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“Na fase teórico-intelectual, as aldeias são diagramas, os matrimônios se resolvem em desenhos geométricos perfeitamente simétricos e equilibrados, a patronagem e a clientela política aparecem em regras ordenadas, a própria espoliação passa a seguir leis e os índios são de papel. Nunca ou muito raramente se pensa em coisas específicas, que dizem respeito à minha experiência, quando o conhecimento é permeabilizado por cheiros, cores, dores e amores. Perdas, ansiedades e medos, todos esses intrusos que os livros, sobretudo os famigerados ‘manuais’ das Ciências Sociais teimam por ignorar.”

Roberto da Mata16

No trecho destacado acima, Roberto da Mata contrapõe dois modos de apresentação de pesquisas e suas conclusões: um modo pretensamente objetivo no qual a presença do pesquisador desaparece na simetria dos diagramas e na ordenação das regras, outro que dá lugar a narrativa e reflexão a partir da experiência vivida. É evidente que, hoje, já se tem bem claro, em diversos manuais de pesquisa, as questões de ordem subjetivas que se impõem ao pesquisador, durante seu processo de estudo, e estas são vastas e fundamentais ao processo de construção do conhecimento. Entretanto, é pertinente expor que o pesquisador que vivencia, pela primeira vez, uma experiência como a de pesquisa de campo, pode se sentir perdido e ansioso diante de diversas situações, principalmente, no momento da entrevista, da análise e

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Roberto da Mata é antropólogo, graduado e licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (1959 e 1962). Curso de Especialização em Antropologia Social do Museu Nacional (1960); M.A e Ph.D em, respectivamente, 1969 e 1971 pelo Peabody Museum da Universidade de Harvard. Foi Chefe do Dept. de Antropologia do Museu Nacional e Coordenador do seu Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (de 1972 a 1976). É Professor Emérito da Universidade de Notre Dame, USA, onde ocupou a Cátedra Rev. Edmund Joyce, c.s.c., de Antropologia de 1987 a 2004. Atualmente é Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Realizou pesquisas Etnologicas entre os índios Gaviões e Apinayé. Foi pioneiro nos estudos de rituais e festivais em sociedades industriais, tendo investigado o Brasil como sociedade e sistema cultural por meio do carnaval, do futebol, da música, da comida, da cidadania, da mulher, da morte, do jogo do bicho e das categorias de tempo e espaço. (fonte: Sistema de Currículos Lattes)

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da escrita de tal experiência. O pesquisador não vai só para o campo de pesquisa, ele leva suas concepções, seu olhar, sua bagagem social constituída a partir de um contexto específico. Ao discutir as escolhas teórico-metodológicas que fiz para realizar este trabalho, busco demonstrar o quanto minhas ações e reações subjetivas interferiram nessas escolhas e foram delineando o seu andamento e formato final. Dessa forma, neste capítulo falo da minha experiência e processo de construção desta pesquisa.

As concepções teórico-metodológicas adotadas nesta investigação perpassam as discussões dos campos da Linguagem, da Sociologia e da Etnografia em educação, e foram utilizadas para compreender a relação entre a escrita, escolarização, disposições familiares e práticas de letramento de sujeitos de camadas populares. Além disso, no intuito de ampliar os estudos referentes a essas relações, apontarei conceitos aplicados aos fenômenos das disposições familiares de sujeitos provenientes de camadas populares, destacando as conseqüências da escolarização e das vivências não escolares nas práticas de letramento constituídas no ambiente familiar, escolar e de trabalho desses sujeitos.

Diversos estudos, realizados nos campos da Linguagem e da Sociologia, se apóiam ou se apoiaram em procedimentos teórico-metodológicos da Etnografia (CASTANHEIRA, 1991, 2004; HEATH, 1983; LAHIRE, 1997; MOLL, 1992; STREET, 1995), por entender que esses procedimentos permitem ao investigador compreender como o outro dá sentido àquilo que vivencia, possibilitando apreender o ponto de vista do sujeito, sua relação com a vida e sua visão de mundo (MALINOWSKI, 1984).

