Depois de preparar a avaliação da pegada de carbono, cabe à empresa decidir se atuará estrategicamente de forma a reduzir sua pegada e a determinar quais linhas de negócio podem ser criadas ou reconfiguradas. Para se obter vantagens dessas novas oportunidades de negócio, é fundamental o engajamento da empresa, o qual requer novas lideranças, funções departamentais, metas e estratégias; aceitação e adesão dos funcionários; uso estratégico dos mercados de carbono; e parcerias com ONGs e outros atores (HOFFMAN; WOODY, 2008).
Schultz e Williamson (2005) afirmam ser necessário criar um plano que integre diversas etapas e estabeleça uma clara gestão acerca de áreas como investimentos, desinvestimentos, compras, estratégias de riscos futuros, estratégia de vendas, e relações
públicas. Uma vez identificadas essas opções estratégicas, Porter e Reinhardt (2007) complementam afirmando que no processo de combate às alterações climáticas as empresas poderão encontrar diversas oportunidades para melhorar ou ampliar seu posicionamento competitivo, seja através da criação de produtos (como carros híbridos) que atendem uma demanda induzida, da liderança na reestruturação das suas indústrias para lidar com as questões climáticas de forma mais eficaz, ou ainda da inovação em atividades afetadas pelas mudanças climáticas, produzindo uma autêntica vantagem competitiva.
Segundo Kolk e Pinkse (2004), a extensão de tais práticas varia entre as empresas, de acordo com a medida em que estas se sentem responsáveis e com a sua percepção em relação às oportunidades de negócios. Essa variação estratégica vai de um escopo interno restrito até a inclusão das emissões da cadeia de valor, podendo ir além com o engajamento em parcerias ou nos mercados de emissões. As medidas internas para redução das emissões consistem, principalmente, em mudanças nos processos de produção proporcionados por avanços tecnológicos. Outras medidas menos empregadas referem-se ao desenvolvimento de novos produtos, ao aprimoramento de produtos já existentes (em termos de eficiência energética), e a mudanças na cultura organizacional (conscientização dos funcionários acerca das mudanças climáticas).
Os autores alegam também que várias empresas já começaram a considerar as emissões presentes em sua cadeia de valor, seja a jusante e/ou a montante. Algumas integram as emissões de GEE na fase de elaboração de seus produtos, enquanto outras auxiliam seus consumidores a reduzirem emissões. Também há aquelas que esperam que seus fornecedores possuam padrões ambientais similares aos seus ou que eles cooperem mais ativamente. Recentes avanços nas políticas públicas vêm conduzindo as empresas a buscar soluções climáticas que vão além das empregadas internamente ou na cadeia de valor. Dentre elas, ressaltam-se três tipos de acordos de cooperação: o uso de mecanismos de mercado, um acordo voluntário de parceria com uma terceira parte que não integre o mercado (governos ou ONGs), e parcerias com outras empresas, por exemplo, através de uma aliança estratégica.
Conforme Kolk e Pinkse (2005), as reações das empresas às políticas climáticas podem ser entendidas ao se considerar as decisões de “fazer ou comprar”/”fazer ou
vender” por um lado, e o grau de interação com outras empresas que tais decisões
estratégicas podem ser estabelecidas em uma matriz (Quadro 3) de duas dimensões: o objetivo principal (intento estratégico) e a forma de organização (grau de interação).
Quanto ao objetivo, as empresas podem se focar apenas em inovação, em relação às suas próprias atividades de negócio, ou em compensação. Inovação envolve o desenvolvimento de novas tecnologias ou serviços ambientais com o intuito de reduzir emissões, seja por meio de aprimoramento de processos, desenvolvimento de produtos, e/ou combinações de produtos e mercados. A principal diferença entre inovação e compensação reside no fato de que aquela aprimora fundamentalmente os recursos tecnológicos e as competências da empresa. Já sob uma estratégia de compensação, os recursos tecnológicos e as competências de uma empresa permanecem praticamente inalterados, uma vez que estas se utilizam de tecnologias desenvolvidas por outros. A participação no comércio externo ou interno de emissões e de outras formas de offsets, como Mecanismos de Desenvolvimento Limpo e Implementações Conjuntas, configura- se como uma abordagem de compensação. Quanto à organização, diferenciam-se três níveis em que as empresas optam por interagir com outros para alcançar seus objetivos. Elas podem optar pelo nível individual da empresa (interno), pelo da sua cadeia de valor (vertical), ou pelo de colaboração com outras organizações fora da sua cadeia de suprimentos, sejam estas concorrentes ou de outros setores (horizontal) (KOLK; PINKSE, 2004, 2005).
Quadro 3 – Opções Estratégicas para as Mudanças Climáticas Objetivo
Organização Inovação Compensação Interna (empresa) Aprimoramento de processos Transferência interna de
redução de emissões Vertical (cadeia de valor) Desenvolvimento de produtos Medidas na cadeia de valor Horizontal (além da cadeia de
valor)
Novas combinações de produtos/mercados
Aquisição de créditos de emissão
Fonte: Kolk e Pinkse (2004, p. 311; 2005, p. 8).
Kolk e Pinkse (2004) dizem que as empresas cada vez mais aumentam seu grau de interação através da ampliação de seu escopo estratégico referente às mudanças climáticas. Já se elas objetivam inovação ou compensação é uma questão em aberto, a qual depende em parte do desenvolvimento (internacional) de medidas políticas com foco nas mudanças climáticas. A localização e a distribuição geográfica das empresas
também influenciam a extensão da viabilidade de tais meios, sendo importante considerar não somente o contexto do país sede durante a elaboração e implementação de uma estratégia climática, mas, se há unidades localizadas em outros países, o contexto regulatório e social destes também deve ser considerado. Tal perspectiva pode facilitar a transferência de melhores e emergentes práticas e ainda prevenir a propagação de piores práticas pelo mundo, beneficiando-se uma multinacional da expertise de outras empresas ou do conhecimento construído internamente em outras de suas unidades. Essa abordagem voltada para a aprendizagem organizacional é a mais indicada para as empresas que querem explicitamente e ativamente desenvolver sua própria identidade e estratégia climáticas.
As empresas não necessariamente devem adotar todas as medidas identificadas na tipologia apresentada, mas, segundo Kolk e Pinkse (2005), é provável que elas usem combinações dessas opções estratégicas. Para os autores, a escolha de quais opções irão integrar uma estratégia ambiental mais abrangente dependerá da percepção gerencial quanto às mudanças climáticas (oportunidade ou risco).