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As instituições educacionais compõem o quadro das formações sociais e suas produções fomentam e geram os fatos sociais, através das atividades coletivas que são realizadas pelos agentes nelas atuantes. Elas organizam as relações entre os indivíduos e o seu contexto imediato. No que tange à instituição educacional, esta esfera da atividade humana é o lócus onde se desenvolvem as mediações dos pré-construídos e, por isto, seus agentes os (re)interpretam, (re)criam, tratam (RASTIER, 1998, 2001a; BRONCKART, 2008a, 2008b, 2008c), os recontextualizam (BALL, 1993, 1994) e, a partir deles, (re) produzem mecanismos (SHOHAMY, 2006), seguindo as normas que são construídas ao longo da tradição, da história e cultura da produção dos conhecimentos (conteúdos e saberes) escolarizados. Logo, essas instituições são as zonas onde os dispositivos são criados como forma de assegurar a transmissão dos conhecimentos e saberes priorizados, conforme os valores e a ideologia dos grupos dominantes nessas organizações sociais.

Tendo isso em vista, considero que para traçar qualquer linha de estudo nesse campo é preciso construir uma base de compreensão das relações entre as formações sociais com “os processos que as constituem e os fatos sociais que elas geram (instituições, valores, normas)”100 (BRONCKART, 2004a, p. 99). Sendo a linguagem a engrenagem que possibilita

o funcionamento dessas dimensões, a compreensão dos pré-construídos praxiológicos e

100 Do original: les processus qui les constituent et les faits sociaux qu'elles génèrent (institutions, valeurs, normes).

gnosiológicos que se desenvolvem na esfera educacional, assume papel essencial para uma apreensão mais clara e objetiva do funcionamento dos processos gerados neste campo de práticas. Por esta razão, valorizo as trajetórias e as culturas institucionais ao tratar do terreno da EPCT a seguir.

Os IFs são Instituições de Ensino Superior (IES) e oferecem cursos nas modalidades de bacharelados, licenciaturas, cursos tecnológicos, cursos técnicos subsequentes, cursos técnicos integrados ao Ensino Médio, Educação para Jovens e Adultos, e compõem a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica (EPCT) do Ministério de Educação e Cultura (MEC). Os IFs são resultados da unificação das Escolas Técnicas, Escolas Agrotécnicas Federais e dos Centros de Educação Federais e Tecnológicos (CEFETs)101 que, atualmente,

integram os 38 institutos espalhados pelas cinco regiões brasileiras.

A criação dessa rede tem raízes no desfecho das questões sócio-políticas e econômicas com o fim da mão de obra escrava e o surgimento das indústrias nas últimas décadas do século XIX. Segundo dados do MEC, o Brasil contava com 636 fábricas instaladas que acumulavam aproximadamente 54 mil trabalhadores no ano da Proclamação da República (BRASIL, 2009a, p. 02). A população total do país chegava a 14 milhões de habitantes e a maior problemática enfrentada, na época, era a escassez de mão de obra qualificada.

Os desafios intensificavam-se, devido à “economia acentuadamente agrário- exportadora, com predominância de relações de trabalho rurais pré-capitalistas” (BRASIL, 2009a, p. 02), enquanto emergia uma grande demanda de trabalhadores nas fábricas que deram origem à cultura industrialista da época. Diante desse contexto pleno de complexidade e conflitos ocasionados por constantes greves de trabalhadores e sindicalistas das fábricas, com o apoio de movimentos anarquistas e outros movimentos sociais, na primeira década do século XX, deu-se a criação das primeiras instituições a serviço do ensino profissionalizante (CUNHA, 2000). Mas, foi o Decreto n. 7.556, de 23 de setembro de 1909, que oficializou a criação de 19 escolas de aprendizes e artífices, sendo uma em cada estado, que vieram a funcionar, especificamente, com o ensino primário profissional público, dando então início às trajetórias da Rede Federal de Educação Profissional.

A configuração desta rede hoje está fundamentada nos princípios da lei Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008, que institui a rede EPCT, criando os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs). Esta nova institucionalidade integra 31 CEFETs, 75

101 Com exceção dos CEFET dos Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, que ainda permanecem como integrantes da rede EPCT, porém, não são institutos, são centros federais. Integram também esta mesma rede a Universidade Tecnológica do Estado do Paraná.

unidades descentralizadas de ensino (Uneds), 39 escolas agrotécnicas, 7 escolas técnicas federais e 8 escolas vinculadas a universidades e, desta forma, todos esses estabelecimentos passaram a integrar os IFs.

