• Sonuç bulunamadı

A imediata identidade entre os atos considerados indevidos contra as imagens imperiais com o crime de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) é algo que parece ter sido muito significativo no caso do Levante das Estátuas. Essa relação entre estátuas [ou quaisquer imagens que portassem a efigie imperial] e crime de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) não é fortuita e nem arbitrária. Durante a História do Império Romano, é possível mapear casos de acusação de maiestas (VxEHLD/ NDTRVfZVLM) relacionados a esses objetos que eram considerados ainda mais sagrados no contexto da Antiguidade Tardia (BONFANTE, 1964:408).

A associação entre estátuas (ou imagens imperiais) e maiestas teve procedência e recebendo amplo apoio já em finais do período Republicano. Logo, podemos considerar que a relação entre estátuas e o crime de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) pode ser remontada ao período da República Romana, tradicionalmente periodizada entre os anos 509 a.C. e 27

ƒ’À–—Ž‘ͷȂ†‡•–”—‹­ ‘†‡‹ƒ‰‡•‹’‡”‹ƒ‹•…‘‘…”‹‡_ϭϴϳ



a.C.22, e o caso de Gaio Verro pode ser aqui um exemplo a ser mencionado acerca das particularidades daquela relação.

Em 70 a.C., Gaio Verro foi acusado de ser responsável por um mau governo durante seu mandato como praetor na Sicília entre os anos 73-71 a.C. e, em razão disso, um tribunal foi instaurado para julgar os atos considerados ilegais daquele magistrado e Cícero, nomeado promotor do caso, escreve os discursos que ficaram conhecidos como Verrines (ou In Verrem), nos quais apresenta as acusações e o processo contra o acusado23.

As denúncias contra Verro foram trazidas em nome da população da província da Sicília ao Tribunal de Repeduntae e o conjunto das acusações foi interpretado sob a conjugação de várias leis: a Lex Cornelia de Repetundis; a Lex Cornelia de Peculatu; a Lex Cornelia de Maiestate (COWLES, 1929:429; ALEXANDER, 1990:87, 88, 91).

As acusações contra Verro eram as mais diversas: má administração, corrupção, injustiça, roubo, extorsão, ineficiência, arbitrariedade, covardia (COWLES, 1929:431). Dentre essas acusações, consta a acusação de apropriação indevida de vários objetos sagrados pertencentes à província, a remoção de algumas estátuas, inclusive, objetos de propriedade privativa de indivíduos (FRAZEL, 2005:363)24.

As apreensões ilegais realizadas por Verro, claramente, identificadas, dentre outros objetos, são: uma alegoria de Hímera em bronze; uma estátua de bronze do poeta Estesícoro; quatro estátuas da casa do ilustre Heios de Messana, a primeira, uma estátua de mármore do cupido Praxiteles, uma estátua de bronze de Hércules e mais duas estátuas de bronze do tipo Canéforas que não eram consagradas, mas apenas ornamentais; uma Diana de bronze da cidade de Segesta; uma estátua de Mercúrio de Tíndari, uma estátua de Apolo em Agrigento;



22 Aqui adotamos a periodização tradicional uma vez que não poderíamos discorrer no espaço dessa Tese o

debate implícito na temática das classificações e categorias de períodos históricos. Todavia, é digno de nota que a periodização de contextos históricos é fundamentada em elementos particulares que as definem e classificam-nas de uma determinada forma. As periodizações são compostas mediante motivações de caráter político e são, de qualquer maneira, questionáveis em seus parâmetros de escolhas. Não obstante, adotaremos a periodização tradicional na medida em que ainda consideramos uma periodização válida considerando as devidas ressalvas de que a mudança de sistema político não significa necessariamente uma mudança nos comportamentos e padrões culturais da sociedade.

23 O caso de Gaio Verro pode ser conhecido mediante os escritos In Verrem de Cícero. D. H. Berry (2006:3-4)

argumenta que os Verrines são constituídas de sete discursos relacionados a esse caso, a saber: um primeiro e preliminar discurso chamado Divinatio in Caecilium seguidos de mais seis discursos denominados In Verrem I e

In Verrem II sendo este último composto de discursos numerados de 1 a 5.

