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O sentido da colonização brasileira e suas implicações na realidade do país serão, talvez, os temas mais constantes da análise historiográfica de Caio Prado, são sem dúvida, a base de sua interpretação da história brasileira. (DIEHL, 2004). A sua abordagem sobre o entendimento da colonização

pretende desvendar as peculiaridades dos períodos colonial, imperial e republicano (VELOSO et al, 2001).

Percebe-se que toda a construção teórica construída pelo autor demonstra que o sentido histórico da colonização brasileira perpassa a condição do capitalismo comercial europeu a partir do século XVI.

[...] O Brasil viveu no curso de toda a sua história, e ainda vive em função das flutuações de mercados longínquos que podem fazer a sua fortuna ou miséria, sem que ele nada possa dizer na matéria, somos obrigados a sofrer passivamente as vicissitudes de uma conjuntura completamente estranha. (PRADO JÚNIOR, 1954, p.43).

O entendimento da colonização brasileira torna-se situação basilar para a compreensão da construção e transformação da nação brasileira. É a partir da perspectiva histórica de uma colonização, baseada na relação de exploração entre a metrópole portuguesa e a colônia brasileira que se assentam as bases do trabalho escravo, da economia agroexportadora, dos surtos de industrialização e, agregado a essa temporalidade, das articulações e dos desencontros entre as tendências predominantes na sociedade civil e as que prevalecem no poder estatal; e todos os demais desdobramentos sociais que marcam o passado brasileiro e ainda encontram-se presentes na realidade da nação brasileira.

Ao mesmo tempo em que suas obras vão revelar a importância da ação realizada pela coroa portuguesa na compreensão de fenômenos ainda vigentes na realidade social brasileira, suas interpretações sobre a colonização brasileira demonstrarão também que esta colonização não acontece de forma isolada e sem maiores motivações. A partir de seus estudos sobre a forma de colonização realizada no Brasil, Caio Prado engendra em quase todas as suas abordagens o interesse econômico como ator principal para fundamentar e incentivar as mudanças sociais.

A perspectiva utilizada por Caio Prado será de entender o todo para explicar as partes (REIS, 1999). Sendo assim, a “parte-Brasil” tem um sentido mais geral, ou seja: a formação social ocorreu essencialmente para fornecer açúcar, tabaco, ouro, diamantes, algodão, café para o comércio europeu. Foi para tal objetivo, exterior, para fora, que se organizou a sociedade e a economia brasileira.

A colonização brasileira, na interpretação deste autor, foi um problema de difícil solução para a coroa portuguesa desde seu descobrimento. Faltava à metrópole gente e cabedais para dedicar-se à tarefa de residir neste novo continente. O surto marítimo ocorrido em Portugal no século XV fora provocado por uma burguesia comercial sedenta de lucros. Com o apoio da instituição monarca, essa burguesia começou a sua expansão pela África e pelas Índias (REIS, 1999).

O fascínio que exercia o continente indiano inspirava os desbravadores a fantasias e delírios em busca de abundantes riquezas. As Índias se tornaram o grande objetivo da aliança entre burgueses e a coroa portuguesa, entretanto, no meio do caminho, a empresa marítima portuguesa depara-se com um território imenso, pouco habitado e de escassas riquezas perceptíveis, o Brasil. Esse primeiro contato entre a metrópole e sua nova conquista territorial fizeram com que o Brasil passasse de um território desconhecido para uma colônia sem povoamento. A relação inicial fundamentava-se na exportação de produtos primários para expandir o regime mercantilista português. Como salienta Caio Prado, o Brasil é capitalista desde sua origem (PRADO JÚNIOR, 1994b).

A economia brasileira surge a partir da grande exploração comercial, criada pelo capitalismo mercantil europeu e voltada para o mercado externo. O Brasil desde seu descobrimento compartilha do mesmo sistema e das mesmas relações econômicas que originaram o capitalismo. O reflexo do sistema capitalista na realidade colonial brasileira é verificado na mão-de-obra escrava que inicia o processo de mais-valia do grande proprietário rural e no predomínio da grande propriedade rural que produzia para exportação, ao contrário do que era realizado nas colônias norte-americanas que se fundamentavam na pequena propriedade.

No Brasil não se constituiu uma classe camponesa que produzisse em pequenas propriedades e em família. Na exploração comercial colonial, a direção e ocupação na exploração do solo foram exercidas pelo grande proprietário. O trabalho escravo satisfazia as exigências do sistema comercial colonial e, principalmente, dos grandes proprietários de terra. Escravos e trabalhadores livres que viviam em condições sub-humanas recebiam, vez por outra, uma compensação pelos serviços prestados – dinheiro ou concessões das mais variadas – e ambos lutavam por objetivos comuns: a melhoria de

seus rendimentos. Percebe-se com isso que o trabalho escravo e a grande propriedade rural não foram incompatíveis à acumulação capitalista, mas sim, extremamente necessárias para manutenção da estrutura que se necessitava à época.

