O romance Senhora, de José de Alencar, é marcado por uma diversidade de modos ficcionais. Nele podemos ver jogos de cena dramáticos – como nas discussões no quarto de Aurélia e Seixas – um forte simbolismo nas imagens da beleza de Aurélia, e nas descrições carregadas de sentimento e moralismo a respeito do amor etc. Vemos também, a crônica cotidiana, típica dos jornais, na representação das futilidades da capital fluminense. Há ainda o realismo, presente na ironia dos enunciados a respeito do casamento, e o rigor descritivo, vide o naturalismo, e nas descrições exageradas dos ambientes da casa de Aurélia. Toda essa multiplicidade de gêneros e formas narrativas é constituída por um conflito ideológico que dá unidade ao texto, em que as questões do amor e do dinheiro são representadas na virtude de Aurélia e na fraqueza de Seixas, respectivamente. Esses personagens centrais figuram um conflito entre ideologias textuais, que seriam correlatas à ideologia geral “romântica” e à ideologia geral “liberal- burguesa”, e que, dessa forma, seriam produzidas em uma determinada formação social do século XIX no Brasil. Torna-se necessário perceber, todavia, como o texto trabalha com essas duas ideologias, visto que, como preconiza Eagleton, o texto não é uma mera reprodução da ideologia – do “real” histórico – , mas uma produção dessa ideologia. Para isso, deveríamos refletir sobre como o texto problematiza-se com a ideologia. Poderíamos dizer que o texto não é apenas uma solução a uma contradição ideológica, mas é uma solução ao próprio tema-problema que cria. Logo, é importante ver como essas IGs são trabalhadas na Ideologia textual.
Como vimos anteriormente, a trama do romance baseia-se na união de Aurélia e Seixas. Desse modo, temos, de um lado, uma personagem que é vista, por meio da leitura da ideologia da narrativa, como uma moça linda que possui uma grande devoção à virtude e, principalmente, ao amor. Podemos dizer que sua maior riqueza, visto que financeiramente fosse pobre, era seu idealismo: “Aurélia amava mais seu amor do que seu amante, era mais poeta do que mulher, preferia o ideal ao homem.” (ALENCAR, 2009, p.107). Por outro lado, temos a personagem de Fernando, o bom vivant, o jovem que frequenta os bailes da corte e recita poemas de Byron, frequentemente se utilizando do dinheiro das mulheres abastadas de sua família para patrocinar suas algazarras. Ele não tem muito dinheiro, devido a que seu pai, agora falecido, ficou parcialmente falido ainda em vida. Assim, ao invés de compensar sua mãe e irmã financeiramente, é ainda mimado por elas, para aproveitar sua vida. Nesse contexto, para ele o casamento poderia ser uma oportunidade de sustentar essa sua vida hedonista e pseudoaristocrática: “o
casamento desde que não trouxesse posição brilhante e riqueza era para ele nada menos que um desastre” (ALENCAR, 2009, p.110). Enquanto para Aurélia o valor da vida estaria no “céu”, no amor e na virtude, para Fernando o valor estaria nos prazeres mundanos e na materialidade do dinheiro. Assim temos duas figuras maniqueístas, com tipificações ideológicas bem definidas.
Dentro desse quadro narrativo, o que acaba gerando toda a tensão e conflito na trama é o fato deles se apaixonarem. A ficção alencariana em si, nesse sentido, é repleta desse maniqueísmo heroico, em que o protagonista é superior ao seu algoz devido a suas virtudes metafísicas. A personagem Aurélia, a heroína urbana do amor e contra o dinheiro, assemelha-se bastante a Lucíola, protagonista do romance homônimo de 1862. É possível perceber então que há, constantemente, nos textos do autor, essa verve ideológica que mostra o conflito entre os valores românticos desenvolvidos no Brasil e sua suposta degradação pelos valores burgueses aristocráticos.
