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Existem momentos nos quais, quase à revelia da consciência, o pensamento social registra uma mutação. Parece que isto ocorreu no Brasil. De repente, depois de anos de crítica ao autoritarismo, à exclusão social e à exploração econômica da maioria da população, os textos dos cientistas sociais começam a falar do “novo” (CARDOSO, 1984, p.09).

O fato é que após o golpe de 1964 o recrudescimento da repressão e a intensa modernização econômica, promovida sob a ditadura, colocaram à intelectualidade brasileira a necessidade de realizar novas investigações, como também de rever, criticamente, os marcos teóricos com os quais até então havia trabalhado, a fim de produzir interpretações teóricas distintas sobre os fenômenos e os processos que ocorriam na sociedade brasileira, em especial com relação às teorias do desenvolvimento que haviam vicejado nos anos anteriores. Não é a esmo que Bernardo Sorj, sociólogo que apresenta um dos primeiros estudos sistematizados sobre o Centro, a partir de um primeiro projeto de pesquisa elaborado conjuntamente com Antonio Mitre, aponta que: “A caracterização das ciências sociais no Brasil no período pós-64 é fundamental para compreender o impacto do CEBRAP, seja pelo público alvo ao qual dirigiu sua produção, seja pelas tendências gerais que perpassaram a produção das ciências sociais no país” (SORJ, 2001, p. 63).

Nesse sentido, podemos observar de acordo com Celina Peixoto (1993, p.109) que:

Com as dificuldades institucionais do final da década de 1960, decorrentes da quebra do modelo político até então vigente, as Ciências Sociais se voltaram, com o objetivo de explicar o presente e entender o processo histórico, para uma procura dos erros e acertos cometidos no passado.

Nota-se que, enquanto herdeiros da tradição uspiana incorporada por Florestan Fernandes, esse grupo de intelectuais traria consigo a idéia da “superação dos obstáculos estruturais à emergência da ordem social competitiva” de Fernandes, atrelando-a à necessidade de implantação da democracia como contrapartida ao Estado autoritário-burocrático. E o CEBRAP surge numa conjuntura em que o Brasil vive um florescimento das ciências sociais, ainda que a universidade encontre-se isolada do restante da sociedade, o regime indiretamente, aumenta sua coesão interna devido à repressão e lhe dá o sentido necessário para que a produção intelectual não decline até a paralisia. Em outras palavras: lhe dá um alvo de crítica – a ditadura – e um objetivo – a democracia (SORJ, 2001).

Constata-se que desde o momento em que surge o Centro, há um empenho entre seus membros em distanciar-se tanto das tradições isebiana quanto das leninistas, fossem elas mais ou menos identificadas com a esquerda revolucionária ou nacionalista. Pretende-se com isso não só realizar a crítica do nacionalismo e do varguismo, mas também se distanciar das vertentes esquerdistas que haviam optado pela luta armada. Dessa forma, os intelectuais do CEBRAP, ao se afastarem do tradicional papel de porta- voz da nação, acreditavam estar assumindo uma postura ‘moderna’ e voltada para os estudos sobre a realidade político-social brasileira. Buscava-se, assim, construir uma nova “interpretação do Brasil”. Como ressalta Milton Lahuerta (1999, p.135 e p.149; 2001, p.69):

... esses estudos personificaram o início da ruptura com a cultura política dos anos 60 e a incorporação de novos temas à agenda pública. [...] Aos poucos caíram em desuso várias das posições presentes entre políticos e intelectuais, demonstrando que uma nova ‘interpretação do Brasil’ estava se impondo, relegando muitas das elaborações teóricas dos anos 50 e 60 e pretendendo uma revisão do pensamento político no país [a fim de] superar [seu] viés terceiro- mundista, a idéia de Estado paternalista, o revolucionarismo (bravo, mas ineficiente). [...] assumindo a participação nas instituições da “sociedade civil” como o caminho para se democratizar e substituir a forma de Estado autoritária.