24 Sobre a acusação de remoção de estátuas, conferir, especialmente, o In Verren II, 4. A seguir, os excertos que

tratam especificamente da acusação de Gaio Verro no que se refere à remoção de estátuas. “Vnum hoc crimen

videtur esse et a me pro uno ponitur, de Mercurio Tyndaritano; plura sunt, sed ea quo pacto distinguere ac separare possim nescio. est pecuniarum captarum, quod signum ab sociis pecuniae magnae sustulit; est peculatus, quod publicum populi Romani signum de praeda hostium captum, positum imperatoris nostri nomine, non dubitavit auferre; est maiestatis, quod imperi nostri, gloriae, rerum gestarum monumenta evertere atque asportare ausus est; est sceleris, quod religiones maximas violavit; est crudelitatis, quod in hominem

ƒ’À–—Ž‘ͷȂ†‡•–”—‹­ ‘†‡‹ƒ‰‡•‹’‡”‹ƒ‹•…‘‘…”‹‡_ϭϴϴ



entre outras estátuas (BERRENDONNER, 2007:205, CF. N.2; COWLES, 1917:95-135). Verro ainda foi acusado por Cicero de ter se apropriado de vinte e sete pinturas e portas entalhadas do templo da deusa Minerva (FRAZEL, 2005:368).

Essa espoliação do patrimônio da província da Sicília por Verro, conjugado com os outros atos, significou a possibilidade de uma acusação grave e, em última instância, a acusação de maiestas se necessário fosse (BAUMAN, 1967:30-31). No final do processo, Verro foi considerado culpado in absentia uma vez que se exilou voluntariamente antes do veredito ter sido promulgado e condenado a pagar uma indenização cuja quantia não é definida e a permanecer em exílio pelo resto da vida (COWLES, 1917:190).

No Principado, o primeiro caso de que temos notícia é a acusação de crimen maiestatis contra Faiano e Rúbrio, membros da ordem equestre, acusados de desrespeito à divindade de Augusto, em 15 d.C. (ROGERS, 1935:8). As acusações chegaram ao conhecimento de Tibério. Todavia, esse imperador, em carta aos cônsules, informa que os casos não precisavam ser julgados nem mesmo levados a sério.

Essas acusações não resultaram em julgamento ou processo e os indiciamentos foram anulados. Temos conhecimento desse e de alguns outros casos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) mediante o relato de Tácito em seus Annales. Sobre esse caso, em particular, assim, relata Tácito (Annales, 1, 72-3):

Eu não serei cansativo em recordar o caso de Faiano e Rubrio, membros humildes da ordem equestre, de maneira que se familiarize com as fases iniciais da existência de uma forma severa de aniquilamento, dado o grau de habilidade de Tibério, foi suprimida e depois, finalmente, foi reacendida e que abrangeu tudo. O acusador de Faiano lançou sobre ele a acusação que, entre os reverenciadores de Augusto (que foram mantidos em cada casa em forma de colegia), ele tinha se associado a um Cássio, um mímico de má fama devido ao indevido uso de seu corpo e que, ao vender o seu jardim, ele tinha descartado junto e, ao mesmo tempo, uma estátua de Augusto. A acusação de Rubrio foi que ele tinha violado a divindade de Augusto mediante perjúrio. Quando esses casos se tornaram conhecidos a Tibério, ele escreveu aos cônsules e disse que decretar um lugar nos céus para seu pai não pode significar que essa honra se tornaria a ruina de seus cidadãos: o ator Cássio, entre outros da mesma profissão, estava acostumado a assistir aos jogos que sua própria mãe havia consagrado à memória de Augsuto e que as representações de Augusto poderiam ser incluídas em vendas de jardins e casas, como tem acontecido com as de outras divindades. Quanto ao juramento, isso deve ser valorizado exatamente como se o homem tivesse jurado falsamente por Júpiter: as ofensas aos deuses são preocupação dos deuses.25



