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Carregar a casa nas costas, mesmo que suspensa em balões de gás, é a metáfora que referencia o paroxismo de Carl Fredricksen. Ante a iminência do asilo e a presença já duradoura da viuvez e da solidão, sobra-lhe o gesto derradeiro de voar com a casa e as lembranças de Ellie rumo ao distante e quase inacessível Paraíso das Cachoeiras, na Venezuela.

Salvar a Narceja, ave em extinção e fruto da cobiça de quase uma vida inteira por parte de um ex-ídolo de infância, é a tarefa repentina a que se dedicam Carl Fredricksen e Russell após uma viagem jamais pensada em termos de formato ao seu destino final, o território idílico venezuelano.

E a dupla alcança êxito em sua empreitada. Contra a ganância do anti-herói Charles Muntz, e todo o seu aparato que inclui até cães ciborgues com fala humana modulada eletronicamente, Carl e Russell garantem que a ave viverá livre em plena América do Sul, longe da ameaça predatória do explorador mau.

Este caráter científico-político de Up – Altas Aventuras merece atenção e poderia, ele próprio, ser objeto de uma reflexão mais apurada. De uma lira em evocação ao amor e ao sonho da solidariedade entre amantes, o filme se transforma em um semi thriller para, logo depois, retomar seu percurso de elogio ao encanto das relações afetivas, seja

de Carl para com Ellie, seja de Carl para com Russell, reciprocamente nos dois casos.

Perseguições, lutas, ameaças passam a dominar o enredo, que se direciona ao discurso de preservação da espécie em ambientes ainda não antropizados para depois se encerrar como reafirmação da narrativa amorosa, valorizando os amores conjugal e filial.

Só que preservar a Narceja em solo latino-americano, mensagem secundária e ecossocialmente correta introduzida no enredo de Up – Altas Aventuras, poderia nos induzir ao debate sobre os desafios da ciência e da preservação e da reprodução das espécies.

Melhor deixar a ave reproduzir-se ao natural em seu habitat por meio da reprodução sexual livre, ou transportá-la para os Estados Unidos (ou outros países com centros de pesquisa avançados ao redor do mundo) e multiplicá-la mediante técnicas de clonagem?

Afinal, Carl e Russell fizeram um bem ou um mal à Narceja e a sua perpetuação enquanto espécie? Charles Muntz era um vilão por cobiçar a ave e assim poder restaurar sua imagem, e riqueza? Ou era um herói ao almejar a multiplicação de Narcejas em zoológicos, em imagens midiáticas e, no futuro, com população maior de aves garantidas pela reprodução cientificamente assistida, libertá-las em espaços livres como o próprio Paraíso das Cachoeiras. Aí, enfim, proporcionar a estas aves raras a reprodução sem amarras e do modo inerente aos seus biologismos.

Mas retornemos ao grande paroxismo do amor. Um homem que ama sua esposa no limite de uma aventura sem precedentes a fim de realizar o grande sonho que remonta à infância, compartilhado ainda e desde que compunham um casal infantil. Um filho que ama seu pai, mesmo diante de sua repetida e permanente ausência.

Up – Altas Aventuras é um filme que homenageia um amor que se esforça para ser concreto em um panorama contemporâneo que o norteia, em suas mais diversas manifestações, para ser líquido, instável, frouxo (Bauman, 2004). Hoje, amar com tamanha solidez de afeto é um desafio.

O amor que parece nos faltar, que falta a Carl após o falecimento de Ellie, que falta a Russell pela omissão do pai ausente, e que também falta a um Charles Muntz recluso e vivente no ostracismo ao lado de cães e vestígios melancólicos de um saudoso tempo de glória, é um dos principais fios condutores desta história amorosa.

E é Bauman que nos adverte acerca da essencialidade do amor pleno em uma contemporaneidade de notável fragilidade nos laços afetivos. Precisamos resgatar o amor, em especial o amor ao próximo, mais que ao semelhante, como condição pilar a vida no planeta.

Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. Todas as outras rotinas da coabitação humana, assim como suas ordens pré-estabelecidas ou retrospectivamente descobertas, são apenas uma lista (sempre incompleta) de notas de rodapé a esse preceito. Se ele fosse ignorado ou abandonado, não haveria ninguém para fazer essa lista ou refletir sobre sua incompletude (Bauman, 2004, p. 97).

Carl e Ellie viveram sim um grande amor. Contudo, o cotidiano, as pequenas tragédias, as vitórias e as derrotas do dia a dia os consumiram de tal forma que as grandes metas foram, pouco a pouco, adiadas, sublimadas, transferidas.

O filho que não nasceu, a reforma da casa que nunca se findou, a viagem que jamais aconteceu, o cofre sempre pronto a ser esvaziado para uma compra repentina. Consumo e busca do bem estar que, em longo prazo, trouxeram a impotência da não realização de uma viagem e o fantasma da solidão ao idoso intolerante, que em um gesto exacerbado e paroxístico de revolta e de bravura – de amor – faz da casa um balão para realizar a vontade de uma vida, deixada como herança pela companheira morta.

Um amor em seu mais alto grau, de décadas de convivência, aceitação e partilha, que impulsiona o ser abandonado pela viuvez ao desespero diante da separação causada pelo falecimento da mulher. Amor que está presente neste filme talvez de maneira mais profunda do que em outros produzidos pela Pixar, e que nos leva a questionar a forma como nos relacionamos e nos amamos neste século XXI.

Se nas demais produções do estúdio há o flerte, o romance e o desejo, que para Bauman é “vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir — aniquilar” (2004, p. 23), em Up – Altas Aventuras o amor se configura como absoluto, convidando-nos a nos questionarmos como amamos, ou se ainda somos capazes de amar assim.

O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que “está lá fora”. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice- versa, como no caso do desejo. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo. O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito a auto- sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um

estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a — ciumentamente — guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultando em exaltação. O amor é irmão xifópago da sede de poder — nenhum dos dois sobreviveria à separação (Bauman, 2004, p. 24).

Cego em sua devoção por Ellie, contra tudo e contra todos Carl não se curva, fazendo a casa subir pelos ares, inclusive de início tendo renegado um gesto inocente e nobre de amor ao próximo empreendido pelo menino Russell. A intenção do garoto é somente praticar uma boa causa ajudando um velhinho. Quem sabe de posse do produto de uma ação benevolente o escoteiro não conquistasse o mínimo que fosse do amor do pai mais que distante. Mas Carl é indiferente à oferta de Russell e a união da dupla se consolida no acaso da casa que sob aos céus de maneira jamais pensada, a não ser por seu dono.

Mesmo assim durante toda a saga o menino se doa, sem cobranças, sem limites, à companhia rabugenta do frustrado vendedor de balões. Doação que se dá nas pequenas ações de companheirismo, pueris por vezes, empreendidas pelo menino instante após instante ao lado de Fredricksen, inclusive na tarefa perigosa de enfrentar Muntz e seus cães ciborgues em proteção à Narceja.

Até porque em síntese a dor de Russell é a mesma dor de Carl: a dor do desamparo. O homem desamparado se sente pela perda da esposa. O menino, pela renúncia do pai. Se Fredricksen vê na ida ao Paraíso das Cachoeiras levando os objetos de Ellie uma forma de reconstituir o elo perdido, o garoto vê em ajudar o idoso uma forma de também reconstruir uma relação de amor filial que há muito se rompeu.

O consumismo, a visão de que relações devem ser investimentos propulsores de resultados com riscos e possibilidades de prejuízo, os indícios de que o cenário de pós-modernidade também desestabiliza nossas mais íntimas relações pessoais por meio da exacerbação da cultura de consumo são alguma das proposições do sociólogo polonês capazes de explicar o porquê do afastamento do pai de Russell, homem da pós-modernidade.

Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, eles custam mais do que um carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo em um cruzeiro ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, o custo total tende a crescer com o tempo, e seu volume não pode ser fixado de antemão nem estimado com algum grau de certeza. Num mundo que não oferece mais planos de carreira e empregos estáveis, assinar um contrato de hipoteca com prestações de valor desconhecido, a serem pagas por um tempo indefinido, significa, para pessoas que saem de um projeto para o outro e ganham a vida nessas mudanças, expor-se a um nível de risco atipicamente elevado e a uma fonte prolífica de ansiedade e medo. É provável que se pense duas vezes antes de assinar, e que, quanto mais se pense, mais se tornem óbvios os riscos envolvidos (Bauman, 2004, p. 59).

O desprendimento de Russel em se devotar ao bom gesto de apoiar Carl nada tem de menor quanto à dolorosa nostalgia da mulher vivida pelo velho viúvo. Ambas se igualam em grandiosidade e poesia, em compromisso e compaixão, sendo cara e coroa de um mesmo sentimento amoroso, diferente, porém, paralelo.

Carl demonstra seu amor por Ellie a sua maneira. Assim como também, a sua maneira, Russel estabelece um vínculo de amor com Carl, que acaba por se tornar recíproco uma vez que Fredricksen acaba por assumir o lugar do pai do escoteiro no final do filme. Carl e Russel, de modos distintos, mostram que o amor no mundo contemporâneo ainda pode remanescer de variadas formas.

Toy Story 3

Andy vive seu ritual de passagem. A vida adulta, ou o que se considera como ela, aguarda-o. Hora de ir à faculdade. E deixar sua coleção afetiva e material de brinquedos para trás.

Na partida, necessário se faz arrumar as malas. E entre as marcas da infância e da transição, quais perpetuar? O caubói Woody é uma delas. O brinquedo preferido é selecionado. Ele fora escolhido para ir à faculdade com Andy. Quanta honra, quanta

A

gratidão. Os demais, entre eles o astronauta Buzz Lightyear, ficarão submersos no mar de memórias a serem lançadas no sótão da casa do menino. Ao infinito e além, literalmente.

A separação está prestes a se consumar. Dolorida, mas implacável. Porém, equívocos e uma série de confusões e trapalhadas faz com que os brinquedos todos – Sr. Cabeça de Batata e Sra. Cabeça de Batata, a cowgirl Jessie e o cavalo Bala no Alvo, o dinossauro Rex e outros, inclusive Woody e Buzz – sejam levados como doação à creche Sunnyside.

Na creche, todos são recebidos de modo fraterno pelo urso de pelúcia Lotso. E que recepção! Sunnyside é o local perfeito para brinquedos, em especial para brinquedos rejeitados por seus donos, que é como os brinquedos de Andy se sentem. E Sunnyside é paradisíaca porque na creche jamais faltam crianças. E crianças sempre dispostas ao brincar quase ininterrupto. Além de tudo, no local o acolhimento do ursinho Lotso maravilha a todos.

Mas, em verdade, o urso de pelúcia nada tem de fraterno e amoroso. Lotso é um poço de rancor e, desde que fora enjeitado pela ex-dona terminando por ser acolhido em Sunnyside, impôs-se como líder de uma gangue de brinquedos em um esquema de massacre, vigilância, opressão e semi escravização para com os demais.

E como ele o faz? Lançando os brinquedos recém-chegados à ala das crianças menores, que brincam com mais “ênfase” e “fervor”, acabando por destruir quaisquer artefatos de plástico e borracha que cheguem as suas mãos. Rasgões, cortes e escoriações, retiradas bruscas de partes, riscos diversos, arranhões, mordidas, lances aos céus e quedas desastrosas... estes são alguns dos saldos após a estada na ala das crianças menores de Sunnyside. E após a recepção calorosa de Lotso e seu grupo, os brinquedos de Andy vivenciam em pele e plástico todo este terror.

