• Sonuç bulunamadı

A todo o momento, a relação dos Arturos com os objetos se torna bastante explícita. Trago aqui algumas destas relações entre outras que de alguma maneira já foram descritas no texto, mas que gostaria de dar maior visibilidade. A convivência cotidiana dos Arturos com todos os elementos que envolvem a Festa é especialmente significativa porque torna visível uma substancial parte do patrimônio cultural da sua prática festiva.

Os instrumentos musicais e o bastão regente

Foi marcante a relação de meus pesquisadores mirins com os objetos que representam a Festa.

O Patangome ou chique chique traz lembranças do Tio Titoco38, o rei do patangome da comunidade. Titoco não deixava ninguém tocar seu patangome. Hoje Fábio conta que sabe tocá-lo devido a ficar bem pertinho do Titoco vendo-o tocar. Já Gleice relata que não sabe tocar direito. O pouco que aprendeu foi olhando seu avô tocar e ouvindo suas instruções.

38

FIGURA 26: O Patangome

Foto tirada por Gleice, 8 anos. Out/2012

O batido da caixa chama pra dança. Anita relata que o som das caixas é emocionante. Para ela, vê-las no chão ou penduradas no ombro dos caixeiros, é saber que ali tem um Arturo. A relação de Fábio com a caixa é uma constante e faz parte de sua história. Em cada fato que lembra faz menção à caixa. O batido das caixas é realmente envolvente.

FIGURA 27: As Caixas

Para Gleice o som mais gostoso é o da gunga. Parecem sininhos, muitos sininhos

tocando. Em uma das conversas de meus pesquisadores mirins39 com o Tio Mário, ele revela que sente muita saudade de dançar com a gunga nos pés.

- Já dancei muito. Hoje vejo vocês dançarem e dá muita

saudade e alegria de ver que não vai acabar.

Mas tem que saber dançar com elas nos pés. Quando se sabe é bonito de ver e ouvir. Mas quando não se sabe....

FIGURA 28: As Gungas

Foto tirada por Gleice, 8 anos. Out/2012

Fábio revelou ter um sonho: ser Capitão. Quer ter seu bastão. Segurar um bastão é sinônimo de poder. Somente com o bastão nas mãos um Capitão pode puxar as músicas. Fábio diz que o bastão é igual o Rosário.

Se não tiver com o bastão na mão não é capitão, se não tiver um Rosário não é um Arturo. Durante o Almoço, os bastões não ficam deitados sobre a mesa. Todos estão em pé, encostados nas pilastras. Fábio me esclareceu que na hora do almoço cada objeto tem um lugar certo pra ser colocado. Não pode deitar o bastão porque ele é sagrado.

39 Depois da Festa e preocupados com o final da pesquisa, Fábio, Anita e Gleice me propuseram de fazer

algumas entrevistas com os mais velhos da comunidade. Conversaram com Vovó Tetane, Tio Mário, Tio Antônio, Vovó Dodora e Tia Lucinha. Alguns trechos dessas conversas foram transcriros neste capítulo.

FIGURA 29: O Bastão Foto tirada por Fábio, 13 anos. Out/2012

O Rosário

FIGURA 30: O Rosário

O Rosário é sinônimo de proteção para os Arturos. Estar com o Rosário representa estar protegido do mundo. Na fala, principalmente das crianças, estar com terço é estar protegido pra não passar mal, pra ninguém rezar nas nossas costas40. Tem

que estar com o rosário sempre que for dançar. E em casa também. Durante a Festa a Fé neste objeto é fartamente explícita, mas no cotidiano ela também está presente, nos quadros, nas cômodas, nas paredes das casas. Além de ser motivo de orgulho ter um lindo Rosário.

O Reinado

Os Reis e Rainhas são reverenciados. São personagens principais da Festa. D. Tetane relata toda uma preparação para o coroamento. Há necessidade de jejum, penitência e muita oração. O respeito pelos reis e rainhas durante a festa se estende ao cotidiano da comunidade. São conselheiros, ombro amigo, pais e mães de todos os Arturos.

FIGURA 31: O Rei e a Rainha do Império

Arquivo pessoal.Out/2012

40

- Mamãe era rainha do Império, e passou pra mim, filha mais velha. O reinado não pode aceitar nada durante a Festa, não pode beber álcool e tem que rezar o tempo todo. As coroas têm que ser colocadas no altar. A rainha Conga é que coloca a coroa na cabeça das rainhas. Uma guarda vai buscar a gente em casa pra que aconteça a coroação na frente do altar. A função dos reis e rainhas é reverenciar a Nossa Senhora do Rosário. Ela abençoa as coroas, as capas e os bastões. Eu não posso explicar como surgiu o Congado, papai falava pra gente e eu era muito pequena, mas sei que nós temos que respeitar e ter fé. Já peguei do papai pra frente. E vou seguir até quando Deus quiser. E sei que meus filhos e netos também seguirão. Porque papai queria assim. (D. Tetane)

O altar e seus Santos

FIGURA 32: O altar da Capela da Comunidade dos Arturos

Foto tirada por Paula, 32 anos. Out/2012

O cuidado com o Altar é marcante. É o templo Sagrado da comunidade, onde repousam os Santos, as coroas e os bastões. É reverenciado por todos que entram na

Capelinha. Para os Arturos é maravilhoso. É a razão de ser de toda a Festa de Nossa Senhora do Rosário

- Ao entrar na capela damos de cara com ele. Tem uma força incrível. Pode ajoelhar e pedir que será atendido. Adoro esse altar. (Paula)

