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Dentro dessa perspectiva da participação, como processo sócio-histórico cultural, nos propomos a analisar a percepção dos membros do Conselho Social do FUNDEF, no Município de Parnamirim/RN, de acordo com as ações que desempenham, com a sua participação. O entendimento da qualidade da participação de acordo com as percepções dos atores da pesquisa nos permitirá indicar a sua concepção sobre essa estratégia política. Portanto, neste primeiro momento, são ponderados os resultados das entrevistas com os conselheiros referentes à sua participação nas discussões e decisões relativas a vários temas e ao acompanhamento dos recursos do FUNDEF, durante as reuniões que aconteceram no primeiro e segundo mandatos, do período de 1998 a 2003.

Eventual Ativa 33,33%

66,67%

Gráfico 1 – Avaliação dos conselheiros no que concerne à sua participação nas decisões – primeiro e segundo mandatos – 1998/2003

Fonte: Entrevistas com os representantes do Conselho de Controle Social do FUNDEF. Parnamirim/RN (2006).

Ao analisar as informações dos entrevistados no Gráfico 01, vimos que a avaliação dos conselheiros foi negativa no que diz respeito à sua participação, pois 66,67% deles classificam sua participação como eventual e apenas 33,33% consideram-se ativos. Tais percentuais

demonstram o reconhecimento dos membros acerca da fragilidade de sua participação, apresentando justificativas variáveis para essa conceituação negativa dos discursos que se seguem.

A partir das falas dos entrevistados identificamos a concepção de participação, incluída nos discursos. Primeiramente, evidenciamos as informações fornecidas pelos sujeitos pertencentes ao primeiro e segundo mandatos do Conselho. O representante dos professores expõe:

Eu tenho inclusive dito que fiz a minha parte. Eu me considero bastante ativo. No primeiro mandato teve momentos de discussões até fervorosos, onde fui ameaçado às vezes. Mas, fiz a minha participação como achei que devia e estou satisfeito por isso (PROFESSOR 01, 2006).

O relato do representante dos professores mostra que o mesmo atuava criticamente nas discussões não se deixando persuadir pelos argumentos de outros membros, ou mesmo ameaças ligadas ao poder público local. Ao assumir uma postura crítica diante das discussões, provavelmente, incomodou alguns sujeitos que não admitiam a modificação da realidade que suprimia, em particular, a atuação da categoria dos professores. Contudo, o representante persistiu e rompeu com as estruturas hierárquicas em benefício de sua categoria.

De acordo com Rousseau (1978, p. 46): “[...] há comumente muita diferença entre a vontade de todos e a vontade geral. Esta se prende somente ao interesse comum; a outra, ao interesse privado e não passa de uma soma das vontades particulares”. Melhor dizendo, nossa interpretação seria de que o conselheiro não limitou sua atuação apenas a assuntos relacionados ao interesse próprio e imediato, mas da categoria que representa. Deteve-se em questões bem mais abrangentes, de interesse público como, por exemplo, a incessante luta para criação do Conselho. Ao ser questionado sobre sua participação o representante dos funcionários reconhece que:

Eu fui convidado pelo SINDSERP. Foi o SINDSERP que entrou com uma ação no Ministério Público para criação desse Conselho e me convidou a participar. [...] Não houve eleição no caso. Não foi algo totalmente espontâneo (FUNCIONÁRIO 01, 2006).

Percebemos que foi a participação do conselheiro no movimento sindical local permitiu que sua inserção no Conselho. Quando ele afirma que sua inserção “não foi algo espontâneo” refere-se à necessidade que atribui ao processo eleitoral com envolvimento da comunidade escolar na escolha dos representantes, bem como à candidatura espontânea ao pleito. Dessa forma, o conselheiro sente a necessidade de haver liberdade tanto de escolha dos candidatos quanto de responsabilidade em assumir a candidatura como algo conquistado pelo candidato, não sendo apenas conduzido à participação por mero casuísmo. Para Demo (2001, p. 19): “Certamente não nos interessa a liberdade que nos querem doar, conceder ou impor, mas aquela que nós mesmos construímos, caso contrário, não seria liberdade”.