Esse modo de enredo baseado em maniqueísmo caricato, típico dos folhetins da época, possuiria em Senhora uma profundidade ideológica anêmica, se não fosse o fato de, subitamente, após a transação de casamento que ocorre entre os dois protagonistas, uma relação de interesses financeiros que coloca em cheque as próprias posições sociais e ideológicas dos protagonistas. Isso tanto torna complexo o enredo, quanto nos mostra, em um sentido mais amplo, um vislumbre de uma estruturação literária de uma sociedade com resquícios ideológicos escravocratas e aristocráticos, ou seja, um grupo social acostumado, em suas vivências, com a reificação humana. Nesse contexto, o dinheiro, ou a sociedade que se baseia nele, acaba por estruturar o próprio romance, como defende, por exemplo, Antonio Candido, afirmando que se:
[...] atentarmos para a composição de Senhora, veremos que repousa numa espécie de longa e complicada transação, — com cenas de avanço e recuo, diálogos construídos como pressões e concessões, um enredo latente de manobras secretas, — no correr da qual a posição dos cônjuges se vai alterando. (CANDIDO, 2006, p.16).
Os próprios protagonistas, como afirma o crítico brasileiro, também têm suas características alteradas pela lógica da transação. De fato, Aurélia, antes uma jovem idealista que, de forma inocente se apaixonara por Seixas, quando o mesmo também não tinha condições de proporcionar um futuro seguro aos dois, acabou não se casando com o bom vivant, salvando-se de um casamento por conveniência e não por amor. Todavia,
ao saber que o mancebo a deixou não pela falta de sentimento, mas pelo dote de outra, ela tem seu ideal de homem corrompido e isso, para ela que possui uma riqueza no “céu” ou nas ideias, é imperdoável. Ela resolve, então, casar para torna-se independente de homens interesseiros, a exemplo do seu tio e tutor Lemos, e une a isso uma vingança a Fernando Seixas, fazendo-o casar pelo dote. Aurélia, ao tornar Seixas o seu esposo e mercadoria, faz com que ambos passem a ter comportamentos bastante distintos aos que os constituíam ideologicamente no início da narrativa. A moça, antes pura e idealista passa a agir de forma mundana, ao avaliar o preço dos seus pretendentes, e às vezes até com certo “fulgor satânico”, quando se vinga de Seixas. E Seixas, de oportunista e moralmente duvidoso, passa a ter responsabilidade e a honrar seus compromissos.
A mudança no casal se deve ao efeito da coerção social. Essa ditaria as “boas” maneiras, ou os mitos e ritos ideológicos, que um casal burguês deveria seguir e se adequar. O desejo de ambos, de manter a “farsa” de um casamento burguês feliz, faz com que os dois finjam atitudes e usem uma linguagem irônica todo o tempo. Aurélia, por exemplo, mostra-se estranha às senhoras da corte, pois, ao invés de se portar com submissão ao marido, aparenta ser muito ativa e independente. Para aquelas senhoras da corte isso se justificaria devido à moça ser uma mulher avançada para o seu tempo, talvez influenciada pela “mulher europeia emancipada”21. Seixas mostra-se em responsável e até mesmo avarento, torna-se estranho para os amigos que achavam que ele iria ser ainda mais indisciplinado com dote recebido. Ele, todavia, passa a ter como álibi para seu bom comportamento perante a sociedade a responsabilidade do casamento e de seu dinheiro adquirido. Seixas silencia, assim, o fato de que queria, por meio do trabalho, pagar sua dívida com Aurélia.
Alencar busca, nesse sentido, sempre jogar com esses elementos do social e do individual, mostrando como a ideologia hegemônica, imposta pela aristocracia burguesa, possui muitas vezes uma lógica perversa. Seixas, por exemplo, se mostra como um produto de seu meio: “A sociedade da qual me eduquei, fez de mim um homem a sua feição” (ALENCAR, 2009, p.229). Aurélia, todavia, por ter vivido de forma diferente na sociedade, parece possuir certa grandeza, como no seguinte exemplo, em que ela se considera mais velha que seu tio, por causa de sua vivência:
21
Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. [...] Por conseguinte devo ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre, como eu fui, nem tão rico, como eu sou (ALENCAR, 2009, p.33).