As relações com os objetos e com seus pares percebidas aqui podem ser percebidas em contextos diferentes. Obviamente que em outro contexto elas geram relações e práticas diferentes. Sem a intenção de comparar tais práticas, até porque cada uma traz suas especificidades, observei um mesmo movimento nos trabalhos de Sautchuk (2007), Faria (2008) e Bergo (2011). Este movimento pode ser visto:

Na relação dos meninos laguistas com o arpão, observada por Sautchuk:

Nascer entre parentes proeiros é, por várias razões, uma forma de se desenvolver como tal. A começar pelo acoplamento com o arpão. A relação do filho de um laguista com sua haste é tal que ele não só a porta durante boa parte do dia, mas vários dormem junto com elas. Ao longo da vida de um filho de laguista, o arpão o acompanha, desenvolvendo-se concomitantemente ao seu corpo. Seria melhor dizer, aliás, que o que se mantém ao longo dos anos é o acoplamento, a forma protética de agência, de modo que, se o arpão aumenta suas dimensões junto com o menino, é justamente para conservar um mesmo tipo de relação. É bem verdade que algumas coisas se alteram: a ponta, que no início é rombuda e talhada na mesma peça da haste, passa a ser afiada, depois feita em metal; por fim, ela assume a configuração destacada da haste, com maior potencial para perfurar e aderir ao alvo. Mais correto seria dizer, conforme a nomenclatura local, que os meninos brincam com hastes (sem ponta), depois com zagaias (ponta conectada à haste), para finalmente usar o arpão (ponta destacável). Precisões importantes, relativas ao potencial agressivo e à complexidade do dispositivo, mas que não devem diminuir o valor do processo contínuo de acoplamento à arma. (2007:271)

Na relação dos jogadores de futebol com seus pares, observada por Faria, na organização das partidas no campinho de um bairro de Belo Horizonte:

O paradoxo da participação como de fora estava no fato de que os iniciantes tinham de apresentar habilidade futebolística para participar, porém tinham de participar/praticar para constituir habilidade. Aprender a lidar com essa tensão — de fazer parte, mesmo não estando à altura dos demais praticantes, e, ao mesmo tempo, ter que participar para estar à altura — era fundamental para os iniciantes.

Como de fora, os iniciantes participavam momentaneamente do jogo e realizavam longos períodos de observação — momentos em que mesmo os que pareciam dispersos sabiam o resultado do jogo ou o tempo que faltava para a sua vez de jogar. Assistir aos jogos de futebol não significava, portanto, estar passivo ao que acontecia. Ao contrário, significava ocupar uma posição em que era possível perceber facetas não disponíveis aos

jogadores (como um tipo de prática de futebol). Como afirmou Pelé, assistindo ao jogo também se aprende a jogar: “Eu aprendo vendo, olhando

eu aprendo, senão meu professor ensina isso, mas eu olho assim, eu vejo os outros jogando aí eu olho e aprendo, fácil. [...] É por isso que eu gosto muito de jogar futebol, desde pequeno”. A observação era, portanto, uma

prática central à participação/aprendizagem do futebol (FARIA, 2008:105)

E na relação dos umbandistas com a aprendizagem dos rituais, observada por Bergo quando da entrada de um iniciante no terreiro:

Um jovem (com aproximadamente 15 anos) conhecido de um dos médiuns da “Casa” apareceu um dia no terreiro um pouco antes da sessão semanal começar. Ele então abordou o G.S. (que organizava o barracão) e se apresentou como um “ogã em desenvolvimento” e pediu para participar da “gira”. G. o orientou a procurar Pai J. que estranhou o pedido, mas acabou lhe dando permissão a fim de “ver no que ia dar”. O rapaz tratou de ir se instalando junto aos médiuns que se encontravam sentados no chão aguardando o início da “gira”.

Ao notar suas dificuldades em saber como se comportar naquele ambiente, K. resolveu ajudá-lo fazendo todo o gestual de maneira lenta e procurando chamar-lhe a atenção. O rapaz passou a segui-lo por todo o barracão, procurando imitá-lo e tentando, às vezes, antecipar suas ações. Os umbandistas mais antigos olhavam-no desconfiados, mas com discrição, buscando fazê-lo entender “por ele mesmo” que “a umbanda não é brincadeira”. Logo que percebiam que o rapaz não conseguia realizar algo (como entender o que os boiadeiros diziam, por exemplo), imediatamente alguns ogãs ou equedes rodeavam-no e assumiam a tarefa em seu lugar. Quando o jovem voltou ao terreiro nas semanas seguintes, questionaram-no insistentemente procurando saber de onde vinha e quais eram suas intenções ali. Como sua freqüência ao terreiro se resumia às “giras” (as quais muitas vezes chegou com atraso) e o apoio que o K. (que se encontrava em estágio bastante inicial do seu processo de desenvolvimento) lhe dava também não era um sinal muito forte, tanto Pai J. quanto os outros umbandistas não chegaram reconhecê-lo efetivamente como membro da “Casa”. (BERGO,2011:129).

Os três autores dizem da importância destas relações no processo de vir a ser, de tornar-se um pescador, um futebolista, um umbandista, revelando um mesmo movimento que observei entre os Arturos.

O encerramento da Festa

A festa de Nossa Senhora do Rosário tem, em seu último dia, na segunda-feira, a missa na Capelinha e o cortejo para a descida dos mastros. No final da noite uma sensação de dever cumprido e saudade toma conta de todos.

- Agora estou triste. Quero que chegue logo o ano que vem, pra fazer tudo de novo. (Gleice).

- Eu estou é feliz. Este ano a festa foi ainda mais bonita. Aposto que a Santa gostou mais. (Fábio).

- Eu estou é cansada. Dancei demais. (Anita).

Benzer Belgeler