Observar -se que nos anos que se seguiram após o Golpe a sociedade brasileira passa por um processo de modernização conservadora colocada em prática pelo Regime Militar e que, conforme Arantes (1992), “inscrevia o atraso do país na atualidade internacional”, apoiando-se num desenvolvimento econômico que desvinculava-se de qualquer contexto democrático, “pondo fim a uma experiência de democracia populista

considerada intolerável para as classes dominantes brasileiras” (TOLEDO, 1997). Diante dessa conjuntura, surgem novas interpretações sobre a sociedade no meio intelectual, a fim de se compreender a “essência” do regime, uma vez que se abandonava a estratégia de capitalismo nacional, tendo como contrapartida o capitalismo dependente ou associado. Além disso, adverte-se a contribuição do Centro para a análise sobre “o papel que as novas camadas sociais produzidas pela modernização autoritária passariam a jogar, no sentido da democratização do país” (LAHUERTA, 2001, p.71).

As Ciências Sociais passam a ser o alvo propício para investimento, como instrumento de uma “engenharia social”, que deveria prover análises sobre a conjuntura do país, fosse na área de estudos empíricos ou teóricos voltados para a política e a economia, cujos resultados refletiriam na formulação de políticas governamentais, de modo que, segundo Miceli (1993, p.61):

Não dispondo ainda do apoio governamental considerável de que vieram a desfrutar com a expansão dos órgãos públicos de fomento na área de ciência e tecnologia (FINEP, CNPq e CAPES, em especial) já na década de 1970, os cientistas sociais pareciam talhados para lograr a repercussão pública necessária em arenas políticas cruciais para o desenvolvimento econômico e social, habilitando pois uma elite cultural a produzir impactos fora e mesmo longe de sua esfera estrita de competência.

Nesse momento, eram constantes os questionamentos e as reflexões sobre as possibilidades de estratégias que a sociedade poderia buscar para superar o atual regime. “Haverá a contrapartida de um pensamento político capaz de devolver sentido e limite à presença militar na sociedade?” (CARDOSO, 1984).

Todavia, não podemos nos esquecer que os temas de investigação propostos a princípio pelos pesquisadores do CEBRAP constituíam a continuidade de indagações anteriores formuladas nas universidades e nos centros de pesquisas a que foram vinculados. Com isso, definem-se as pesquisas em torno dos problemas de população e emprego, marginalidade urbana, desenvolvimento econômico, formação das classes populares e dos movimentos urbanos, cujas pesquisas desencadeariam as principais linhas de pesquisa do Centro.

De qualquer forma, o mote das análises dos cientistas sociais nessa conjuntura parece ser inspirado pelo caráter do próprio Regime, conforme descrevem Cruz e Martins (1984, p.13):

O movimento político-militar que derrubou o presidente João Goulart demonstrou possuir aquela qualidade que Maquiavel punha acima de tudo: a capacidade de conservar o poder conquistado e ampliá-lo. Por outro lado, porém, registra-se o fenômeno da mutabilidade. Longe de ter permanecido sempre idêntico a si mesmo, o regime sofreu diversas transfigurações, ora regredindo na direção do Estado de exceção, ora progredindo na direção oposta.

Nesse intento de construção de novas interpretações sobre o Brasil, verifica-se a presença de temas referentes à sociedade civil e à democracia por meio de uma abordagem metodológica marxista que deu combustível para a crítica feita, por exemplo, ao populismo e ao partido revolucionário, como contraponto ao método estrutural funcionalista presente nas décadas anteriores. Criticava-se ainda a existência de um Estado que era autoritário e burocrático, indo para além da interpretação funcionalista14 dos intelectuais da esquerda, que viam no estado um aparelho repressivo

das classes dominantes. De modo que, “a erosão da sociedade civil ‘legítima’ através dos métodos do regime militar não pode ser dissociada da reconstituição contínua de uma sociedade civil autônoma, transcendendo os limites da dominação de classe” (DREIFUSS&DULCI, 1984, p.97).

Observa-se que a década de 1970 faz emergir na cena política a ação do intelectual, tendo como palavra chave de seu discurso a “democracia”. Com isso, se expressava não apenas a hostilidade à Ditadura, como também o descobrimento de uma “idéia nova”, que será difundida juntamente com a expressão de sociedade civil:

O fenômeno mais importante que caracteriza a evolução política dos intelectuais – a descoberta da sociedade civil e da democracia política – enraíza-se talvez na crise de referências que serviam antes para garantir sua identidade: o nacionalismo, o populismo, a configuração da sociedade pela via estatal. Esse fenômeno, porém, remete sobretudo à necessidade de levarem em conta o contexto no qual intervêm, à adoção forçada de estratégias de racionalidade limitada e à adaptação forçada às condições de incerteza (PÉCAUT, 1990, p.281/282).