25 N.T..: “Haud pigebit referre in Falanio et Rubrio, modicis equitibus Romanis, praetemptata crimina, ut quibus initiis, quanta Tiberii arte gravissimum exitium inrepserit, dein repressum sit, postremo arserit cunctaque corripuerit, noscatur. Falanio obiciebat accusator, quod inter cultores Augusti, qui per omnes domos in modum collegiorum habebantur, Cassium quendam mimum corpore infamem adscivisset, quodque venditis hortis statuam Augusti simul mancipasset. Rubrio crimini dabatur violatum periurio numen Augusti. quae ubi Tiberio notuere, scripsit consulibus non ideo decretum patri suo caelum, ut in perniciem civium is honor verteretur. Cassium histrionem solitum inter alios eiusdem artis interesse ludis, quos mater sua in memoriam Augusti

ƒ’À–—Ž‘ͷȂ†‡•–”—‹­ ‘†‡‹ƒ‰‡•‹’‡”‹ƒ‹•…‘‘…”‹‡_ϭϴϵ



Um outro caso é o de Grânio Marcelo (ROGERS, 1935:9-12). Em seus Annales (1, 74, 1-6), Tácito informa-nos sobre o caso de Grânio Marcelo que na época era Governador da Bitínia e recebeu uma dupla acusação: Cépio Crispino, quaestor de Grânio Marcelo, o acusou de ter caluniado Imperador Tibério com a ajuda de Romano Hispo, um dos delatores, acusou o governador de ter colocado uma estátua dele em posição mais alta do que as dos Césares e ainda de ter removido a cabeça de uma estátua de Augusto e colocado em seu lugar uma cabeça de Tibério.

A acusação de maior gravidade e que fez Tibério refletir sobre a seriedade do caso repousará, no entanto, na segunda acusação que se referia às ações contra a estátua de Augusto (KATZOFF, 1971:682). “As estátuas eram a expressão material de relações políticas e sociais entre cidadão, membros da elite e as cidades nas quais viviam” (MACHADO, 2006:120).

Suetônio (Tibério, III, 58) também reporta casos de maiestas, mas sem especificar acusados, envolvendo imagens e efígies como, por exemplo, bater em um escravo perto de uma estátua de Augusto, ou trocar de roupa em presença de uma estátua consagrada; ainda carregar moedas com efígies imperiais à lupanários e que um homem foi condenando à morte por permitir que uma honra a ele fosse feita no mesmo dia que honrarias eram prestadas a Augusto.

Filóstrato (Vita Apolloni, I, 15), interessantemente, fornece-nos um exemplo próximo ao caso do Levante das Estátuas, um conflito que envolveu estátuas imperiais:



Esses anos em silêncio passados parte em Panfília, parte na Sícilia e, embora, seu caminho tenha sido se rumando para corridas como essas, ele nunca falou ou soltou um murmúrio. Sempre, porém, que ele vem a uma cidade se envolver em um conflito (e muitos estavam divididos em facções contra espetáculos de baixo nível) ele se antecipa e se exibe indicando algo de sua intenção de repreender por um gesto manual ou apenas pelo olhar em sua face, ele poderia colocar um fim a toda a desordem e as pessoas silenciam suas vozes como se eles estivessem envolvidos com os mistérios. Bem, não é tão difícil conter aqueles que começaram uma briga por causa de danças e cavalos, para aqueles que criam sedições por estas questões, se eles estão diante de um homem real, eles se envergonham e se recuperam retomando seus sentidos, mas uma cidade, duramente, pressionada pela fome, não é tão dócil, e muito menos fácil de elevar os humores mediante palavras persuasivas e, assim, dominar sua paixão. Mas, no caso de Apolônio, o mero silêncio de sua parte era o suficiente para aqueles afetados. De qualquer forma, quando ele chegou na cidade de Aspendo em Panfília (esta cidade foi construída às margens do rio Eurimedonte, menor que essa somente existe outras duas), ele encontrou ervilhaca à venda no mercado e os cidadãos estavam se alimentando disso e de qualquer coisa

 sacrasset; nee contra religiones fieri, quod effigies eius, ut alia numinum simulacra, venditionibus hortorum et domuum accedant. ius iurandum perinde aestimandum quam si Iovem fefellisset: deorum iniurias dis curae.”

