Que leitura e escola relacionam-se intimamente não há como discutir, considerando-se ser esse o espaço social formal onde ocorre o ensino e a aprendizagem da leitura. No entanto, discute-se cada vez mais o fato de que não há como um educador se esquivar do tema leitura (LOPES, 2000), independente de sua formação, seja ela na área de Matemática, de Geografia, de História ou de Ciências.
Desse modo, a compreensão e o aprendizado dos conhecimentos das mais diferentes áreas disciplinares passam a relacionar-se também às práticas de leitura que acontecem nos espaços escolares e não-escolares. As pesquisas em ensino de ciências2 vêm avançando nessa discussão ao proporem uma melhor formação científica dos alunos por meio da utilização de textos diferentes dos didáticos. Nesse sentido, textos de divulgação científica, textos escritos por cientistas e textos artísticos e literários têm sido alvo de estudo de diferentes autores e grupos de pesquisa.
A questão é que o conhecimento científico não se encontra isolado dos pressupostos sociais, suas transformações tecnológicas, econômicas e históricas, ou seja, o ensino de ciências não pode ser separado dos processos sociais que acontecem na sociedade atual (GIRALDELLI e ALMEIDA, 2005). Ao considerarmos ciência e leitura como práticas culturais (BOURDIEU, 1996) constatamos, mais uma vez, que estamos lidando com esferas sociais indissociáveis, mas que muitas vezes se desvinculam no contexto escolar, devido à fragmentação e à didatização do conhecimento por meio das disciplinas escolares.
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ALMEIDA e RICON, 1993; SOUSA, 1997; SILVA e ALMEIDA, 1997; SILVA e ALMEIDA, 2000; MARTINS e DAMASCENO, 2002; MOREIRA, 2002; ZANETIC, 2002; MARTINS et al, 2004; ALMEIDA, 2004; CARVALHO e ZANETIC, 2004; DEYLLOT e ZANETIC, 2004; OLIVEIRA e ZANETIC, 2004; GIRALDELLI e ALMEIDA, 2005; PINTO e RABONI, 2005; CARVALHO e ZANETIC, 2005; NARDI e ALMEIDA, 2006.
Assim, o ensino e a aprendizagem da leitura acaba por se restringir às aulas de Língua Portuguesa ao passo que o ensino e a aprendizagem de ciências restringem-se às aulas de Ciências. Autores como Terrazan (2000) justificam esse fato no trabalho dos professores que possuem, geralmente, uma carga horária de trabalho excessiva e que saem dos cursos de formação não capacitados para lidar com outros instrumentos e alternativas didáticas, permanecendo, assim, fixos ao livro didático, o que torna o mesmo garantia de desenvolvimento das aulas. No entanto, o mesmo autor e outros (ALMEIDA e RICON, 1993), ao realizarem pesquisas utilizando textos de divulgação científica em aulas de Física, comentam sobre a melhoria da qualidade do processo de ensino e aprendizagem.
Massarani (2000), ao mesmo tempo, aponta os textos de divulgação científica e a leitura dos mesmos como úteis instrumentos para a promoção da educação científica. Além disso, a autora apresenta a pesquisa realizada por Mora (1998) onde são enumerados os recursos que devem existir nos textos de divulgação científica para que os mesmos se tornem atrativos aos leitores, chamando nossa atenção a menção à necessidade de vínculo entre arte, ciência e cotidiano.
Outros cuidados na utilização de textos de divulgação científica são recomendados por pesquisadores. Sousa (1997), por exemplo, coloca que esses textos não podem ser usados objetivando a substituição dos livros didáticos. A sugestão da autora é que o trabalho com os jornais e revistas de divulgação científica seja uma quebra na rotina didática, pedagógica, escolar, para que assim se alcance bons resultados no processo de ensino e aprendizagem.
Mas, outros instrumentos além dos textos de divulgação científica têm sido colocados como bons instrumentos para a formação científica dos alunos. Almeida (2004), utiliza em aulas de Física, por exemplo, textos dos próprios cientistas e afirma
os avanços relacionados à produção de significados e à formação cultural e profissional dos estudantes.
O interessante é que ao nos remetermos ao trabalho dos professores, constatamos que a utilização dos mais diferentes gêneros literários em sala de aula de ciências não é novidade. Lopes e Nascimento (2007) afirmam que ao analisarmos os livros didáticos que permeiam a atividade docente dos professores da área de ciências naturais, verificamos que os mesmos carregam em si textos didáticos, textos de divulgação científica, letras de músicas e muitas vezes textos literários sejam eles em prosa ou poesia. Quantos não foram os professores que introduziram a problemática em torno do lixo utilizando o poema “O Bicho” de Manuel Bandeira, que já não trabalharam o conceito de biodiversidade por meio da letra de “Passaredo” de Chico Buarque de Holanda, ou que não abordaram o ciclo da água da natureza com a leitura de “A briga da terra com o ar” de Ana Maria Machado? Desse modo, mesmo que os textos não tenham caráter educativo, o professor pode, em seu planejamento, fazer deles instrumentos facilitadores do processo de ensino e aprendizagem (LOPES e NASCIMENTO, 2007). Pesquisas como a realizada por Corrêa (2003) reforçam esse tipo de abordagem educacional, pois muitos são os estudos que apontam transformações na qualidade do ensino quando se utiliza textos literários e/ ou de divulgação científica. E Zanetic (2002) é categórico ao afirmar que
“não há dúvida que para estabelecer um diálogo inteligente com o mundo é preciso que o leitor domine de forma competente a leitura e a escrita, portanto a literatura deve ter um papel de destaque na educação”(ZANETIC, 2002, p. 5).
Desse modo, Lopes e Nascimento (2007) apontam que mesmo não possuindo “receitas” de como fazer para se alcançar resultados positivos, existem exemplos de pesquisas mostrando diferentes possibilidades de trabalho. Salomão (2005), Zanetic (2002) e Moreira (2002) argumentam sobre os efeitos positivos no processo de ensino e aprendizagem nas diferentes áreas das ciências naturais, como a Física e a Biologia,
quando há a utilização de diferentes gêneros literários nas salas de aula, recebendo destaque os textos poéticos, os literários e os teatrais. No entanto, nos perguntamos se há formação docente preparando nossos professores para esse tipo de abordagem que considera a ciência uma prática cultural e que, portanto, ocupa lugar nas mais diferentes práticas sociais e artísticas, inclusive na literatura. Assim, mesmo com o esforço dos professores para realizarem um bom trabalho seguindo esse viés, precisamos nos questionar até que ponto se consegue conciliar literatura e ciência sem se concentrar no conhecimento científico e se perder a beleza da arte e sua fruição (LOPES e NASCIMENTO, 2007).
Considerando que os conceitos teóricos principais dessa pesquisa foram definidos e relacionados, resta-nos estabelecer o referencial teórico de análise e compreensão do contexto da pesquisa. Assim, no próximo tópico, nos deteremos ao instrumento teórico da Análise de Discursos.