A rede que compreende essas instituições está configurada, atualmente, por 38 institutos federais, dois CEFETs, o Colégio D. Pedro II e a Universidade Tecnológica do Paraná. Desde o ano de 1909 até 2002, apenas 140 unidades escolares compunham esse quadro institucional. Porém, a partir de 2003 constata-se, conforme o gráfico na Figura 7, uma expansão vertiginosa, com o aumento desse número para 562 campi em todas as regiões brasileiras, em 2014.

Figura 7 – Evolução da rede dos IFs

Fonte: Brasil (2016).

A seguir, a cartografia da distribuição dessas instituições no território nacional explicita a sua abrangência:

Figura 8 – Cartografia da distribuição dos IFs nas regiões brasileiras

Com o surgimento dos IFs, a formação de profissionais de nível superior no Brasil recebeu um aumento significativo de vagas e da oferta de distintas modalidades de cursos em todas as áreas do conhecimento, principalmente, das ciências exatas. Este novo cenário que se apresenta na formação de pessoas para o mundo trabalho, demonstra uma reconfiguração da educação profissional e tecnológica no país, nunca antes vivenciada na histórica da educação e sinaliza o surgimento de novos desafios, no que diz respeito à implementação de currículos com base nas políticas públicas formuladas pelo Estado, visando ao desenvolvimento estratégico de áreas “consideradas prioritárias”.

A implantação dos IFs propõe novos tempos para a formação de profissionais102, com

vistas a uma formação que extrapole a visão simplista e mecanicista de formação para o mercado de trabalho, buscando fundar um modelo de formação que contemple o mundo do trabalho (KUENZER, 1997). Para se atingir metas nessa direção, é preciso considerar um conjunto de processos de redimensionamento de suas bases para a formação profissional de nível de superior, em específico, no que tange à construção de metodologias e itinerários formativos do profissional que proporcionem o desenvolvimento de capacidades conforme as necessidades contextuais.

A literatura que aborda essas questões evidencia que a formação de profissionais de nível superior no Brasil ficou sob a responsabilidade das universidades desde quando elas foram criadas. A educação brasileira não conta ainda com grandes escolas de engenharia e institutos universitários de tecnologia como os demais países europeus (França, Alemanha, Inglaterra e outros) e da América do Norte (Canadá e Estados Unidos), ou mesmo da Ásia (Japão e China), embora, recentemente, tenha havido avanços nas universidades tecnológicas. Porém, mesmo com a expansão dos IFs, ainda são as universidades que formam os engenheiros, os médicos, os dentistas, os assistentes sociais, os jornalistas (SILVA, 2009) e os professores. Com relação às finalidades e características desses institutos, o Art. 6o da lei que

oficializa a política pública de sua criação dispõe:

I - ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas à atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;

II - desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais;

102 Além dos IFs, outras instituições, tais como o SESI/SENAI, formam e/ou qualificam operários e empregados para as indústrias, enquanto que o SESC/SENAC se ocupam da formação de trabalhadores para o comércio.

III - promover a integração e a verticalização da educação básica à educação profissional e educação superior, otimizando a infra-estrutura física, os quadros de pessoal e os recursos de gestão;

IV - orientar sua oferta formativa em benefício da consolidação e fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do Instituto Federal;

V - constituir-se em centro de excelência na oferta do ensino de ciências, em geral, e de ciências aplicadas, em particular, estimulando o desenvolvimento de espírito crítico, voltado à investigação empírica;

VI - qualificar-se como centro de referência no apoio à oferta do ensino de ciências nas instituições públicas de ensino, oferecendo capacitação técnica e atualização pedagógica aos docentes das redes públicas de ensino;

VII - desenvolver programas de extensão e de divulgação científica e tecnológica;

VIII - realizar e estimular a pesquisa aplicada, a produção cultural, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento científico e tecnológico;

IX - promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais, notadamente as voltadas à preservação do meio ambiente (BRASIL, 2008, art. 6).

