A proposta de analisar o discurso feminino nos movimentos negros acerca do acesso da mulher negra à saúde pública levou-nos a utilizar um referencial teórico- metodológico que privilegiasse a produção discursiva das militantes, a partir do qual pudéssemos direcionar a nossa análise para o esclarecimento das questões norteadoras deste estudo.
Ao adotar este caminho metodológico na pesquisa, vislumbramos construir um estudo que possa possibilitar as militantes dos movimentos negros refletir sobre os elementos que interferem no acesso da mulher negra à saúde e inviabilizam a implementação das políticas públicas voltadas para este público. Para tanto foram realizadas sete entrevistas, sendo as convidadas militantes de diversos movimentos negros da cidade de São Paulo. O contato inicial se deu por meio de indicação de colegas do curso de especialização, do mestrado e do contato direto com participantes dos movimentos negros em seminários relacionados a pesquisa nos quais busquei aprofundar o meu conhecimento sobre o tema. Foi realizado contato por e-mail e apresentado o tema da pesquisa, seu objetivo e o convite para participar da entrevista.
A partir desse contato as mulheres que aceitaram participar enviaram e-mails confirmando seu interesse ou entraram em contato pelo telefone. Os horários e locais de entrevista foram agendados previamente, e algumas entrevistadas já avisaram de antemão que haveria uma restrição em relação ao tempo. No ato da entrevista foi explicado novamente em linhas gerais sobre a pesquisa e seu objetivo e em seguida foi entregue um termo de consentimento livre e esclarecido para a participante assinar. As entrevistas consistiram em uma conversação a partir de um roteiro semiestruturado no qual foram abordados temas referentes à compreensão dessas mulheres em relação ao conceito de saúde, ao conhecimento do sistema público de saúde e seu funcionamento, bem como em relação à participação e atuação em movimentos negros, trabalhos desenvolvidos em relação à saúde da mulher negra e a forma como o tema é pautado nestes movimentos. As entrevistas foram gravadas em equipamento de áudio e suas falas foram transcritas segundo a produção oral apresentada.
O material resultante das transcrições foi tratado nesta pesquisa como o discurso produzido pelas mulheres negras participantes dos movimentos negros. A partir dos discursos obtidos foi aplicada a metodologia de Análise de Discurso (ORLANDI, 2012).
A metodologia de Análise de Discurso empregada neste estudo foi ancorada em teóricos da linha francesa de análise do discurso, por privilegiar o conceito de interdisciplinaridade nos estudos desenvolvidos no campo da investigação da linguagem enquanto prática social, e por postular que não há discurso sem a inscrição de outros, visto que todos eles apontam na perspectiva de suas relações com outros discursos.
Segundo ORLANDI (2012) a Análise de Discurso tem seu ponto de apoio na reflexão sobre o sujeito e o sentido – um relativamente ao outro – por considerar que ao significar o sujeito se significa. Afirma ainda que, a relação com a historicidade tem um lugar definidor, na Análise de Discurso, neste contexto o discurso é apresentado como um processo social, onde há o descentramento do sujeito, que por sua vez constitui sua relação com o mundo pela ideologia; a ideologia por seu turno é vista como o imaginário que media a relação do sujeito com suas condições de existência.
Em relação à análise foi criado um dispositivo de interpretação, que segundo ORLANDI (2012) auxilia o analista a entender os sentidos das palavras pronunciadas pelo sujeito (entrevistado), ouvindo o que é dito, mas que foi pronunciado pela escolha de outras palavras, ou seja, o que foi dito e colocado no lugar do não dito.
Sendo assim, a análise foi baseada no que há de real no sentido segundo sua materialidade linguística e histórica com vista a captar, na produção de sentidos, a manifestação do inconsciente e das ideologias que constitui o sujeito que fala.
O dispositivo teórico permitiu entender as condições de produção, e a não ser capturado pelos efeitos de evidência produzidos pela linguagem, mas tirar proveito deles pela mediação teórica que o auxilia a pensar, colocando em suspenso a interpretação. Este deslocamento do analista em sua relação de sujeito com a interpretação poderá atravessar desta forma o efeito de transparência da linguagem, da literalidade do sentido e da onipotência do sujeito. Neste sentido o trabalho realizou-se nos limites da interpretação, tendo o analista se posicionado de modo a contemplar o processo de produção de sentidos em suas condições.
No caso do presente estudo este corpus se configura na compreensão em torno da trajetória de vida e políticas destas mulheres militantes em busca da superação das desigualdades racial e de gênero e do reconhecimento à cidadania. O levantamento
histórico e teórico em torno do tema nos ajudou a entender os sentidos e significados de “ser mulher negra” e representar as demandas de mulheres em igual condição em relação ao acesso à saúde pública. Este levantamento nos colocou a priori em contato com o sujeito da análise e suas condições de produção a partir do contexto sócio- histórico e ideológico ainda que de forma superficial. A (des)superficialização se deu após a entrevista a partir da qual a configuração deste corpus foi constantemente delineada, bem como foram feitos recortes e acréscimos necessários no ir e vir ao longo do trabalho de análise. No capítulo de análise no item sobre consciência política e participação política trabalhamos com as sete categorias de análise de Salvador Sandoval para identificá-las nas falas das entrevistadas.