Embora as narrativas de Aníbal Machado retratem uma cidade em pleno desenvolvimento situada entre o final da década de 1930 e 1950 é necessário fazer algumas considerações também acerca do período que antecede essa época para termos uma noção mais ampla desse espaço e entendermos as transformações ocorridas no decorrer das décadas e suas implicações no cotidiano das pessoas.
Ao discorrer sobre a visão que se tem de Manhattan vista de cima do 110º andar do World Trade Center57 Michel de Certeau (2008) afirma que
A gigantesca massa se imobiliza sob o olhar. Ela se modifica em texturologia onde coincidem os extremos da ambição e da degradação, as oposições brutais de raças e estilos, os contrastes entre os prédios criados ontem, agora transformados em latas de lixo, e as irrupções urbanas do dia que barram o espaço. (p. 169)
Embora o autor esteja falando sobre Nova Iorque, essa descrição serve de analogia para várias metrópoles que apresentam o mesmo perfil. Entre elas, tendo-se em mente o Brasil, temos o Rio de Janeiro - extremamente desenvolvida (tanto do ponto de vista econômico quanto social), populosa, que põe ocupando o mesmo espaço (muitas vezes, lado a lado) a diversidade de raças e de comportamentos e modo de vida, bem como as construções antigas (que hoje as pessoas tentam preservar como patrimônio histórico e cultural) juntas de suntuosos arranha-céuscada vez maiores e sofisticados, ressaltando as desigualdades sociais que são acirradas, cada vez mais, pelas exigências, benéficas ou não, da modernidade.
De acordo com Marshall Berman (2007),
O turbilhão da vida moderna tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas nas ciências físicas, com a mudança da nossa imagem do universo e do lugar que ocupamos nele; a industrialização da produção, que transforma conhecimento científico em tecnologia, cria novos ambientes humanos e destrói os antigos, acelera o próprio ritmo de vida, gera novas formas de poder corporativo e de lutas de classes; descomunal explosão demográfica, que penaliza milhões de pessoas arrancadas de seu habitat ancestral, empurrando-as pelos caminhos do mundo em direção a novas vidas; rápido e muitas vezes catastrófico crescimento urbano; sistemas de comunicação de massa, dinâmicos em seu desenvolvimento, que embrulham e amarram, no mesmo pacote, os mais variados indivíduos e sociedades; Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e geridos, que luta com obstinação para expandir seu poder; movimentos sociais de massas e de nações, desafiando seus governantes políticos ou econômicos, lutando por obter algum controle sobre suas vidas; enfim, dirigindo e manipulando todas as pessoas e instituições, um mercado capitalista mundial, drasticamente flutuante, em permanente expansão. (Grifo do autor, p. 25)
Restringindo-nos à capital carioca, percebemos que inserida nesse contexto político- econômico e social que atinge as pessoas, direta ou indiretamente, ela não se isenta de nenhuma dessas fontes bem como de nenhuma dessas consequências mencionadas. Conhecida nacional e internacionalmente por ser detentora de inúmeras belezas naturais que se aliam às criadas pelo homem, como se estivessem amalgamadas, o Rio de Janeiro nem de longe aparenta ser aquela cidade caótica e atrasada do início do século passado (1900).
57 Complexo de edifícios conhecido, sobretudo, pelas duas torres gêmeas que possuía e quefoi destruído devido
No início do século XX, a cidade, apesar de ser a capital e, consequentemente, o centro financeiro e administrativo do país, ainda detinha ares típicos de um lugar provinciano com suas ruas estreitas e mal iluminadas, com cortiços espalhados no seu centro, com pessoas carentes de abastecimento de água, de transporte público e de redes de esgotos. Não havia recursos que dessem, pelo menos, o mínimo de qualidade de vida à população.
Para se ter uma ideia da condição de vida das pessoas da época é válido ressaltar que a população do Rio de Janeiro chegava a quase um milhão de habitantes, sendo a sua grande maioria composta de ex escravos e de seus descendentes. Esses eram pessoas paupérrimas que haviam sido libertadas (enquanto escravas) sem nenhum tipo de preocupação do governo de buscar alojá-las ou qualificá-las profissionalmente para a obtenção de um emprego que lhes desse o mínimo de condição necessária para a sua sobrevivência como menciona Nicolau Sevcenko (1998).
