipal tenha implantado nos bairros próximos a escola nos últimos anos:
A prefeitura atua no bairro com serviços inerentes, infra-estrutura essas coisas, e é área prioritária embora até agora eu não sei de nada de concreto que tenha sido criado ou construído para que eles (os jovens) não fiquem na rua (Diretor ).
Reforçando essa colocação o Diretor da Escola diz que é necessário construir espaços para que os jovens da comunidade não fiquem na rua. Os locais para os alunos freqüentarem na comunidade são bastante restritos. Não há espaços para lazer no entorno da escola, somente uma quadra municipal que os jovens utilizam para jogar futebol, e se encontrarem.
Também, o Coordenador, no mesmo sentido do Diretor, diz que a prefeitura atua nos bairro apenas no que diz respeito à implantação de infra-estrutura como asfalto e iluminação.
Quanto à infra-estrutura são todos bairros novos aqui embaixo. Colocam asfalto, iluminação, que tem uma boa parte ai que é terra (Coordenador).
De modo que para o lazer os jovens freqüentam outros espaços da cidade como o shopping e o Lago Azul (local em que os jovens se reúnem para praticar esportes, conversar, andar de pedalinho, etc.). O Diretor destaca, no entanto, que muitos jovens não conhecem diversos lugares da cidade, como o shopping. Com isso chega à conclusão de que são alunos que pouco saem de seu bairro:
Sair daqui, até para conhecer a Usina de Corumbataí eles não tiveram essa oportunidade. A maioria deles são alunos que não conhecem o shopping da cidade. Então é o aluno que mal deve sair de casa (Diretor ).
Segundo os gestores as ONGs (Organizações Não Governamentais) pelo menos até onde têm conhecimento não estão presentes na comunidade. Porém o Coordenador ressalta que o PROERD (Programa Educacional de resistência as drogas e a violência), programa promovido pela Policia Militar que oferece um curso explicativo sobre drogas para crianças, tem atuado nas escolas municipais da comunidade de primeira a quarta séries visando à prevenção ao uso de drogas.
Programas direcionados as crianças dos bairros próximos a escola parecem existir na comunidade. Estes programas, conhecido como “Projetos”, são executados e ficam a cargo de associações assistenciais que se fazem presentes no bairro e que promovem cursos de artesanatos e oferecem atividades de lazer que as crianças da comunidade freqüentam no horário inverso ao da aula:
Para adolescentes eu não sei, mas para as crianças tem bastante projetos ai que elas freqüentam no período contrário ao da escola. Envolve artesanato, atividade física. É dentro do bairro, são nas EMEIS. Deve ter algum outro espaço que eu não sei se é de igreja o que é, mas eu sei que muitas vezes eles até não querem vir para o reforço falando que não podem por causa do projeto (Coordenador). Nos temos alguns projetos. O projeto “Gente Jovem”, “Sol Nascente”. Vários. Até a mãe vem conversar pro filho estudar num período para o filho poder freqüentar o projeto no outro. São no bairro mesmo. (Diretor)
Não fica claro tanto na fala do Coordenador como na do Diretor quem oferece esses projetos e para qual faixa etária é destinado. Conforme o Coordenador há muitas instituições religiosas no bairro e que pode até ser que elas atuem na comunidade, mas que ele não tem conhecimento a esse respeito. De acordo com ele, conforme os alunos vão ficando mais velhos, eles vão desistindo de participar dos projetos, permanecendo somente aqueles que gostam realmente das atividades realizadas.
Conforme eles vão crescendo eles vão saindo fora. Mas aqueles que gostam de futebol, esses continuam. Capoeira. Mas eles freqüentam sim (Coordenador).
O Coordenador avalia a participação dos alunos nos projetos como positiva. Embora alunos que briguem ou falem palavrões sejam retirados do mesmo o que reduz a possibilidade de freqüência a eles, principalmente a dos alunos considerados mais problemáticos:
Nos projetos, a gente escuta deles (alunos) que se brigar eles tiram do projeto. Ou se fala muito palavrão. Eles falam fui expulso (Coordenador).
Mesmo que alguns projetos existam nos bairros vizinhos da escola, a ausência de atividades e cursos direcionados aos jovens é marcante e é o que faz com que as famílias custeiem cursos, principalmente de informática, para os seus filhos.
Ainda ao falar sobre o bairro, o Diretor e o Coordenador dizem não ter conhecimento de associações, como de moradores ou quaisquer outras, que atuem na comunidade, pois até então não houve nenhum contato de associações com a escola.
Mesmo com todos os problemas para o Diretor os jovens têm com a comunidade um sentido de pertencimento, de se ver como parte dela:
Eu acredito que eles se vêem sim como parte dela. Fora muitos deles nem conhecem (Diretor).
O Coordenador por sua vez parece acreditar que o comportamento dos jovens na comunidade onde vivem é diferente daquele que manifestam em locais fora dela. Segundo ele, quando os jovens não estão entre seus conhecidos eles mudam de comportamento, como diz:
Eu acho que tem diferença. Quando eles não tão no meio de pessoas conhecidas eles mudam o comportamento. Eu acho que fica melhor, que eu já encontrei alunos que na escola são muito complicados e no supermercado, por exemplo, com os pais, eram um anjinho (Coordenador).
Ser anjinho significa aqui se comportar do modo considerado adequado pela sociedade.
Tais colocações começam a evidenciar como dissemos que a escola e a comunidade se interpenetram todo o tempo. Mesmo assim parece-nos que há certo desconhecimento dos gestores sobre os bairros dos quais os alunos são provenientes. Também, em nenhum momento os gestores levantaram a hipótese de que a escola poderia procurar instituições existentes no bairro para a realização de trabalhos conjuntos e, assim, invertendo a direção: ao invés de ser procurada a escola é quem procuraria os representantes da comunidade.