O Assentamento Menino Jesus fica no município de Água Fria/BA, há 125 km de Salvador e 67 km de Feira de Santana. A área foi dividida em lotes produtivos e uma agrovila. Foram assentadas 212 famílias, cabendo, a cada uma delas, uma média de 40 hectares para o lote e um hectare para a agrovila.
Inspirados pela construção da Escola Nacional Florestan Fernandes38 em Gurararema/SP, o grupo de famílias escolheu utilizar blocos de terra comprimida (BTC) para a construção de suas casas. Em 2003, a Associação Comunitária dos Agricultores Sem Terra do Assentamento Menino Jesus deu início às obras em regime de autoconstrução, foram principiadas 22 casas do total de 212 que seriam construídas.
Conforme Ramos (2010), a influência da Escola Nacional Florestan Fernandes em relação ao sistema construtivo ocorreu pelas seguintes razões:
- o desejo de montar uma estrutura permanente de profissionais atuando com tecnologias alternativas de construção, através da capacitação e profissionalização de assentados na construção civil;
- geração de emprego e renda para as famílias de assentados através da continuidade da fabricação dos tijolos para venda a terceiros;
- apelo ecológico do material de construção, que não leva queimas e utiliza material local; - permitir aos assentados a autogestão de recursos, evitando atravessadores e, assim, permitindo ampliar a aplicação de recursos nas residências;
- baixar custo de mão-de-obra através do trabalho familiar e coletivo.
Diante de dificuldades que o grupo de famílias se deparou, tanto com relação à tecnologia quanto à gestão das obras, em março de 2006 as lideranças locais resolveram procurar o Thaba – Núcleo de Pesquisa e Extensão em Habitação Popular, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Entre novembro de 2006 e março de 2007 o Thaba ministrou um curso de formação profissional de pedreiros, carpinteiros, encanadores, eletricistas e pintores a 48 assentados. O objetivo era que este grupo tivesse maior autonomia para construir, em regime de autogestão, as 212 casas do assentamento. Além do curso de formação habitual que ministra, também
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seriam realizados, pelo Thaba, a seleção de solos e o ajuste do traço da mistura de solo adequada para a fabricação dos BTC’s, o treinamento para a correta fabricação dos blocos e a implementação de almoxarifado apropriado para armazenamento e controle de estoque de materiais de construção (Ramos, 2010).
Desde o início o Thaba ponderou que a construção utilizando blocos cerâmicos convencionais poderia ser mais adequada para erguer as casas. Os motivos apresentados eram a execução mais rápida das casas, uma vez que não seria necessário empregar esforços na fabricação de blocos, e por permitir futuras ampliações dos imóveis de maneira mais facilitada39. Entretanto, as lideranças do assentamento optaram por manter o BTC pelo motivos anteriormente explicitados. A partir desta definição, o Thaba elaborou proposta de trabalho utilizando este sistema construtivo.
O curso foi organizado em quatro equipes de trabalho, cada uma com 12 aprendizes. Cada uma dessas equipes ficou responsável pela construção de uma casa, dentro da programação das atividades práticas. A infraestrutura do curso, em formato de canteiro-escola, foi organizada da seguinte maneira:
“O canteiro-escola compreendia as áreas previstas para realização do acompanhamento sócio-pedagógico dos cursos, sala de aulas teóricas, cozinha e sanitários. Para sua instalação, foram reformadas duas casas, já existentes, com pintura e colocação de portas e janela, próximas aos lotes em que ocorreram as atividades práticas dos cursos.
Com relação ao almoxarifado, o assentamento já utilizava um galpão, onde eram armazenados os materiais de construção. Contudo, como inexistia uma logística de armazenamento e de controle de estoque, o Thaba introduziu procedimentos com relação aos pedidos de saída de material, e organizou a distribuição interna de ferramentas e materiais conforme o tipo de utilização – esgoto, elétrica, pintura, carpintaria, dentre outras finalidades.” (Ramos, 2010)
Em seus cursos de formação em construção, além de ensinar uma disciplina de uso e organização de um almoxarifado, o Thaba costuma frisar como esta se trata de uma instalação que, quando bem gerida, contribui de maneira efetiva para o bom andamento de uma obra, principalmente as de maior porte ou aquelas onde se constroem várias unidades e edificações, como era o caso do conjunto de residências.
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Como a tecnologia de BTC adotada era estrutural e, portanto, armada com colunas e vergas de concreto, em módulos de 1 m ou pouco mais, a demolição de paredes e a interface de novas divisórias apresentaria maior complexidade que aquelas executadas em paredes convencionais de bloco cerâmico.
