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O Parecer Técnico é subscrito pelos técnicos do IBAMA responsáveis pela análise técnica do RIMA. Têm para si complexa missão, pois a decisão com todo teor técnico que embasa o Parecer, acaba por imprimir uma parcela de

discricionariedade temerosa se pensarmos no arsenal jurídico na área da responsabilidade ambiental. A isenção da análise pode estar muito aquém das questões jurídicas e éticas que envolvem certas decisões.

É interessante o outro lado desta sina, como bem comenta o doutrinador Inagê (OLIVEIRA, 1998, p. 211): “confinando a discricionariedade administrativa o EIA tem o condão de, pela via transversa, ampliar o controle judicial (e popular) dos atos administrativos ambientais.”

Outro ponto importante, referenciado por Inagê diz respeito a natureza jurídica do ato administrativo da licença ambiental. Para ele “a decisão de conceder ou não a licença é político-administrativa, portanto leva em linha de conta outros critérios que os exclusivamente técnicos”. (OLIVEIRA, P. 213).

Neste sentido, dependerá da estrutura administrativa de cada órgão ambiental e das normas próprias que regem o procedimento da decisão. O importante é que tenha base, no mínimo dos princípios administrativos anunciados pela CF/88 em seu art. 37: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

O Parecer Técnico do IBAMA inicia sua análise relacionando cronologicamente as etapas empreendidas na verificação da viabilidade ambiental. Iremos apontar algumas delas que estão afeitas ao escopo de nosso estudo. O pedido de complementação dos estudos feito em 24 de fevereiro de 2006, por meio da Informação Técnica n 12/2006, é um destes casos. Destacamos outros pontos referenciados:

Meio Físico: A problemática questão do aporte e acúmulo de sedimentos, levando em consideração sua origem e características do rio Madeira e, principalmente com a implantação dos barramentos propostos, induzirá a deposição de sedimentos e conseqüentemente maiores manchas de inundações, antes não obtidas, ou seja, anteriormente com as cheias

naturais o rio Madeira mantinha-se na calha e, com os depósitos formados, a área, o volume e as cotas anteriormente previstos serão outros. Nesse sentido, provocará uma maior elevação do nível do rio Madeira (grifo nosso). Além do mais, com a formação dos depósitos de

sedimentos e possível consolidação, a depender da regra operativa dos mesmos, podem comprometer a vida útil dos reservatórios. Meio Biótico: As características da fauna de peixes do rio Madeira são marcadas por uma alta diversidade de espécies e o estudo demonstrou isso com um grande volume de informações. A organização e análise destas informações tornaram-se um complexo problema a ser resolvido. A caracterização do rio Madeira é a de ter um trecho encaixado na região de construção das usinas e de ser um local de passagem para espécies de peixes que realizam

migrações (grifo nosso) para fins reprodutivos e/ou de alimentação. Entre

estas espécies, estão as de grandes bagres migradores, de importância social e econômica na pesca da região amazônica e que precisam atingir

as regiões acima das áreas das hidrelétricas, em tributários andinos da Bolívia e do Peru, para realizar a reprodução. Além disso, os ovos e larvas desses grandes bagres precisam descer dos locais de reprodução, nos tributários andinos, para regiões baixas da bacia do Madeira e Amazonas até o estuário para se desenvolverem, crescerem e reiniciar o ciclo. Com a construção dos empreendimentos será necessária construção de um mecanismo junto às barragens que permita a continuação dessas migrações entre as várzeas do baixo Madeira e Amazonas e as áreas de reprodução nos tributários andinos

(grifo nosso). Há ainda o risco de disponibilizar o mercúrio existente no leito do rio durante a construção das usinas, podendo entrar na cadeia alimentar do rio. Medidas terão que ser tomadas para que esses riscos sejam diminuídos. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p.7).

O Parecer Técnico da equipe do IBAMA, assim como outras equipes de órgãos similares dos Estados e Municípios, devem ter como base os estudos apresentados pela equipe que realizou o EPIA/RIMA, os trabalhos de campo, os trabalhos científicos e acadêmicos, as audiências públicas, e ao final, concluirá favorável ou desfavoravelmente a viabilidade ambiental do Projeto. Priorizando questões relacionadas a água, enumeramos a seguir algumas das análises sobre o EPIA/RIMA:

1. Não foram apresentadas alternativas tecnológicas e locacionais específicas para questões sedimentológicas (sediment routing). 2. No que se refere a área de influência a equipe do IBAMA entendeu que “ Inseridos num sítio de superlativos, os AHEs Santo Antônio e Jirau, por si só, são merecedores de uma análise holística sendo que, ao longo de todo o processo de licenciamento, novos estudos, oitivas e informações foram agregados descortinando a necessidade de ampliação das áreas de influência definidas no EIA.” (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p.10-11).

