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Os produtos florestais não madeireiros (PFNM) têm importante contribuição ao setor florestal dada sua representação econômica e potencial alimentício para as populações amazônicas. Segundo o IBGE, o extrativismo de PFNM foi responsável pela produção de 514.355 toneladas de alimentos em 2011 no Brasil, sendo 48,25% deste total produzido na Região Norte (248.182 toneladas). Nesta região, o Estado do Amazonas produziu 104.143 toneladas, correspondente a 41,96% da produção total.

O extrativismo de PFNM norteou as mudanças na política de desenvolvimento rural no Amazonas a partir de 2003 durante o governo de Eduardo Braga. Por meio do Programa Zona Franca Verde (PZFV), o governo pretendia melhorar a qualidade de vida das populações moradoras de áreas de florestas, com a valorização do uso econômico dos recursos naturais e a redução dos crimes ambientais. A estratégia adotada foi à criação de Unidades de Conservação, a ampliação de programas baseados no conceito de manejo sustentável e projetos voltados ao fortalecimento das cadeias produtivas dos PFNM. Deste processo, resultou a criação de algumas instituições administrativas para viabilizar o PZFV tais como a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável (SDS) órgão responsável pela execução da política ambiental do Estado, o Instituto de Terras do Amazonas (ITEAM), responsável pela regularização fundiária e o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (IPAAM) responsável pela fiscalização e ordenamento da política ambiental.

Os PFNM representam uma importante fonte de alimento e renda para os moradores da região estudada neste trabalho. O gráfico 20 demonstra os principais produtos coletados, utilizados em suas formas diversas tais como frutos, folhas, cascas, sementes e óleos para fins alimentícios, medicinais, comércio, dentre outros. As espécies de maior importância para o extrativismo vegetal não madeireiro na região são a castanha do brasil (36,25%), o açaí (26,75%) e óleos vegetais como andiroba (6,75%) e copaíba (12,25%).

Gráfico 20: Principais PFNM extraídos nas unidades estudadas.

Fonte: dados coletados em campo (NUPEAS/UFAM e NUSEC/UFAM) – Elaboração da autora.

Conforme indica o gráfico acima, observa-se que no PAE Botos a castanha do Brasil (Bertholetia excelsa) e o açaí (Euterpe sp) são os PFNM mais importantes (53% e 47% respectivamente), tanto para o consumo quanto para venda. Em menor escala, ocorre também no assentamento a exploração de andiroba (Carapa guianensis), copaíba (Copaifera langsdorfii) e babaçu (Orrbignya speciosa), sendo estes destinados apenas para o consumo. No PDS Realidade, os principais produtos não madeireiros extraídos da floresta são açaí (19%), andiroba (8%), bacaba (Oenocarpus bacaba) (4%), castanha do brasil (47%) e copaíba (22%).

Na RDS Rio Madeira, os produtos vegetais coletados da floresta são açaí (7%), andiroba (14%), látex da seringueira (Hevea brasiliensis) (20%), cacau (Theobroma cacao) (4%), castanha do brasil (25%), copaíba (19%) e tucumã (Astrocaryum aculeatum) (11%). Na Floresta Tapauá as espécies não madeireiras coletadas são açaí (34%), andiroba (5%), bacaba (6%), cajuí (4%), castanha (20%), cipós (titica - Heteropsis jenmani, ambé - Philodendron imbe e arumã - Ischnosiphon arouma) (10%), copaíba (8%), pupunha (Bactris gasipaes) (4%), sorva (Coumo utilis) (2%), tucumã (7%).

O gráfico 21 apresenta a relação da importância do extrativismo de produtos florestais não madeireiros como unidade de produção e unidade de consumo. A maioria dos extrativistas da região destina a produção para o comércio (65,96%), enquanto apenas 34,04% dos moradores destina a produção extrativista para o consumo. Esta realidade torna a inclusão

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 47% 53% 19% 8% 4% 47% 22% 7% 14% 4% 25% 19% 20% 11% 34% 5% 6% 4% 20% 10% 8% 4% 2% 7% PAE Botos PDS Realidade RDS do Madeira Floresta Tapauá

da atividade nos programas governamentais estrategicamente potencial para o aumento da renda.

Gráfico 21: Destino da produção dos produtos florestais não madeireiros.

Fonte: dados coletados em campo (NUPEAS/UFAM e NUSEC/UFAM) – Elaboração da autora.

A venda dos produtos pode ocorrer para os vizinhos da comunidade, diretamente nos municípios próximos ou para atravessadores, sendo estes últimos os compradores mais expressivos. Foi registrada a venda de castanha e açaí para outros Estados e para capital. No PAE Botos a venda ocorre somente em Humaitá, porém, no PDS Realidade a castanha pode ser também vendida para Rondônia, na Floresta Tapauá para o Pará e na RDS do Rio Madeira, a venda pode ocorrer além dos municípios próximos, para o Pará e Manaus.

