Como já traçado na introdução deste estudo, a rotina do Judiciário Trabalhista será o palco para o desenvolvimento de mais este capítulo, diante da função social que ocupa. E assim, todas as reflexões deverão ser feitas e dirigidas valendo-se deste cenário.
No campo acadêmico tem-se que procedimento é a veste formal do processo, traduzindo-se na sua roupagem, dividida em quatro espécies: ordinário, sumário,
sumaríssimo e especial. O procedimento atua como uma sequência de atos no decorrer da relação jurídico-processual. Já o processo é instrumento para a obtenção da manifestação do Estado-Juiz, como uma forma de atuação. Não são sinônimos, mas, também, não são antônimos.
Contudo, a prestação jurisdicional não pode se dar apenas por vontade do Judiciário, daí a máxima do “nemo iudex sine actore”194, consagrada no artigo 2º do nosso diploma processual civil 195, também nominada de inércia judicial.
Desta forma, o processo é o meio de que se vale o Estado-Juiz para cumprir a sua função de distribuir a justiça. O processo é, pois, o instrumento da jurisdição. É constituído por uma série de atos dos órgãos jurisdicionais, de atos dos seus sujeitos ativos e passivos, cuja participação é necessária, tendentes ao cumprimento da função jurisdicional que é a atuação da vontade da lei aos conflitos ocorrentes, ou seja, da realização do direito.
O critério de classificação dos processos é o mesmo que se adota para a classificação das ações sendo que as formas processuais guardam relação com as tutelas jurisdicionais pretendidas.196
Voltando ao procedimento cabe afirmar que ele funciona como um conjunto regulador de atos concatenados dos quais se constitui o processo, fincado em disposições legais e que dizem respeito à forma, à sequência, ao lugar, à oportunidade etc, com que eles devem eles se desenvolver.
Como já dito, os conceitos de processo e procedimento não são idênticos. Na verdade, num mesmo procedimento podem existir e serem decididos diversos processos, como é o caso da reunião de processos (CPC, art. 105197). Da mesma forma, “pode haver dois procedimentos para uma só modalidade de processo, a exemplo, como o de conhecimento (CPC, arts. 271 e 272)”.198
194 Não pode haver manifestação judicial se não houver provocação do jurisdicionado.
195Artigo 2o Nenhum Juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o interessado a
requerer, nos casos e forma legais.
196 Assim está estipulado no artigo 270 do Código de Processo Civil.
197 Artigo 105 - Havendo conexão ou continência, o Juiz, de ofício ou a requerimento de qualquer das
partes, pode ordenar a reunião de ações propostas em separado, a fim de que sejam decididas simultaneamente.
198ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo, 3a. edição, Malheiros Editores Ltda.
Como conclusão, o processo situa-se como instrumento de realização e exteriorização do poder. E agindo como instrumento é uma forma constituída por atos ordenados que norteiam a relação jurídica. Já o procedimento implementa o ritmo que é capaz de movimentar o processo para atingir o fim. É o lado visível do processo em sua forma.
Como modalidades de fases do procedimento, tem-se o procedimento em primeiro grau que se apresenta estruturado conforme as fases lógicas, que tornam efetivos os princípios fundamentais que o orientam: princípio da iniciativa da parte, princípio do contraditório e princípio do livre convencimento do órgão judicial.199
Formulado o pedido pela parte autora, via de regra, abre-se uma oportunidade para que o réu se manifeste, diante do princípio do contraditório. Estabelecidas as manifestações das partes, para que o Juiz possa formar a sua livre opinião sobre o caso em debate, sua convicção sobre a veracidade dos fatos alegados, é necessária uma apreciação cautelosa de todas as provas juntadas.
É sobre as provas que o Juiz, formando seu convencimento, irá julgar a causa fazendo atuar a vontade da lei ao caso concreto.200
Mas, nem sempre estas fases mostram-se delineadas.
O importante, porém, para a sua caracterização é mais a predominância com que se dá cada uma das atividades correspondentes do que a exclusividade das mesmas.201
Em complemento:
199THEODORO Júnior, Humberto. Processo de conhecimento, tomo I, Rio de Janeiro: Forense,
1978, p. 413.
200BARBOSA Moreira, José Carlos. O novo processo civil brasileiro, 5. Ed. Rio de Janeiro:
Forense,, 1983, p. 5.
