Nessa fase da pesquisa, ocorrida entre agosto de 2011 e maio de 2012, houve o reconhecimento do ambiente a ser investigado, o estabelecimento de diálogos iniciais com os trabalhadores da coleta seletiva, e a solicitação de autorização para a realização da pesquisa.
Para tanto, um dos instrumentos de coleta utilizados foi a observação participante, a qual, conforme Marconi e Lakatos (2004), Goldenberg (2005), Triviños (2007), Duarte e Barros (2010) é uma das técnicas mais apropriadas às pesquisas de abordagem qualitativa como o estudo de caso. Segundo Marconi e Lakatos (2004, p. 277), a técnica implica na
“interação entre investigador e grupos sociais, visando coletar modos de vida sistemáticos,
diretamente do contexto ou situação específico do grupo”.
Entre os meses de agosto de 2011 e fevereiro de 2012 ocorreram visitas (Figura 11) com o objetivo de fazer um reconhecimento geral do ambiente quanto à estrutura física disponível, distribuição de funções, processo produtivo e forma de organização dos materiais; bem como de interagir com os membros das cooperativas, para, assim, construir uma relação de confiança mútua entre os catadores e a pesquisadora. Processo esse que, de acordo com Marconi e Lakatos (2004) e Goldenberg (2005), demanda tempo e tem um papel fundamental na pesquisa qualitativa. Dessa forma, foram necessários alguns meses de interação até que essa relação de confiança fosse razoavelmente estabelecida, e, então a pesquisadora tivesse maior liberdade para desenvolver o estudo.
Apesar das várias visitas realizadas, algumas dificuldades foram enfrentadas pela pesquisadora, devido a experiências ruins em relação a pesquisas anteriores nas cooperativas por outras instituições; bem como pela resistência por parte dos catadores em discutir questões das cooperativas, pois ficou evidente o receio de serem punidos pela administração. Também houve resistência dos gestores das cooperativas, pois ao mesmo tempo em que esperam melhorias, percebeu-se o receio de que a pesquisa pudesse desestabilizar o comando dessas organizações ou prejudicar a autoridade da presidência que em algumas situações Figura 11: Visitas realizadas às cooperativas de catadores de materiais recicláveis de Natal – RN. Fonte: elaboração própria.
demostra sentimento de posse em relação às cooperativas, o que será discutido no capítulo dos resultados. Entre março e maio de 2012, juntamente com o programa de extensão da UFRN, vários encontros foram realizados para a apresentação do programa às cooperativas e das diversas atividades propostas para o ano de 2012 (Figura 12), as quais foram discutidas junto aos catadores.
Nessa fase foram elaborados, pela pesquisadora e equipe do programa, uma carta de apresentação e um termo de aceite de participação voluntária dos catadores no estudo (presentes no anexo), o qual assegurou a preservação das suas identidades. Tais documentos, consoante ao debate de Bogdan e Biklen (1994), Colombo (2004), Rosa e Arnaldi (2008), denotam que se procedeu conforme os seguintes preceitos éticos necessários às pesquisas científicas com seres humanos: adesão voluntária, cientes da natureza e circunstância do estudo; preservação das informações pessoais dos catadores, proporcionando-lhes maior tranquilidade ao responderem às questões; tratamento respeitoso; não exposição a riscos; e a apresentação dos resultados sem distorções. Assim, resguarda-se tanto a UFRN, quanto a pesquisadora que teve a garantia de publicação dos dados coletados.
No período de abril e agosto de 2012, em reuniões junto à equipe do programa de extensão da UFRN, dois roteiros de entrevistas foram elaborados (presentes nos anexos desta dissertação). Um direcionado aos catadores individualmente e composto pelos eixos temáticos
“perfil socioeconômico”, “condições de trabalho” e “percepção ambiental e de saúde”, e outro
voltado aos grupos gestores das cooperativas, com os seguintes eixos: “dados preliminares”,
“histórico da cooperativa e marco legal”, “estrutura ocupacional e perfil dos trabalhadores”, “produção e tecnologia”, “relações de trabalho e educação”, “perfil organizacional”, “comercialização e relação com os mercados”, “segurança do trabalho e seguridade social”, “relações com movimentos sociais e a sociedade”, “relação com o Estado” e “avaliação geral e autodenominação”.
Para a construção desses roteiros houve ainda uma espécie de treinamento, “teste
piloto” ou “pré-teste” entre os discentes membros da equipe do programa, com o propósito de
testar o instrumento e treinar os entrevistadores. Na ocasião discutiu-se a adequação de questões ao público alvo; o tempo de realização da entrevista; orientações sobre a forma de abordagem dos catadores, o comportamento adequado perante o entrevistado, a vestimenta apropriada, e o incentivo à participação dos trabalhadores.
Flick (2009) reforça a necessidade desse tipo de procedimento quando da elaboração da entrevista, servindo para que se aprenda a aplicar o guia de entrevista e que se possa, posteriormente, avaliar possíveis mudanças no tocante à introdução ou retirada de questões e comportamento dos entrevistadores frente aos entrevistados.
Cada questionamento foi elaborado de maneira cuidadosa, com a preocupação de adequá-los à linguagem dos catadores. Os roteiros foram estruturados em perguntas abertas que, de acordo com Marconi e Lakatos (2004; 2007), Duarte e Barros (2010), permitem que os entrevistados (catadores) utilizem uma linguagem própria e tenham maior liberdade para expressar seus pensamentos; assim como possibilitam análises aprofundadas dos temas investigados, apesar da complexidade da tabulação (subjetividade das respostas). Também foram feitas perguntas fechadas dicotômicas (duas alternativas de resposta) e de múltipla escolha (várias opções de resposta) de fácil tabulação, segundo os autores.
Embora a pesquisadora tenha feito várias tentativas, houve dificuldade quanto ao agendamento das entrevistas direcionadas tanto aos catadores, quanto ao conselho administrativo, devido à resistência oferecida pelas cooperativas. Em relação à entrevista com os grupos gestores, é importante destacar que foi possível realizá-la em apenas uma das cooperativas (a de menor número de cooperados). A outra organização ofereceu bastante resistência em discutir as questões referentes à organização da cooperativa, mostrando-se desconfortável com a presença da pesquisadora, pois tinham receio de que a gestão fosse questionada, principalmente no tocante à forma de tratamento dos cooperados, e que irregularidades fossem descobertas.