Conforme explica esse excerto, o projeto que compreende os IFs visa a que essas instituições sejam um espaço de mudanças e transformações da EPCT brasileira. O texto em questão prefigura uma nova cultura na formação de profissionais para o mundo do trabalho. Fruto de uma política de expansão da oferta do ensino superior e profissionalizante, a criação dos IFs está integrada às metas do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e aliada a programas como o Brasil Profissionalizado, o Pronatec, dentre outros. Contudo, observa-se que, no conjunto dessas finalidades, há um princípio que se liga aos propósitos das políticas direcionadas não apenas à formação de trabalhadores, mas a formar e qualificar “cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico, local, regional e nacional” (BRASIL, 2008, art. 6).

Nesta visão, nota-se que a formação profissional dispensada pelos IFs está intimamente alinhada à criação de recursos humanos para atender ao mundo da economia, em conformidade com as orientações do Estado, através do PDE e este, por sua vez, com as Organizações Internacionais. Dessa forma, essas instituições são espaços onde se desenvolvem políticas públicas do governo nacional conduzidas por “constelações de agentes, em parte explicitamente buscados pelo Estado, [...] pelo alto nível de internacionalização das políticas públicas em educação” (PARREIRA AMARAL, 2010, p. 41). Os objetivos e as finalidades da lei de criação dos IFs explicitam claramente o foco na formação de mão de

obra em diferentes níveis e modalidades de ensino, atividade de pesquisa e extensionista com o objetivo de atender aos imperativos de um mundo globalizado. Senão, vejamos:

Dos Objetivos e finalidades

Art. 7º Observadas as finalidades e características definidas no art. 6o desta Lei, são objetivos dos Institutos Federais:

I - ministrar educação profissional técnica de nível médio, prioritariamente na forma de cursos integrados, para os concluintes do ensino fundamental e para o público da educação de jovens e adultos;

II - ministrar cursos de formação inicial e continuada de trabalhadores, objetivando a capacitação, o aperfeiçoamento, a especialização e a atualização de profissionais, em todos os níveis de escolaridade, nas áreas da educação profissional e tecnológica;

III - realizar pesquisas aplicadas, estimulando o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas, estendendo seus benefícios à comunidade; IV - desenvolver atividades de extensão de acordo com os princípios e finalidades da educação profissional e tecnológica, em articulação com o mundo do trabalho e os segmentos sociais, e com ênfase na produção, desenvolvimento e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos; V - estimular e apoiar processos educativos que levem à geração de trabalho e renda e à emancipação do cidadão na perspectiva do desenvolvimento socioeconômico local e regional; e

VI - ministrar em nível de educação superior:

a) cursos superiores de tecnologia visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia;

b) cursos de licenciatura, bem como programas especiais de formação pedagógica, com vistas na formação de professores para a educação básica, sobretudo nas áreas de ciências e matemática, e para a educação profissional; c) cursos de bacharelado e engenharia, visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia e áreas do conhecimento;

d) cursos de pós-graduação lato sensu de aperfeiçoamento e especialização, visando à formação de especialistas nas diferentes áreas do conhecimento; e e) cursos de pós-graduação stricto sensu de mestrado e doutorado, que contribuam para promover o estabelecimento de bases sólidas em educação, ciência e tecnologia, com vistas no processo de geração e inovação tecnológica.

Art. 8º No desenvolvimento da sua ação acadêmica, o Instituto Federal, em cada exercício, deverá garantir o mínimo de 50% (cinqüenta por cento) de suas vagas para atender aos objetivos definidos no inciso I do caput do art. 7º desta Lei, e o mínimo de 20% (vinte por cento) de suas vagas para atender ao previsto na alínea b do inciso VI do caput do citado art. 7º.

§ 1º O cumprimento dos percentuais referidos no caput deverá observar o conceito de aluno-equivalente, conforme regulamentação a ser expedida pelo Ministério da Educação.

§ 2º Nas regiões em que as demandas sociais pela formação em nível superior justificarem, o Conselho Superior do Instituto Federal poderá, com anuência do Ministério da Educação, autorizar o ajuste da oferta desse nível de ensino, sem prejuízo do índice definido no caput deste artigo, para atender aos objetivos definidos no inciso I do caput do art. 7º desta Lei (BRASIL, 2008, arts. 7-8).

3.2.2 Dimensão internacional dos IFs: política de internacionalização como espaço e

Benzer Belgeler