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A polícia de costumes em Belo Horizonte possui uma especificidade em relação à sua congênere francesa. Ela se constituiu por demanda de uma delegacia auxiliar da capital, como

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Sobre propostas de serviços médicos, ver MARQUES, 2004; Sobre policiamento dos costumes e moralização dos espaços urbanos pela policia, ver RAGO, 1991; SCHETTINI, 2006; BONI, 1998.

62 RAGO, 1991, p.120-127. 63 SILVA, 2009, p. 76. 64 SILVA, 2009, p. 80.

um projeto policial de moralização dos comportamentos e costumes, e não como um órgão fiscalizador que registrava as meretrizes, como no sistema francês. Segundo o trabalho de Marina Silva, a chamada “polícia de costumes” tinha como principais alvos de sua vigilância as diversões públicas, tais como “cinemas, teatros, circos e bailes públicos”, esbarrando, dessa forma, nas funções do policiamento noturno da cidade.65 Em 1912, segundo sugere o delegado Affonso Santos, os guardas civis se viram sob as ordenações de uma portaria que se manifestava a respeito da moralidade no espaço público:

Nesta data inicio uma campanha contra a imoralidade reinante, na 2ª circunscrição policial; rogo a colaboração dos Srs. fiscais, recomendando- lhes transmitirem aos guardas civis as seguintes instruções

I. Quando em um botequim ou restaurante se estiver cometendo atos imorais, cenas escandalosas, o respectivo proprietário será intimado a fechá-lo imediatamente;

II. Qualquer meretriz que, à noite, estiver vagando fora de casa, passeando pelos passeios e ruas, indo e voltando repetidamente, será conduzida a esta delegacia;

III. O indivíduo ou grupo de indivíduos que estiver perturbando o sossego público e ofendendo os bons costumes e a moralidade das famílias, será levado à delegacia e, conforme esteja procedendo, será preso em flagrante e conduzido ao posto policial, para que seja devidamente autuado e processado;

IV. Exerçam os srs. guardas civis a maior vigilância e empreguem a máxima energia para que, nas pensões alegres, não se deem cenas de deboche, visíveis ao público, gritarias e palavrões incômodos e perturbadores da tranquilidade das famílias;

V. Os automóveis, conduzindo pessoas, que se não estejam comportando com decência, serão detidos e levados à delegacia;

VI. O guarda civil, que efetuar uma prisão, se encontrar dificuldade em conduzir o preso, pedirá imediatamente auxilio à delegacia;

VII. Recomendo muito aos guardas prender em flagrante e conduzir a esta delegacia, devidamente acompanhadas das testemunhas, as pessoas que praticarem atos ofensivos à moral e aos bons costumes.66

Affonso Santos procurava realizar uma vigilância geral dos costumes e colocar em prática um policiamento preventivo para que determinados preceitos morais fossem respeitados no espaço público, por todas as pessoas da cidade. A atitude do delegado aproximava-se dos preceitos do artigo 282 do Código Penal de 1890, que tipificava o “crime do ultraje público ao pudor”, operando em defesa da “moralidade das famílias”, como diria

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SILVA, 2009, p. 76.

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Essa portaria foi comentada indiretamente por ANDRADE, 1987, p. 35, citada por SILVA, 2009, p. 89, e foi publicada no Relatório da CP, 1914b, p. 65-66, consultado no APM, grifos meus.

um jurista brasileiro.67 Apesar de sua medida se voltar a ações mais severas e a uma vigilância mais acirrada na prática cotidiana das meretrizes, acredito que ela traduz um desejo de vigilância moral mais abrangente, pois suas prescrições, mesmo abrindo prerrogativas para a vigilância do meretrício, não criaram nenhum mecanismo formal de controle ou prevenção dirigido a essa prática, a não ser instruções de comportamento dos guardas. Minha hipótese é que essa portaria se tornou um dispositivo de orientação para o policiamento da cidade. Em outras palavras, tratava-se de um mecanismo que ditava parâmetros para a conduta dos policiais, e não se restringiria a uma corporação específica, mas dizia respeito às práticas de policiamento da cidade.68

Logo que entrei em exercício do cargo, tratei de por um freio à desbragada imoralidade, que nas ruas, em passeios de automóvel, nos restaurantes e pensões alegres, se exibia deslavada, livre de peias, atentatória aos bons costumes e merecidos créditos de moralidade que possui a terra mineira.69

