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Poderíamos dizer que a máquina mecânica se apresenta como um agenciamento da produção da subjetividade em dois níveis: 1) um direto, referente à relação de conti- nuidade do corpo humano com as máquinas tecnológicas e 2) um outro indireto, que seria o papel das máquinas como veículos de transmissão de agenciamentos coletivos de enunciação.

84 1) No nível direto – que por sinal só foi referido muito superficialmente por Guattari – destaca-se as máquinas como agenciamentos que estendem as faculdades sensoriais da subjetividade, assim como a relação afetiva estreita que a subjetividade desenvolve com elas. A subjetividade tem a possibilidade de, através de máquinas tec- nológicas avançadas, interagir com o mundo de uma forma inteiramente diferente. O computador, por exemplo, é capaz de criar imagens, cálculos, abstrações matemáticas, sensações artísticas e sensórias de uma complexidade tamanha que escapa à capacidade sensorial humana, tanto de produção quanto de percepção. O mesmo pode ser dito dos robôs que executam atividades de precisão microscópicas impossíveis para a os sentidos humanos. Isto, portanto, enriquece e transforma a subjetividade em sua relação com o mundo.

2) O nível indireto contempla as máquinas enquanto intermediárias, enquanto veículos da propagação ou da reprodução dos enunciados coletivos tais como as mode- lizações subjetivas, ideais políticas, comportamentos etc. Trata-se especialmente das máquinas tecnológicas de comunicação, ou máquinas midiáticas, como a TV, o cinema, os telefones, computadores e reprodutores de músicas portáteis e assim por diante, que agenciam o contato da subjetividade com produções estéticas e científicas de toda espé- cie e de variados níveis sociais, étnicos, nacionais etc.

Este nível indireto representa um papel mais ativo na produção da subjetividade. Poderíamos até mesmo falar de um certo grau de substituição do contato humano pelo contato com a máquina. A título de explanação dessa substituição maquínica, até certo ponto, do contato humano e da economia dos afetos intrínseca a esta relação da subjeti- vidade com o mundo, podemos recorrer a uma resposta de Guattari à pergunta de como a esquizoanálise substituiria o triângulo edipiano65:

Não sou eu quem substitui o triângulo. O triângulo se substitui sozinho. A pró- pria família é transformada enquanto equipamento coletivo, em relação com o conjunto dos outros equipamentos coletivos, os quais vão assumir a criança, desde a formação até sua entrada na força coletiva de trabalho. Tudo isso, atu- almente é programado. Não há relação natural com a mãe nem com o pai, nem com ninguém. A televisão, por exemplo, desempenha um papel que substitui em parte o da mãe. (GUATTARI, 2005, p. 290)

65 Não pretendemos, neste ponto, entrar na discussão dessa temática complexa acerca da relação, ou in-

tromissão, da máquina em substituição à relação humana direta, mas tão só apenas destacar o papel de íntima relação da subjetividade no capitalismo pós-industrial com os vários dispositivos tecnológicos presentes no cotidiano e na produção da subjetividade desde a infância. Serve-se também ao propósito de apontar uma postura, no mínimo audaz, de um tipo de substituto do papel do triângulo edipiano para a psicanálise tradicional.

85 Como vimos no primeiro capítulo, os territórios de construção, de produção da subjetividade estão muito mais complexos e múltiplos do que no passado histórico. Nas sociedades tradicionais, arcaicas, ou mesmo nas antigas cidades mercantis, se podia falar no máximo dos agenciamentos sócio-étnicos ou clânicos restritos a pequenos gru- pos. No capitalismo industrial assistimos a um confinamento maior da produção da sub- jetividade, ou do processo de subjetivação, ao ambiente familiar, ou mais especifica- mente, à família nuclear formada apenas por pais e irmãos e posteriormente se expan- dindo ao ambiente da escola e do trabalho. No capitalismo pós-industrial, com os avan- ços da tecnologia, essa espécie de confinamento é agenciada por máquinas midiáticas de alta tecnologia que colocam as crianças desde cedo em contato com a complexidade heterogênea do mundo. Assiste-se pela TV, por exemplo, ao cotidiano e aos rituais de sociedades que ainda vivem de maneira arcaicas, tradicionais, extrativista, clânica etc. e em questão de segundos passamos a estar em contato com os enunciados mais sofistica- dos e abstratos das sociedades tecno-industriais. Portanto, a gama de personagens que vêm a constituir o processo de subjetivação desde a infância é tanto mais amplo quanto diferenciado, heterogêneo.

