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Uma sínte do processo de construção de identidades explicita-se no seguinte gráfico.

Construção de identidades

Fonte: GARCÍA Alonso, Maritza. Identidad cultural e investigación., p. 119.

Um exemplo de como acontece esse processo identitário é o ocorrido com a padroeira de Cuba, La Virgen de la Caridad del Cobre, tanto no concernente à sua figura como aos seus mitos. Abaixo três figuras da santa apresentam algumas diferenças, cada uma relativa a um determinado período histórico e às exigências do contexto.

Imagens da Virgen de la Caridad del Cobre

Fonte: http://co.dada.net/image/5434134/Virgen-de-la-caridad-del-cobre-brillo/;

http://www.amazon.com/gp/product/images/B000SOU6D4/sr=8- 1/qid=1224166880/ref=dp_image_text_0?ie=UTF8&n=1055398&s=home- garden&qid=1224166880&sr=8-1; http://www.lilibernard.com/Pages/CaridadCobre.html.

Tais imagens refletem os caminhos percorridos pela imaginação coletiva para elaborar o mito da aparição da Virgem, intimamente relacionado com o processo integrador primeiramente da crioulidade e logo da cubanidade. Mesmo mantendo-se idêntica figura anatômica da Virgem, em cada quadro muda a cor da pele da santa, a cor das vestes, a cor dos passageiros do bote, bem como seus nomes.

Percebe-se que há uma mudança significativa no que se refere à roupa da primeira representação, se comparada com a última: do vestido branco e manto azul, que remete à moda espanhola do século XVII, passa-se ao vestido amarelo, que é a cor de divindade africana, Oxum, com o escudo de Cuba na parte da frente e inferior da roupa.

A adoração à Virgem teve inicialmente um vínculo local, que aos poucos foi se difundindo entre os diferentes grupos sociais. Narra-se que ela, primeiramente, apareceu a dois índios e a um menino escravo negro, de dez anos, no ano de 1613, na Bahia de Nipe. Esta aparição coincide com o momento em que os primeiros grupos de pessoas eram discriminados durante a colonização espanhola, os índios e os negros escravos. Barajagua foi o primeiro lugar onde começou a se desenvolver, entre os índios, um culto à Virgem120.

Apesar de a primeira Virgem ter a cor da pele amarela, isto é, a cor da pele dos índios, percebe-se nela uma grande influência da tradição católica espanhola, na maneira da Virgem se vestir, com emblemas fixados em suas indumentárias do catolicismo romano no culto à Mãe de Deus. Em 1620 a adoração à Virgem se circunscrevia à capela de um hospital para escravos enfermos e feridos nas minas, ao passo que na igreja dessa vila adoravam-se tres divindades: a Virgem de Illesca, a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Bárbara121.

Aos poucos a devoção à Virgem superou a de outras divindades, devido à religiosidade que os escravos lhe professavam, até que tal veneração adquiriu categoria de culto, sendo a sede a igreja principal de Barajagua, na qual participavam escravos, mulatos livres, alguns índios e funcionários brancos da administração das minas de cobre.

Nesse período, as diferentes regiões do país ainda não tinham uma vida econômica e social coesa, prevalecia a autoconsciência do grupo étnico sobre a autoconsciência de cubanidade. É no final do século XVII e princípio do XVIII que começa o processo de “crioulização” da Virgem, que respondia ao desenvolvimento econômico adquirido pelos crioulos nas minas do Cobre. Neste período começou a expansão do culto para outras regiões do país tais como: Sancti Spiritus (1717), Puerto

Príncipe –atualmente Camagüey- (1734), Quemados (1747) e em La Habana (1831).

120

PORTUONDO ZÚÑIGA, Olga. La Virgen de la Caridad del Cobre: Símbolo de cubanía. Santiago de Cuba, Editorial Oriente, 1995, p. 57.

121 Idem.

Os diferentes lugares de culto que a Virgem foi adorada, no Oriente do país, espelham as diferentes mudanças políticas, religiosas, econômicas e sociais em Cuba. Primeiramente a Virgem foi encontrada no mar, na Bahia de Nipe; depois adorada em Barajagua, nos bohíos122; num terceiro momento, na capela de um hospital para negros escravos; logo na paróquia de Santiago do Prado, nas minas do Cobre.

Mostra das referidas mudanças são as estampas impressas em 1814, por ordem do bispo Osés de Santiago de Cuba, onde os protagonistas do primeiro relato (dois índios e um negro) são substituídos por Juan de Hoyos Branco, um Juan índio e um

Juan escravo. Estas modificações responderam à necessidade da hierarquia eclesiástica

de mostrar seu poder sobre os habitantes da Ilha e refletem o equilíbrio demográfico em cada momento da história: em primeiro lugar o branco (Juan de Hoyos Branco), logo o índio (Juan índio) e no último patamar o negro (Juan escravo); mas todos com um nome comum, Juan, talvez como uma tentativa de homogeneização da fé.

Em 1830, o capelão do Santuário do Cobre publicou, pela primeira vez, o mito da aparição da imagem da Virgen de la Caridad na Ilha. Era a época em que os ingleses começavam a explorar as minas. Por tal motivo, a Igreja Católica precisava delimitar seus direitos sobre o santuário e ratificá-lo como residência da divindade mariana123. Havia também conflitos entre católicos e protestantes, por isso era apropriado intensificar a adoração à Virgem.