Assim, considerando os objetivos desta investigação e o tema estudado, optei por realizar uma pesquisa com pressupostos teóricos e elementos de coleta de dados da Etnografia: a incursão a campo, o diário de notas, a observação e a entrevista. Conforme é característico de pesquisas dessa natureza, o estudo desenvolve-se por meio da exploração de diferentes fontes de informação e registro dos dados (ALVES-MAZZOTI; GEWANDSZAJDER, 1999).

De acordo com Green; Dixon; Zaharlick (2005), é possível, a partir das observações etnográficas, compreender o que os sujeitos pensam, como agem, interpretam e como isso delimita sua participação no grupo social investigado.

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[...] questões etnográficas buscam compreender as práticas culturais dos membros de um grupo social, como essas práticas conformam o acesso e a distribuição de recursos dentro e fora de eventos e tempos, e quais as conseqüências para as condições de pertencimento dos membros ao grupo, tendo em vista esse acesso e distribuição de recursos (GREEN; DIXON; ZAHARLICK, 2005, p. 58).

Utilizar métodos e teorias da etnografia requer ir além da mera descrição, exige um conjunto de observações, questionamentos, olhares e reflexões que permitam entender o que está acontecendo no grupo observado, afastando-nos de um olhar etnocêntrico. Contribui para uma visão êmica, na qual as ações que os sujeitos realizam para conviver naquele grupo, compartilhar e lidar com as demandas sociais atribuídas a eles é o foco da investigação, nunca perdendo de vista que as questões ali encontradas são construídas a partir de um contexto único e particular. No caso desta investigação, uma análise mais local foi o maior interesse, o que também justificou a utilização da perspectiva etnográfica. A Etnografia, que, segundo Green; Dixon; Zaharlick (2005), já não deveria ser mais considerada como metodologia de pesquisa, mas sim como lógica de investigação, caracterizou-se como o principal guia teórico- metodológico deste estudo.

A Etnografia como lógica de investigação utiliza uma abordagem teórica baseada na perspectiva contrastiva, ou seja, é através dessa perspectiva que os “fenômenos e práticas culturais vão ser estudados” (GREEN; DIXON; ZAHARLICK, 2005, p. 28). O objetivo do etnógrafo deverá ser o de “compreender os padrões culturais e as práticas das vidas diárias dos integrantes do grupo estudado a partir de uma perspectiva êmica, ou de um membro da comunidade” (GREEN; DIXON; ZAHARLICK, 2005, p. 28). O termo “êmica” surge a partir de uma mudança de deslocamento da perspectiva ética para a êmica. Na perspectiva ética, o que era observado pelo etnógrafo configurava-se como a descrição do grupo. A partir de 1960, alguns etnógrafos, principalmente, aqueles que se pautavam pelas abordagens cognitivistas, simbólicas e interpretativas, passaram a considerar os significados das ações e eventos cotidianos dos sujeitos como uma visão particular. Assim, descreve-se a perspectiva

êmica: entender os significados de práticas vividas pelo sujeito a partir da visão que o próprio

sujeito tem a respeito dessas práticas.

Desta forma, para entender o que os membros de um grupo precisam saber, produzir, entender e prever como requisito para a sua participação naquele grupo, o etnógrafo utiliza um

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processo interativo ou responsivo, recolhendo um conjunto de vivências que dê visibilidade às práticas desses sujeitos.

Ao examinar tais práticas, os etnógrafos procuram meios de compreender as conseqüências do senso de pertencimento e como o acesso diferenciado dentro de um determinado grupo modela as oportunidades de aprendizagem e participação (GREEN; DIXON; ZAHARLICK, 2005, p. 29).

Uma vez consideradas as práticas dos sujeitos como formadoras de sua cultura, é necessário entender que a cultura não é algo fixo. Assim, a análise do etnógrafo deve revelar que esse conjunto de princípios constitui os hábitos, as ações e as atitudes vividas pelos membros daquele grupo, naquele determinado momento, e que seus significados podem variar. Esses princípios nortearam a minha incursão em campo, de modo a ouvir os sujeitos no processo de entrevista e a buscar entender quais são os significados da leitura e escrita em seu cotidiano.

Benzer Belgeler