Essa ideia, presente na ficção alencariana, de que quem passou pela pobreza sabe o preço da virtude, parece querer redimir o personagem de seus vícios mundanos por meio dos valores ideológicos românticos e, de certa forma, até de uma visão classista. O indivíduo possuiria, assim, certas virtudes transcendentes à qualquer lógica social? ou seria o lugar social onde se encontra que determinaria suas virtudes ou vícios? Trata-se de um conflito que permeia a obra. Assim, há nessa lógica sempre uma desordem entre o que os personagens apresentam para a sociedade e o que eles realmente sentem. Esse conflito gera toda a ironia e a ambiguidade de uma linguagem censurada pela ideologia hegemônica dominante, que, simultaneamente, revela sua verdade, se for posta sob a perspectiva privada do casal protagonista. As conversas entre os dois no jardim de casa são exemplos profundos dessa linguagem irônica:
- Dê-me o braço, que ali vem D. Firmina.
Aurélia passou a mão pelo braço de Seixas. Passeando ao longo de uns painéis de fúcsias de várias espécies e admirando as flores, tiveram eles esta conferência, que de certo nunca houve entre marido e mulher.
- A senhora comprou um marido; tem pois o direito de exigir dele o respeito, a fidelidade, a convivência, todas as atenções e homenagens, que um homem deve à sua esposa. Até hoje...
- Faltou-lhe mencionar uma, talvez por insignificante, o amor, atalhou Aurélia brincando com um cacho de fúcsias. (ALENCAR, 2009, p.161-162)
Toda essa conversa, aparentemente trivial, é estruturada por um conflito ideológico que organiza a linguagem do texto. No primeiro enunciado temos a presença de D. Firmina. Ela figura a ideologia da sociedade fluminense, que censura o comportamento dos outros personagens e os interpelam a adotar os papéis sociais da ideologia hegemônica burguesa. No momento em que a personagem surge, Aurélia dá uma ordem ao seu esposo/mercadoria para que ele pegue seu braço e assuma seu papel de marido. O narrador faz a descrição do ambiente exótico pelo qual passeiam e das amenidades que ambos trocam, demonstrando a relativa tranquilidade do ambiente social, passividade essa que contrasta com a tensão entre os dois. Após esse passeio, o casal conversa sobre o tema central do romance, ou seja, Fernando assegura os direitos
de sua “senhora”. Nesse enunciado, percebe-se a formalidade dos termos que ele usa, indicando certo respeito ou servilismo, enquanto ela retruca cobrando os deveres do marido – dentre eles, o amor. Esse mesmo amor que, enfaticamente, ela trata por “insignificante”. Assim, o narrador frisa que, simultaneamente ao enunciar tal frase, Aurélia brinca com um cacho de fúcsias, novamente contrastando a tranquilidade e o desinteresse do ambiente social ao clima de tensão entre os dois.
Embora em boa parte do enredo seja apresentado um conflito da psique de ambas as personagens, ou seja, a desilusão amorosa entre os dois, é, em última instância, a dívida material entre eles que provoca o real conflito. De fato, é por meio do trabalho de Seixas que acontece a libertação, no “espírito” ou na consciência deles. É justamente pelo fato do conflito se concentra na consciência dos indivíduos que na maior parte do enredo os conflitos são simbólicos e se concentram nas ironias e em vários diálogos ambíguos. Vemos algumas exceções, a exemplo do fato de Aurélia fazer com que Seixas vá aos eventos e visitas sociais, exercendo materialmente o conflito ideológico da sua dominação sobre seu marido. Outro bom exemplo se encontra no final do terceiro capítulo quando a protagonista resolve “aproveitar a vida”, mas isso ainda se torna uma compensação material ou física a um conflito psicológico ou ideológico, uma tentativa de superar ou esquecer os problemas, como se observa na voz da própria Aurélia: “Que não dera apagar essas crenças, ou antes, estas incômodas ilusões da infância, com que educou-se minha alma e conformar-me a realidade da vida. Oh se eu conseguisse!...”( ALENCAR,2009 P.179). Nesse trecho, vemos como Aurélia em suas lamúrias se vê num impasse, pois ela tenta acreditar que a realidade da vida não seria um ideal de honra e justiça, mas sim um fingimento em que a inocência da infância não é mais possível – ou em termos teóricos, como se a Ideologia em que ela acreditava preenchê-la inteiramente – e não correspondesse à realidade material a qual ela vive.