Foram selecionadas duas pessoas, indicadas pelas lideranças locais, para atuarem integralmente como almoxarifes. Estas seriam responsáveis não só pelo controle da entrada e saída dos diversos materiais e itens de construção, como também pela análise do estoque. Desta maneira a obra flui sem percalços e cronogramas estabelecidos podem ser mais facilmente contemplados. O funcionamento do canteiro-escola e do almoxarifado seguiu a dinâmica de um canteiro de obras real, com procedimentos e normas para retirada de materiais (Ramos, 2010).
Com relação ao projeto das residências, já haviam sido adotadas, pelas famílias, quatro opções de plantas antes da chegada do Thaba ao assentamento. Entretanto, não haviam quaisquer detalhamentos destes projetos. Para um melhor acompanhamento do curso, por parte dos alunos, foi desenvolvido o projeto executivo completo das casas, incluindo projetos arquitetônico, hidro-sanitário e elétrico. Além disso, algumas dimensões das plantas adotadas pelo MST foram ajustadas, de modo a compatibilizá-las à modulação dos BTC’s. Outra alteração realizada pelo THABA foi um rebatimento no eixo longitudinal das plantas, de modo a obter melhor implantação das residências no lote, promovendo condições mais adequadas de insolação e ventilação para as moradias (Ramos, 2010).
O curso foi realizado entre novembro de 2006 e março de 2007, com atividades divididas entre teóricas e práticas. Dentre as atividades teóricas, além daquelas específicas de cada profissão/atividade de canteiro, conforme Ramos (2010), foram inicialmente abordados os seguintes conteúdos:
- Legislação trabalhista – acordos coletivos de trabalhos e direitos trabalhistas;
- Noções de saúde e segurança no trabalho – prevenção, EPI's, acidentes e suas causas, e NR- 18;
- Leitura e interpretação de projetos de edificações habitacionais – plantas baixas, cortes, fachadas, coberturas, fundações, estrutura e locação;
- Produtividade – noções de gestão e organização do trabalho;
- Matemática básica – adição, subtração, multiplicação e divisão; noções de medida (comprimento, perímetro, superfície e volume); noções de geometria (estudo da reta, estudo da área, estudo do volume); porcentagem;
- Manuseio de calculadora – como ferramenta de trabalho para calcular áreas, volumes e quantificar materiais.
Com relação às atividades práticas, cada casa foi erguida por uma equipe de 12 educandos. Acompanhados por educadores e monitores com experiência na construção civil, os alunos vivenciaram as seguintes atividades, conforme a profissão (Ramos, 2010):
- pedreiro: locação, escavação, fundação, marcação e levante de alvenaria, realização de empena, contrapiso, chapisco, reboco, revestimento de piso e parede;
- carpinteiro: montagem de telhados, montagem e instalação de portas e janelas, instalação de forro;
- encanador: marcação e corte de paredes, instalações de água fria e de esgoto, instalação de reservatório e de louças sanitárias;
- eletricista: marcação e cortes de paredes, montagem de circuitos, de quadros e de pontos elétricos; e
- pintor: preparação de superfície e aplicação de tinta.
Além disso, para cada uma dessas profissões, foram abordados os temas: quantificação de serviços e cálculo de orçamentos.
Como de costume nos cursos de formação ministrados pelo Thaba, os alunos receberam uma bolsa-auxílio de R$100,00 (valor de 2006 e 200740). Esta bolsa tem o objetivo de auxiliar no custeio com o transporte, além de simular uma remuneração, de modo a inseri-los na realidade do mundo produtivo. Apesar de não terem despesas com deslocamento, uma vez que o curso foi realizado no assentamento, a bolsa-auxílio foi mantida e, conforme depoimentos dos trabalhadores, foi de vital importância para permitir sua participação no curso (Ramos, 2010). Membros das famílias tiveram de abandonar sua produção agrícola para comparecer às atividades de formação, de carga horária integral. Apesar de ser um valor que não pretendia cobrir as necessidades básicas de uma família, o montante fez grande diferença em seu orçamento, dada a realidade em que vivem as famílias recém-assentadas.
Conforme afirmado anteriormente, durante o curso de formação, 4 residências foram construídas. Considerando as 22 já iniciadas antes da chegada do Thaba, após o período de aprendizado, seria necessário dar prosseguimento à construção de mais 186 casas para totalizar as 212 que formavam o assentamento.