14 A título de nota, a respeito do funcionalismo Mannheim irá elucidar: “A teoria mecanicista e

funcionalista é altamente valiosa como uma corrente na pesquisa psicológica. Falha, entretanto, quando se refere ao contexto total da experiência vital, porque nada diz sobre o fim significativo da conduta... o modo mecanicista de pensamento somente é útil quando o objetivo ou o valor são indicados por outra fonte e somente os “meio” são considerados (MANNHEIM, 1968, p.47).

É importante salientar que, de acordo com Lahuerta, de 1974 a 1979, vivenciávamos um contexto em que a sociedade civil se afirma enquanto conceito e realidade, contrapondo-se ao Estado ditatorial. O Estado passa a ser projetado como o grande vilão, cujos poderes de intervenção na economia precisam ser minimizados e, em contrapartida, projeta-se a possibilidade de uma sociedade civil fortalecida e em oposição ao Estado. Ao referir-se à sociedade civil, Cardoso observa:

O tema da sociedade chamada civil ficou na moda, e então se usava quase como um modo de dizer, porque não se podia falar de luta de classes, não se podia falar de classe, então se usava sociedade civil contra o Estado. Sociedade civil, de acordo com quem sabe a origem desse termo, simplesmente são as classes. Não é o lado bom da sociedade, é o lado da sociedade em que o setor econômico e o setor social se organizam e não incluem o Estado. A descrição técnica é: sociedade civil, por um lado, e o Estado pelo outro (CARDOSO, 1981, p. 26).

Constata-se, num primeiro momento, uma cisão entre Estado e Sociedade Civil, jogando às sombras um movimento muito mais complexo de dialética entre esses dois níveis. Essa resultante advém de um processo que se inicia nesse contexto, quando o debate intelectual começa a se pautar no fortalecimento e reorganização da sociedade civil como o combustível necessário e inevitável para a abertura do Regime.

Contudo, este tipo de análise, bem como outras que se criam sobre o papel da sociedade civil, muitas inspiradas em Gramsci15, acabam por gerar uma ambigüidade

conceitual, ainda que, segundo Lahuerta (2001, p.76):

... não teriam maiores conseqüências político-práticas durante os anos 70. Afinal, nessa hora tratava-se de somar todas as forças para combater, isolar e derrotar o regime militar, também visto como personificação extremada de todas as taras do Estado burocrático- autoritário. No entanto, as divergências de avaliação teriam um forte papel na cisão do movimento democrático ao longo dos anos 80.

15 Tendo por base a teoria Gramsciana, equivocadamente, empregava-se os conceitos de Sociedade Civil e

Estado como sendo pólos opostos e antitéticos, numa interpretação dicotômica, compartimentando Estado e Sociedade Civil em duas ordens justapostas sem dialética. Esse tipo de dicotomia, na verdade, ofuscava um nexo interno banindo, assim, a dialética. Não há em Gramsci nenhuma separação ou distinção entre sociedade civil e sociedade política. Estrutura e superestrutura formam uma unidade dialética que compõem um mesmo “bloco histórico”. A sociedade civil figura-se, então, como o cenário onde se tornam possíveis a concretização das hegemonias, dos consensos. Sobre esse assunto consultar: Nogueira, M.A. “Gramsci Desembalsamado: em torno dos abusos do conceito de sociedade civil”, In Educ. Foco, Juiz de Fora, V. 5, nº2, p. 115-130 - set./fev., 2000/2001.

Observa-se que após 1978, o papel do intelectual se tornaria mais claro com relação aos enfoques profissional-institucional e político, inclusive pela participação das ciências humanas na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) (Lahuerta, 1999). É importante lembrar que desde 1975 a SBPC concede um espaço considerável às Ciências Sociais, matando, segundo Pécaut (1990, p.274), “dois coelhos numa cajadada só: no que toca às ciências sociais, torna-se a garantia de sua legitimidade científica; no que diz respeito a si própria, é a prova de que a ciência não pode ignorar a política”. Em 1976, a SBPC assume abertamente a luta pela democratização, tornando-se uma de suas preocupações a liberalização do regime. Com isso, as Ciências Sociais passam a ter presença marcante nos Encontros, quando em 1977 declara sua oposição aos “atos e procedimentos que contrariam os direitos do homem”. Nesse contexto, os intelectuais: “Em nome da ciência e da profissionalização, erguem-se diante do Estado como uma verdadeira comunidade com vocação eminente para falar dos ‘direitos do cidadão’(PÉCAUT, 1990, p.277)”.

