Pode-se dizer que os fenômenos de opressão e de violência contra a mulher, em suas diversas formas, apesar de possuírem raízes em momento tão antigo que não há como se averiguar com precisão, subsistem “... há pelo menos de 2.500 anos” 35, segundo Rechtman e Phebo, ou seja, desde a antiguidade, com a formação das primeiras entidades familiares, nas quais reinava o regime patriarcal em que a mulher era submissa ao homem.
Segundo Sérgio Gomes da Silva, “... a discussão acerca das desigualdades entre homens e mulheres, como sabemos, não é recente, muito pelo contrário: dos gregos antigos até bem pouco tempo atrás, acreditávamos que a mulher era um ser inferior”36.
Assim, desde muitos séculos atrás, há esta discriminação de gênero em face das mulheres, muito embora, o estudo das questões de gênero e o combate das suas consequências sociais em face do “sexo frágil” apenas se intensificaram no século XX.
35 RECHTMAN, M. y PHEBO, L. Pequena história da subordinação da mulher: As raízes da violência de gênero. Rio de Janeiro. 2001. P.1
36 SILVA, Sérgio Gomes. Preconceito e discriminação: as bases da violência contra a mulher. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932010000300009>. Acesso em: 30/10/2015.
33 Já nas primeiras sociedades, as mulheres não possuíam autonomia sobre a sua própria vida. Antes do casamento eram dominadas pelo pai e, após, pelo marido. Seus direitos e deveres eram voltados aos cuidados dos filhos e do lar, não possuindo espaço próprio.
Na Grécia Antiga, a mulher não era sequer considerada cidadã, ocupando posição inferior ao homem, o que autorizava o seu domínio. Tal ideologia era respaldada por pensadores da época, como Aristóteles37. Para o autor: “... no que diz respeito à sexualidade dos indivíduos a diferença é indelével, pois, independente da idade da mulher, o homem sempre deverá conservar a sua superioridade”.
O papel feminino na Idade Média continuou o mesmo, de inferioridade; enquanto a deplorável prática de violência contra a mulher era habitual. Um exemplo dava-se com o “Direito da Primeira Noite", pelo qual o senhor feudal podia, sem qualquer consequência, desvirginar as mulheres do feudo em sua noite de núpcias, clara agressão sexual. O estupro coletivo autorizado na Idade Média também é apenas mais um dos exemplos.
Nesse período, Mary Del Priore38 relata, em sua obra História das Mulheres no Brasil, penas extremamente rigorosas, como a castração ou a morte na fogueira em uma caça às bruxas realizada apenas em face das mulheres.
Mesmo com a Revolução Francesa, a qual pregava a liberdade, a igualdade e fraternidade, bem como com o Iluminismo, marcos do século XVIII, no qual houve drástica mudança no pensamento humano, às mulheres ainda cabia papel secundário.
Jean-Jacques Rousseau39, importante filósofo da época, em suas obras, desenvolve um discurso sobre a inferioridade feminina, excluindo as mulheres da participação política e da busca da razão. Segundo o autor,
Quando a mulher se queixa da injusta desigualdade que o homem impõe, não tem razão; essa desigualdade não é uma instituição humana ou, pelo menos, obra do preconceito, e sim da razão: cabe a quem a natureza encarregou do cuidado dos filhos a responsabilidade disso perante o outro.
Nem mesmo a egalité defendida na Revolução Francesa pôde ensejar a igualdade de direitos entre homens e mulheres. No pensamento de Rousseau, bem como no de outros filósofos iluministas, existia uma desigualdade natural entre feminino e masculino. Assim, deveriam ser educados de formas diferentes, de acordo com as funções que foram destinados
37 ARISTÓTELES. A Política; tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 1998. P.33. 38 DEL PRIORE, Mary. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007.
39 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou, Da Educação, tradução Roberto Leal Ferreira. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. P. 428.
34 a desempenhas na sociedade, restringindo à mulher o cuidado dos filhos, do lar e do companheiro.
Ocorre que, as diferenças, como já exposto, não são naturais e sim construídas pelos homens. O sistema de controle masculino sobre o gênero feminino, também denominado regime patriarcal, que privilegia o homem em detrimento da mulher, foi entranhado na coletividade dessa maneira, inclusive na legislação.