É mister considerar que o conselheiro não apóia o sistema de indicação no espaço público, pois defende o envolvimento livre de cada sujeito que esteja disposto a efetivamente compor o Conselho. A representante dos diretores, neste mandato, classifica sua participação nas reuniões como eventual, talvez seja devido a não ter contribuído para a construção de um espaço participativo (não participou do movimento sindical promovido para criação do Conselho). A representante dos diretores apresenta a seguinte justificativa:

Se dava de forma eventual. [...] Não era uma coisa sistematizada. Era de forma eventual. Eventual, porque não era freqüente. Não havia reuniões. Só houve umas três reuniões (DIRETOR 01, 2006).

As razões que conduzem à participação poderiam construir um espaço político que, efetivamente, envolvesse os sujeitos em processos emancipatórios, lutando por seus direitos e assumindo, com responsabilidade, seus deveres. Nesse sentido, a organização de um cronograma de reuniões relaciona-se diretamente com a própria atuação e crescimento da participação dos membros. Como propõe Bordenave (1983, p. 67-68): “Pode-se dizer, então, que a participação tende para a organização e que a organização facilita e canaliza a

participação. De fato, a organização não é um fim em si mesma, mas uma condição necessária para a participação transformadora”. Vale ressaltar que a organização e o envolvimento dos membros são aspectos relevantes que devem orientar as ações do Conselho para uma efetiva participação. Apoiados nesse pressuposto, solicitamos que os membros do Conselho estabelecessem uma conceituação sobre o envolvimento dos conselheiros no acompanhamento dos recursos.

Em outro momento realizamos entrevistas com os representantes do terceiro mandato do Conselho, fazendo o mesmo questionamento relativo à sua participação. Observemos o Gráfico 3, a seguir, que expõe a conceituação dos representantes sobre sua participação:

Ativa

100%

Gráfico 2 – Avaliação dos conselheiros no que concerne à sua participação nas decisões – terceiro mandato – 2003/2006

Fonte: Entrevistas com os representantes do Conselho de Controle Social do FUNDEF. Parnamirim/RN (2006).

Diferentemente do Gráfico 1, os representantes do terceiro mandato do Conselho conceituam sua participação como ativa, representando um percentual de 100% dos entrevistados. A avaliação dos conselheiros é positiva, conforme retrata o Gráfico 2, no entanto, se faz necessário considerar as justificativas que subsidiam essa excelente conceituação de sua participação nas reuniões do Conselho.

A presidente apresenta um depoimento significativo, sobre o conceito de sua participação:

Eu sou ativa, eu participo de quase todas as reuniões eu presido. E acredito que não deve ser diferente. Se eu presido, preciso estar presente. É que além de estar presente em todas as reuniões do Conselho, eu tenho conhecimento de causa e não tem subterfúgio em nada. Eu me considero uma presidente ativa, viu (RISOS). As reuniões acontecem nas datas previstas, quando a gente convoca realmente estão todos participando. Eu acho esse Conselho um dos mais ativos no Município. É o Conselho do FUNDEF (PRESIDENTE, 2006).

A presidente em sua fala classifica-se como ativa apenas por estar presente e presidir (ter o poder da palavra) em todas as reuniões. E, coloca em segunda importância os conhecimentos referentes ao FUNDEF. Do mesmo modo, a representante dos professores nos diz que:

Ativa. Por quê? Porque eu estou sempre presente a todas as reuniões. Então, como representante da categoria dos professores eu acho que eu não deveria, não devo faltar às reuniões porque é de interesse. Segundo, porque eu aceitei o desafio de participar e terceiro porque eu sou redatora das atas de reuniões. Na verdade, eu não era a redatora, era a representante dos diretores que nós elegemos dentro do grupo, no entanto, foi quando ela precisou pedir demissão do cargo de diretora na Secretaria e passou a fazer parte do quadro de professores. Então, sua representante interina assumiu. A partir dessa necessidade eu passei a fazer. Assim, dentro do próprio grupo dizia e a gente ia definindo e terminou a gente não definindo muito bem essa função. Mas, eu fiquei encarregada de livre espontânea vontade com aceitação do grupo participar como redatora das reuniões (PROFESSOR 02, 2006).