ƒ’À–—Ž‘ͷȂ†‡•–”—‹­ ‘†‡‹ƒ‰‡•‹’‡”‹ƒ‹•…‘‘…”‹‡_ϭϵϬ



que pudessem encontrar, pois o homem rico havia estocado todo o suprimento de milho para a exportação. Consequentemente, uma agitada multidão de pessoas de todas as idades atacou o governador e acendendo uma fogueira queriam queimá-lo vivo, mas ele se agarrou às estátuas do imperador que eram mais temidas naquela época e mais invioláveis que as estátuas de Zeus em Olímpia, pois eram estátuas de Tibério em cujo reinado, como dizem, um mestre foi considerado culpado de

maiestas [¢sšbeia], meramente, por ter espancado um escravo porque ele mesmo

tinha um dracma de prata com a imagem de Tibério. Apolônio, então, foi até o governador e, com um sinal feito com as mãos, perguntou qual era o problema e ele respondeu que não havia feito nada de errado, mas, que estava, de fato, errado tanto quanto a população, mas, disse ainda, que se ele não tivesse uma audiência ele iria perecer junto com a população. Apolônio, então, se voltou para os espectadores e acenou para que eles o pudessem ouvir, eles não somente seguraram suas línguas em razão do encantamento por ele, mas também largaram o tição que haviam retirado dos altares que estava perto. O governador, então, se encheu de coragem e disse: “Este homem e aquele homem”, ele nomeou vários, “são os que devem ser responsabilizados pela presente fome, pois eles retiraram do mercado o milho e estão estocando, um em uma parte da cidade e o outro em outra parte”. Os habitantes de Aspendo, em consequência disso, disseram uns aos outros para que fossem às propriedades desses homens, mas Apolônio sinalizou com sua cabeça que eles não deveriam fazer tal coisa, mas, em lugar disso, convocar aqueles que são culpados e obter deles o milho com o consentimento deles. E, em seguida, após algum tempo, os considerados responsáveis chegaram, ele quase estourou em discurso contra eles porque ele estava desse modo afetado pelas lágrimas da multidão, pois até crianças e mulheres estavam presentes e o homem velho estava gemendo e se queixando como se estivessem para morrer de fome. Entretanto, ele respeitou o voto de silêncio dele e escreveu em uma placa a acusação das ofensas e passou ao governador para ler em voz alta, as acusações denunciadas por ele segue da seguinte forma: “Apolônio aos mercadores de milho de Aspendo. A terra é a mãe de nós todos, pois ela é justa, mas você, porque você é injusto agindo como se ela fosse somente sua mãe e, se você não parar, eu não permitirei que você permaneça sobre ela”. Eles ficaram tão apavorados por estas palavras que eles encheram o mercado com o milho e a cidade sobreviveu.

No caso narrado por Filóstrato, apesar de elogioso à interferência de Apolônio de Tiana, um filósofo do I século d.C., o que parece digno de nota e importante, para o nosso caso, é que as ações contra as estátuas e, em casos, contra imagens que portam a efígie imperial poderiam ser interpretadas como um ato grave e que recairia também sob a rubrica de crime de maiestas (VxEHLD/ NDTRVfZVLM). Mas, da época da República Romana, passando pelo contexto do Principado, ao tempo da Antiguidade Tardia, o crime de maiestas (VxEHLD/ NDTRVfZVLM) envolvendo estátuas e imagens imperiais parece ter apresentado diferenças significativas passando, gradualmente, de atos individualizados a ações coletivas26.



26 Agradeço o alerta fornecido pelo Prof. Bryan Ward-Perkins sob a questão das penas coletivas como um

aspecto a se pensar na relação alteridade/identidade entre o sistema judicial antigo e contemporâneo, o que nos levou a refletir sobre os casos de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) relacionados a estátuas e imagens imperiais levadas a julgamento entre o contexto do Principado e da Antiguidade Tardia.

ƒ’À–—Ž‘ͷȂ†‡•–”—‹­ ‘†‡‹ƒ‰‡•‹’‡”‹ƒ‹•…‘‘…”‹‡_ϭϵϭ



5.4. Os casos de crime de maiestas (VxEHLD / NDTRVfZVLM) envolvendo estátuas na

Benzer Belgeler