O País já viveu diferentes trajetórias na Educação de Jovens e Adultos, através de Programas e Campanhas para a Alfabetização de Jovens e Adultos, que tentaram conduzir políticas para solucionar o problema do analfabetismo no Brasil4. A perpetuação da problemática persiste no cenário da educação até os dias atuais. Essa constatação é visível nas políticas públicas, nos debates, nas pesquisas científicas e nas práticas pedagógicas, nas mais variadas tentativas de encontrar caminhos para amenizar os índices de analfabetismo no país.
Não é nossa intenção apresentar um percurso detalhado das campanhas e dos programas da EJA no Brasil, já que existem inúmeros livros e pesquisas sobre o assunto5. É relevante considerar que há uma necessidade básica de aprendizagem da população da EJA, que precisa de uma educação que promova a continuidade dos seus estudos. Nesse sentido, existe a necessidade de institucionalidade e continuidade, para superar modelos dominantes de campanhas emergentes e/ou iniciativas de curto prazo. A questão da continuidade, que nos interessa fundamentalmente, desde então, vem sendo comprometida na perspectiva dos Programas que, historicamente, recorrem à mão de obra voluntária e a recursos humanos não especializados. Cristine Costa Brasil (2012, p.2) considera que “um dos maiores problemas ocorridos com os Programas de Alfabetização de Jovens e Adultos no Brasil é a falta de continuidade, pois vários programas foram extintos por motivos políticos”. Dessa forma, evidencia-se, nos Programas, a falta de uma efetivação do processo de alfabetização que prime pela continuidade dos estudos, para, por meio da educação, dar dignidade às pessoas. A referida autora, ao falar dos Programas de Alfabetização, enfatiza que “vários programas
4 Sobre a trajetória da Educação de Jovens e Adultos no Brasil, consultar: Educação popular e educação de jovens e adultos, de Vanilda Pereira Paiva: São Paulo: Edições Loyola, 1995; Diagnóstico da situação educacional de jovens e adultos. Brasília: MEC-Inep, 2000. Disponível em http://www.inep.gov.br. Acessado em 29/03/2012.
5 Ver BRASIL.C.C. História da alfabetização de adultos: de 1960 até os dias atuais. Disponível em http://www.ucb.br/sites/100/103/TCC/12005/CristineCostaBrasil.pdf. Acessado em 30/03/2012.
DI PIERRO. M. C. Visões da Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Disponível em: http://www.sciello.br/pdf/ccedes/v21n55/541.pdf. Acessado em 30/03/2012.
ajudam, realmente, a alfabetizar, mas devemos pensar numa continuidade de estudo para os alfabetizados, pois muitos deles desistem de estudar por motivos como trabalho e família” (BRASIL, 2012, p. 7). Assim, corroboramos com a autora que fatores relacionados ao trabalho e à família podem ser razão para os alunos desistirem de estudar, porém também podem ser motivos para a continuidade dos estudos, como evidenciado em nossa pesquisa.
Já referimos que o tema do nosso estudo é o da continuidade dos alfabetizandos, evidentemente, em etapas posteriores ao da alfabetização. Nesse sentido, 2003 será o nosso ponto de partida, por ser o ano do mais novo programa de alfabetização no país, o Programa Brasil Alfabetizado, criado no primeiro ano do governo Lula. Para isso, examinamos os documentos oficiais sobre o Programa a que tivemos acesso, visando entender o que expressam sobre a continuidade dos estudos de jovens e adultos egressos do PBA, e analisamos as resoluções e os decretos do Programa, buscando sinalizações que nos possibilitassem compreender a política do PBA, que deveria ser “porta de entrada” para a continuidade do EJA.Visávamos identificar indício quanto à continuidade aos alunos egressos do PBA. Antes de adentrar os documentos do Programa, abordaremos alguns dos problemas nos cenários mundial e nacional referentes à EJA.