Nos ensinamentos de Fustel de Coulanges40,
A família não recebeu suas leis da cidade. Se a cidade tivesse estabelecido o direito privado, é provável que teria feito tudo diferente do que vimos(...) A cidade teria antes dito: “A vida de tua mulher e de teu filho não te pertence(...). Eles não serão julgados por ti, que haverás de matá-los caso falhem(...)”. Quando começou a escrever suas leis, encontrou esse direito já estabelecido, vivo enraizado nos costumes, fortalecido pela adesão universal. Ela o aceitou não podendo agir de outra maneira, e não ousando modificá-lo, senão com o correr do tempo. O antigo direito não é obra do legislador, pelo contrário, foi imposto ao legislador.
Dessa forma, é notório que até o direito foi desenvolvido sob concepções históricas e sociais de inferioridade feminina, não sendo obra pura do legislador, mas uma imposição diante da desigual e injusta realidade.
Segundo Paulo Lobo, em seu livro Direito Civil: Famílias41, a família patriarcal foi tomada como modelo pela legislação civil brasileira desde a Colônia, passando pelo Império e também durante boa parte do século XX. Ainda segundo o autor, a sua estrutura legitimava o exercício dos poderes masculinos sobre a mulher.
Fica evidente, ao longo dos séculos, o domínio sobre o sexo feminino que leva à naturalização da violência de gênero. Tal problemática se repete até hoje em nossa sociedade “moderna”, por meio de casos que chocam, como os abusos nos metrôs de grandes capitais, os estupros coletivos, as listas de “vadias”, tráfico de mulheres, entre tantos outros.
A situação é tão crítica que todos conhecem alguma mulher que sofre ou sofreu violência de gênero, mesmo sem a ciência disso.
Frise-se que apenas nos séculos XIX e XX, após a Revolução Industrial, que em todo o mundo intensificaram-se os movimentos humanistas e feministas, notadamente formados por mulheres, os quais lutaram e, hodiernamente, ainda lutam para maximizar os espaços ocupados pelas mulheres, para sepultar as formas de opressão, bem como o histórico estigma social de inferioridade feminino, de submissão ao homem.
40 COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga, tradução Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Editora das Américas, 2006. P. 126.
35 Além disso, tais movimentos objetivam uma maior valorização feminina e o encerramento do triste quadro de violência e de opressão vivenciado pelo gênero.
No Brasil, de acordo com Margareth Rago42, “... entre os anos trinta e sessenta, assistimos à emergência de um expressivo movimento feminista, questionador não só da opressão machista, mas dos códigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento impostos pela sociedade.”.
Após, desde o final de década de 1970, ganham maior importância, no Brasil, manifestações dos movimentos feministas de ideologia que objetiva a igualdade entre homens e mulheres. Isto implicou em uma maior incorporação das mulheres no mercado de trabalho e a ampliação dos direitos sociais.
De fato, por meio da ação destes grupos, entre outros movimentos de libertação sociais e políticos, houve progresso no problema da violência, da inferiorização da mulher e, principalmente, da sua dominação pelo homem.
A questão passou a ser abordada com outros olhos não só por doutrinadores, legisladores, pensadores e pesquisadores, mas também pela sociedade como um todo. O avanço legislativo é inegável. No entanto, na praxe, no dia-a-dia, a situação quase não foi alterada.
Nos ensinamentos de Maria Berenice Dias43, em seu Manual de Direito das Famílias:
...por uma contingência histórica e cultural, normalmente o patrimônio ainda está na posse e administração do varão, enquanto a esposa se dedica prioritariamente aos afazeres domésticos e à criação e educação dos filhos. Assim, não há como deixar de reconhecer que o viés patriarcal ainda subsiste.
Ora, o que se vivencia, na atualidade, em relação à violência de gênero é um quadro crônico, repetitivo, muitas vezes cruel e cotidiano, contra as mulheres, por uma errônea construção social patriarcal, apesar da melhoria da situação já relatada.
É contra essa realidade que todos devem se posicionar, pois se trata de questão de saúde e interesse público e social, além de representar flagrante violação aos direitos humanos.
42 RAGO, Margareth. Os feminismos no Brasil: dos anos de chumbo à era global. Labrys, estudos feministas,
nº 3, janeiro/julho de 2003. Disponível em:<http://www.labrys.net.br> Acesso em: 07/10/2015.
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