Observamos que várias complementações foram solicitadas.60. A solicitação de esclarecimento é prevista no art. 10, IV e VI da Resolução CONAMA nº 237, de 1997. No primeiro caso após a análise dos documentos e no segundo, após a audiência pública.61 (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, p. 69).

60 Foi feito pedido de complementação dos estudos em 24 de fevereiro de 2006, por meio da

Informação Técnica n 12/2006.

61 Veja que a equipe considera a que a área boliviana integra a Bacia Hidrográfica do rio Madeira “A

Quanto aos estudos integrados a equipe entendeu que: Não nos perdendo na escala que envolve o empreendimento é fato que os AHEs propostos modificam fisicamente a dinâmica do meio necessitando de estudos e levantamentos que caracterizem, diagnostiquem e prognostiquem processos do ambiente e suas intervenções tecnológicas. As informações devem ser cruzadas orientando-se pelas modificações nos seus fatores condicionantes e, por conseguinte, nos seus parâmetros ou indicadores. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 12).

É peculiar tratar do tema ambiental, pois a gama de parâmetros, medições, metodologia é complexa ensejando a escolha de profissionais com critério, pois precisam ter conhecimento e competência suficiente para entender as interações que o meio ambiente assinala e traduzir este olhar conjunto (multidisciplinar) para que leigos (povo) aos moldes que possam validar ou não a atividade.

4. Quanto aos formadores do rio Madeira a equipe considerou que: O EIA apresenta apenas uma breve descrição dos principais formadores do rio Madeira: rios Guaporé (Iténez), Mamoré, Beni/Madre de Dios e Abunã. (EIA- Tomo B 1/8, p. III-47,48). 5. No que se refere aos estudos sedimentológicos o IBAMA considerou que: O conhecimento das questões sedimentológicas, relacionadas aos fenômenos de erosão, transporte e deposição interessam prioritariamente a qualquer atividade que se planeje empreender no Rio Madeira. Uma vez identificadas as origem e magnitude da carga de sedimentos afluente, esta questão não foi merecedora de caracterização, estudo e prognóstico desta origem no Estudo de Impacto Ambiental, abrindo-se uma lacuna de conhecimento e não apropriação dos riscos potenciais que o fenômeno de montante pode impor aos próprios empreendimentos. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 6).

5. A equipe levantou a questão relacionada à Bacia Hidrográfica: (...) considerada na análise apenas trata do território nacional e não a bacia hidrográfica como um todo. A área de influência não se caracteriza tão somente sobre o efeito do projeto sobre a bacia, mas e, principalmente da bacia sobre o empreendimento. Na análise dos processos hidrossedimentológicos no rio Madeira apresentado no EIA não se observou uma avaliação de conjunto da bacia hidrográfica caracterizando a tendência de alteração do uso do solo e variabilidade climática de longo prazo na bacia e seus efeitos potenciais de alteração no comportamento hidrológico e na produção de sedimentos nos trechos de influência dos aproveitamentos. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 20).

Veja que este aspecto foi tratado no Termo de Referência.

6. Pontuou ainda que: com a elevação do nível d’água pelos AHEs, atenção especial deve ser dada às planícies de inundação (sazonalmente inundadas), às margens do rio Madeira e aos tributários (atenção especial deve ser dada área urbana do distrito de Jaci-Paraná). Além de possibilitar o encharcamento dos solos, há o risco de desestabilização de encostas

marginais, pois com a variação do nível d’água do rio as áreas críticas tendem se tornarem vulneráveis à constante inundação e conseqüentemente tornarem-se instáveis e inviáveis a qualquer uso. Até mesmos as áreas mais elevadas estão propensas à saturação com o lençol aflorante. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 20).