No cenário mundial, são visíveis os problemas educacionais apresentados ao longo da história da EJA. Contudo, os resultados de permanência do analfabetismo ainda é um dos problemas preocupantes nesse contexto ampliado. Dados oficiais apontam que, no mundo, ainda há 773.954 milhões de jovens e adultos analfabetos (UNESCO, 2006)6, uma realidade preocupante, que provocou vários momentos distintos de reflexões, sistematização de ideias e planejamento de metas. Esse desafio ainda está distante de ser equacionado em todo o mundo. Diante desse quadro deficitário de sujeitos alfabetizados ou em processo de posterior ao da alfabetização, encontramos no caminho vários momentos importantes de enfrentamento ao analfabetismo no mundo e no Brasil. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO - reuniu os representantes da Cúpula Mundial da Educação e criou o Marco de Ação de Dakar no ano de 2000, que estabeleceu atingir a meta de Educação para Todos – EPT até 2015.
6Dados colhidos em 2006 pela UnescoInstitute for Statistics e estão disponíveis no site:
http://www.brasilia.unesco.org/areas/educacao/institucional/EFA/60temasEPT . Acessado em 10 de abril de 2010.
Entre as metas7 apresentadas, a aprendizagem de jovens e adultos e a alfabetização configuram-se como as portas de ingressos para solucionar outros problemas dessas populações necessitadas de atendimento em muitos dos direitos sociais previstos no âmbito dos órgãos internacionais e nacionais. A alfabetização é um dos direitos legalmente previstos, e para garantir seu atendimento, têm sido cobradas políticas públicas capazes de impulsionar ações voltadas para diminuir a situação de analfabetismo no país.
No ano de 2001, a realização da 5ª sessão da Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou a Década das Nações Unidas para a Alfabetização (2003 – 2012), que estabeleceu um Plano de Ação coordenado pela UNESCO:
O Plano adota uma visão renovada da alfabetização, enfocando as metas do Fórum Mundial de Educação (Dacar, Senegal, 2000) relativas à satisfação das necessidades de aprendizagem dos jovens e adultos, que incluem a redução do analfabetismo em 50% e a eliminação das disparidades entre mulheres e homens no acesso à educação básica de qualidade e às oportunidades de educação ao longo da vida (UNESCO, 2008, p. 22).
Percebemos que a preocupação com a questão do analfabetismo é grande, e as ações para sua redução não parecem otimistas, com anúncios de renovações a partir dos estabelecidos em organizações anteriores. Propostas de ações mostram que as realidades sobre o analfabetismo apresentam metas a serem alcançadas. Porém, no ano 2000, esse quadro foi alarmante e preocupante, nos países da América Latina e no Caribe, onde persiste um percentual acentuado de analfabetismo da população com mais de 15 anos, que oscila de 2% a 50% da população.
A situação do Brasil, nessa análise do início da década, não foi indiferente: tínhamos um número que corresponde a 15.892.900 da população, com mais de 15 anos, relativo a 13% da população (UNESCO, p. 34, 2008). Essa situação descortina ações de políticas públicas de educação de jovens e adultos, no Brasil, com dois sentimentos distintos e antagônicos: o de desesperança e o de esperança. O sentimento de esperança gira em torno do fortalecimento de políticas públicas de educação.
Nessa perspectiva, o Brasil ainda vive o desafio de universalizar a Educação Básica, contudo, esse direito ainda não foi garantido a todos os brasileiros. A Pesquisa Nacional por
7 Metas: 1. Cuidados e educação na primeira infância; 2. Educação primária universal; 3. Aprendizagem de jovens e adultos; 4. Alfabetização; 5.Gênero; e 6. Qualidade. Disponível em: <httpwww.mp.ma.gov.br/site/centros apoio/dirhumanos/decDdakar.htn>. Acesso em 25 mar 2012.
Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2007/2008, mostra que, no Brasil, cerca de 10% da população com mais de 15 anos ainda não foi alfabetizada.
Numa perspectiva otimista e de compromisso com a educação, o Brasil, no ano de 2003, apresentou o Programa Brasil Alfabetizado, que visava ampliar o cumprimento da legislação educacional brasileira, mais precisamente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9394/96 - quando assegura, em seu artigo 37, que “a educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria” (BRASIL, 1996). No inciso 2º do mesmo artigo, o texto da Lei incide sobre a necessidade de os sistemas de ensino assegurarem as oportunidades educacionais, considerando “as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames” (idem, 1996). Nesse sentido, as ações governamentais lançam, mais uma vez, um Programa, o PBA, voltado para a EJA, com o objetivo de amenizar a situação ainda lastimável da educação brasileira - o analfabetismo de jovens e adultos.