Para o desenvolvimento de estudos de casos, recomenda-se a construção do protocolo de pesquisa, por ser uma maneira importante de aumentar a confiabilidade desta estratégia de
investigação. Este protocolo destina-se a orientar o pesquisador na realização da coleta de dados de um caso único ou múltiplos casos (Yin, 2010).
Seções do protocolo de estudo de caso:
1. Visão geral do projeto de estudo de caso: deve cobrir a informação antecedente do projeto, ou seja, seu contexto e perspectiva e, principalmente, comunicar ao leitor a finalidade e o ambiente do estudo de caso como, por exemplo, a carta de apresentação.
2. Procedimentos de campo: deve enfatizar as tarefas importantes na coleta de dados, por exemplo, obter acesso às organizações-chave ou aos entrevistados; ter recursos suficientes enquanto em campo; fazer uma programação que atenda o tempo especificado, entre outros. Esta é uma etapa operacional e, quanto mais detalhada, melhor será o estudo.
3. Questões de estudo de caso: estas questões são formuladas para o investigador e não para o entrevistado. Cada questão deve ser acompanhada por uma lista de fontes prováveis de evidência como, por exemplo, nomes de entrevistados individuais, documentos ou observações.
Para a elaboração do protocolo de estudo de caso, foi considerada a estrutura apresentada por Martins (2008). A aplicação deste protocolo de estudo de caso foi realizada nas duas empresas objeto do estudo:
1. Objetivo do estudo: verificar quais são os fatores que contribuíram para o enfraquecimento e abandono do ABC nas empresas objeto do estudo.
2. Procedimentos iniciais
2.1. Contato inicial: realizou-se inicialmente uma pesquisa empírica sobre a estrutura hierárquica da companhia estudada, utilizando-se duas entrevistas prévias com o responsável pela Controladoria da organização, em dezembro de 2012. Foram apresentados os objetivos
do estudo, a tipologia de informações que o estudo requeria e os instrumentos de coleta de dados que seriam utilizados. A duração total das duas reuniões foi de aproximadamente quatro horas, em que foram apresentados: a estrutura organizacional, o organograma, as demonstrações financeiras e os relatórios gerenciais da empresa elaborados para dar suporte à gestão. Ainda, foram apresentadas as subdivisões das áreas, com o objetivo de compreender o porquê da atual estrutura de gestão, bem como as atribuições de cada uma delas, além de verificar como o ABC era utilizado pela área responsável.
2.2. Informações gerais: no contato inicial com os responsáveis pela Controladoria, foi feita uma análise superficial do roteiro não estruturado, contendo questões abertas que seriam utilizadas na entrevista pessoal com cada gestor. Após a crítica, foi salientada a política de governança corporativa e o sigilo de informações adotado pela empresa. Portanto, a entrevistada solicitou que mantivesse o roteiro para as primeiras entrevistas, mas que, caso houvesse dúvidas pontuais, estas fossem transformadas em um questionário e que, em seguida, este fosse enviado por e-mail para uma análise mais aprofundada das informações que se pretendia coletar. Após a análise do roteiro e apresentação do objetivo do estudo foi concedida autorização para a coleta de dados.
2.3. Verificação dos procedimentos para coleta de dados: Após a autorização, os responsáveis pela Controladoria sugeriram que o objetivo do estudo e os benefícios para a empresa em contribuir para a pesquisa fossem encaminhados via e-mail aos gestores ligados ao processo de decisão pelo ABC (Coordenador de Gestão de Custos, Coordenador de Preços, Diretor Executivo de Finanças, Gerente de Controladoria, Gerente de Operações e Presidente), para que todos tomassem conhecimento da pesquisa. Esse procedimento teve como finalidade reforçar o tipo de informação que seria divulgado pelos gestores, em conformidade com a política de governança corporativa e de sigilo de informações adotados pela empresa. Desta forma, fizeram parte da amostra profissionais do nível gerencial e com envolvimento direto, sendo que, no caso da Controladoria, foi envolvido tanto o gerente atual quanto o que anteriormente era responsável pela decisão em relação à adoção do ABC. Em uma das empresas, em virtude de mudança do presidente, optou-se por entrevistar o ex- presidente, por uma questão de histórico do processo de decisão.
Ao final desse processo, foram marcadas novas entrevistas para validação das informações e esclarecimento de algumas dúvidas. A reunião teve duração de aproximadamente 1 hora com
cada gestor, sempre delimitada pela política de governança corporativa e sigilo de informações adotado pela empresa.
Para confrontar as informações financeiras da organização, foram utilizadas as Demonstrações Financeiras publicadas dos períodos de 2006 a 2012, publicadas no Diário Oficial. O objetivo de analisar esses documentos foi compreender o porte da empresa em receita líquida, relevância dos custos em comparação ao resultado, lucratividade e representatividade do investimento realizado com o ABC. Dado que a decisão pela adoção do ABC foi submetida a um processo interno denominado Ciclo Anual de Projetos, foram solicitadas as atas, emails e demais documentos que contribuíssem para o mapeamento dos argumentos utilizados no momento da decisão.
O período estabelecido para a triangulação dos dados foi de 2006 a 2012 pelo fato de uma análise longitudinal revelar alterações no comportamento da gestão ao longo do tempo e identificar fatores que potencialmente influenciariam essas mudanças. Por fim, tornou-se factível a realização de análise do conteúdo das entrevistas e triangulação com as demais informações coletadas.
2.4. Contrapartida da pesquisa: foi acordado o encaminhamento da versão completa da dissertação para a empresa em estudo e realização de um seminário com os gestores e funcionários para apresentação dos achados da pesquisa, a fim de possibilitar uma maior conexão da academia com a área empresarial.
2.5. Proposição para o estudo de caso: inicialmente foi elaborado um conjunto de questões que refletem o escopo da pesquisa, a partir da revisão teórica sobre Teoria Institucional e ABC. A partir da análise dessas questões, foi elaborado um roteiro de entrevista não estruturado, o qual foi validado por meio de pré-testes durante os meses de fevereiro a abril de 2012, com gestores responsáveis pela área de Controladoria. O primeiro teste foi realizado com a Diretora da Controladoria e, o segundo, com o Diretor Executivo de Finanças. Cada pré-teste durou, em média, duas horas.
O desenvolvimento do protocolo de estudo de caso permitiu a construção do roteiro de entrevista e sua validação, fase importante para aumentar a confiabilidade de trabalhos com a estratégia de pesquisa de estudo de caso.