Além disso, devido ao Porto que transportava uma diversidade de pessoas, ao crescimento desordenado da cidade e às péssimas condições de higiene e de saneamento básico, o lugar era infestado por inúmeras doenças como varíola, cólera e febre amarela, dando à capital o título de “cidade da morte”. Imagem totalmente diferente da ostentada pelas capitais europeias que eram modernas, glamorosas e requintadas.
Segundo Renato Cordeiro Gomes (2008), com a consolidação da República e com a nomeação, pelo presidente Rodrigues Alves, do engenheiro Francisco Pereira Passos para prefeito do Rio de Janeiro há um aceleramento do ritmo de vida dos cariocas devido, sobretudo à implantação de um projeto58, cujo objetivo era modernizar a capital federal, igualando-a, quanto ao desenvolvimento, hábitos e costumes às capitais europeias. Dessa forma, há uma valorização do novo em detrimento do velho, por isso passou-se a destruir partes da chamada cidade velha em prol da criação de uma mais moderna e arrojada. O Rio de Janeiro entra em um processo de destruir tudo o que ligava a cidade ao passado - sinônimo de atraso - para construir, remodelando-a ao estilo parisiense. Contudo, essa urbanização não ocorreu em sua totalidade visto que há a permanência de uma cidade conservadora, mas que é sobreposta pela cidade moderna, como alega Renato C. Gomes.
De acordo com Nicolau Sevcenko (1985), eram quatro princípios que davam sustentação às mudanças que envolviam o espaço público, o modo de vida e o comportamento dos cariocas. O primeiro deles condenava todos os hábitos e costumes que tinham ligação
58 Esse projeto era uma reforma urbana promovida por Pereira Passos que ficou conhecido popularmente como
“Bota-abaixo”, devido ao seu caráter impositivo, já para a grande imprensa essa reforma era chamada de "Regeneração".
com a sociedade tradicional porque eles remetiam, de certa forma, ao atraso em que se encontrava a cidade. O segundo girava em torno da negação de qualquer elemento da cultura popular visto que era algo advindo do povo e, por isso, sem valor algum para a maioria das pessoas pertencentes às classes mais abastadas.
Também havia uma política rigorosa para expulsar grupos populares do centro da cidade, isolando-os para que a burguesia pudesse desfrutar das benfeitorias ocorridas nesse espaço. Além disso, a própria feição, as vestimentas e o comportamento dos populares traziam consigo ares de pobreza e de miséria como se o contato com o povo e com os seus costumes pudesse denegrir a imagem de cidade civilizada. O último princípio estava relacionado a um cosmopolitismo agressivo, que tinha como grande influente a França e, mais especificamente, Paris - que servia de vitrine e de modelo de civilização para a maioria dos países ocidentais.
Com o intuito de tornar o Rio de Janeiro uma cidade moderna e urbanizada, Pereira Passos alargou ruas, abriu novas avenidas como, por exemplo, a Beira-mar, a Mem de Sá e a
Atlântica59; demoliu os casebres do centro, substituindo-os por grandes edifícios, com uma
arquitetura mais arrojada; promoveu o saneamento em parceria com o sanitarista Oswaldo Cruz60 bem como a melhoria da malha viária, entre outros feitos. Além de investir nos esportes visto que as pessoas deveriam também "reformar" os seus corpos e as suas mentes, demonstrando saúde e força - símbolos também de uma cidade dita civilizada.
Aos poucos a cidade foi perdendo o seu caráter provinciano e à medida que a paisagem urbana ia se transformando também se transformavam a paisagem social e a literária cariocas (BROCA, 2005: 36). O Rio de Janeiro, de acordo com Nicolau Sevcenko (1998), passa a ser referência no país para as demais cidades, interferindo nas tendências da moda, no comportamento das pessoas, no sistema de valores, enfim, no modo de ser e de agir da sociedade brasileira em geral.
Entretanto, essas mudanças promovidas durante o governo do presidente Rodrigues Alves não agradaram a todos, já que a reforma urbana de Pereira Passos implicou em um alto custo social, principalmente na área central da capital. Após a demolição dos cortiços e a realização de algumas melhorias, o centro se tornou uma região bastante valorizada, com altos custos de bens de serviços e de produtos. Era intuito do governo afastar a população pobre
59 Hoje uma das mais famosas avenidas do Rio de Janeiro, localizada em Copacabana - Zona Sul.
60 Por causa, entre outros fatores, do abuso do poder e da violência das autoridades houve uma oposição popular
contra as reformas de Pereira Passos, ocasionando uma revolta contra a vacina obrigatória proposta pelo sanitarista. Outro colaborador do projeto foi o engenheiro Lauro Müller, responsável pela reforma do Porto.
das regiões mais centrais como, por exemplo, da Zona Sul - área litorânea - para não macular a imagem da cidade.