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O saláro mínimo, na época do curso, era de R$350,00. Fonte:
http://www.previdencia.gov.br/servicos-ao-cidadao/informacoes-gerais/historico-valor-salario-minimo- teto-contribuicao/
Ao longo da duração do curso, diversas reuniões foram realizadas entre os alunos e a equipe do Thaba, de modo a organizar um planejamento para a construção das 186 unidades restantes. Nessas reuniões foram discutidos os prazos para a realização de cada atividade de construção da casa, bem como a organização das equipes de trabalho e o uso dos recursos provenientes do INCRA. Para a continuidade das obras após o curso, os alunos foram organizados em 10 grupos de 4 trabalhadores e o tempo de construção de cada residência foi estimado em 45 dias. Ao final de longo processo de reuniões, foi estabelecido um cronograma de 2 etapas, onde seriam construídas 100 casas num primeiro momento e as 86 restantes no segundo momento, além de determinados de que maneira seriam utilizados os recursos financeiros, que incluía a mão de obra (Ramos, 2010).
A partir deste planejamento, o Thaba formatou uma proposta de assessoria técnica para prosseguir no acompanhamento e orientação da execução das casas restantes. No entanto, não foi encontrado um parceiro para viabilizar financeiramente a proposta. Desta maneira os assentados precisaram, após o curso, construir as demais casas em regime de autogestão, sem qualquer assistência (Ramos, 2010).
Após a conclusão das atividades do Thaba no assentamento, logo ocorreram duas grandes mudanças no processo de construção das casas, conforme Ramos (2010): a mudança no sistema construtivo (Fig. 3.11) e a reorganização das equipes de trabalho.
Figura 3.11: Exemplo de casas construída com BTC e com blocos cerâmicos, respectivamente (Ramos, 2010).
Com relação ao sistema construtivo com Blocos de Terra Comprimida (BTC), a sobrecarga de trabalho originada pela fabricação dos blocos começou a pesar para as famílias, cada uma delas havia ficado responsável pela fabricação dos blocos de sua casa. Eram necessários 8000 unidades para a construção de cada casa.
Se esta responsabilidade não houvesse sido descentralizada e dividida entre as famílias, as equipes de trabalhadores formados ficariam responsáveis pela produção de 1.488.000 blocos para as 186 casas. Tal demanda poderia atrasar a construção das casas em sobremaneira, além de gerar trabalho extensamente repetitivo, caso uma determinada equipe ficasse responsável por toda a produção destes blocos.
No entanto, a divisão da produção entre as famílias, que a princípio pareceu boa solução, também apresentou alguns problemas. Conforme Ramos (2010), esta organização resultou em grande rotatividade na operação das prensas de BTC. Esta situação demandava constantes treinamentos e dificultava o controle de qualidade da produção.
Além disso, algumas famílias passaram a pagar para que outros assentados fizessem seus tijolos, de modo a terem suas casas logo construídas. Pagava-se R$ 230,00 para a equipe que produzisse os 8000 tijolos, independentemente de quantas pessoas formassem tal equipe (Ramos, 2010).
Além da sobrecarga de trabalho causada pela fabricação dos blocos, os trabalhadores notaram que a casa erguida com blocos cerâmicos tradicionais poderia resultar em economia significativa na quantidade de cimento empregado, especialmente se as paredes não fossem rebocadas (Ramos, 2010). Não revestir, apesar de não ser solução satisfatória, e reduzir a modulação da armação de concreto representava a redução de 60 para 35 sacos de cimento (Ramos, 2010). Não foram encontrados detalhamentos a respeito de quanto deste montante era empregado no reboco, no entanto, tal contenção de despesas foi de suma importância para o avanço das obras já que, em dado momento, foi necessário realizar uma reprogramação dos recursos financeiros disponíveis, uma vez que havia sido constatado que estes não seriam suficientes para construir todas as casas da vila agrícola.
Outra situação que promoveu a alteração do sistema construtivo foi o tempo de execução das alvenarias. A construção com BTC levava 45 dias para ficar pronta enquanto a construção com blocos cerâmicos levava 25 dias (Ramos, 2010). Não foram encontrados detalhes sobre os porquês desta diferença de tempo na produção. No entanto, as famílias aguardavam ansiosas a conclusão de suas casas pois, além de mudar para suas casas definitivas, poderiam acessar recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) após a regularização do crédito para habitação obtido junto ao Incra (Ramos 2010).
