• Sonuç bulunamadı

Em novas situações, em diferentes contextos, é possível observar que a experimentação Tenda do Conto adquire outros cenários, outras variações; ou seja, a prática permite ser perpassada por reapropriações e reinvenções, conforme veremos a seguir.

Em Sergipe, bonecas de pano, flores, fuxicos e chitas compõem mandalas no centro da roda como “símbolos de união, alegria e energia”. Sobre a mesa são arrumados os objetos trazidos pelos participantes. A experiência iniciada com idosos expandiu-se incluindo adolescentes, gestantes e crianças. A educadora Maria Betania Bulhões reúne também rezadeiras, parteiras, massoterapeutas, representantes dos conselhos locais e equipe de trabalhadores da Unidade de Saúde.

Figura 21 – Tenda do Conto em Sergipe

Hoje eu faço a Tenda com todos os temas; pré-natal, tendinha com crianças e também adolescentes, lá no PSE, e deu muito certo. Hoje não sou mais da equipe, mas dou suporte a todas as equipes de ESF do município [...] Eu fiz uma oficina de controle social ai, dentro dela, coloquei enxadas, raspas de mandioca, galhos de mandioca, farinha de mandioca, a cachaça, as peneiras, copos de alumínio, ou seja, coisas que representam a lida do agricultor (Maria Betânia Bulhões, educadora popular, Campo de Brito/SE).

Em Manaus, inspirada na Tenda do Conto, a Maloca do Conto também utiliza objetos antigos que lembram histórias e evocam o passado. No centro social comunitário é montada a maloca, com folhas, palhas, bambus e uma rede. Ao centro, uma canoa substitui a cadeira. É lá que os usuários entram, sentam e com seus objetos contam suas histórias. São compartilhados versos, histórias, danças e músicas da região.

A caminho de uma pescaria, utilizando a mesma como meio de transporte para ir aos grandes centros ou voltando com caças para tribo. Neste vai e vem da canoa sobre as águas do rio, se desenrola o conto[...]Transformei a Tenda em Maloca do Conto, pois a comunidade possui uma população mista, ribeirinhos e indígenas de várias etnias (Elves Guedes, dentista, Manaus).

Figura 22 – Maloca do Conto em Manaus – Foto: Elves Guedes

Fonte: Rede HumanizaSUS, 2013.

O dentista Elves Guedes, a partir de sua vivência no território onde atua, entregando-se ao sentir, pensar e agir das pessoas da região, deixa fluir a inspiração para construir uma

“Tenda” que abrigue suas histórias. Entre rede, palhas e bambus a canoa emerge atraindo bons tempos, fluindo na correnteza, navegando nos rios que favorecem a travessia das narrativas. Assim, seguem os manauenses com a Maloca do Conto em Manaus e por outras cidades do Brasil, nos encontros de educação Popular e de Atenção Básica, com seus colares, suas danças e cocares.

Em Natal/RN, na Unidade de Saúde da família de Parque dos Coqueiros, a Tenda do Conto inspirou o grupo Senti Mental. Djairo Alves, Agente Comunitário de Saúde e apoiador da Política Nacional de Humanização, conta que o grupo, com foco na saúde mental, utiliza a dinâmica da Caixa Sentimental tendo como referencial o mito de Pandora, de maneira que as pessoas são convidadas a abrirem a caixa e escolherem objetos que lembrem histórias vividas.

Na caixa também existem artefatos depositados dentro dela. A caixa é um artefato de memória que nos traz a ideia de que guardamos coisas, encaixotamos momentos, vivências, alegres ou tristes. O grupo Sentimental tem foco na saúde mental, trabalha a superação dos sofrimentos mentais, a caixa é nosso espaço de fala e escuta potente [...] Temos tido bons resultados com essa experiência que nasceu da proposição mostrada pela Tenda do Conto, queríamos algo diferente, embora com a mesma essência! (Djairo Alves, Agente Comunitário de Saúde, Natal/RN)

O grupo Senti Mental existe há um ano e reúne-se mensalmente na Unidade de Saúde, com uma crescente participação de profissionais, usuários e pesquisadores de universidades e vem consolidando uma importante parceria com artistas locais.

Figura 23 – Grupo Senti Mental em Natal/RN Foto: Djairo Alves

A Tenda do Conto segue reinventando-se no Rio Grande do Norte. O professor Vladimir relata que já “coordenou” em torno de dez Tendas do Conto no curso de psicologia da Universidade Potiguar, na Liga Saúde da Família e Comunidade/Escola de Saúde-Universidade Potiguar, com participantes do pró-jovem, mulheres de assentamento do Movimento Sem Terra, mulheres quilombolas de Passagem de Areia (Município de Parnamirim/RN), presos do Centro de Detenção Provisória/Natal e pacientes de uma Unidade Psiquiátrica de Custódia e Segurança. Reafirmando o potencial de desdobramento da Tenda do Conto, o psicólogo aponta para as possibilidades de experimentação em que a prática se dê associada a outros processos grupais terapêuticos:

Penso que cada vez mais a Tenda do Conto será a Tenda do Mundo. Ela irá se multiplicar em várias tendas. Dependendo do processo grupal, ela pode se desdobrar em Tendas do Conto Terapêutico, Tendas Psicoterapêuticas, Teatro do Oprimido em Tenda do Conto (reinvenção e processo orientados por mim em pesquisa realizada no CAPS III Leste), Esquizodrama em Tenda do Conto (reinvenção e processo coordenado por mim na UPCT). Inclusive, pode ser que alguém (inclusive eu) realize Tenda do Conto em Terapia Comunitária ou Psicodrama ou Psicodrama em Psicopedagogia. (Vladimir Félix Silva, Professor da Universidade Potiguar/RN)

Figura 24 – Tenda do Conto na Universidade Potiguar

Benzer Belgeler