Se até aqui temos vindo a mobilizar a categoria utilizadores das MCA com o intuito de testar eventuais diferenças face a não utilizadores, os resultados dessa comparação apontam para a necessidade de questionamento da categoria. Primeiro, porque, como acabámos de constatar, os utilizadores de MCA não são um grupo socialmente homogéneo. Não constituem também um grupo culturalmente distinto, no sentido da pertença a uma subcultura (Sharma, 2000). Quando se compara utilizadores de diferentes terapias, emergem diferenças que, em alguns casos, são tanto ou mais marcadas quanto as que se verificam face a não utilizadores (Cant e Sharma, 1999; Frank e Stolberg, 2002).
Segundo, porque os padrões de utilização das MCA são diferenciados, podendo ir de um recurso pontual, sem continuidade, até um recurso frequente e prolongado. De facto, a utilização da categoria em situações em que este é pontual não se afigura adequada. Além disso, à diversidade de trajetórias terapêuticas está associada uma variedade de razões e finalidades de recurso.
Terceiro, porque a categoria remete simbolicamente para uma utilização exclusiva (ou tendencialmente exclusiva) das MCA no quadro da oferta terapêutica, o que, como já mencionámos e se verifica igualmente nos dados relativos a Portugal, raramente acontece.
A exploração dos padrões sociais de recurso às MCA permite ultrapassar uma visão monolítica da utilização destas medicinas. Em que circunstâncias ocorre o recurso às MCA? De que modo são utilizadas? Que finalidades terapêuticas orientam a sua procura? Que relação se estabelece com o recurso à medicina convencional? Quais as conceções sobre saúde e doença partilhadas pelos indivíduos que recorrem? Estas são algumas das
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questões a que, a partir de um conjunto de indicadores incluídos no questionário à amostra de conveniência, procuraremos responder de seguida.
Terapias e temporalidades
As diversas terapias incluídas nas MCA não gozam da mesma visibilidade social nem do mesmo grau de reconhecimento e legitimação social. Os dados do European Social Survey já referidos mostram, aliás, fortes variações entre as taxas de utilização das várias terapias.
Como outras pesquisas extensivas revelaram (cf. Cant e Sharma, 1999; Cant, 2005), apesar da grande diversidade de terapias, a maioria do recurso às MCA tende a concentrar- se num número relativamente restrito de terapias. Portugal não se afasta deste cenário. A acupunctura é, de longe, o tipo de tratamento mais referido, reunindo mais de 50% das respostas dos inquiridos (cf. Quadro 6.11)53. Esta predominância não surpreende tendo em conta que a acupunctura parece ser a terapia com maior visibilidade social, quer pela divulgação nos órgãos de comunicação social, quer pela disseminação de locais em que é praticada - em grande parte fora dos locais convencionais de prestação de cuidados de saúde, mas sendo também já disponibilizada num número restrito desses locais e até prescrita ou mesmo praticada por alguns médicos. Aliás, tal penetração poderá constituir-se como um critério de legitimação desta terapia para os leigos. As massagens terapêuticas e a osteopatia têm ainda um peso considerável, embora muito aquém da acupunctura.
Quadro 6.11. Último tratamento de MCA usado
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
53
A identificação da terapia foi efetuada através de uma pergunta aberta, pelo que não houve risco de terem sido produzidas respostas induzidas.
54
Segundo a Associação Portuguesa de Reiki, Reiki é um método terapêutico japonês que integra um conjunto de técnicas que permitem revitalizar, equilibrar e auxiliar a pessoa no seu processo de cura. O tratamento é realizado através de uma técnica de contacto leve, ou mesmo sem contacto, do local afetado no corpo ou seguindo um processo de tratamento que visa a aplicação em várias partes do corpo. As técnicas visam realinhar o fluxo de energia vital, trazendo o equilíbrio energético ao corpo e uma sensação de bem estar geral. Disponível em: http://www.associacaoportuguesadereiki.com/o-que-e-reiki/.