Com isso, apesar de uma pequena parcela da população de baixa renda ainda residir nessas regiões, boa parte das famílias foram obrigadas a se mudar para outras localizações menos dispendiosas como os subúrbios e os morros situados no centro da cidade. Estes sem praticamente nenhuma condição de higiene, segurança e conforto, além de oferecerem pouquíssimas oportunidades de emprego, já que também não havia uma preocupação de qualificar alguém.
Os morros se inicialmente eram quase inóspitos, aos poucos, foram sofrendo uma acelerada ocupação, ocasionando a proliferação das favelas - espaços prontamente identificados "como focos do caos e das ameaças que pairavam sobre a cidade moderna e a civilização: sujeira, epidemias, ócio, criminalidade" (SEVCENKO, 1998: 542), entre outros. Estas, por sua vez, a partir de 1930 passam a se constituir a principal alternativa habitacional para os indivíduos advindos de outros estados, sobretudo do Norte e do Nordeste, e para uma parte da população de baixa renda.
Em contrapartida, na faixa litorânea, mais especificamente, na Zona Sul, muitas casas e edifícios eram construídos. Percebia-se, cada vez mais, o investimento exacerbado em detrimento de outras localidades e, consequentemente, maior desenvolvimento, atraindo cada vez mais pessoas de classe média e alta para irem morar na região - fato que ocasionou uma grande concentração populacional.
De acordo com Brito Broca (2005), com a vida dos cariocas começando a ficar centralizada apenas em uma pequena área, dotada de todos os requintes de civilização acentua-se a oposição entre os chamados “bairros aristocráticos, de gente fina, dos supercivilizados, e o subúrbio com sua pequena burguesia, de costumes simples” (p. 38), como se a cidade se bipartisse entre ricos e pobres, cada qual ocupando os seus espaços, de certa forma, delimitados, sejam eles físicos ou sociais. No decorrer dos anos as mudanças advindas da modernidade foram beneficiando, embora desigualmente, também os menos favorecidos. Segundo Sevcenko (1998),
(...) as populações excluídas aos poucos vão se apercebendo de que é possível dispor de elementos dessa modernidade para reforçar as características de infixidez, jogo e reajustamentos constantes, que sempre lhes garantiram maiores oportunidades no confronto social, mas que precisamente as novas políticas de controle, segregação e cerceamento das cidades planejadas procuravam tolher. (p. 611)
Os menos favorecidos começam a se beneficiar dos bens e serviços trazidos pela modernidade e a transitar mais livremente entre os espaços que outrora eram mais frequentados pela classe média e alta. Entretanto, essa mobilidade ainda estava muito condicionada à prestação de serviços terceirizados e não necessariamente ao lazer ou à ocupação desses espaços.
Em meados da década de cinquenta, o Rio de Janeiro, já há muito tempo consagrado como a “Cidade Maravilhosa61”, atraindo milhares de visitantes estrangeiros e nacionais, vai
atingindo, cada vez mais, certo grau de desenvolvimento, com vários prédios construídos, praças, teatro, museus, ruas e avenidas amplas e pavimentadas oferecendo qualidade de vida, sobretudo na Zona Sul - onde se concentravam (concentra-se até hoje) uma infinidade de bens e serviços públicos e privados.
Em contrapartida, toda essa modernidade também trouxe atrelada a si uma infinidade de problemas que crescem a cada dia como a violência, o alto custo de vida e a corrida contra o tempo que modifica continuamente as relações sociais, tornando-as, cada vez mais, descartáveis, vulneráveis e individualistas. A própria estrutura física fragmentada da cidade corrobora para a fragmentação também do indivíduo. É neste espaço, físico e social, que se encontram as personagens dos contos de Aníbal Machado analisados a seguir.
61 Nome dado pela poeta francesa Jeanne Catulle Mendès que visitou o Brasil em 1912 e se encantou com as