Conforme indica o gráfico acima, o PAE Botos detém a maior frequência de moradores que destina os produtos coletados para o comércio (83,33%). No PDS Realidade e na RDS Rio Madeira, 64,7% e 62,5% dos moradores respectivamente destina a produção extrativista para venda. Na Floresta Tapauá, 53,33% dos extrativistas realizam a comercialização dos produtos coletados e 46,67% destina a produção para o consumo familiar.

Os produtos de maior importância para o extrativismo vegetal na região estudada seguem o padrão observado na Região Norte e no Estado do Amazonas, que têm a castanha e o açaí como os PFNM mais importantes economicamente (IBGE, 2011). Conforme apresenta a tabela 13, o Amazonas é o Estado com maior produção de castanha da Região Norte (14.661 toneladas), e o segundo maior produtor de açaí (102.440 toneladas), perdendo apenas para o Pará no segundo caso (183.163 toneladas).

0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% 70,00% 80,00% 90,00%

PAE Botos PDS Realidade RDS do Madeira Floresta Tapauá

16,67% 35,29% 37,50% 46,67% 83,33% 64,70% 62,50% 53,33% Consumo Venda

Tabela 13: Produção de castanha do brasil e açaí na Região Norte em 2011.

Estados Castanha do Brasil Açaí

Quantidade produzida (ton) Valor da produção (1.000 R$) Quantidade produzida (ton) Valor da produção (1.000 R$) Acre 14.035 19.329 1.701 1.256 Amazonas 14.661 25.531 89.480 102.440 Amapá 401 375 1.766 1.855 Pará 7.192 12.574 109.345 183.163 Rondônia 3.523 7.282 818 2.833 Roraima 105 68 - - Tocantins - - 3 5 Fonte: IBGE (2011)

Os maiores produtores de castanha da Região Norte são o Amazonas (14.661 toneladas), Acre (14.035 toneladas) e Pará (7.192 toneladas) e Roraima é o Estado com menor produção (105 toneladas). Em relação ao açaí, os maiores produtores são o Pará (183.163 toneladas), Amazonas (102.440 toneladas) e o Estado com menor produção é o Acre (1.256 toneladas).

Estes produtos também tem importância econômica para os municípios relacionados às unidades analisadas. A produção de castanha e açaí corresponde a 99,96% da produção total do extrativismo vegetal não madeireiro na Região Sul do Amazonas, apontada no censo do IBGE, conforme apresenta a tabela 14.

Tabela 14: Quantidade produzida (tonelada) de castanha do brasil e açaí nos municípios em 2011.

Municípios Castanha do brasil Açaí Produção total de PFNM

Humaitá 298 1.746 2.044 Manicoré 850 2.716 3.566 Novo Aripuanã 683 1.085 1.768 Tapauá 50 2.268 2.318 Total 1.881 7.815 9.696 Fonte: IBGE (2011)

Considerando a produção na região Sul do Amazonas, apresentada na tabela acima observa-se que Manicoré detém a maior produção de castanha do brasil (850 toneladas) e Novo Aripuanã é o segundo maior produtor (683 toneladas). Em relação ao açaí, o maior

produtor também é Manicoré (2.716 toneladas) e Tapauá é o segundo maior produtor (2.268 toneladas).

As técnicas de coleta da castanha e do açaí ocorrem de modo tradicional, baseadas nos conhecimentos passados entre gerações. A coleta da castanha é realizada juntando-se os ouriços17 após caírem no chão e para coletar o açaí, os extrativistas sobem na árvore com auxílio de uma peconha18. Não foram observadas ações de planejamento comunitário para organização da produção em nenhuma das Unidades estudadas, visto que os planos de gestão e de uso ainda não foram elaborados. No PAE Botos, o IDAM em 2008 e a UFAM em 2013 realizaram cursos sobre manejo comunitário da castanha e na RDS Rio Madeira o curso foi realizado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), uma organização não governamental. Ainda assim, a extração da castanha ocorre de forma individualizada e anualmente nas mesmas áreas. A legislação das Unidades de Uso Sustentável prevê o zoneamento das áreas de uso para estimativa da capacidade produtiva, visando o embasamento do planejamento do manejo comunitário. Estudos indicam que o planejamento comunitário auxilia na melhoria da qualidade dos produtos, reduz as perdas e consequentemente resulta em melhores preços, além de oferecer uma possibilidade de fiscalização do território contra invasores (APIZ, 2008).

