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A forma e a intensidade da intervenção estatal na economia, conforme dito anteriormente, é função das características econômicas e políticas prevalecentes ao longo da história. O período mercantilista (séculos XVI e XVII), foi marcado pelos avanços da navegação, que impulsionaram o desenvolvimento econômico e permitiram ao comércio ampliar seus limites, tanto na dimensão geográfica de atuação, quanto no volume de mercadorias comercializadas (BRAUDEL, 1982). Esse período foi responsável pelo acúmulo de capitais necessários à industrialização e o incremento das atividades comerciais europeias, no século seguinte.

A era mercantilista perdurou até a segunda metade do século XVIII, quando o advento da Revolução Industrial modificou o cenário político-econômico mundial. As relações entre Estado e economia sofreram sensíveis alterações (SANTOS, 2000). Neste mesmo século em que se formou a esfera pública burguesa, a doutrina liberal passou a ser aceita como fundamento de um novo Estado e de uma nova sociedade (CLARK et al. 2008).

A crítica mais abrangente ao mercantilismo foi movida por Adam Smith que denunciou o protecionismo comercial e disseminou o ideário liberal. No que tange à Ordem Econômica, tal modelo estatal adotou uma postura abstenseísta, inspirado na teoria da ―mão invisível‖ de Smith, que proclamava a defesa da livre concorrência como princípio fundamental da sociedade, condenando preferências restritivas, privilégios e concessões de monopólios pelo Estado. O ideário do Estado mínimo de Adam Smith foi, certamente, elemento-chave na conformação da política econômica dos Estados nacionais no século XIX (SANTOS, 2000). Para os seus defensores, ao Estado cabia apenas a função de mantenedor da segurança e justiça. Esse ideário liberal, movido pelo ―Laissez-faire‖, ou seja, ―deixar fazer‖, imperou no século XVIII e parte do século XIX e trouxe uma visão descentralizada de poder, pregando o estímulo à auto-regulação da sociedade em diversas esferas.

Entretanto, o modelo apresentava problemas que vinham a exigir uma atuação ordenadora do Estado. Um movimento reativo ao capitalismo liberal e as suas consequências sobre o bem- estar social já se manifestava no seio da classe proletária, especialmente a europeia, animado pela produção intelectual e pela militância política de Karl Marx.

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Esse movimento contra o liberalismo apontava como principais falhas do modelo defendido por Smith a má distribuição da produção e da renda, a sensibilidade a crises e a tendência à monopolização. A derrocada do modelo liberal se deu no final do século XIX, período marcado por crises que culminaram na Primeira Guerra Mundial e na Crise de 1929. Novamente, um ambiente de crise conduziu à desarticulação da relação Estado– Economia. A ideia que o Estado deveria participar mais ativamente da condução da economia foi se consolidando.

Inicialmente as crises mostraram a fragilidade do mercado como mecanismo regulador do sistema econômico. Posteriormente, as ideias de Keynes, acolhidas pelo governo americano, estimularam a adoção de medidas de incentivo, proteção e estímulo à economia.

Em sua elaboração teórica, Keynes contestava o sistema clássico de Smith. Para ele, o equilíbrio econômico e o bem-estar social não estariam garantidos pela simples ação das forças de mercado, sendo necessária a presença da ação coletiva representada pelo Estado (SANTOS, 2000). O Estado keynesiano, centrado nos objetivos de desenvolvimento equilibrado, não hesita em lançar mão do monopólio público, em tolerar e incentivar o monopólio privado, em suprimir liberdades econômicas, desde que isso produza resultados positivos para a economia e para o bem-estar da sociedade.

Da associação entre o pensamento keynesiano e a contribuição dos teóricos da Welfare Economics se constituiu a essência intelectual do Estado do Bem-Estar, um modelo seguido de perto pelos países desenvolvidos, no pós-guerra. O Estado passa a ter o papel de promover o desenvolvimento econômico e regular os desequilíbrios do mercado. Os objetivos de sua presença na economia: o fomento e a estabilização do crescimento, a redistribuição de renda e a garantia da maximização da utilidade coletiva.

O século XX então, foi marcado pela implementação de um novo regime, o Estado Social ou Estado do Bem-Estar, que durou do final do século XIX até o início dos anos 1970. Nesse regime o Estado teve sua participação na economia elevada. Sua função principal era preservar o interesse público, e para isso, voltou a regular o comércio internacional, proteger a produção e prover infraestruturas e serviços públicos, considerados essenciais para o crescimento econômico e bem estar social.

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O modelo do Estado Social conseguiu reduzir os desajustes econômicos decorrentes das crises do capitalismo e assim, reestruturar e recuperar a economia no período de sua vigência. Para Saraiva (2000), só o Estado poderia realizar os investimentos necessários para manter e ampliar as infraestruturas e fornecer o crédito necessário para novos investimentos.

Emerge um Estado fortalecido, que se transformou em "agente político e econômico" de primeira ordem, assumindo um "papel diretor" na planificação da economia, a fim de regular os mercados, e neutralizar as distorções (CÂMARA, 2006). Com um perfil assistencialista e paternalista, o Estado centralizou poderes e adquiriu um caráter intervencionista, abarcando assim muitas competências.

Todavia, as crises do petróleo de 1973 e de 1979, os sucessivos fenômenos de recessão, os déficits fiscais e a queda nos níveis de empregos evidenciaram o esgotamento do modelo adotado e conduziram à crise do Estado Social. Tal situação ensejou o despontar de ideias neoliberais, opositoras ao Estado provedor. Assim, na década de 70, mais uma vez, o Estado afastou-se do controle da economia.

É a partir do excesso e da multiplicidade de tarefas concebido ao Estado de Bem-Estar ─ que trouxe consequências políticas, econômicas e sociais históricas ─ que surge o Estado regulador contemporâneo, apoiado no surgimento de movimentos que se propunham a corrigir essas situações, seja através da desregulamentação, desestatização da redução das cargas impositivas conferidas ao Estado, de modo que se reestimulasse o seu crescimento, abrangendo a infraestrutura em geral, inclusive a de transporte.

Tem-se a passagem de um Estado de Bem-estar Social, o qual abarcava inúmeras funções, de um Estado monopolista e regulamentador, para um novo tipo de Estado, um Estado mínimo, um agente regulador e fomentador.

Benzer Belgeler