É assim extremamente simples a estrutura social da colônia [...] Reduz-se em suma a duas classes: de um lado os proprietários rurais, a classe abastada dos senhores de engenho e fazenda; doutro a massa da população espúria dos trabalhadores do campo, escravos e semilivres. Da simplicidade da infra-estrutura econômica – a terra, única força produtiva, absorvida pela grande exploração agrícola – deriva da estrutura social: a reduzida classe de proprietários, e a grande massa que trabalha e produz, explorada e oprimida. (PRADO JÚNIOR, 1994a, p. 28).

Ao efetivar-se a economia colonial baseada na grande propriedade, onde apenas duas classes se faziam presentes de maneira perceptíveis, houve por parte da coroa portuguesa – seja por relapso ao território recém- conquistado ou por falta de recurso humano para controlar o enorme território brasileiro – o consentimento para que os senhores de terra utilizassem seu poderio pessoal para a efetivação do controle de possíveis revoltas internas. Sendo assim, há uma compressão nos grandes domínios, toda população vive nas dependências de seus respectivos senhores rurais. A grande exploração agrícola absorve toda a economia local, monopolizando, por conseguinte, os meios de subsistência, subordinando todos os residentes – principalmente os escravos, que naturalmente estavam ligados aos senhores de terra por sua condição de mercadorias.

O estatuto político colonial estabelece-se a partir de regiões dominadas por pequenos grupos ou famílias, que através de seu chefe (o senhor rural), exercia sua vontade e controlava possíveis reivindicações de seus subordinados. A questão fundamentava-se em primeiro lugar nos “interesses dos grandes proprietários rurais. [Sendo] destes, portanto, e só destes, o poder político da colônia” (PRADO JÚNIOR, 1994a, p. 32, grifos meus).

Ao estudar a esfera política colonial percebe-se que sua atuação se dá de maneira dispersa, pouco centralizada, o Brasil inicia sua formação a partir da desarticulação entre as diferentes regiões e desenvolve-se tendo como princípio os interesses dos senhores de terra que assumem posições e ações

frente a seus subordinados privilegiando os interesses econômicos oriundos do sistema colonial luso-mercantilista.

Em cada região é a câmara respectiva que exerce o poder. Formam-se assim sistemas praticamente soberanos, regidos cada qual por uma organização política autônoma. O Brasil colonial forma uma unidade somente no nome. Na realidade é um aglomerado de órgãos independentes, ligados entre si apenas pelo domínio comum, porém, muito mais teórico que real, da mesma metrópole. (PRADO JÚNIOR, 1994a, p. 32).

No período colonial, o Brasil tinha inúmeros espaços de poder nas mãos de alguns senhores de terra que dificilmente se comunicavam. Essa característica que marca peculiarmente a colonização, só foi realizada graças à anuência da metrópole portuguesa. O vínculo exercido entre Brasil e Portugal ocorria através dos interesses dos senhores de terra que se comprometiam a manter fidelidade ao reino lusitano desde que mantivessem seu poder de atuação em suas grandes propriedades. O século XVI marcou definitivamente essa aliança entre os senhores de terra e a coroa portuguesa. Por um lado, os senhores de terra exportavam seus produtos e mantinham a ordem interna, por outro, a metrópole mantinha o exclusivismo comercial com sua colônia e não precisava ter despesas e preocupações perante as revoltas ocorridas em sua possessão.

Esse pacto só foi definitivamente fragilizado e desfeito a partir de meados do século XVII. A nova política adotada pela coroa portuguesa em relação ao Brasil oprimia demasiadamente a economia interna brasileira, essa ação tinha o intuito de manter o controle da colônia, que a essa época já tinha transformado sua estrutura social e econômica para uma situação mais vigorosa.

Outro fato que corrobora a mudança entre a coroa portuguesa e o Brasil é a vinda da família real portuguesa. Este deslocamento da corte lusitana para terras “tupis” contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento do país, mudando as relações entre senhores de terra e a coroa portuguesa. Perante as inúmeras mudanças ocorridas, o medo de um controle centralizado por parte da nobreza portuguesa e a exploração nas relações comerciais entre os representantes do poder no Brasil, os senhores de terra e demais grupos de influência acabam se articulando e iniciam um processo de emancipação

política para o país para livrarem-se dos incômodos impostos exercidos pela metrópole portuguesa.

[...] rompera-se o equilíbrio político do regime colonial. Minando- lhe surdamente a base, e manifestando-se por vezes na superfície em atritos e choques violentos, trabalhavam forças contrárias, que dia a dia mais lhe comprometiam a estabilidade. O choque destas forças, interesses nacionais e lusitanos, no terreno econômico; autonomia local, representada pela administração dos colonos, e sujeição administrativa, representada pelo poder da coroa portuguesa, no terreno político; o choque destas forças contrárias assinala a contradição fundamental entre o desenvolvimento do país e o acanhado quadro do regime de colônia. Dele vai resultar a nossa emancipação. (PRADO JÚNIOR, 1994a, p. 44).

Ao analisar essa interpretação da primeira emancipação política

Benzer Belgeler