No que tange a produtividade de sedimentos do Rio Madeira, a equipe detectou que:

7. O Estudo de Impacto Ambiental não contemplou a questão de eventos extremos como La Niña nem qualquer diagnóstico, estudo ou consideração sobre áreas de montante que são origem majoritária da produção e deposição dos sedimentos conforme abordado anteriormente. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 25). A equipe observou que:

8. (...) existe probabilidade de unidades de conservação serem afetadas, diretamente ou suas zonas de amortecimento, que não contam com anuência do órgão responsável ou sequer foram identificadas no EIA. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 32).

Em relação às áreas a montante dos AHEs a equipe considerou que:

9. As áreas inundadas apresentadas acima não levaram em consideração os efeitos do remanso e assoreamento e conseqüente sobrelevação dos níveis d’água. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 34).

A maioria dos argumentos dos técnicos do IBAMA são requisitos solicitados no Termo de Referência, o restante nas complementações62.

Ao final em sua conclusão a equipe considerou que:

(...) a análise de viabilidade ambiental dos AHE's Santo Antônio e Jirau foi realizada, portanto, observando - se o Estudo de Impacto Ambiental, suas complementações e as novas condições supracitadas. Este conjunto de

informações possibilitou identificar que a abrangência dos projetos propostos é muito maior do que os espaços delimitados como áreas

62 No Estudo inicial, com relação aos sedimentos, os Vertedouros e suas operações não foram

devidamente contemplados. Todas as citações abordando o vertedouro se limitaram à colocação de que o “sedimento afluente passará pelas Turbinas e Vertedouro”. O porte e localização dos vertedouros motivaram pedido de complementação conforme INFORMAÇÃO TÉCNICA n 12/2006 – COLICHID/ CGLIC/DILIQ/IBAMA de 24/02 /2006. PT. P.49

de influência direta e indireta e mesmo área de abrangência regional dos empreendimentos. Os estudos apresentados não contemplaram a bacia hidrográfica do rio Madeira como um todo; quanto aos possíveis

impactos diretos no território boliviano, o EIA destaca que as áreas impactadas do território nacional e transfronteiriço não foram

devidamente incorporadas e diagnosticadas no EIA (grifo nosso)

(BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 245).

De qualquer forma, indicam os técnicos do IBAMA a necessária consulta à Procuradoria Geral do IBAMA para o adequado procedimento). Adiciona que,

Quanto aos impactos à jusante do AHE Santo Antônio, os mesmos foram ignorados pelos empreendedores dos aproveitamentos hidrelétricos. (...) O Estudo de Impacto Ambiental declara o elevado grau de incerteza. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 247). O dimensionamento adequado para a área de influência direta e indireta foi solicitado para o empreendedor por meio de complementações do TR. Portanto, é válido o argumento dos técnicos do IBAMA. Sabiamente a equipe discorreu sobre o dimensionamento da Bacia do rio Madeira no estudo, alertando sobre a necessidade de consulta a Procuradoria do IBAMA sobre a extensão internacional no diagnóstico do EPIA/RIMA.

Ao final a equipe conclui que:

Dado o elevado grau de incerteza envolvido no processo (grifo nosso); a identificação de Áreas afetadas não contempladas no Estudo; o não dimensionamento de vários impactos com ausência de medidas mitigadoras e de controle ambiental necessárias à garantia do bem-estar das populações e uso sustentável dos recursos naturais; e a necessária observância do Princípio da Precaução, (...) a equipe técnica concluiu

não ser possível atestar a viabilidade ambiental (grifo nosso) dos

aproveitamentos Hidrelétricos Santo Antônio e Jirau, sendo imperiosa a realização de novo Estudo de Impacto Ambiental, mais abrangente, tanto em território nacional como em territórios transfonteiriços, incluindo a realização de novas audiências públicas. Portanto, recomenda - se a não emissão da Licença Prévia. (BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS, 2007, p. 256).

O desfecho da Licença Prévia dos AHEs de Santo Antônio e Jirau foi bem contestada por setores da área elétrica e em um segundo momento pela organizações não governamentais. Primeiro pelo indeferimento da viabilidade ambiental. Segundo que logo a seguir a emissão do Parecer Técnico do IBAMA, os funcionários da entidade entraram em greve. Neste meio tempo, foram

contratados consultores externos que estudaram as alegações do RIMA e ao final, o Diretor da área - Roberto Messias Franco assinou a Licença Prévia.

3.6. DOCUMENTOS RELACIONADOS À OUTORGA DE DIREITO DE USOS

Benzer Belgeler