A viabilidade financeira das melhorias que potenciem a eficiência energética dos edifícios irá ser determinante para a sua escolha e aplicação. Contudo, as análises custo-benefício das soluções a adoptar são difíceis de realizar, na medida em que existem diversos factores, importantes para a noção de sustentabilidade na construção, que não são facilmente quantificáveis. A avaliação de aspectos como o nível de emissões de GEE, a melhoria da qualidade de vida e o impacte da utilização dos edifícios na poupança de recursos naturais exige um estudo aprofundado, dependente de análises complexas, que não são o objecto de estudo desta dissertação. Por este motivo, torna-se difícil proceder a uma análise custo-benefício neste campo, sendo apenas possível a realização do cálculo de um período de retorno do investimento da aplicação das soluções consideradas.
Neste ponto é feita uma avaliação de viabilidade financeira, tendo de um lado a poupança da factura energética e do outro o custo da aplicação inicial de cada uma das medidas de melhoria estudadas anteriormente.
Para conhecer o valor da poupança na factura energética é necessário conhecer o preço da energia (em euros) pago à empresa distribuidora, que é de 0,159€/kWh (preço com IVA a 23%).
No Quadro 6.4 apresenta-se um estudo de viabilidade financeira, em que se calcula o período de retorno simples para as propostas de melhoria em que essa análise é aplicável. Para obter o valor global dos custos é contabilizado apenas o acréscimo de custo em relação à solução base. Os cálculos relativos aos custos de produção das diferentes soluções de melhoria da eficiência energética encontram-se detalhados no Anexo V.
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Quadro 6.4 – Viabilidade financeira da aplicação das diferentes propostas de melhoria estudadas
PROPOSTAS DE MELHORIA APLICADAS POUPANÇA DAS NECESSIDADES GLOBAIS (kWh.ano) POUPANÇA NA FACTURA ENERGÉTICA (Euros/ano) ACRÉSCIMO NO CUSTO DE PRODUÇÃO (Euros) PERÍODO DE RETORNO FINANCEIRO (Anos) Aplicação de isolamento térmico no interior de paredes duplas 3cm - 188,8 30,02 360,13 12,0 4cm - 231,9 36,87 406,53 11,0 6cm - 307,7 48,92 525,04 10,7 Aplicação de ETICS 3cm - 365,8 58,16 1078,76 18,5 4cm - 418,6 66,56 1136,97 17,1 6cm - 483,8 76,92 1279,68 16,6 Vãos envidraçados mais eficientes 56,8 9,03 387,87 43 Orientação solar da fachada principal Norte - 3,2 0,51 - - Sul - 797,1 126,74 - - Sombreamentos fixos 51,0 8,11 330,78 40,7 Ventilação natural (nocturna) 349,3 55,54 - - Equipamentos e iluminação eficientes 12,5 1,99 - -
Da análise do quadro anterior, é possível perceber que a aplicação de diferentes estratégias de melhoria derivadas da utilização de isolamento térmico permite uma poupança variável consoante o local de aplicação do isolamento na envolvente. Quando o isolamento é colocado pelo exterior obtém- se uma maior poupança na factura energética, quando comparado com o isolamento na caixa-de-ar das paredes duplas e para as mesmas espessuras. A nível do custo de produção, a colocação de ETICS acarreta valores mais elevados (aumentos que variam entre os 244% e os 300%). Esta diferença é justificável com o elevado custo dos revestimentos de um sistema ETICS, bem como da mão-de-obra
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da sua aplicação. Analisando os períodos de retorno financeiro das várias soluções, constata-se que, apesar de o valor de poupança energética associado aos ETICS ser maior, o acréscimo no custo de produção é substancialmente maior, o que faz com que esta solução tenha um período de retorno financeiro superior (em média 6 anos). A utilização dos ETICS será mais vantajosa quanto maior o tempo de vida de uma habitação. Por exemplo, para um período de vida de 30 anos, a solução de ETICS de 6cm apresenta lucros simples de 1030,73€, enquanto a colocação da mesma espessura de isolamento térmico na caixa-de-ar da parede dupla apresenta um valor de 944,16€.
Incidindo apenas a análise nas espessuras consideradas para cada solução, destaca-se que a diferença entre os períodos de retorno não é muito acentuada, derivado da proximidade de custo das placas de EPS de diferentes espessuras. Por este motivo, quanto maior o investimento em termos da espessura, menor será o período de retorno financeiro, salvaguardando a hipótese de existir um ponto em que o aumento de espessura não se traduza num aumento de eficiência justificável.
Avaliando a mais-valia da colocação de vãos envidraçados mais eficientes, constata-se que, apesar dos custos de produção não serem muito acrescidos (11,8% em relação ao custo inicial), o valor anual da poupança energética é de apenas 9,03€, o que faz com que o período de retorno financeiro simples seja de 43 anos, não sendo, por isso, uma solução muito vantajosa, neste caso de estudo.
O mesmo se verifica em relação à colocação de um sombreamento fixo nas janelas da fachada principal. Ainda que o custo total da sua aplicação seja de 330,78€, a poupança energética é de 8,11€ por ano, o que resulta num período de retorno financeiro simples de quase 41 anos.
Para algumas da soluções de melhoria estudadas nesta dissertação não é possível determinar um período de retorno financeiro. Relativamente à orientação solar do edifício, a sua aplicação não exige custos iniciais acrescidos e portanto não é possível estabelecer este tipo de análise, sendo contudo de salientar que a orientação da fachada principal a Sul é a proposta de melhoria que apresenta uma maior poupança na factura energética, em termos de climatização.
A aplicação da ventilação natural nocturna é outra melhoria que não permite o cálculo de períodos de retorno, na medida em que é apenas uma alteração dos padrões comportamentais que não exige acréscimos de custo.
A utilização de equipamentos e iluminação mais eficientes não produz uma poupança energética significativa ao nível da climatização (1,99€/ano), pelo que, se fosse aplicada esta análise, obter-se-ia um período de retorno financeiro simples demasiado elevado, uma vez que o custo de aplicação deriva da diferença de preço entre equipamentos e dispositivos de iluminação mais e menos eficientes. No entanto, esta solução apresenta vantagens em termos de poupança da factura energética global, apenas derivada da utilização dos equipamentos e dispositivos que, por serem mais eficientes, têm valores de consumo menores. Por este motivo, seria incorrecto proceder a uma análise tão simplista da viabilidade financeira da aplicação desta solução.
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