No sistema tradicional de coleta da castanha a mão de obra é predominantemente familiar. O processo de produção é limitado à quebra do ouriço, lavagem e secagem das amêndoas. A castanha é comercializada com casca, não havendo processo de beneficiamento. A figura 47 apresenta as etapas de produção da castanha como um padrão para região analisada.

17

O ouriço é o fruto da castanheira. Em seu interior estão as amêndoas (sementes) que é a parte comestível e comercializada.

18

A peconha é um utensílio usado pelos extrativistas para subir nas árvores. Geralmente é confeccionada a base de fibras na forma de um cinto que amarrado aos pés ajuda na escalada até a copa das árvores.

Figura 47: Etapas do sistema tradicional de produção da castanha

Fonte: Pesquisa de campo (NUPEAS/UFAM e NUSEC/UFAM) – Elaboração da autora.

A falta de organização do sistema de coleta, o apoio técnico insuficiente e os problemas relacionados à dificuldade de vender a produção, sendo a comercialização dependente de atravessadores, resulta em baixa quantidade produzida e baixa participação da atividade na composição da renda das famílias, como mostra a tabela 15.

Coleta dos ouriços após a queda.

Amontoa dos ouriços

Quebra para retirada das amêndoas

Transporte do castanhal até o barco

Lavagem das amêndoas

Secagem a céu aberto

Ensacamento e armazenamento Venda Cas ta n h al Re sid ên ci a

Tabela 15: Quantidade anual média de castanha do brasil e açaí produzida por família nas Unidades analisadas entre 2011 e 2013.

Unidade Castanha do Brasil Açaí

Produção (kg) Preço da lata* (R$) Renda bruta anual (R$) Produção (kg) Preço da lata* (R$) Renda bruta anual (R$) PAE Botos 743,3 18,00 1.337,94 1.383 15,00 1.481,00 PDS Realidade 500 14,00 700,00 420 11,00 330,00 RDS Rio Madeira 591,4 15,00 887,1 1.500 12,00 1.285,71 Floresta Tapauá 787,2 15,00 1.180,00 434 15,00 465,00

* Foi considerado o peso de uma lata (20 litros) de castanha igual a 10 kg e uma lata (20 litros) de açaí igual a 14

kg como média para região, conforme medidas realizadas em campo.

Considerando que a maioria das famílias possui renda mensal de até um salário mínimo (conforme apresentado no capítulo de socioeconomia) e observando-se a tabela acima, nota-se que a participação da atividade extrativista na renda mensal é de 16 % no PAE Botos, 8,6% no PDS Realidade, 7,26% na RDS Rio Madeira e 9,67% na Floresta Tapauá. O PAE Botos e a Floresta Tapauá têm maior produção de castanha, e o primeiro alcançou o melhor preço no período analisado (R$ 18,00/lata). Ressalta-se, porém, que os preços variam entre os períodos iniciais e finais da safra. No início da safra foi registrada a venda da lata de castanha por até R$ 20,00 e no final por R$ 10,00.

Um plano de negócios participativo realizado por Cardoso e Costa (2012) com participação dos moradores do PAE Botos demonstrou que ações simples como construção de barracão comunitário, secagem das amêndoas em prateleiras suspensas, ao invés da secagem sobre o chão como é realizada atualmente e a comercialização das amêndoas sem casca em embalagens apropriadas, podem aumentar a renda dos extrativistas com a atividade em até 92%.

Os extrativistas geralmente utilizam as áreas mais próximas de suas residências para realizar a coleta, porém, durante a safra da castanha é comum o deslocamento para áreas mais distantes, onde podem permanecer durante todo o período (até 4 meses). A coleta ocorre na época da cheia do rio o que permite o acesso a áreas mais distantes. Muitas vezes as famílias de uma mesma comunidade se reúnem para atividade (até 3 famílias) por motivo de segurança, para dividir os gastos com combustível e para ajuda mútua na coleta e transporte

dos produtos. Porém, a produção é individualizada por família assim como a renda proveniente.

Geralmente o trabalho de coleta é realizado pelos homens, mas não raro, observa-se o deslocamento de toda a família, especialmente se houver disponibilidade de pequenas embarcações. O barco é transformado em moradia durante a safra (figura 48), ou são construídos acampamentos próximos aos castanhais. Mulheres e crianças permanecem no local para fazer a comida e trabalhar na seleção dos frutos (quando ocorre), e aos homens cabe o trabalho de caminhar mata a dentro, coletar e transportar os produtos até o barco. O transporte é realizado a pé do castanhal até o barco, com as sacas sobre as costas por um período de até 3 horas de caminhada.

Figura 48: Barco moradia.

Foto: NUSEC (2013).

Benzer Belgeler