É significativo dizer que a SBPC representará, enfim, uma referência institucional e profissional que permite aos intelectuais articularem-se com o Estado, que por sua vez libera financiamento tanto para o campo da cultura quanto para o da ciência.

Além do CEBRAP, o Jornal Opinião, a SBPC e o MDB tornam-se veículos que potencializam a intelligentsia brasileira a comprometer-se com o campo político, no que diz respeito aos seus esforços para a democratização do país. Segundo Milton Lahuerta, teríamos, a partir da articulação entre estas instituições, a constituição de uma espécie de “partido” difuso, um “partido informal” composto por filósofos, artistas, economistas, estudantes, cientistas sociais ou, para usar a expressão de Paulo Arantes, formava-se um “partido da inteligência” que assume um inédito protagonismo político durante os anos setenta e “se engajam numa luta de resistência democrática” (LAHUERTA, 2001).

Sobre este aspecto Pécaut (1990, p.280) afirma que:

De fato, essa intelligentsia de oposição redescobre para si, mais do que nunca, um destino de ator político que não se coloca “acima da sociedade”, nem se rende aos prazeres da ideologia: dessa vez, se instala dentro da sociedade e do sistema de relações de forças.

Nesse contexto da década de 1970, vislumbra-se a presença de concepções políticas e intelectuais diversas, no que diz respeito ao processo de transição da sociedade brasileira que, segundo o ideário intelectual da época, necessitava caminhar de um Estado Autoritário e de um regime militar para um Estado de Direito e um regime democrático que deveria resultar, entre outras coisas, do “protagonismo da sociedade civil”. Assim, surgem concepções distintas sobre as estratégias de ação política, os movimentos sociais, o Estado, o fortalecimento da sociedade civil, etc. Segundo Lahuerta, sobre este aspecto das análises distintas produzidas neste ambiente:

Basta notar que enquanto Cardoso centra o foco de sua análise na perspectiva de construção de um sistema partidário capaz de expressar o pluralismo dessa sociedade civil, amenizando a importância do tema das classes sociais e de sua identidade, Weffort radicaliza seu posicionamento quanto ao potencial de ruptura do movimento operário, valorizando os movimentos sociais, especialmente o movimento sindical, como o elemento mais dinâmico dessa sociedade civil emergente (LAHUERTA, 2001, p.77).

Todavia, estas diferenças analíticas terão, efetivamente, um impacto político a partir de 1979 com o processo da reformulação partidária, pois até então observa-se a existência de uma intelligentsia aparentemente unida em torno de objetivos intelectuais convergentes, ainda que, com resultados diferenciados.

No decorrer dessa década, visualizamos um desenvolvimento das ciências sociais no Brasil, como já destacamos, que não encontra eco em outras realidades latino-americanas solapadas pela Ditadura Militar e que tiveram a intensidade de sua vida universitária reduzida. O que exemplifica esta condição frutífera das universidades no país é a constituição de um sistema de pós-graduação nacional, seguido por um processo de profissionalização e especialização que aceleram o crescimento das universidades no Brasil. Nesse momento entram em cena a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que ao fornecerem bolsas e recursos de apoio à pesquisa na pós-graduação, ampliam o sistema e impulsionam os recentes sistemas de pós-graduação, com uma formação sistemática de cientistas sociais neste nível.

Em síntese, ressaltamos que este grupo determinado de intelectuais, que se reuniu para dar existência a uma instituição autônoma no decorrer dos anos de 1970, já

revelaria indícios de sua tendência natural pelo campo político, na medida em que coloca explicitamente em questão a composição do meio intelectual como parte da arena política. Este modo de pensar seria impulsionado inclusive pela escolha dos temas dessa intelligentsia, que valorizava como nos indica Pécaut: o “concreto”, “o particular”, “a conjuntura”, a “prática”, concebendo assim uma política unida à prática e ao conhecimento como componentes da realidade.