Todos esses elementos me permitem concluir que, apesar de existir o anúncio oficial de uma polícia de costumes instalada na capital, essa polícia funcionou, até 1927, mais como um preceito policial, como uma proposta de vigilância dos comportamentos de diferentes sujeitos, do que como uma corporação especializada, organizada e com regimento próprio. Se, em 1914, o responsável pela polícia de costumes era o delegado da 2ª circunscrição policial Affonso Henrique de Figueiredo Santos, no ano de 1915, o único relato que se reporta aos encargos da polícia de costumes foi assinado pelo delegado da 1ª circunscrição, Paulino de Araújo Filho. A mudança da polícia de costumes de uma delegacia para outra sugere o caráter de “serviço atribuído”, mais do que a organização de um grupamento especializado.

Paulino Filho argumentou que, “depois de um estudo consciencioso e comparativo” das ações policiais relativas ao meretrício, propôs “diversas medidas preventivas, em 1913, quando delegado de polícia de Ouro Fino”, submetendo-as “à apreciação dessa Chefia, todas

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Francisco José Viveiros de Castro (1932, p. 122-124)argumentou em seu livro “Os delitos contra a honra da mulher”, publicado pela primeira vez em 1897, que o crime de estupro contra as meretrizes era um absurdo, uma vez que o crime seria contra a liberdade pessoal e não contra a honra, “que não existe”, já que “a prostituta não recebe afronta que mancha indelevelmente a vida da mulher honesta”. O autor partia do princípio, defendido por Souza Lima, de que o título da seção que tipificava o estupro o no código penal de 1890 era “Dos crimes contra a segurança da honra e honestidade das famílias”, tornando-se “contrassenso jurídico classificar a violação de uma prostituta entre os delitos que afetam a segurança da honra e a honestidade das famílias”.

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É difícil afirmar em que medida essa campanha foi levada a cabo, pois não foi possível realizar uma pesquisa mais sistemática nos jornais da década de 1910.

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elas visando evitar os ataques à moralidade pública, aos bons costumes e preservadoras da saúde pública”.70 É possível que o posto de delegado em Ouro Fino e o trabalho de elaboração de uma proposta moralizadora naquela cidade tenham aberto caminho para que, ocupando o cargo de delegado da 1ª circunscrição da Capital, ele tomasse a frente nas políticas de policiamento dos costumes por certo período. Mas não há indício de que ele tenha elaborado algum tipo de prescrição específica para o meretrício em Belo Horizonte. Novamente, os indícios corroboram a hipótese lançada por Marina Silva, de que a polícia de costumes tinha uma preocupação com as diversões públicas em geral, não promovendo regulamento do meretrício.

A mudança da polícia de costumes da 2ª para a 1ª circunscrição policial permite, ainda, conjecturar que os cargos de delegado em Minas estiveram inseridos numa rede de relações políticas, o que fica evidenciado nas justificativas apresentadas por Paulino Araújo. Para reforçar essa hipótese, recorro a dois exemplos da historiografia: Marcos Bretas chamou a atenção para os cargos políticos que os delegados da capital federal almejavam e puderam alcançar ao longo das primeiras décadas do século XX. De um ano para o outro, vários delegados se tornaram chefes de polícia e até mesmo passaram a ocupar cargos no Supremo Tribunal Federal, entre outras carreiras do sistema judiciário. Para o autor, os delegados, bacharéis em Direito, esperavam que os serviços prestados à polícia os alçassem, cedo ou tarde, a melhores cargos. Ele também sugere que nas substituições do Chefe de Polícia ou nas transições de governo as chefias das delegacias, geralmente, sofriam alterações. “Como o posto de delegado auxiliar era visto como um passo numa carreira na justiça, muitos o deixavam para assumir lugares de juiz ou promotor, não permanecendo muito tempo a serviço da polícia”. 71

No caso de Minas Gerais, Marina Silva notou que, ao longo da década de 1910, “pelo menos dois Chefes de Polícia, Vieira Marques e Américo Ferreira Lopes, viriam a ser Secretários do Interior”.72 A autora evidencia o caráter político dos altos cargos da polícia em Minas. Além disso, há indícios dessas relações de interesse político e profissional nos cargos de delegado e chefe de polícia. Herculano César Pereira da Silva assinava, em 1913, como