N % Acupunctura 60 54,1 Massagens terapêuticas 21 18,9 Osteopatia 11 9,9 Homeopatia 5 4,5 Quiropráxia 5 4,5 Reiki54 2 1,8 Outras 7 6,3 Total 111 100,0
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A regularidade do recurso às MCA e o arco temporal em que se recorreu pela última vez às terapias nelas inscritas são dois indicadores cujos resultados revelam uma forte consistência. As respetivas distribuições parecem desenhar dois padrões distintos de consumo, um regular e frequente e outro hipoteticamente de carácter pontual, ambos com expressão quantitativa muito semelhante (cf. Quadro 6.12 e Quadro 6.13). Efetivamente, são 47% os inquiridos que declaram recorrer raramente às MCA, a mesma percentagem dos que referem tê-lo feito há mais de um ano. Do outro lado, temos os utilizadores com um considerável grau de fidelização a estas medicinas, com recursos frequentes e recentes (19% há menos de um ano e 33% há menos de um mês).
Quadro 6.12. Regularidade do recurso a tratamentos de MCA
N %
Raramente 53 46,9
Com alguma frequência 32 28,3
Frequentemente 14 12,4
Muito frequentemente 14 12,4
Total 113 100,0
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Quadro 6.13. Última vez que recorreu a tratamentos de MCA
N %
Há menos de 1 mês 38 33,3
Há menos de 1 ano 22 19,3
Há mais de 1 ano 54 47,4
Total 114 100,0
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Finalidades terapêuticas e razões do recurso
A emergência de uma ideologia de prevenção da doença constitui uma das mudanças mais significativas no discurso público sobre a promoção da saúde (Pegado, 2010). Este deslocamento da ênfase no tratamento para a ênfase na prevenção é evocado como um dos fatores que tem potenciado a reabilitação do natural como recurso terapêutico, designadamente na sua materialização nos medicamentos/produtos terapêuticos naturais (Lopes, 2010b; Lopes et al., 2012).
161
No caso do recurso aos tratamentos de MCA de que nos temos vindo a ocupar, que envolvem uma pericialidade – ainda que heterodoxa – por implicarem a intervenção dos terapeutas, a prevenção assume um papel considerável, embora não predominante, como finalidade terapêutica, corroborando assim resultados de outros estudos que apontam para a importância das razões preventivas ou de manutenção da saúde (Frank e Stolberg, 2002: 211).
Efetivamente, o recurso às MCA (tomando por referência o último tratamento) tem sobretudo como objetivo o tratamento, reunindo as respostas de 77% dos inquiridos, por comparação com os 23% que indicam como finalidade a prevenção (cf. Quadro 6.14). Assinale-se que o tratamento é complementar de medicamentos para 42% dos inquiridos e substitutivo de medicamentos para 36%. Tal resultado remete para o questionamento do modo como os indivíduos gerem a simultaneidade na utilização de ambos os recursos terapêuticos. Remete igualmente para uma discussão já clássica nos estudos sobre as MCA, a do seu estatuto (simbólico e/ou substantivo) de autonomia e autosuficiência, ou, pelo contrário, de complementaridade face à medicina convencional ou biomedicina (Sharma, 1992), aspeto que retomaremos mais à frente.
Quadro 6.14. Finalidade terapêutica do último tratamento de MCA
Fonte: Inquérito CIES-IUL “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Uma análise mais detalhada dos problemas de saúde a que se destinam os tratamentos de MCA revela uma considerável diversidade de questões de saúde, embora com uma hierarquia bastante vincada (cf. Quadro 6.15). Os problemas ósseos ou reumatológicos encabeçam a lista das questões de saúde, reunindo cerca de 30% das respostas. O recurso às MCA não se limita a problemas de saúde físicos/fisiológicos, estendendo-se a questões de saúde mental, onde foram incluídas a depressão, a ansiedade, as insónias e outros distúrbios psicológicos, que assumem ainda um peso significativo.