Antes desta terrível e dolorosa descoberta, Woody avisa que deixará Sunnyside em fidelidade a Andy, regressando para casa em busca de seu dono. Todos os demais brinquedos desdenham do caubói. O sentimento é de que Woody, único escolhido de Andy, abandonara os demais. E o caubói, à procura do menino, foge de Sunnyside e acaba parando na casa da pequena Bonnie, filha da diretora da creche.

Enquanto isso, também refém de Lotso, Buzz Lightyear arquiteta um plano para que todos fujam do local. Mas ele é descoberto pelo urso e por seus comparsas, que reprogramam o guerreiro interestelar alterando suas configurações eletrônicas originais. E ao fazerem isso, Lightyear volta a acreditar que é um herói intergaláctico em missão espacial, usando sua força e inteligência na tarefa de prender e vigiar os demais brinquedos sob as ordens de um, agora, para ele “Comandante Lotso”.

Na casa de Bonnie, Woody descobre as raízes da maldade do vilão ursinho de pelúcia, já que um outro brinquedo conhecia o passado do algoz de Sunnyside. E é ele quem conta que Lotso, ao seu lado e ao lado de outros amigos, fora perdido pela menina Daisy, sua ex-dona. E após percorrer quilômetros até a casa de Daisy, ao chegar lá encontra um novo urso Lotso recém-comprado em seu lugar.

O trauma da substituição e do suposto amor não correspondido e facilmente reciclado teria marcado a vida de Lotso, que assim encontra Sunnyside, corrompe o lugar, instaura uma cultura de medo e domina com atos de terrorismo os demais brinquedos. Enquanto isso, na creche, a Barbie integrante do conjunto de brinquedos de Andy descobre um Ken subserviente, fútil, indeciso e narcisista; os demais brinquedos vivem sob um sistema de subjugo; e Lotso a todos humilha e domina, sem compaixão.

Da casa de Bonnie, Woody planeja voltar a Sunnyside e libertar seus amigos. E o caubói coloca seu plano em prática, com a ajuda de um heroico Senhor Cabeça de Batata, de um esforço concentrado dos demais brinquedos e de um Buzz Lightyear latin lover, já que fora, na tentativa de ser novamente reprogramado, alterado para a programação em língua espanhola muy caliente.

O plano dá certo e os brinquedos de Andy, libertos, empreendem fuga. Mas na hora fatal, Lotso surge. E Woody lhe diz sobre Daisy, apresentando a todos as razões para o rancor do ressentido e malvado urso de pelúcia. A fala de Woody desperta a ira da Boneca Bebê também ex-brinquedo de Daisy. A boneca é auxiliar de Lotso em suas maldades, convencida que fora pelo urso de que também teria sido trocada pela ex- dona.

Ao saber da verdade, Bebê joga Lotso na lata do lixo, local no qual por sobre a tampa os bonecos do bem enfrentam o grupo de brinquedos opressores. Mas para salvar um outro brinquedo, Woody acaba sendo puxado para dentro da lata, levando todos os demais brinquedos a entrarem no container. E o caminhão de lixo recolhe todos, rumo à incineração.

Na iminência da morte, Lotso, Woody, Buzz e os demais tentam se salvar. Lotso é ajudado, safa-se, mas trai a todos e os deixa próximos às chamas. Todos pensam na morte. Mas todos são salvos por três minúsculos brinquedos pertencentes a Andy que usam uma garra – análoga àquela que os “pescava” nos parques de diversão – e retira o grupo com vida.

Salvos os brinquedos, é hora de voltar para a casa de Andy. Especialmente Woody, que vai para a faculdade com seu dono. Mas o caubói faz com que o agora rapaz doe seus amigos à menina Bonnie.

A despedida é tocante. Transição e passagem marcantes que fazem Andy se libertar, também, de Woody, e vice-versa. O caubói é o último a ser doado à menina, em um gesto de liberdade e compaixão. Catarse e nova vida que se inicia.

Lotso vira enfeite de caminhão de lixo. Andy ruma para ser adulto. Woody e Buzz Lightyear voltam a ser brinquedos em seus eternos retornos.

Benzer Belgeler