70 Relatório do CP, 1915, p. 137-138. 71 BRETAS, 1997a, p. 51. 72 SILVA, 2009, p. 58-59.

delegado da 1ª delegacia auxiliar; já em 1914, ele ocupava o cargo de Chefe de Polícia.73 Segundo Marina Silva, ao longo da década de 1910 e 1920, ocorreu a

transformação do cargo de Chefe numa função mais política e administrativa. Essa mudança tornou-se possível à medida em que a polícia forjou novas subdivisões em sua hierarquia, justificadas pelo suposto aumento da complexidade no serviço de policiamento devido às novas demandas da cidade em desenvolvimento.74

Assim, é possível conjecturar que a não organização das funções da polícia de costumes em um único departamento ou em uma delegacia especializada possua relações com a dinâmica da administração policial que vigorou até meados da década de 1920. A leitura da documentação nos leva a inferir que ocorria, muitas vezes, uma superposição de funções e obrigações nas delegacias existentes. Um exemplo disso são as propostas de medidas de vigilância dos costumes e do meretrício por delegados que não exerciam essa “função”. Nesse sentido, “embora a polícia de costumes” estivesse “a cargo da outra delegacia auxiliar”, o delegado auxiliar Antonio Vieira Braga Júnior argumentava a necessidade de elaborar medidas de intervenção ao meretrício, já que o campo de ação da polícia de costumes confinava-se na “esfera” de sua competência.75

Para além da designação de “polícia de costumes” dada a uma ou outra das delegacias auxiliares, a vigilância dos costumes tornou-se, então, uma questão importante para as delegacias responsáveis pelo policiamento da cidade. Ela não se constituiu primordialmente para a vigilância ou controle do meretrício, mas para uma prevenção e proteção de uma ordem moral do espaço urbano de forma mais generalizada, diferente do caso francês que, apesar de generalizada, nasceu explicitamente para o registro do meretrício. O delegado da “Delegacia da Comarca” da capital, Edgard Franzen Lima,76 em 1922, relatava suas incumbências da seguinte maneira:

Incumbindo a esta Delegacia o policiamento noturno da Capital, sob sua imediata fiscalização se realizam as diversões que se prolongam ou se iniciam depois das 10 horas da noite. Essas diversões compreendem os

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Relatórios da CP, 1914a, 1914b.

74 SILVA, 2009, p. 58. 75

Relatório da SP, 1922, p. 52, grifos meus.

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Nascido em Ouro Preto em 22 de julho de 1887, era filho de Bernadino Augusto de Lima e Esther Franzen de Lima. Formou-se em 1909 pela Faculdade Livre de Direito, em Belo Horizonte, e atuou como delegado de polícia em Cariri, Pitangueiras e Queluz, em São Paulo. Em Belo Horizonte, foi delegado de polícia, antes de ser nomeado, em 1927, delegado de costumes, cargo que ocupou até sua morte em 1934. MINAS GERAIS, 20/09/1934, p. 13-14.

bailes públicos, especialmente os tradicionais bailes que se realizam nas chamadas “Pensões Chics” ou casas de tolerância da Capital.77

Não se percebe indício de desejo de reorganização ou de estruturação institucional da polícia de costumes na capital mineira, no sentido de uma vinculação desse serviço a uma delegacia especializada, ou da sistematização de sua atuação em um destacamento específico da polícia, até o início de 1920. Mas, como destacarei adiante, a partir da experiência com o policiamento da cidade, essa espécie de “função especial” da polícia foi aos poucos incorporada aos esforços políticos de “modernização” da polícia no Estado de Minas, em meados de 1920.78 No decorrer desses esforços, foi aprovado o “Regulamento do Serviço de Investigações”, documento que anuncia a criação da “Delegacia de Costumes e Jogos”,79 que, instalada na virada de 1927 para 1928,80passava a organizar e executar o “serviço de polícia de costumes”.81

A delegacia especializada concentrou, dentre suas atribuições, as ações policiais direcionadas ao meretrício na cidade, procurando, assim, dar continuidade ao que já vinha sendo feito por diferentes delegacias, como a vigilância do meretrício e as propostas para sua localização.82 Além disso, a nova delegacia anunciava a realização do registro do meretrício e a busca pela formação policial com base no conhecimento, relativamente recente, da questão da prostituição no mundo e no Brasil.83 Dessa forma, e apesar de o meretrício ter sido um tema debatido pela polícia mineira, demandando intervenções desde meados da década de 1910,84 a organização de uma polícia de costumes preocupada em organizar e controlar a prática do meretrício na cidade deu-se ao longo da década de 1920 e dos anos subsequentes aos conflitos políticos de 1930.