N %
Prevenção 25 22,7
Tratamento (coadjuvante/complementar de medicamentos) 46 41,8 Tratamento (substitutivo de medicamentos) 39 35,5
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Quadro 6.15. Questão de saúde* a que se destinou o último tratamento de MCA
N %
Problemas ósseos/reumatológicos 33 29,7
Depressão/ansiedade/distúrbios psicológicos/insónias 18 16,2
Afeções várias** 17 15,3
Fortalecimento físico e imunitário/fadiga 10 9,0
Problemas musculares 10 9,0
Prevenção/promoção do bem estar geral 5 4,5
Estados dolorosos 5 4,5
Controlo do peso 3 2,7
Outras 10 9,0
Total 111 100,0
* Categorização efetuada a partir das respostas a uma pergunta aberta.
**Inclui afeções respiratórias/pulmonares, otorrinolaringológicas, dermatológicas e alérgicas, gastro-intestinais, ginecológicas, urológicas e estomatológicas
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Apesar de não dispormos de informação precisa sobre a gravidade dos problemas de saúde elencados, estes dados parecem apontar para a prevalência de doenças que não põem em causa a vida dos indivíduos, mas sim situações, eventualmente crónicas, para as quais se buscam soluções ou respostas que nem sempre a medicina convencional tem a capacidade de proporcionar ou, quando o faz, geradoras de efeitos secundários indesejáveis (Frank e Stolberg, 2002).
A associação entre recurso às MCA e doença crónica é evidenciada em várias pesquisas (Cant e Sharma, 1999; Sirois e Gick, 2002; Frank e Stolberg, 2002; Cant, 2005; Hildreth, 2007; Broom e Tovey, 2007; Gale, 2014). Em traços gerais, conclui-se que as doenças crónicas prevalecem sobre as doenças agudas, o que remete para a busca de soluções de gestão da doença, mais do que o alcance da cura. Esta prevalência pode ser atribuída a duas ordens de razões: ou se trata de razões pragmáticas, traduzidas na crença (alimentada ou não pela experiência pessoal) de que as MCA são eficazes no alívio dos sintomas de dor ou desconforto associados à doença crónica; ou se trata de razões no plano das atitudes face à saúde e à doença, na medida em que a doença crónica potencia o desejo de um papel ativo por parte do doente, traduzido na negociação das várias etapas associadas à gestão da doença, bem presente na retórica das MCA sobre a relação terapêutica.
Num outro ângulo de análise, a existência de condições de saúde mais frágeis, nomeadamente de doenças crónicas, é apontada como um fator que aumenta a probabilidade de se recorrer às MCA. Em algumas pesquisas verificou-se que aqueles que avaliavam o seu estado de saúde de forma menos positiva apresentavam taxas de utilização
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das MCA superiores àqueles cuja avaliação era mais favorável (Frank e Stolberg, 2002; Sirois e Gick, 2002). No presente estudo, quando se compara a prevalência de doença crónica entre utilizadores e não utilizadores de MCA, verifica-se que é mais elevada nos primeiros; além disso, entre os inquiridos que indicaram ter uma doença crónica, a percentagem dos que recorrem às MCA é superior à dos que não têm doença crónica (cf. Quadro 6.16).
Quadro 6.16. Existência de doença crónica, por recurso a tratamentos de MCA (%)* Utilizadores Não utilizadores Total Com doença crónica 34,2
36,6
65,8 27,6
100,0 (n=120) Sem doença crónica 25,5
63,4 74,5 72,4 100,0 (n= 278) Total 100,0 (n=114) 100,0 (n=284) 100,0 (n=398) p = 0,079
* A primeira percentagem de cada célula corresponde à percentagem em linha e a segunda à percentagem em coluna.
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Embora não tenha sido captada na componente extensiva da pesquisa empírica em análise, importa referir que vários estudos têm constatado uma associação entre o recurso às MCA e doenças degenerativas, sobre as quais recaem perceções sociais de gravidade e incurabilidade, designadamente as doenças oncológicas (Broom, 2009; Broom e Tovey, 2007, 2008; Tovey e Broom, 2007; Gale, 2014).