Nesse caso, as ambivalências das características físicas da Virgem ajudariam os diferentes grupos étnicos a identificarem suas deidades nela. Por exemplo, a cor da virgem, que iconograficamente neste momento da história era morena, adaptou-se às características dos diferentes grupos étnicos existentes em Cuba. Para os índios, era amarela; para os europeus, branca; para os mulatos e negros, morena.

No ano de 1836 surgiram várias manifestações contra a liderança e as estruturas de poder. O santuário converteu-se no lugar de reunião dos escravos, dos crioulos, dos cubanos, por isso em 1868 a Virgem torna-se Mambisa124. “Guiados” por ela, juntaram-

se pessoas de diferentes cores para lutar pela independência do país.

122

Nome das casas construídas pelos índios cubanos. 123

PORTUONDO ZÚÑIGA, Olga. La Virgen de la Caridad del Cobre: Símbolo de cubana, p. 202. 124

No decurso das guerras entre Espanha e Cuba (1868-1878 e 1895-1898) se escreveram muitas poesias e novenas à Virgem, identificando-a como a Padroeira de Cuba. Vale destacar que ela nunca foi apresentada como uma Virgem lutadora, senão como a mãe de todos os cubanos e de todas as cubanas. Já, no final do século XIX, a ética patriótica do culto à Virgem del Cobre nutriu-se de aspirações reivindicativas dos

mambises, até o ponto que foi impossível desvinculá-la da personalidade nacional,

convertendo-se em símbolo de cubanidade.

Nos primeiros anos do século XX, os veteranos da Guerra de Independência aproximaram-se mais ao culto da Virgem de la Caridad del Cobre, como recurso para unir a nação cubana. Um dos fatos mais importantes desse período foi a solicitação apresentada por dois mil mambises ante a Santa Sé em Cuba para o reconhecimento solene da Virgem como Padroeira de Cuba. Isto ocorreu em 24 de setembro de 1915. Ante a perda definitiva do monopólio religioso institucional e do poderio econômico, a Igreja Católica aceita o pedido, e em 10 de maio de 1916 declara a imagem da Caridad

del Cobre y de los Remedios padroeira da República de Cuba125.

É interessante que, nesse período, o mito sobre a aparição da Virgem narra que os integrantes da barca eram Juan índio, Juan branco e Juan Wilson escravo. Agora o escravo tem um nome com certo tempero anglo-saxônico. Estas mudanças não são conseqüências de caprichos literários, ocorrem para adaptar o mito às transformações étnicas da sociedade cubana126.

Posteriormente a Virgem associou-se, no panteão Iorubá, a Oxum. No espiritismo era considerada “uma potência tão forte que se valia de outro espírito para se comunicar”127. Em meados do século XX o mito da aparição da Virgem muda novamente, agora os tripulantes da barca eram, em algumas ocasiões, Juan Cuba, e em outras, Juan povo. Estes homens, que se encontravam perdidos no meio do mar numa tempestade, foram salvos pela própria Virgem. O mito alude à angústia e ao desamparo do povo cubano neste período.

125

PORTUONDO ZÚÑIGA, Olga. La Virgen de la Caridad del Cobre: Símbolo de cubana, p. 245. 126

Idem. 127

Talvez isso também tenha algo em comum com o que ocorreu com os rebeldes que navegavam de México para Cuba para lutar contra Batista128. Atualmente, no

Santuario del Cobre exibem-se vários dos amuletos usados pelo exército rebelde na luta.

Ainda no século XX se constrói em sua homenagem uma capela em Miami e em Madrid inicia-se um culto, ambos os espaços destinados aos imigrantes cubanos que sairam da Ilha depois de 1959. Tudo isto permite afirmar que o histórico da Virgen de la Caridad del Cobre é, em parte, o histórico do povo cubano, de suas culturas e identidades.

Uma veneração local, que ressaltava a visão de mundo de um sujeito da cultura (o grupo negro-indígena) em confronto com o outro significativo (os espanhóis), através das diferentes atividades identitárias e objetos de identidade, passa a ser uma veneração ampla: a Virgem amarela, branca, negra, mambiza, possuidora de um conjunto de atributos úteis para estabelecer a comunicação entre sujeitos da cultura e alteres, torna- se cubana, expressando costumes, anseios, estórias e séculos-cultura. Nesse processo, a circulação da memória histórico-cultural e identitária jogaram um papel importante.

Cuba, parafraseando a Ortiz, é esse grande “sopão”, cozido ao fogo dos trópicos com as mais variadas influências culturais. Mas, o que a caracteriza mesmo Cuba é que seu povo não é um “sopão” feito, senão uma constante cocção, um renovado entrar de raízes, um incessante fervilhar de substâncias heterogêneas. Por isso sua composição muda e a cubanidade passa a ter sabor e consistência distintos, segundo o tipo de elemento cultural dinamizador que esteja em ação129. A seguir, e para encerrar este capítulo, oferecem-se algumas considerações acerca do teor abordado.

Benzer Belgeler