Outro conflito no romance alencariano seria o silêncio expressivo de uma representação antagônica à riqueza. Há no romance a presença constante da corte e seu requinte, percebida sempre em contrapartida à ausência latente de, por exemplo, um cortiço ou uma senzala e suas mazelas. É continuamente a corte e os ambientes aristocráticos que permeiam o romance. Não parece ser apresentada nenhuma proposta alternativa a esse ambiente. Ou seja, o autor se concentra na organização social e ideológica dos ambientes aristocratas. Apenas um pano de fundo da corte fluminense é levemente mencionado nos recuos temporais e narrativos sobre o passado de
dificuldades financeiras de Aurélia, mas esse tem como função não uma crítica direta à organização social que marginaliza grande parte dos indivíduos a miséria, mas sim o efeito de mostrar os motivos para a ojeriza de Aurélia ao dinheiro – a exemplo da perda de Aurélia de seus amores, pai, irmão e a necessidade de casar por conveniência como fonte de sobrevivência, o que fez surgir nela o valor do amor como algo superior ao dinheiro.
É por meio de Aurélia que se faz a crítica aos valores burgueses, mas ela não o faz através de uma crítica materialista, mas sim de uma crítica idealista. Nesse sentido, o próprio narrador admite a abstenção de uma crítica mais racional, em favor de uma explicação mais sentimental, como podemos ver no trecho em que ele explana a passividade de Aurélia em relação à ausência de atenção de Seixas para com ela: “esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos; porque o coração, ainda mais de uma mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral.” (ALENCAR, 2009, p.107). Essa abstenção do narrador reforça o silêncio para com a racionalização dos valores românticos que circunscreve a ideologia do romance, principalmente na consciência da protagonista. Essa atitude dela apresenta-se como uma posição em que não há dicotomia, mas sim um antagonismo transcendente, no qual o amor seria sempre superior, não importando qual seja problema. O inimigo do dinheiro, nesse sentido, não seria a pobreza, mas o amor; o problema do casamento por dinheiro não seria a falta de dinheiro de alguns, mas a falta de amor. Não haveria, nesse sentido, uma ideologia antagônica de classes, mas uma ideologia supraclassista que tentaria purificar e unificar todos os conflitos entre essas classes. Uma ideologia perfeita em seu ideal, pois resolveria todos os problemas que em uma sociedade escravista, patriarcal, aristocrata e com a maior parte da população iletrada, não poderia resolver materialmente. Isso demonstra a deficiência da ideologia romântica, assumida por Aurélia, que critica a reificação humana e degradação dos valores sociais pelos interesses burgueses, mas não mostrando uma solução material para o conflito. Poderíamos dizer, seguindo o pensamento de Roberto Schwartz, que, em Senhora, a prosa: “não é conformista, pois não justifica, nem é propriamente crítica, pois não quer transformar” (SCHWARZ, 2000, p.42-43). Essa suposta dualidade se dá pelas lacunas que a ideologia romântica apresentada no Brasil não consegue preencher no contexto em que se desenvolve.
Apesar de todas as “negociações” e trocas de papéis sociais e ideológicos, vemos que a solução que Alencar dá a seu tema-problema é uma conciliação entre a ideologia romântica e a ideologia liberal burguesa. No romance, é possível perceber que a reconciliação final entre Aurélia e Fernando se desenvolve a partir da quitação do “dote”, ou seja, é apenas a partir da liberdade material ou monetária que pode o sentimento passional se libertar na trama. Nessa perspectiva, se no início temos dois personagens de virtudes distintas, mas que se amam, e que por meio do dinheiro têm seu comportamento mudado, ao longo do enredo vemos que é por meio desse contrato monetário que eles vão construindo um relacionamento de maneira irônica. Essa ambiguidade da trama é gerada porque o empecilho que separa os dois é o dinheiro e sua consequente desvirtuação.