201THEODORO Júnior, Humberto. Processo de conhecimento, tomo I, Rio de Janeiro: Forense,
Quanto mais concentrado é o procedimento, mais se torna difícil a limitação das fases. É bem mais fácil a verificação fronteiriça das fases no procedimento ordinário, do que no procedimento sumário onde a concentração das atividades atinge um grau elevado.202 Do que acima foi visto resulta a presunção de que o procedimento deverá conter diversas fases, conforme as atividades desenvolvidas. No procedimento ordinário as fases podem ser observadas com melhor definição. Assim: a fase postulatória, a fase de instrução, a fase decisória, a fase recursal e a fase executória.
A primeira delas, a postulatória, representa a oportunidade da formulação e propositura da demanda. A outra, em seguida, é responsável pela colheita de provas em suas mais variadas espécies (depoimento, testemunhos, perícias, documentos etc) e deve direcionar ao Juiz subsídios para o seu convencimento e assim pronunciamento.
A fase de julgamento ou decisória, “conforme o estado do processo, pode ser precedida de uma extensão da fase postulatória, também chamada de fase intermédia de ordenamento do processo”203, que pode ensejar diversas alternativas. Essa fase pode corresponder à das providências preliminares, quando o Juiz poderá determinar que se as cumpram ou, não sendo necessárias, proferirá julgamento conforme o estado processo pelo que consta do art. 328, CPC204.
Neste julgamento conforme o estado do processo, por seu turno, poderá ocorrer: a extinção do processo sem resolução do mérito, julgamento antecipado da lide, se a matéria for de unicamente de direito, ou, se de direito e de fato, não houver necessidade da produção de prova em audiência, seja por ter havido confissão, seja pelo fato já estar suficientemente provado por documento, produzido na inicial ou na resposta e quando ocorrer a revelia que é representada pela ausência da resposta do réu, ainda a extinção do processo com resolução do mérito, ou seja, se ocorrer o
202 BARBOSA Moreira, José Carlos. Ob. cit. p. 6.
203 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras linhas de Direito processual civil, vol. 2, 19ª ed. por Aricê
Moacyr Amaral Santos, São Paulo: Saraiva, 1997, p. 128.
204 Art. 328. do CPC - Cumpridas as providências preliminares, ou não havendo necessidade delas, o
Juiz proferirá julgamento conforme o estado do processo, observando o que dispõe o capítulo seguinte.
reconhecimento do pedido, a renúncia, o reconhecimento da decadência ou da prescrição ou da transação.
Neste passo, a quarta fase, representada pela faculdade das partes recorrerem da decisão ou não. Se não houver recurso, a sentença que encerra o procedimento em primeiro grau de jurisdição, a rigor, encerra o processo definitivamente. Aí se inicia a execução que é a oportunidade dentro do processo de se satisfazer aquilo que já se encontra decidido e definido pelo Judiciário.
Deve ficar registrado que o procedimento sumário tem uma estrutura muito mais simplificada e concentrada que aquela do procedimento ordinário, tendo em vista que o primeiro tem por escopo ofertar uma solução mais célere a determinadas causas, especificadas em face de seu valor ou em face de sua natureza.
Assim são observadas a concentração e simplificação dos atos processuais, de tal modo que a atividade postulatória e a atividade instrutória acabam se interpenetrando.
Sua estrutura é tão simplificada que, nos conformes da lei, pode-se dizer que as fases postulatória e instrutória já podem ser exercitadas em grande parte na audiência de instrução e julgamento, passando- se em seguida à decisão (arts. 277 a 280, CPC).205
Embora concentrado, o procedimento sumário não é de cognição sumária, isto é, superficial.206 No sistema brasileiro, a despeito da concentração dos atos processuais e da denominação, a cognição é plena, circunstância que dirige às partes a oportunidade irrestrita de demonstrarem em Juízo tudo o que de fato se deu e assim deverá ser considerado.
Óbvio que estamos falando de matéria que guarda relação com o que vai ser apreciado e decidido, sendo que a expressão “irrestrita”, acima mencionada, deve ser dosada em obediência a uma outra expressão “razoável duração do processo”207, de âmbito constitucional. Buscando por uma sequência lógica de 205 BARBOSA Moreira, José Carlos. O novo processo civil brasileiro, 5. Ed. Rio de Janeiro:
Forense, 1983, p. 8.
206 GRECO Filho, Vicente. Direito processual civil brasileiro, volume 2, 12. Ed. São Paulo: Saraiva,
1996, pág. 89.
207 Constituição da República Federativa do Brasil, Art. 5º, LXXVIII: “(...) a todos, no âmbito judicial e
inserção dos capítulos bem como de compreensão do leitor, segue a relação entre as partes integrantes do embate jurídico em conjunto com o instituto da ética.