Tendo por base o encadeamento das ações nesse período, teremos um:

Novo encontro com a palavra intelligentsia, reivindicada pelos pensadores dos anos 30 e pelos ideólogos de 1950. Mas é verdade que, após 1974, os intelectuais assumem o aspecto de um ator político, participando integralmente das interações com outros atores políticos, sem ignorar as reivindicações corporativistas, mas inserindo-as no conjunto das manifestações da sociedade civil (PÉCAUT, 1990, p.300).

O resultado, dentre outros, seria a construção de um debate intelectual em contato direto com a conjuntura e que, no limite, procurava interferir nas formulações políticas a respeito do país, no que tange à superação do Estado autoritário, à reativação da sociedade civil e à democratização necessária. Nesse contexto, conforme nos sugere Pécaut fazendo uma alusão aos anos 1930, os intelectuais satisfazem sua “vocação de elite dirigente” na medida em que os espaços públicos por onde circula o poder começam a aceitar, ainda que de forma velada, essa função intelectual. Isso ocorre, mais precisamente, a partir de 1974, quando adquirem um “espaço mínimo que lhes permite voltar à cena política” (PÉCAUT, 1990). Talvez, ao invés de “voltar” à cena política, no caso específico dos intelectuais do CEBRAP, o termo correto a ser utilizado seria “ingressar”, uma vez que estes intelectuais nunca haviam participado da cena política.

No que se refere à transição dos intelectuais para o cenário político, é importante não perdermos de vista que esta escolha está além de uma simples opção que ocorre em determinado momento e em determinadas circunstâncias factuais, como muitos poderiam concluir. O impulso que está por trás, ao darem este passo para o exercício de práticas políticas, ultrapassa os conflitos reais ou uma orientação particular de classe. Nessas condições, afirmaria Cardoso em 1975: “a política é o reino do novo”, o que se confirma pela escolha dos temas abordados pelos pesquisadores do CEBRAP, como também pela relação que mantinham com tais temas. De qualquer modo, acreditamos, como explicitou Karl Mannheim em seus estudos clássicos sobre o intelectual, que este:

“é motivado pelo fato de que seu treinamento o equipou para enfrentar os problemas da hora a partir de diversas perspectivas” (MANNHEIM, 1974).

E, assim, a partir de 1978, parte de seus intelectuais dirige-se definitivamente para o campo político: do mesmo modo que Cardoso se candidata a Senador por uma sublegenda do MDB, outros pesquisadores do CEBRAP ingressariam de alguma forma na esfera política, como foi o caso de Paul Singer (ocupou cargo executivo do Partido dos Trabalhadores da cidade de São Paulo), Francisco de Oliveira (militante do Partido dos Trabalhadores), Francisco Weffort (secretário geral do Partido dos Trabalhadores, ministro da cultura do governo Fernando Henrique Cardoso), Juarez Brandão Lopes (assessor de governo de Fernando Henrique Cardoso), José Serra (deputado federal, senador, ocupou cargos executivos do governo do estado de São Paulo e no governo federal, foi ministro da saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso e atual governador de São Paulo), Vilmar Faria (assessor especial da Presidência de Fernando Henrique Cardoso), Bolívar Lamounier (consultor não-eleito a deputado federal) e Carlos Estevam Martins (ocupou vários cargos executivos no governo do estado de São Paulo), que acabaram por definir uma trajetória acadêmico-política (SORJ, 2001).

Inclusive, a candidatura de Cardoso teve grande impacto no Centro, traduzido positivamente pelo relatório de atividades daquele ano, ao discorrer sobre o aspecto da participação da Instituição na vida cultural e política do país, todavia, sem perder sua especificidade da pesquisa científica e da crítica à realidade brasileira:

Sob este último aspecto, o ano de 1978 teve como circunstância de especial relevo a candidatura de um de seus membros, Fernando Henrique Cardoso, ao Senado. Sua campanha, centrada no tema “Democracia para Mudar”, propôs-se como objetivo de expandir o debate em torno da redemocratização do país e da progressiva eliminação de desigualdades injustificáveis. A votação por ele obtida, geralmente reconhecida como significativa e talvez até surpreendente,

Benzer Belgeler