Como podemos ver nesses exemplos, em que apesar de não se declararem um para o outro, os dois reconhecem para si seus sentimentos para com o outro, Aurélia diz: “– Tu me amas!... exclamou cheia de júbilo. Negues embora, eu o conheço; eu o vejo em ti, e sinto-o em mim!” (ALENCAR, 2009, p.211). E Seixas, explicado pelo narrador: “Fernando, esmagado pelo sarcasmo, contra o qual não podia reagir, teve ímpetos de confessar a essa mulher toda a insânia do amor que sentia” (ALENCAR, 2009, p. 220). Dessa forma, a ironia acaba tornando-se hábito e então realidade, ou seja, eles fingem para a sociedade que se amam, fingem para ambos que não se amam, mas sabem que se amam internamente, entretanto, o dinheiro obstrui os sentimentos do casal protagonista.
A libertação vem por meio do trabalho de Seixas. Ou seja, espraiando essa reflexão em termos mais gerais, seria por meio do esforço e volição individual que poderíamos superar as dificuldades sociais, sem precisar “se vender” em um casamento por conveniência. Ao quitar sua dívida, Seixas se liberta materialmente, por meio do trabalho; exercendo os preceitos do liberalismo econômico, pode então gozar de seus desejos sentimentais, que representam os princípios da ideologia romântica. Da mesma forma, Aurélia, ao ter sua dívida paga, percebe que Seixas não seria um homem desvirtuado e, ao mostrar seu testamento, também prova que o dinheiro não é superior ao sentimento dela. Desse modo, apesar dos seus comportamentos abusivos sobre Seixas, ela parece não ter se deixado levar pelo poder do dinheiro. Essas atitudes fazem com que o caminho para a reconciliação seja possível, e quando isso acontece eles percebem que todo esse casamento fora um fingimento: “Somos dois estranhos. Não é
verdade? Seixas confirmou com a cabeça” (ALENCAR, 2009, p. 230- 231). Esse estranhamento aponta para a percepção de que a relação de ambos era movida pelo contrato econômico, e o que fizeram até então era justificado por esse mesmo contrato.
Há uma relação dialética entre a libertação material e a espiritual dos indivíduos. Ao quitar sua dívida Seixas não está só liquidando seus débitos econômicos com Aurélia, mas sua dívida moral, que para ela, que pensa ser uma virtuosa, era o fundamento de sua vida. Seixas admite que se tivesse consciência talvez não tivesse perdido sua dignidade, e então reconhece: “Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro” (ALENCAR, 2009, p.229). Seguindo esse raciocínio, podemos afirmar que o dinheiro obtido de forma justa e o amor se unem como uma conciliação perfeita para o indivíduo, elo conveniente a ideologia liberal econômica. Nesse sentido, podemos arguir que o texto se estrutura na junção da ideologia liberal burguesa com a ideologia romântica – quando o dinheiro é obtido por meio da corrupção moral do indivíduo ele é visto como um mal, mas, se é obtido pelo esforço justo, é visto como um bem propiciador da elevação dos sentimentos humanos. Nessa perspectiva, entendemos que o romance de Alencar fora, em sua estruturação, embevecido por uma tradição simbólica que tentava resolver, com princípios metafísicos e modelos ideológicos semifeudais, os problemas da sociedade burguesa. Por não ter outra referência ideológica – como, por exemplo, uma tradição racionalista ou empirista, que colocasse à prova as bases da ideologia romântica – ou até devido a isso, por ter de importar formas ideológicas europeias, buscou-se referência nos modelos idealistas europeus, e no âmbito da estética buscou-se referência nos folhetins franceses. Esses modelos ideológicos ofereceram, assim, uma crítica das relações sociais burguesas; uma crítica, todavia idealista, à cultura de reificação humana, não demonstrando as determinações sociais para esse problema e pondo o liberalismo econômico como chave para a libertação do indivíduo.
Essa complexidade ratifica a própria ideologia autoral alencariana, que buscava conciliar seu conservadorismo com a modernidade. Como demonstra Ricardo Rizzo (2007), Alencar bebia das ideias progressistas do Romantismo, seguindo a máxima do romancista Vitor Hugo de que essa escola era o liberalismo na literatura, mas, ao