A satisfação com os resultados apresenta-se elevada; cerca de 70% dos inquiridos que recorreram às MCA assinalam como “bons” ou “muito bons” os resultados do último tratamento (cf. Quadro 6.17).
Quadro 6.17. Avaliação dos resultados do último tratamento de MCA
N % Nulos 6 5,4 Fracos 10 9,0 Razoáveis 14 12,6 Bons 53 47,7 Muito bons 28 25,2 Total 111 100,0
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A perceção bastante positiva da eficácia destas medicinas é corroborada quando se observa as razões apontadas pelos inquiridos para recorrer a tratamentos de MCA (cf. Quadro 6.18). Quase 50% justificam esse recurso com o facto de os considerarem eficazes, o que sugere que essas perceções são moldadas por experiências passadas. Mas são também de relevar os 26% cujas razões assentam em alguma rejeição da medicina convencional e dos medicamentos químicos, ou por não terem sido eficazes ou pelo risco dos efeitos secundários dos quais os inquiridos parecem isentar as MCA. A insatisfação com a medicina convencional, muitas vezes resultante de experiências de insucesso – por aquilo que não curam ou pelos riscos que comportam – continuadas e prolongadas no tempo, tem sido apontada, em inúmeros estudos, como uma das principais razões porque os indivíduos recorrem às MCA. Não são por fim de desprezar os quase 10% de inquiridos que declaram ter sido aconselhados pelo médico a recorrer a esses tratamentos, o que indicia alguma tendência de interpenetração destes dois universos – o da biomedicina e o das MCA – ao nível pericial e não apenas ao nível da iniciativa leiga.
Quadro 6.18. Razões do recurso a tratamentos de MCA (%)
Por achar que é eficaz 48,2*
Por não estar a melhorar com os medicamentos "químicos" 15,8 Por ter menos efeitos secundários do que os medicamentos "químicos" 11,4
Porque o médico aconselhou 9,6
Porque familiares/amigos aconselharam 5,3
Porque não encontrou resposta na medicina convencional 3,5 Porque teve curiosidade de experimentar 3,5 Por não estar a melhorar com os medicamentos "naturais" 1,8 Por ter menos efeitos secundários do que os medicamentos "naturais" 0,9
Por outra razão 8,8
Total de inquiridos Total de respostas
106 114
*Percentagens calculadas sobre o total de inquiridos que responderam à questão. Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Relação com a medicina convencional
Conforme discutido no capítulo 4, uma das evidências empíricas produzidas no âmbito dos estudos sobre o recurso às MCA é a de que este recurso ocorre maioritariamente de forma conjugada – conjugação que pode assumir diferentes configurações – com a medicina convencional (Sharma, 1996; Kelner e Wellman, 1997; Whiteford, 1999; Saks, 2001; Wiles e Rosenberg, 2001; Adler, 2002; Frohock, 2002; McGuire, 2002; Micozzi, 2002; Kumar, 2003;
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Fadlon, 2004; Barnes, 2005; Cant, 2005; Barry, 2006b; Broom e Tovey, 2007; Hildreth, 2007; Badone, 2008; Quah, 2008).
Para a exploração dessas configurações, os dados qualitativos produzidos a partir das entrevistas realizadas no âmbito da presente pesquisa mostram-se mais heurísticos, pelo que a remetemos para os capítulos seguintes. Por ora, mobilizamos alguns indicadores do questionário que permitem quantificar, mesmo que de forma indireta, a relação entre o recurso às MCA e o recurso à medicina convencional. Para esse efeito, procedemos à comparação entre utilizadores e não utilizadores de MCA relativamente a três indicadores que remetem para o recurso à biomedicina: i) frequência com que se consulta o médico (cf. Quadro 6.19); ii) frequência com que se faz exames médicos (cf. Quadro 6.20); iii) número de consultas médicas nos últimos seis meses (cf. Quadro 6.21).