Na fala da representante, observamos que a primeira condição para ser ativa é estar presente em todas as reuniões e, em outro momento, considera ser importante participar, porque é de seu interesse envolver-se no Conselho. Igualmente, a representante dos funcionários relata ser ativa: "Porque eu participo de todas as reuniões" (FUNCIONÁRIO 02, 2006). A participação, nesse sentido, não pode ser entendida apenas como a presença em reuniões, pois restringe a possibilidade de transformação da realidade. Bordenave (1983, p. 20) aponta que:

No novo contexto, a participação já não tem caráter consumista atribuída pela teoria da marginalidade, mas o de processo coletivo transformador, às vezes contestatório, no qual os atores marginalizados se incorporam à vida social por direito próprio e não como convidado de pedra, conquistando a presença ativa e decisória nos processos de produção, distribuição, consumo, vida política e criação cultural.

Com tal concepção, a participação ativa, refere-se ao processo coletivo de conquista que pode culminar na transformação de situações por meio da intervenção de atores sociais na tomada decisão. "Eis a diferença entre a participação passiva e a participação ativa, a distância entre o cidadão inerte e o cidadão engajado" (BORDENAVE, 1983, p. 22). Sobre a qualidade de sua participação a representante dos pais também se considera ativa:

Porque eu tenho participado das discussões, dos assuntos. Eu acredito que todos participando podem mudar mais a educação. Eu participo das reuniões sempre evito faltar às reuniões. [...] Para mim significa bom, eu acho bom participar. Porque através do Conselho eu fico, assim, mais por dentro da educação. [...] Sabendo sobre a verba, sobre os colégios municipais, eu acho importante (PAIS, 2006).

A representante dos pais apesar de fazer referência à presença em reuniões, acredita que a participação pode modificar a realidade da educação, bem como cita a discussão das temáticas em um processo de participação. A primeira representante dos diretores diz: “Eu procuro participar da forma mais ativa possível, pela necessidade de que há de prestar conta para comunidade escolar educativa e aqueles que me elegeram” (DIRETOR 02, 2006). As afirmações da representante não são claras, uma vez que não houve o processo eleitoral para diretores, e sim para os representantes dos funcionários, professores e pais, visto que o cargo foi assumido mediante indicação da Secretária, pois a representante não se incluiu na eleição. A representante dos diretores, que assumiu o cargo, também coloca a presença nas reuniões e as discussões como primordiais em sua participação, configurada como ativa. “Porque eu discuto, freqüento na medida em que sou convocada. Porque se precisa da presença para que possa resolver em relação a questões dos Conselhos” (DIRETOR 03, 2006).

A presença em reuniões, segundo relato dos entrevistados do terceiro mandato, apresenta-se como essencial para a participação, de acordo com as informações configuradas como ativa por todos. Contudo, Bobbio et al. (1998b, p. 888) afirmam que precisamos compreender a participação em três formas ou níveis: presença, a ativação e participação.

A primeira forma que poderíamos designar com o termo presença, é a forma menos intensa e mais marginal de participação política; trata-se de comportamentos essencialmente receptivos ou passivos, como a presença em reuniões, [...], situações em que o indivíduo não põe em qualquer contribuição pessoal. A segunda forma poderíamos designá-la com o termo de ativação: aqui o sujeito desenvolve, dentro ou fora de uma organização política, uma série de atividades que lhe foram confiadas por delegação permanente [...]. O termo participação, tomado em sentido restrito, poderia ser reservado, finalmente, para situações em que o indivíduo contribui direta ou indiretamente para uma decisão política.

Dessa forma, não podemos classificar a participação como ativa, considerando apenas o aspecto da presença em reuniões. Entender a participação, nessa concepção, significaria dizer que os sujeitos que compõem o Conselho, apenas fazem parte e não privilegiaríamos um fator essencial que é tomar parte no que concerne às instâncias decisórias (BORDENAVE, 1983). A concepção de participação relacionada à presença restringe o processo participativo, pois não destaca a característica primordial da participação que é "tomar parte" de forma significativa (crítica, responsável e consciente) nos processos decisórios.

Benzer Belgeler