... Outro exemplo é o das crianças. De fato, elas percebem o mundo através das personagens do território doméstico, no entanto isso é apenas em parte verda- deiro. Grande parte de seu tempo é passado diante da televisão, absorvendo re- lações de imagem, de palavras, de significação. Tais crianças terão toda a sua subjetividade modelizada por esse tipo de aparelho. (GUATTARI, 2005, p. 41)

Hoje em dia, na era da informação globalizada, pode-se ter facilmente acesso aos mais diferenciados tipos de pessoas, culturas, propostas políticas, produções estéti- cas e intelectuais, modelos de subjetividade etc. através dos meios de comunicação. Isto é ainda mais intenso quando pensamos nos meios de comunicação portáteis, que pro- porcionam um vínculo constante, mesmo quando em trânsito, com esses diferentes a- genciamentos produtores de subjetividade. Trata-se, neste caso, dos portáteis, não ape- nas da relação do homem com a máquina, enquanto veículo midiático, mas da constru- ção de novas percepções, novas afecções, novas interações, por exemplo, com o univer- so estético, informacional e intelectual, que contribuem para o enriquecimento da subje- tividade em sua heterogeneidade.

Vou dar um exemplo que pode parecer óbvio. Os jovens que passeiam pelas ruas equipados com um walkman estabelecem com a música uma relação que não é “natural”. Ao produzir esse tipo de instrumento (tanto como meio quanto como conteúdo de comunicação), a indústria altamente sofisticada que o fabri-

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ca não está fazendo algo que simplesmente transmita “a” música ou organize sons naturais. O que essa indústria faz é, literalmente, inventar um universo musical, uma outra relação com o os objetos musicais: a música que vem de dentro e não de um ponto exterior. Em outras palavras, o que esta indústria faz é inventar uma nova percepção. (GUATTARI, 2005, p. 41)

É importante ressaltarmos que as máquinas mecânicas são mecanismos materi- ais, mas estabelecem com a subjetividade uma relação maquínica, processual, de um continuum homem/máquina. A subjetividade se relaciona maquinicamente, ou seja, processualmente, com as máquinas tecnológicas, ou os sistemas maquínicos territoriali- zados na tecnologia. Há uma complexa relação processual que vai além de uma simples interação mecânica, de complementaridade corporal. Uma máquina como o walkman, ou um tocador de mp3, não se relaciona com a subjetividade simplesmente como um dispositivo fetichizado da indústria de alta tecnologia. Há nesta relação uma nova per- cepção do que seja a música. Enquanto interage com o mundo a subjetividade está liga- da a emoções, sensações e percepções que podem destoar completamente da atividade que desempenham sem, contudo, causar estranhamento uma vez que só a pessoa com este aparelho é capaz de ouví-la. A música passa então a poder acompanhar a subjetivi- dade, através das emoções que provoca, em qualquer contexto, criando assim um novo universo de relação com a subjetividade, assim como um novo universo musical é ins- taurado.

Procuramos neste tópico destacar apenas a idéia de maquínico referente às má- quinas concretas propriamente ditas, ou, dito de outro modo, em relação às máquinas territorializadas em materiais. Vimos o seu aspecto mais direto de agenciamento junto à subjetividade, que seria uma relação maquínica no sentido de que há uma perda da au- toconsciência enquanto individuação egóica no agenciamento não-humano estabelecido com a máquina. Outra característica seriam as mudanças perceptivas e afetivas que promovem um enriquecimento do campo de percepção em direção a uma subjetividade hiperdesenvolvida.

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Benzer Belgeler