77

Relatório da SP, 1922, p 62.

78

Relatório da SSA, 1927, p. 9-11; Relatório da SSA, 1928, p. 3-8. Analisarei com mais vagar a questão da “incorporação” da sensibilidade moral no policiamento no segundo capítulo.

79

Decreto 8068 de 12 de dezembro de 1927.

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DIÁRIO DE MINAS, “SERVIÇO DE INVESTIGAÇÃO – Foram instaladas as delegacias de polícia especializada”, 01/01/1928, p. 3. A Delegacia abria seus relatórios com detalhes acerca do policiamento do meretrício. Entretanto, ela conservava serviços de “auxílio” ao “juiz de menores”, para aplicação do código de menores, e de vigilância das diversões públicas. O serviço de censura teatral e cinematográfica e de repressão ao jogo também foi organizado. A repressão à venda de “tóxicos” e à circulação de material pornográfico foi estruturada ao longo do primeiro ano de funcionamento da delegacia. Relatório da SSA, 1929, v. II, p. 85-97.

81

Relatório da SSA, 1928, p. 228. Este relatório anuncia a criação da “Polícia de Costumes” um ano antes da instalação da Delegacia de Costumes. O delegado que estava a cargo dessa organização era Edgard Franzen de Lima.

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Essas propostas estão presentes no Relatório da SP, 1922, p. 52 e 57, e serão discutidas mais adiante.

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Esses temas serão trabalhados no último capítulo.

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Outros fatores que corroboram para a delimitação temporal desta análise referem-se ao crescimento e à consolidação do ambiente urbano e da vida noturna a partir da década de 1920. Essa ambiência urbana, no âmbito deste trabalho, constitui-se pelo aumento do número de habitantes; pelo crescimento de instituições financeiras e de setores industriais, principalmente pela extração de minérios; e pela diversificação de estabelecimentos comerciais e de espaços de sociabilidade e diversão, como cafés, cinemas e bares.85 Trata-se, portanto, de um período de transformação das relações sociais, econômicas, políticas e culturais da cidade, que foi também um momento de consolidação de um espaço público organizado e informado pela esperança de consolidação de uma experiência eminentemente urbana, principalmente em torno dos cafés, dos meetings, dos cabarés.86

Nesse sentido, as propostas de localização do meretrício e a criação de uma delegacia especializada compõem a materialização, durante a década de 1920, do esforço de problematizar uma realidade e de resolver os problemas construídos ou verificados por determinados grupos. Mas isso não quer dizer que o período estudado inaugura as políticas policiais de intervenção no meretrício. É preciso deixar claro que simplesmente optei por problematizar e compreender o momento de uma configuração específica das práticas policiais em relação à prostituição. Ou seja, busco entender como os setores policiais lidaram com os problemas ligados à educação moral, no momento da elaboração e consolidação de um ritmo de vida mais agitado da cidade.

Tal processo de problematização da moralidade do espaço público diz respeito às próprias transformações do espaço urbano e das dinâmicas sociais da cidade durante a década de 1920,87 mas também às mudanças ocorridas na organização policial, que procurou modernizar-se, criando departamentos especializados.88 A tentativa de “pedagogização do meretrício” acompanhou esse processo de reestruturação, no qual as autoridades policiais forjaram a legitimidade de suas ações e de suas especializações no combate ao crime e às contravenções, evidenciando o caráter educativo que a instituição policial pretendia assumir.

A partir de agora, procurarei definir como se deu a organização da polícia de costumes em uma delegacia especializada; a constituição política de suas funções sociais, dentre elas a

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GUIMARÃES, 1991; SILVEIRA, 1996; AGUIAR, 2006.

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A respeito da formação de um espaço público em Belo Horizonte, ver SILVEIRA, 1996, e ANDRADE, 2004.

87

AGUIAR, 2006.

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Regulamento do SIC, Decreto 8.068, de 12 de dezembro de 1927. Francis Cotta (2006) argumenta que a década de 1920 foi um momento importante na estruturação das forças policiais de Minas.

organização do meretrício no ordenamento urbano de Belo Horizonte; a construção teórica de sua legitimação; e sua composição como um projeto de educação moral para o meretrício. Passemos, assim, para o desenvolvimento dessas questões.

Benzer Belgeler