Apesar de cada unidade residencial ficar pronta em tempo mais curto, os prazos finais não foram diminuídos. Um dos motivos foi o abandono do planejamento feito junto ao Thaba.
Mudou-se o sistema construtivo, mas não foi refeito o cronograma elaborado durante o curso. Seguiram com a construção sem o estabelecimento de metas ou prazos (Ramos, 2010).
Outro fator que resultou em demora na conclusão da construção das casas foi o fim dos recursos para remuneração da mão-de-obra. A solução para tal percalço foi a adoção de um regime de mutirão para a execução das últimas casas. No entanto, não houve uma organização prévia para a realização destas obras, o que repercutiu em lentidão na produção (Ramos, 2010).
Conforme Ramos (2010):
“A primeira etapa da construção das casas da agrovila, com a construção de 198 moradias financiadas inicialmente pelo Incra, foi finalizada em outubro de 2009. Em agosto de 2010 o crédito habitação para a segunda e última etapa, com 14 casas, já havia sido liberado, e a construção estava prestes a ser iniciada. Desta forma, serão construídos os 212 lotes da vila agrícola.”
Não é objetivo desta dissertação analisar o processo de formação de trabalhadores da construção civil, para isto podemos recorrer ao trabalho de Ramos (2010), base de informações deste subcapítulo, dentre outros autores que tratam do tema. No entanto, pode- se observar, no curso, a presença de elementos no conteúdo abordado que estão relacionados à prática das profissões do canteiro de obras. Uma preocupação que vale destacar é a formação de um trabalhador que conheça todas as frentes de profissões de um canteiro. Desta maneira, mesmo que o operário venha a se especializar, ele terá noções do todo da obra e terá condições de atuar com maior autonomia no canteiro, compreendendo os porquês de diversas atividades, o que permite criar, alterar e questionar soluções para as diversas situações complexas que surgem no cotidiano de produção.
No entanto, observa-se que a situação social daquelas famílias foi fator marcante para determinar de que maneira conduziriam a obras de tantas casas por si só. A falta de recursos para uma assessoria técnica resultou em diversas dificuldades, como a falta de revisão de planejamentos (de cronogramas e de recursos), a alteração de sistema construtivo sem o acréscimo de atividades41, as dificuldades na produção dos blocos de terra comprimida.
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BTC’s, no geral, não precisam de acabamento. Estes blocos se encaixam e o assentar fica padronizado por não haver uma altura de argamassa determinada manualmente. Há, no entanto, a aplicação de uma argamassa de fechamento de frestas, mas a quantidade é muito pequena quanto comparada àquela empregada no assentamento de blocos convencionais. A mesma situação, a de não revestir, é considerada questionável para blocos cerâmicos. A qualidade de execução da alvenaria deve ser ótima para não gerar problemas como orifícios que exporiam as paredes para a entrada de umidade e pequenos animais como insetos e afins.
Com relação à produção dos BTC’s, apesar de o Thaba ter alertado para as dificuldades posteriormente verificadas pelos trabalhadores e pelas famílias, o grupo de assentados adotou o sistema construtivos por motivos muito plausíveis, principalmente no que diz respeito à autonomia das famílias para gerir seus recursos. Entretanto, quando as dificuldades de produção pesaram para cada família e também para os trabalhadores encarregados da construção das casas, as vantagens inicialmente consideradas foram desmanteladas.
Fabricar 8000 blocos de terra comprimida não é tarefa simples e, a cada família, seria necessário algum apoio para que pudesse dar conta da produção, uma vez que este não era o tipo de trabalho ao qual estavam habituados. Apesar de ter execução relativamente simples, a produção dos BTC’s merecia um acompanhamento que auxiliasse as famílias na organização da produção, na operação das prensas manuais e na avaliação da qualidade dos blocos, entre outras dificuldades individuais.
Mas nem sempre os recursos acompanham as necessidades. E, numa situação como esta, a tecnologia convencional acabou por atender as famílias de maneira mais plena. Apesar de terem de repassar (“atravessar”) seus recursos a um fabricante de blocos cerâmicos (que por sua vez explora os seus), e a despeito de alguma perda de qualidade construtiva (falta de acabamentos), este foi o material que supriu as necessidades daquelas famílias e trabalhadores para que pudessem concluir as obras. Algumas técnicas de construção com terra, quando aplicadas em algumas realidades (como esta dos assentados da Água Fria/BA, a mesma de muitas famílias Brasil afora), revelam que a produção é fator primordial a ser considerado no momento de escolha do sistema construtivo.