Quadro 6.19. Frequência com que consulta o médico, por recurso a tratamentos de MCA (%) Utilizadores Não utilizadores
Nunca ou quase nunca 10,5 4,6 Com pouca frequência 29,8 35,6 Com alguma frequência 49,1 51,4 Com muita frequência 10,5 8,5
Total 100,0
(n=114)
100,0 (n=284)
p = 0,119
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Quadro 6.20. Frequência com que faz exames médicos, por recurso a tratamentos de MCA (%) Utilizadores Não utilizadores
Nunca ou quase nunca 7,0 2,8
Com pouca frequência 27,2 34,6 Com alguma frequência 57,0 57,3
Com muita frequência 8,8 5,2
Total (n=114) 100,0 (n=286) 100,0
p = 0,084
166
Quadro 6.21. Número de consultas médicas nos últimos seis meses, por recurso a tratamentos de MCA (%)
Utilizadores Não utilizadores
Nenhuma vez 15,2 9,9
Uma ou duas vezes 50,9 56,7
Três a cinco vezes 24,1 24,1
Seis vezes ou mais 9,8 9,4
Total 100,0
(n=112)
100,0 (n=283)
p = 0,143
Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
Os resultados desta comparação revelam a ausência de diferenças estatisticamente significativas entre utilizadores e não utilizadores no que respeita à frequência do contacto com os sistemas periciais da medicina convencional, quer na vertente de relação terapêutica interpessoal (consulta médica), quer na vertente do recurso a tecnologias de controlo do estado de saúde (exames médicos). Permitem, assim, constatar que, na maioria dos casos, à semelhança dos resultados de outras pesquisas, a utilização das MCA não exclui nem significa o abandono da medicina convencional. Assinale-se, no entanto, que a percentagem dos utilizadores que declara raramente ou nunca ir ao médico ou realizar exames é mais elevada do que a percentagem homóloga para os não utilizadores. Este dado parece indiciar um padrão de utilização das MCA que se caracteriza pelo evitamento da medicina convencional. Embora estatisticamente minoritário, importa explorá-lo na análise qualitativa que empreenderemos no capítulo que se segue.
Conceções sobre saúde e doença
A análise dos indicadores relativos às práticas sociais de recurso às MCA vem demonstrando que este assume diferentes modalidades, quer em termos de temporalidades, quer em termos de finalidades, quer ainda em termos da sua relação com o recurso à biomedicina. Outro filão analítico que tem alimentado os estudos sobre a utilização de MCA é o que, além das práticas, se debruça sobre as conceções e atitudes dos utilizadores destas medicinas, cuja concretização passa, na maioria das vezes, por procurar as semelhanças e diferenças face aos não utilizadores.
Boa parte dessas análises enfatiza o facto de os utilizadores das MCA não poderem ser considerados um grupo homogéneo do ponto de vista das suas conceções sobre a saúde, a doença e o corpo, bem como quanto às suas atitudes face à medicina convencional, rejeitando assim as abordagens simplistas que os tratam de forma
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indiferenciada (Astin, 1998; Sharma, 2000; Furnham e Vincent, 2000; Frank e Stolberg, 2002; Cant, 2005). Além de diversas, essas conceções e atitudes não são estáticas, podendo sofrer mudanças a partir do contacto com uma terapia ou um terapeuta das MCA (Cant, 2005: 175).
Tal não invalida a constatação empírica de algumas diferenças entre utilizadores e não utilizadores de MCA apontada em vários estudos. Frank e Stolberg (2002), por exemplo, consideram que aqueles que denominam como “pacientes heterodoxos” possuem conceções sobre a saúde que se coadunam com a retórica destas terapias: uma visão holística sobre o corpo e a mente, o desejo de um papel ativo no tratamento e a valorização da importância do sistema imunitário (Frank e Stolberg, 2002: 224). Furnham e Vincent (2000) evocam resultados de pesquisas que demonstram uma tendência para muitos utilizadores de MCA serem mais conscienciosos relativamente à sua saúde, assumirem mais responsabilidade sobre esta e acreditarem menos no destino ou na sorte. No entanto, admitem a possibilidade da existência de diferenças ao nível das crenças entre os próprios utilizadores, distinguindo entre os que procuraram ativamente as MCA e se sentem atraídos pela sua filosofia e aqueles que foram encaminhados por outrem para as MCA ou que estão desencantados com a medicina convencional (Furnham e Vincent, 2000: 75). Na mesma linha, Astin (1998), ao comparar utilizadores que combinam o recurso às MCA com o recurso à medicina convencional com aqueles que recorrem principal ou mesmo exclusivamente às MCA, conclui que os últimos revelam níveis de satisfação com a biomedicina mais baixos, bem como orientações face à saúde holísticas e expectativas de uma maior participação no controlo da sua própria saúde (Astin, 1998: 1552).
No presente estudo, de modo a captar conceções sobre saúde e doença, foi apresentado aos inquiridos um conjunto de afirmações, solicitando-lhes que se posicionassem em cada uma delas a partir de uma escala de concordância com quatro categorias (Pegado, 2010: 234-35). O Quadro 6.22 apresenta os resultados, agrupados em duas categorias – concorda e discorda –, emparelhando as afirmações em três grupos, correspondentes a três oposições, de modo a conferir-lhes maior visibilidade para efeitos analíticos55.
55
Por razões metodológicas, a ordem das afirmações no quadro não foi aquela com que os inquiridos foram confrontados no questionário, onde surgem misturadas umas com as outras (cf. Questão 11 no Inquérito por questionário em anexo, Anexo A).
168
Quadro 6.22. Conceções sobre saúde e doença, por recurso a tratamentos de MCA (%)
Utilizadores Não utilizadores Concorda Discorda N Concorda Discorda N a1) Manter uma boa saúde implica fazer
alguns sacrifícios nos hábitos quotidianos das pessoas.
90,2 9,8 112 96,8 3,2 284 a2) Ter ou não ter saúde é sobretudo uma
questão de sorte. 27,3 72,7 110 39,6 60,4 283 b1) A maior parte das doenças resulta da falta
de cuidado no modo como as pessoas vivem as suas vidas.
94,6 5,4 112 93,0 7,0 284 b2) A maior parte das doenças resulta de
fatores que escapam ao controlo das pessoas.
64,0 36,0 111 79,5 20,5 283 c1) Se a vida for vivida de forma saudável, há
grandes hipóteses de evitar muitas doenças na velhice.
94,7 5,3 113 96,5 3,5 284 c2) Por mais cuidado que se tenha em viver
uma vida saudável, não se pode evitar as doenças que aparecem com a idade.
82,3 17,7 113 90,8 9,2 284 Fonte: Inquérito “Medicamentos e Pluralismo Terapêutico”, 2008.
O primeiro par de afirmações remete para a oposição entre uma conceção ativista, associada a um certo estoicismo, e uma conceção fatalista sobre a doença. A grande maioria dos utilizadores e dos não utilizadores manifestam acordo com a primeira afirmação e rejeitam, embora de forma menos acentuada, a segunda. Porém, os utilizadores de MCA afastam-se mais perentoriamente da conceção fatalista. O segundo par refere-se a conceções sobre as causas das doenças, uma atribuindo a responsabilidade do seu surgimento aos próprios indivíduos, outra a fatores externos aos indivíduos impossíveis de controlar, opondo, no fundo, a possibilidade de prevenção à inevitabilidade das doenças. As diferenças entre utilizadores e não utilizadores voltam a revelar-se na afirmação de carácter fatalista, com os primeiros a manifestarem bastante mais desacordo com a impossibilidade de controlar o surgimento de doenças. Por fim, o terceiro par, remetendo para a mesma oposição do par anterior, introduz ainda o fator idade. Tal como nas outras duas oposições, é novamente na rejeição da inevitabilidade das doenças que os utilizadores de MCA prevalecem face aos não utilizadores.
Através da análise multivariada do posicionamento dos inquiridos face a este conjunto de afirmações sobre a saúde e a doença, identificaram-se dois tipos de